# Contos Para A Infancia Escolhidos Dos Melhores Auctores Por Gue

## Chapter 4

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O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam com os teares vasios.

--Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, não vejo absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, olhava, mas não via nada, pela rasão simplicissima de nada lá existir.

--Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido? É necessario que ninguém o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.»

--«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:

--«Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este desenho... estas cores... magnifico!... Direi ao sultão que fiquei completamente satisfeito.»

--«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma descripção minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois repetir tudo ao sultão.

Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam sempre.

Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funccionario, homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não via nada.

--Não acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente de não existir.

--Mas que diabo! eu não sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois não serei eu capaz de desempenhar o meu lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o deixo eu.»

Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo desenho e o bem combinado das cores.

--É d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sultão. E toda a cidade começou a fallar d'esse tecido extraordinario.

Emfim o proprio sultão quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de especie alguma.

--Não acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho e as cores são dignos de vossa alteza.»

E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam podessem ver alguma cousa.

--Que é isto! disse comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível! serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça que me acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnifico! Testemunho-vos a minha satisfação.»

E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto repetiam como o sultão: «É magnifico!» Até lhe aconselharam a que se apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnifico! é encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era geral.

Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos tecelões.

Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio, e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido.

O sultão com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores levantando um braço, como para sustentar alguma cousa, disseram:

«Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha; ó a principal virtude d'este tecido.»

--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.

--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios, provar-lhe-iamos o fato deante do espelho.»

O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do espelho.

--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos. Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!»

Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias.

--Está á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á procissão, disse elle.»

--Bom! estou prompto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»

E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a.

E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a gente na rua e ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber, que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo. Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.

--Mas parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do pae.

--É a voz da innocencia, disse o pae.

--Ha ali uma creança que diz que o sultão vae em cuecas.

«Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente.

O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era verdade. Entretanto tomou a energica resolução de ir até ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda imaginaria.

*Boa sentença*

Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:

--Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste adiantados os cem mil réis d'alviçaras: estamos pagos por conseguinte.»

O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:

--Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se julga com direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que encontraste, e guarda-o até que appareça o individuo que perdeu sómente setecentos mil réis. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que tenhas paciencia até que appareça alguem que tenha achado os teus oitocentos mil réis.

*Os animaes agradecidos*

Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este respondeu:

--«Senhor: eu sou um desgraçado, um miseravel; nasci no vosso reino, e chamo-me _Ingratidão_.»

--«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu serviço.»

O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se tão esperto e tão solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa. Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então não conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos desventurados.

Ora, na visinhança do palacio havia uma floresta cheia d'animaes selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.

Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O governador, ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança de salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse, ninguem o vinha soccorrer.

Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para ganhar o pão necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem lá foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção não tardou a ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava ali.

--«Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma enorme serpente.»

--«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não tendo para sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se cumpres a tua promessa?

O intendente continuou:

--«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que cumprirei a minha palavra.»

Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão atirou-se a ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era o intendente.

Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome.

Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o governador, enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre homem bater à porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.

--«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.»

O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:

--«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na floresta; que se ponha a andar, porque o não conheço.»

O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.

O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou á mulher a odiosa perfidia de que tinha sido victima.

A mulher disse-lhe:

--«Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e foi talvez por isso que te não pôde receber.»

Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.

Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á porta do palacio. Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que não tornasse ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado a empregar meios violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:

--«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais n'isso.»

No dia seguinte o bom do homem voltou á carga; e tendo o porteiro consentido á força de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este encolerisado atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do chão. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leão, vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico.

No dia seguinte, voltando de novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha tirado do fôjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em que brilhavam três côres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho, afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este, assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia. Antonio respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se seria boa.

O velho respondeu:

--«São três as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria imperturbavel e luz sem trevas. Se alguém t'a comprar por menos dinheiro do que vale, tornará immediatamente para a tua mão.»

Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da sciencia maravilhosa, e correu a contar á mulher a sua felicidade. Como se imagina, graças á virtude da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em diante, nem honras nem riquezas.

Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman.

Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:

--«Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me não for paga pelo que vale, tornará ella mesma para o meu poder.»

--«Hei de pagar-t'a bem, disse o rei.»

E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã, Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto disse-lhe:

--«Torna a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se que lh'a furtaste.»

O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou á presença de sua magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra preciosa.

--«Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro, fechado com sete chaves, disse o rei.»

Antonio mostrou-lhe então a joia preciosa, e o rei ficou extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido semelhante thesouro.

Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu intendente, e disse-lhe:

--«Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de _Ingratidão_, porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a Antonio as tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres enforcado.»

Admiraram todos a sentença do rei, e Antonio desempenhou as suas altas funcções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos gloriosos.

*O ermitão*

Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa de Deus. Depois de ter assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que já tinha merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os santos mais notaveis.

Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:

--Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.

O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:

--Irmão, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e penitencias te tornaste agradavel a Deus.

--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, pobre de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em casa a divertir os outros.»

O austero ermitão continuou a insistir:

--Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum acto de virtude.»

--Em verdade não poderia citar nem um só.»

--Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente o teu patrimonio e o producto do teu officio?»

--Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e filhos tinham sido condemnados á escravidão para pagar uma divida. Essa mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa, protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a sua familia, e levei-a á cidade, onde ella devia encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?»

A estas palavras o ermitão poz-se a chorar, e exclamou:

--Nos meus setenta annos de solidão nunca pratiquei uma obra tão meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu não passas d'um pobre musico.»

*Carlos Magno e o abade de S. Gall*

Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall, preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e activos, e o abade era indolente. Além d'isso o imperador tinha mais d'um motivo de queixa contra elle.

--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a bondade de me responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão solemne do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. rev.^{ma} vier á minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás deixa de ser abade de S. Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada para o rabo.»

O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores mais famosos pela sua sciencia, não lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal aproximava-se; já não faltava senão um mez, já não faltavam senão semanas, e afinal só dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e anafado, estava magro como um esqueleto. Perdèra o somno e o appetite. Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se encontrou com o seu pastor.

--Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?»

--Estou, meu caro Felix, estou muito doente.»

--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»

--Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta ás minhas tres perguntas.»

--É então latim?»

--Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.»

--Visto que não é latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que é: minha mãe era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.»

Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o barrete ao ar, e disse-lhe:

--Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma} póde continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu habito.»

Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o habito do abade de S. Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho imperial.

--Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto valho eu em dinheiro?»

--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por trinta dinheiros, sua magestade vale á justa vinte e nove, só um dinheiro menos.»

--Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não posso deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda pergunta, não ha de ser tão facil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?»

--Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro horas.»

--Decididamente, v. rev.^{ma} é um grande finorio, e d'esta vez, confesso-me vencido; mas a terceira, não d'essas á que se responde com supposições. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»

--Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está enganado, porque eu sou o seu pastor.»

--Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas sendo.»

--Não sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor, peco-lhe outra cousa.»

--Não tens mais que fallar.»

--Peço a vossa magestade que perdoe ao meu amigo.»

Carlos Magno não era homem que faltasse á sua palavra.

*A boneca*

Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma boneca!

Não ha muitos annos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o espirito a vista dos dois monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades, que podem aniquillar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda não ha muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da feira, divertindo-me a meu modo.

Cançado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo, quando novos personagens me chamaram a attenção.

Eram os meus visinhos _ricos_.

Aqui é preciso uma rapida explicação.

Das famílias da minha visinhança, só conheço tres.

Qual d'estas tres familias será mais feliz?...

Pelo que tenho notado, não tem que invejar umas ás outras.

São todas felizes; cada qual a seu modo.

Vi, pois, chegar os meus visinhos _ricos_.

Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou, tomou nos braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e com a menina para a barraca onde eu estava.

Não havia ali segredo a surprehender.

Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que parecia agradecer áquella formosa criança a manifestação de qualquer desejo.

No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a felicidade de dez crianças menos abastadas.

Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca... _rica_.

Faltava apenas a dona da casa--a boneca.

Todo risos e attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor.

Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar a mamã, a gentil creança acabou por escolher uma magnifica boneca de dois palmos d'altura, com cabello em _bandeaux_ e olhos azues.

Uma boneca como as outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica recheada, braços e pernas de páu.

Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribu de crianças, que fazem o martyrio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado sapateiro.

Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem anjos, caidos do céo sobre um monte de lama.

São os meus visinhos _pobres_.

A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa immediata.

É como se costuma dizer, gente _que vae muito bem com a sua vida_.
