Contos para a infância Escolhidos dos melhores auctores por Guerra Junqueiro

Part 3

Chapter 3 3,885 words Public domain Markdown

_A filha_.--Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que as fazem.

_A mãe_.--É impossivel, não és capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma fabrica onde se fazem agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar muito.

_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que nos servimos.

_A mãe_.--Tens razão; é uma vergonha ignoral-o.

_A filha_.--Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.

_A mãe_.--Olha, ahi tens o meu estojo.

_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para fazer uma coisinha tão delicada!

_A mãe_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?

_A filha_.--Lembro, mamã; era tão bonito!

_A mãe_.--Li n'um jornal allemão que um operario chamado Nerlinger fez um copo de um grão de pimenta, e que dentro d'este copo havia mais doze...

_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um grão de pimenta!

_A mãe_.--E ainda não é tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas doiradas, e sustentava-se no pé.

_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso!

_A mãe_.--Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É effectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admiração.

_A filha_.--Quaes, mamã?

_A mãe_.--Já t'o digo. (_Levanta-se_.)

_A filha_.--Que quer, mamã?

_A mãe_.--Quero que vejas o microscopio de teu papá.

_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscopio.

_A mãe_.--Este é magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina, lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?

_A filha_.--Meu Deus, que coisa tão feia! que agulha tão grosseira!

_A mãe_.--Vês-lhe buracos, riscos, asperesas, não é verdade?

_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito.

_A mãe_.--Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por ellas.

_A filha_.--O operario que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a visse ao microscopio.

_A mãe_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.

_A filha_.--O quê, mamã?

_A mãe_.--O aguilhãosinho de uma abelha.

_A filha_.--Oh! que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é brilhante!... Mas já sei que visto ao microscopio ha de acontecer o mesmo que com a agulha.

_A mãe_.--Prompto: olha.

_A filha_ (olhando).--É exquisito, mamã!

_A mãe_.--Então?

_A filha_.--Augmentou, augmentou como a agulha, mas não é áspero, pelo contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não tinha ponta, e o ferrãosinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabello. Porque será isto, mamã?

_A mãe_.--É porque o operario que fez este aguilhão é muito mais habil do que o que fez a agulha.

_A filha_.--Quem é esse operario tão habil?

_A mãe_.--É o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as plantas e as creaturas.

_A filha_.--É Deus.

_A mãe_.--Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os animaes?

_A filha_.--De certo.

_A mãe_.--Foi elle por conseguinte que fez o aguilhão d'esta abelha; e ahi tens porque o aguilhão é superior á agulha: é obra de Deus. Mas continuemos a olhar pelo microscopio. Aqui está um pedacinho de musselina finissima. Olha pelo microscopio; o que é que vês?

_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.

_A mãe_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadissima.

_A filha_.--Essa estou bem certa que ha de ser linda, mesmo vista pelo microscopio.

_A mãe_.--Então?

_A filha_.--É horrorosa... Parece feita de pellos grosseiros com grandes buracos deseguaes.

_A mãe_.--As obras do homem são todas assim.

_A filha_.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.

_A mãe_.--Sabes o que é isto?

_A filha_.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.

_A mãe_.--Os fiosinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha pelo microscopio a ver se te parecem deseguaes.

_A filha_ (olhando pelo microscópio).--Não, mamã; os fios são todos eguaes, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.

_A mãe_.--É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha sobre este papel?

_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchasinhas redondas feitas também com tinta.

_A mãe_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente redondos?

_A filha_.--Sim, mamã, perfeitamente redondos.

_A mãe_.--Vê-os agora ao microscopio.

_A filha_.--Oh! já não são redondos, são todos deseguaes.

_A mãe_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma aza de borboleta; vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo microscopio; o que é que vês?

_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a differença que agora é maior. Que bellas que são as obras de Deus!

_A mãe_.--Merece bem a pena estudal-as.

_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras dos homens.

_A mãe_.--E sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do homem, emquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem fazer nada perfeitamente bello, perfeitamente regular, e as suas obras mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as obras do Creador.

*João e os seus camaradas*

Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso, possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu o resto da farinha, matou o gallo, e disse-lhe:

«O que é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção, ou toda com a minha maldição?»

«Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no mundo eu quereria a tua maldição.»

«Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te abençôe.»

E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair.

«Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a afogar-me.»

«Espera, respondeu João.»

E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o quadrúpede do atoleiro.

«Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te posso ser util, aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?»

--«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha vida.»

«Queres tu que eu te acompanhe?

«Anda d'ahi.»

E puzeram-se a caminho.

Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.

«Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa te for prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?»

«Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.»

«Queres que te acompanhe?»

«Anda d'ahi.»

Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar lastimosamente.

Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango.

--«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser util. Aonde vaes tu?

--«Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco.»

--De boa vontade.

Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um gallo na bocca.

«Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.

E no mesmo instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente disse a João:

--«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu?»

--Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?

--«De boa vontade.»

--Então anda. Se te cançares, empoleira-te no jumento.»

Os viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro. Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma quinta, nem uma cabana.

--«Paciencia, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos hoje a dormir ao ar livre; além d'isso a noite está socegada, e a relva é macia.»

Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o cão e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo empoleirou-se n'uma arvore.

Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou a cantar.

--«Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque é que estás a gritar?»

--«Porque já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a luz da madrugada, que vem rompendo?»

--«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é d'uma lanterna. Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto da noite.»

Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez dos campos, até que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo, d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e blasphemias horriveis.

--Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem é que está lá dentro.»

Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam alegremente, sentados a uma mesa principesca.

--«Que bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este porteiro. Á sua saude!»

--«Á saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.

E d'um trago despejaram os copos.

João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:

--«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.»

O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao peitoril d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o gato á cabeça do cão e o gallo á cabeça do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do gallo.

--«Agora, bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!»

No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando cada vez mais; os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo precipitadamente por uma porta falsa.

João e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um excellente jantar, e deitaram-se em seguida--João n'uma cama, o burro na cavallariça, o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e o gallo n'um poleiro.

Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.

--«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão humida, disse um d'elles.»

--«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.»

--«E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro.»

--«E o que é mais lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das gavetas.»

--Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão.

--Bravo! exclamaram os ladrões.

E poz-se a caminho.

Já não havia luz na casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se para o fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as garras. Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas.

--Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!»

Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do chão.

Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.

--Então? então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.

--Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que o trago n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta, um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a sovella. Logo depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras. Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não acreditam, vão lá, e experimentem.»

--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.»

Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excellentemente, e partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos, com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram á porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com uma libré esplendida, meias de seda, calções escarlates e cabello empoado.

Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.

--Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se embora?»

--Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castello far-nos-ha um bom acolhimento.

--Fóra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a andar immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os meus cães de fila.»

--Perdão, só um instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite passada a porta do castello?»

O porteiro córou. O conde que estava á janella, disse-lhe:

--Ó Bernabé, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.

--Senhor, replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui eu que abri a porta aos seis ladrões.

--Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?

Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado, pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite, porque vimos cançados do caminho.

--Ficae certos que sereis bem tratados.

O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés á cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e disse-lhe:

--Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»

João acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si. Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.

*O rabequista*

Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.

As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro, feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge não havia pão nem dinheiro no bolso para o comprar.

Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca com tal suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vel-o tão pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa Cecilia abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o ao pobre musico, que tonto d'alegria, dançando, cantando, chorando, correu á loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado á morte.

Chegára o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim não chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como ultima graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento. O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam supplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua derradeira melodia.

Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou, ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lagrimas começou a tocar. Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de novo, descalçar o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente prestar-lhe as mais honrosas homenagens.

*Os pecegos*

Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos, extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. Á noite o pae perguntou-lhes:

--Então comeram os pecegos?

--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei de plantal-o para nascer uma arvore.»

--Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar no futuro.»

--Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mamã ainda me deu metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.»

--Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade não admira; espero que quando fores maior te has de corrigir.»

--Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou fóra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á cidade.»

O pae meneou a cabeça:

--Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo.

--E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?

--Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho, ao Jorge, que está coitadinho com febre. Elle não o queria, mas deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora.

--Ora bem, perguntou o pae, qual de vós é que empregou melhor o pecego que eu lhe dei?

E os três pequenos disseram á uma:

--Foi o mano Eduardo.

Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos arrazados de lagrimas.

*A urna das lagrimas*

Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só momento; mas um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu e morreu. A desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades. Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido, abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua querida filha, sorrindo com uma expressão angelica e trazendo nas mãos uma urna, que vinha cheia até ás bordas.

--«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais, transbordará, e as tuas lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso.

A pequenina desappareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não affligir.

*Reconhecimento e ingratidão*

Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos paes. E é natural. As creanças veem diariamente o que fazem seus paes, e imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,--que a benção ou a maldição d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos, terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem ser meditados.

Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O principe, que para as suas despezas d'administração e representação necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:

«Gasto diariamente comigo a terça parte d'essa quantia; outro terço é para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas economias.»

Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o d'este modo.

«Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não podem trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força para isso. Aos primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando os annos tiverem pesado sobre mim.»

O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se da educação de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.

Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito. O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas notou que a creança ao partir tinha escondido um dos lençoes a um canto, atraz da porta.

Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo.

«Foi, respondeu a creança desabridamente, para me servir mais tarde d'este lençol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital.

*O fato novo do sultão*

Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento.

Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao theatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Está no conselho; dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças á quantidade d'estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá um dia dois larapios, que, dando-se por tecelões, disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não só eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos aquelles que não exercessem bem o seu emprego.

--São vestuarios impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles, saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade dos ministros. Preciso d'esse estofo!»

E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada, para que podessem começar os trabalhos immediatamente.

Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras. Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando até á meia noite com os teares vasios.

--«Preciso saber se a obra vae adiantada».

Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos idiotas. E, apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente em todo o caso mandar alguem adiante.

Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.

--Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um grande talento, e por isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o estofo.