# Contos Para A Infancia Escolhidos Dos Melhores Auctores Por Gue

## Chapter 2

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/contos-para-a-infancia-escolhidos-dos-melhores-auctores-por-gue-c4be7fe5/index.md

Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes e trazido para terra o seu mortal inimigo.

Este, que estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o cão que elle tinha querido afogar, lhe salvára a vida.

Teve vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si mesmo e combateu as suas más inclinações.

O exemplo do cão corrigiu o homem.

*O rico e o pobre*

Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar, quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo, e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de vinho.

Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino tão rico, em vez do desgraçado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu dentro d'aquella carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lançando a cabeça fóra da carruagem, chamou Martinho com a mão.

--Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho córando, o que eu disse não foi por mal.»--Não estou zangado comtigo, replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca.»

--Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando muitas leguas por dia, como pão secco e batatas, emquanto que o senhor anda n'uma carruagem, póde comer frangos e beber vinho.»--Pois bem, volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o preceptor continuou: «Acceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho, ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada de me ver entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a idéa da entrada triumphante na sua aldeia.

O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou que era muito pallido e que tinha cara de doente.

Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:--Então sempre desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas valentes e as tuas faces córadas, pelo prazer de ter uma carruagem e andar bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro os meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças a Deus pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.

«Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal, tens força e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que não podem comprar-se com dinheiro.

*Como um camponez aprendeu o Padre Nosso*

Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso.

«Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.»

«Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da minha parte.»

No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.

«Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.

«Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, respondeu o pobre.»

«E o teu appellido?»

«Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.»

E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.

Ao outro dia chega segundo pobre.

«Como te chamas?

«Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.»

«E o teu appellido?»

«Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.»

E partiu com o seu alqueire de trigo.

Veiu terceiro pobre.

«Como te chamas?»

«Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.»

«E o teu appellido?»

«Dae-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.»

E levou o seu alqueire.

Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma forma até chegar ao _Amen_.

Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.

«Então já sabes o Padre Nosso?»

«Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei o meu trigo.»

«Quaes são? tornou o padre.»

E o aldeão enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha apresentado.

«Já vês, disse o confessor, que não era muito difficil aprender o Padre Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»

*O talisman*

Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da sua casa.

«Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual é a razão porque a sorte nos trata de um modo tão differente? Vendemos as mesmas mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apezar d'isso, emquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não terás tu por acaso algum precioso talisman.»

«Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma virtude incomparavel. Trago-o ao pescoço, e ando assim com elle todo o dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o celleiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.»

«Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de que t'a restituo.»

«Pois vem buscal-a ámanhã de manhã.»

Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, apresentou-lhe este uma avellã, através da qual tinha tinha passado um fio de seda.

O nosso homem pòl-a immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a casa com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na cozinha o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio, comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por terceira pessoa na direcção dos seus negocios.

Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman, agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.

*A alma*

«Mamã, nem todas as creanças que morrem vão para o Paraizo. O outro dia vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu papá e as suas duas irmãsinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, não é verdade?»

«Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus paes e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraizo.»

«A alma? mamã; não sei o que é; não comprehendo bem.»

«Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas pequerruchas.»

«Tive sim, mamã, tive muita pena.»

«Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os braços?»

«Não, mamã.»

«Eram as orelhas?»

«Oh! não mamã, era _cá dentro_.»

«Esse _lá dentro_, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece, que te reprehende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando praticas o bem.

*Alberto*

Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e seus irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma talhada de batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra pagava com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu jardimzinho. «Ha de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dará libras como uma cerejeira dá cerejas, e irei entregal-as ao papá, que ficará muito contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, mas não rebentava nada. Entretanto o pae procurava a libra por toda a parte. Por fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.

«Vi papá; achei-a e fui semeal-a.»

«Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma couve?»

«Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.»

«É verdade, mas não nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»

Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe não pertencia.

Ha comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe produzir os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como é? é dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa sementeira.

*A canção da cerejeira*

Disse Deus na primavera: «Ponham a mesa ás lagartas!» E a cereijeira cobriu-se immediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e verdejantes.

A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se, abriu a bocca, esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as folhinhas tenras, dizendo: «Não se póde a gente despegar d'ellas. Quem é que me arranjou este banquete?»

Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa ás abelhas!» E a cereijeira cobriu-se immediatamente de flores, milhões de flores delicadas e brancas.

E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre ellas, dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão bonitas em que o deitaram!»

Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não pouparam o assucar!»

No verão disse Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cereijeira cobriu-se de mil fructos appetitosos e vermelhos.

«Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasião; temos appetite, e isto dar-nos-ha novas forças para podermos cantar uma nova canção.» No outono disse Deus: «Levantae a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a arvore.

As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as esvoaçar.

Chegou o inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E os turbilhões dos ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descança.

*Os gigantes da montanha e os anões da planicie*

Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer á planície a ver o que faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões. Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido á caça e sua mãe estava dormindo, a joven giganta desatou a correr para um campo, onde os jornaleiros trabalhavam. Parou surprehendida a ver a charrua e os lavradores, coisas inteiramente novas para ella. «Oh! que lindos brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que quasi que cubriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavallos, a charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castello, onde seu pae estava a jantar.

--Que trazes ahi, minlia filha?» perguntou elle.

--Olhe, disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os mais bonitos que tenho visto.»

E pol-os em cima da mesa, a um e um,--os cavallos, a charrua e os trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem tivessem transportado d'um formigueiro para um salão. A gigantinha poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante fez-se serio e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe elle. Isso não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-n'o immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da montanha, morreriam de fome, se os anões da planicie deixassem de lavrar a terra e de semear o trigo.

*A creança, a anjo e flôr*

Quando morre uma creança, desce um anjo do ceo, toma-a nos braços, e desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os sitios que ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se de quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor escolhida, adquirindo voz immediatamente, começa a cantar os coros maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma creança morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro sobre a casa em que a creança brincára, e depois sobre jardins deliciosos, cobertos de flores.

«Qual é a flor que desejas para plantar no paraiso?» perguntou o anjo.

Havia n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, magnifica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de botõesinhos lindissimos pendiam estiolados para o chão.

«Pobre roseira! disse a creança ao anjo; vamos buscal-a para que possa reflorir no paraiso.»

O anjo foi buscal-a, e abraçou a creança. Colheram muitas flores brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.

A colheita estava terminada, e comtudo não voavam ainda para Deus. Caiu a noite silenciosa, e a creança e o seu guia Divino andavam ainda por cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de immundicie. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raizes d'uma flor dos campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-n'a atirado para a rua como inutil e morta.

«Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, voando, te contarei a historia da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquella rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma creança miseravel e doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passeiar com a ajuda das moletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias de verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. Então a creança sentada á janella, aquecida pelo sol, sem o cansaço do andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabeça o ramo verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, sonhava com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho trouxe-lhe flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que tinha ainda raizes; o pequerrucho plantou-a n'um vaso, e pol-o á janella, junto da cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe aproveitar os raios do sol até ao ultimo. A flor apparecia-lhe em sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e ostentava as suas côres; quando se sentiu morrer foi para ella que se voltou.

«Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita no paraiso; a sua querida flor, esquecida á janella desde então, murchou, estiolou-se e atiraram-n'a à rua finalmente. E comtudo esta flor quasi secca é o thesouro do nosso ramilhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os canteiros d'um jardim realengo.»

«Como sabes tu isso?» perguntou a creança, que o anjo levava para o céo.

--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava em moletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»

A creança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam no céo onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores, levou-as ao coração, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre, despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe, formando circulos que vão augmentando successivamente, multiplicando-se até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos harmoniosamente--desde a creança abençoada até á humilde florinha do campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e tortuosa.

*Presente por presente*

Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de noite á choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que pôde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe ia dar, porque eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia offerecer; cama não a tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões, e dormiu melhor em cima da palha do que n'um leito de principes. Ao outro dia pela manhã disse isto mesmo á pobre mulher, gratificando-a ao despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponeza julgou que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro examinou os cunhos e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:

«Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso principe!

E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter achado as suas batatas melhores do que faisões.

«É necessário confessar, disse elle com um ar triumphante, que não ha talvez no mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das batatas; hei de lhe levar um cesto d'ellas, já que as acha tão boas.

E partiu immediatamente para o palacio com uma provisão de batatas escolhidas.

Os lacaios e as sentinellas ao principio não o queriam deixar entrar; mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo contrario vinha trazer alguma cousa.

Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.

«Meu senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignae-vos acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá as encontrareis sempre ao vosso dispor.»

A honrada simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava n'um momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta geiras de terra.

Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que, sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse comsigo: «Porque não me ha de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer presente d'elle: se deu ao João uma quinta com trinta geiras de terra, simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de recompensar ainda mais generosamente.»

Tirou o cavallo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do palacio; recommendou ao creado que o segurasse, e, atravessando com ar altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiencia.

«Ouvi dizer, disse elle, que vossa alteza gosta do meu cavallo; não tenho querido trocal-o a dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o offereça.»

O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse comsigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:

Depois dirigindo-se a elle:

«Acceito a tua dadiva, mas não sei como agradecer-t'a condignamente. Oh! espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que faisões. Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que é um bom preço para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»

E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.

*O pinheiro ambicioso*

Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh! dizia elle, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»

O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que, mais sensatos do que elle, não invejavam a sua rapida fortuna. Á noite passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés á cabeça.

«Oh! disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro; o oiro attrae as ambições.

Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu avarento não me teria despido.»

No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso, fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as folhas de cristal.

«Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria menos brilhante, mas viveria descansado.»

Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado ás vaidades primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as todas sem deixar uma unica.

O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar á sua fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da sua sorte.

*Perfeição das obras de Deus*

_A filha_.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.

_A mãe_.--Vou-te dar outra.

_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mamã?

_A mãe_.--Vê se adivinhas.

_A filha_.--Nã sei, mamã.

_A mãe_.--Conheces os metaes?

_A filha_.--Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de uma caixa.

_A mãe_.--Ora muito bem, dize-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de marmore?

_A filha_.--Oh! não; são de metal; mas de que metal?

_A mãe_.--Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas primeiro.

_A filha_.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não é de prata, porque não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarello muito brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarello muito feio, que cheira mal... Então é de ferro, mamã?

_A mãe_.--Adivinhaste.

_A filha_.--Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.

_A mãe_.--É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já se não chama ferro, é aço.
