Contos e Phantasias

Part 8

Chapter 83,735 wordsPublic domain

Só voltava a casa de noite.

Divulgára-se rapidamente a noticia d'aquella excepcional desventura, e muita gente, que vira com desprazer a prodigalidade da caprichosa condessa, compadecia se agora, sem pensamento reservado, d'aquella digna e santa expiação.

Margarida tinha muitas discipulas.

Fazia pena vel-a, muito delgada, quasi diaphana, com os olhos pisados, as faces córadas pelo cansaço e pela febre, e um sorriso triste resignado, humilde, n'aquelles labios que tinham sabido tregeitar com tão altivo desdem.

Era sempre a mesma alma sem energia.

Não esperava cousa nenhuma da terra senão a morte, levando a consciencia de ter expiado os erros do seu orgulho.

Cumpria uma penitencia, não encetava uma lucta heroica de que esperasse sahir vencedora.

N'uma tarde do mez de janeiro, chuvosa, humida e fria, Margarida subia a muito custo a calçada de S. Bento, em Lisboa, onde morava uma das suas discipulas.

A rua, viscosa e lamacenta, inspirava-lhe aquella repugnancia patricia, que a infeliz ainda não soubera vencer.

A atmosphera plumbea e carregada dava-lhe ao coração uma dose de invencivel tristeza.

Sentia-se predisposta para as recordações cruciantes para as inuteis fluctuações de um sonho que se extinguira.

Comprehendia com angustia que lhe faltava coragem para levar a cabo o doloroso dever que a si propria impuzera.

Oh! ella bem sabia que a sua alma não era da tempera das que luctam e se sacrificam!...

N'isto uma carroagem elegante descia a calçada ao passo de dous formosos cavallos inglezes.

Margarida, vendo a alguns passos o correio agaloado, percebeu que era um ministro e, sem querer, movida por um impulso subito, levantou os olhos e fitou os no homem que ia dentro do trem.

O que ella sentiu não se explica.

O ministro era Eduardo de C.

Os olhos dos dous encontraram-se.

Margarida quiz saborear a voluptuosa tortura de vêr n'esses olhos o brilho de um satanico orgulho, de um triumpho sinistro e mau.

Não viu!

Eduardo teve tempo de inundal-a em um d'estes olhares doces, unctuosos, cheios de misericordia, de doçura, de perdão; em um d'estes olhares que só podem comparar-se ao olhar do Christo redimindo a Magdalena!

Só de longe a tinha visto de vez em quando nas salas do alto mundo: nunca lhe fallara então; não quiz humilhal-a fallando-lhe agora!

Ella sentiu que se lhe despedaçara no peito alguma cousa indispensavel á vida.

Apertou em torno do corpo friorento e emmagrecido as pregas do seu pobre chale preto, abaixou a cabeça instinctivamente, como se fizesse pender para a terra um pezo estranho, e continuou a subir devagarinho, arrimando-se á parede, aquella eterna calçada, cheia de agua e de lama.

Cahia uma chuva fria e miuda que lhe encharcava o fato.

* * * * *

Um mez depois, da casa pequenina de Margarida sahia um enterro aceiado e modesto.

Era o enterro d'ella.

Miss Brown explicava que a pobre senhora voltara uma noite muito constipada das lições, que teimara em sahir ainda no dia seguinte, mas que tivera de recolher-se á cama, onde penou pouco menos de um mez.

O enterro de Margarida levava por acompanhamento unico uma carruagem sem brazão.

N'essa carruagem ia Eduardo de C.

Margarida, antes de morrer, escrevera-lhe uma carta cujas supplicas dolorosas iam apagadas pelas lagrimas.

Os dous orphãos de Margarida estão agora a educar-se em um dos melhores collegios de Lisboa, e todas as despezas da sua educação são pagas por um protector invisivel e mysterioso.

Ha quem dê a essa Providencia ignota o nome sympathico e hoje glorioso e querido de Eduardo de C.

A TIA IZABEL

Conhecia-a em casa de uma familia amiga da minha.

Affirmavam os que a tinham conhecido em menina, que fôra bonita; a mim parecia-me simplesmente sympathica.

Era alta, magra, loura e muito branca, uma physionomia serena e melancolica, sem muito relevo, mas com muita doçura.

Andava sempre vestida de escuro, com uma simplicidade em que transpareciam, porventura, vislumbres de antigas elegancias.

Ao olhar para ella conhecia-se que havia de ter gostado de certas puerilidades mundanas, de se vestir e pentear bem, por exemplo, de ser citada pelo esmero do seu gosto, e pela distincção finissima de suas maneiras.

Hoje todas as vaidades se tinham apagado; fizera quarenta annos, e acolhêra-os com resignação, com dignidade, com uma certa graça melancolica que lhe ficava muito bem.

Nenhum dos rapazes que frequentavam aquella casa se atrevia a chamar-lhe _solteirona_.

A _solteirona_ é a mulher solteira que não sabe acceitar resignada as amarguras da sua isolação, e as converte em ridiculos quando as não converte em pessimas qualidades.

A _solteirona_ é pretenciosa, presumida, avida de attrahir a attenção, revolve os olhos sentimentalmente, lê romances, come gulodices, tem um _king charles_ e inveja tudo o que é moço, radiante, feliz, tudo que tem esperanças e para quem o futuro desabrocha em promessas.

A _solteirona_ é egoista, incommodam-na como uma injuria que lhe é particularmente dirigida todas as alegrias que não tem, persegue-a atrozmente a aspiração irrequieta a um pobre marido que podesse atormentar á vontade; sente-se na vida como n'uma casa que não é sua; d'aqui o seu mau humor continuado que torna d'ella quasi sempre o flagello da familia onde se sente pária!

A tia Izabel, porém, não era nada d'isto, pelo contrario.

Tinha para os sobrinhos um coração que, sem ser de mãe, encerrava muito de maternal, sobretudo no que as mães têem de indulgente!

Nunca a vi colerica, nunca a vi tambem excessivamente animada.

Não se ria, mas tinha habitualmente um sorriso placido, quasi distrahido, o sorriso de quem se sente um pouco estranha a todas as alegrias que a rodeiam, mas que nem por isso deseja projectar as suas sombras na luz que os outros espalham em torno d'ella.

Era muito estimada pelo irmão, pela cunhada e pelos sobrinhos, uns traquinas que andavam sempre a recorrer á sua inexgotavel paciencia, e que nunca foram expulsos com um gesto de irritação ou de desamor.

Sabia a difficil sciencia de se tornar util a todos, quasi indispensavel; estreitando d'este modo os laços que a prendiam aos seus, tornando-os por assim dizer inquebrantaveis:

Sentia-se assim menos só!

Nos jantares de familia os melhores pratos eram sempre executados debaixo da sua direcção; era ella quem fazia o _menu_, quem distribuia os lugares, quem presidia a todos os arranjos de casa.

Encarregava-se das tarefas mais enfadonhas, d'aquella parte aborrecida que tem uma festa e que as donas da casa acceitam com tédio, mas que lhes é mais tarde compensada no applauso, na satisfação, ás vezes mesmo na inveja disfarçada em risos dos seus convivas.

N'essas occasiões solemnes em que ninguem dava por ella, creio que se permittia um instante de innocente amor proprio, vendo a meza bonita, bem disposta, com a elegante e symetrica poesia das grandes jarras do Japão cheias de flores, dos crystaes facetados onde o vinho tomava as olympicas apparencias do nectar, da bella louça da China de lavores extravagantes e phantasiosos, da roupa fresca, pesada, macia, de linho da Russia adamascado, tendo bordadas iniciaes... que não eram as d'ella.

Depois voltava para o seu logar secundario, obscuro, e voltava de boamente com simplicidade despreoccupada.

Estava sempre bem com todos, sem se curvar obsequiosamente diante de alguem.

Tinha mesmo um modo seu de dizer as verdades com firmeza e com brandura, sem transigencias cobardes, sem severidade excessiva.

Quando havia em casa um doente, sentava-se-lhe tranquillamente á cabeceira, fazia-lhe sentir com discreta suavidade a sua influencia boa, perdia as noites com um aspecto de intrepidez e de meiguices; era inapreciavel emfim.

Tinha uma infinidade de pequenas idéas que punha em pratica e de cada uma das quaes resultava um allivio para o doente: arranjava as almofadas, aconchegava as roupas do leito, dir-se-hia que a sua mão esguia, branca, um pouco secca, tinha o segredo de verter balsamo em todas as feridas de um corpo enfermo.

Na convalescença lia alto.

Escolhia muito bem os livros, tinha a maravilhosa intuição de todas as necessidades de um espirito adormecido, n'aquella dubia luz crepuscular da doença physica.

A sua voz vellada, sem grande sonoridade, tinha umas notas macias que entravam até ao fundo do coração e que o amolleciam docemente.

Ainda nos desgostos de familia, na hora das crises e das catastrophes era para ella que instinctivamente todos os braços se estendiam.

É que ella, com o seu passo miudinho, o seu ar sereno, os seus habitos methodicos, nem diante das maximas catastrophes perdia a placidez necessaria.

Uma das suas particularidades mais accentuadas era a repugnancia pelo barulho, pelo espalhafato, por todas as exterioridades apparatosas.

Andava, fallava, trabalhava, movia-se sempre devagarinho.

Lembro-me perfeitamente do quarto d'ella, como d'uma especie de pequeno sanctuario onde poucas vezes penetravam as travêssas creanças de quem ella era como que segunda mãe.

Quando eu acertava de lá entrar com ellas, emquanto a pequenada corria de um lado para outro, vendo, tocando tudo, perguntando informações de todas as cousas, eu observava callada com o meu olhar de mais velha, mais penetrante e mais curioso.

Tudo alli era limpo, aceiado mas tudo antigo, datando sem duvida da sua adolescencia, do tempo em que ella fôra feliz, porventura requestada e formosa.

A alcova branca, discreta, com o seu oratorio de pau santo, cheio de bellas imagens, a Virgem risonha e loura com o menino nos braços, o Christo macerado e sangrento com a expressão de sobre-humana agonia no amortecido olhar.

No gabinete contiguo as cortinas, os reposteiros de chita, as poltronas, as pequeninas mezas cobertas com os seus panos de _crochet_, as estantes de livros, tudo emfim era bem conservado, sem ser novo; via-se que tinha sido o objecto de attentos cuidados, que todas aquellas cousas mudas haviam sido as companheiras unicas de uma existencia concentrada e solitaria.

Nas paredes, sobre as pequenas _étagères_, muitos retratos, todo um cortejo moço e triumphante que passava ao longe.

Exhalava se d'aquelles objectos tão esmeradamente cuidados, um vago, um indistincto perfume de saudade, como d'um herbario de flôres seccas, colhidas entre risos de crystal, nos dias radiantes da primavera...

Os pequenos então, com a sua inconsciente crueldade infantil, faziam mil perguntas, impacientes, curiosas...

--Quem era esta menina, tia Izabel? tem um vestido de seda decotado e na mão um malmequer que está desfolhando. Como ella scisma tão embebecida! Em que scismaria ella, minha tia?

--No futuro!... respondia ella sorrindo com o seu bello sorriso intraduzivel em que havia talvez muitas saudades.

--Que é feito d'ella? Era sua amiga, não era? Porque é que a não vem cá vêr nunca?

--Ao principio veio, depois casou-se; o marido levou-a a viajar, foram muito longe, divertiram-se, provavelmente ella esqueceu-se. Quando voltou trazia um filho, um _baby_ louro e côr de rosa como o teu irmãosinho Arthur. Só o vi uma vez. As creanças absorvem muito as mães, por causa d'ellas esquecem-se de tudo, até das amigas da infancia. Hoje só sei que é muito feliz, e quando tenho saudades olho para o retrato d'ella!... Fômos tão amigas!

E callava-se baixando os olhos, receiosa de que a vissem contemplar com demasiado enlevo os dias que já não podiam voltar.

Todos aquelles retratos tinham uma historia.

Aquelle cortejo de juvenis visões louras, morenas, travêssas ou melancolicas faziam parte do passado, por isso lhes queria tanto.

Umas tinham casado, eram felizes, viviam absorvidas pelo divino egoismo da familia, todas entregues ao bem estar dos seus, aos interesses, ás alegrias, ás dôres do seu pequeno circulo de affectos.

Outras tinham morrido; eram as que alli nos appareciam mais pallidas, com um vago reflexo de luz febril nos olhos pasmados e pensativos.

Tinham morrido na plena florescencia do seu imaginar juvenil, levando para a cova, como levariam uma flôr ainda constellada pelos orvalhos matinaes, a dôce chymera que nenhum sôpro brutal lhes havia desfeito.

Fecharam os olhos cercados por todas as apparições fulgidas, que envolvem a mocidade como n'um circulo de estrellas, e foram despertar--quem sabe! n'outras regiões de que ninguem ainda voltou, do sonho feliz que haviam começado na terra.

Não eram essas as menos bemfadadas.

Ella, porém, ficára só.

Porquê?

Condemnação de que não conhecia o implacavel segredo!

Tambem fôra môça, tambem tivera crenças, esperanças, pequenos sobresaltos de amor proprio, ephemeras vaidades de quem se julgara querida!

Estremecera muita vez, ao sentir abrir uma porta, echoar um passo ligeiro e firme nos vastos corredores, vibrar uma voz viril, grave e terna!

Tivera rubores subitos, sentindo pousar na sua fronte branca, a luz d'um olhar quente e caricioso; colhêra uma rosa, prendera nos cabellos um cacho de madresilva, vestira um dia um certo vestido branco, cheia de alegria, agradecendo a Deus ter feito a vida tão boa, o céu tão azul, o cheiro das arvores tão penetrante e tão sadio!

Olhava n'este tempo para as creanças, beijava-as como a ensaiar as graças da maternidade, fazia-lhes festas, pensando que tambem havia de ter um dia uns pequeninos como aquelles, que lhes havia de querer muito, e leval-os a passear, seguida pelo olhar invejoso das outras mães... cujos filhos seriam forçosamente feios.

Então consultava comsigo mesma o systema de educação que adoptaria, e o modo porque os havia de vestir, e concluia vendo-os entrar para a Universidade, n'um dia de muitas lagrimas e de muitos dilaceramentos, altos, esbeltos, um pouco altivos, com um buçosinho louro, appetitoso como a pennugem d'um pecego mal maduro.

Foram-se-lhe dias e dias n'este sonhar que a entretinha, como a leitura d'um romance cujo interesse nunca afrouxa.

Um dia, porém, por acaso viu-se ao espelho, e despediu-lhe o seio um grito de angustia.

Despontava-lhe entre os fártos cabellos louros, o primeiro cabello branco, um fio de prata, tenue, quasi imperceptivel, uma cousa em que ninguem reparava.

Reparou ella.

Reparou tambem n'esse momento que todas ou quasi todas as companheiras tinham casado, que muitas das suas illusões se tinham desfeito ás asperas nortadas da realidade, que se ia sentindo na vida muito só.

Teve umas horas de lucta, de revolta, quasi de desespero.

Alguem, ou _alguem_ invisivel em que ella sempre acreditára, mandou-lhe a força, porque lhe mandou a resignação!

Quando o pae lhe morreu veio para casa dos irmãos, e a pouco e pouco achou em si a fonte de todas as riquezas mysteriosas, que espalhava pelos affectos que o seu coração adoptou!

* * * * *

Eis pouco mais ou menos a _historia da tia Izabel_.

O MELHOR SOMNO DO MILLIONARIO

Tinha ido para o Brazil ha muitos annos.

Ainda havia frades em Portugal e fôra até um seu tio frade que o acompanhara a bordo de um brigue e que lhe dissera com voz solemne e sentenciosa, no momento da despedida, estendendo os braços n'um largo gesto de pregador:

--Deus te leve a salvamento, Francisco!

O sr. Francisco Cerqueira lembrava-se de todos os pormenores e incidentes trabalhosos da jornada que elle fizera desde a sua pequena e risonha aldeia minhota até Lisboa.

Era um gosto ouvil-o á mesa, ao domingo, quando o armazem repousava na sua humidade claustral, e não se ouvia o estrepitoso labutar dos negros carregadores, a voz arrastada dos Mineiros freguezes da casa, e a melopéa das quitandeiras na rua.

Os socios muito mais moços que Cerqueira _puxavam-lhe pela lingua_ conforme a pittoresca locução do povo, e á sobremesa, recostados, com os charutos accesos, ouviam-no discretear alegremente.

Lembrava-se de tudo o sr. Cerqueira. Era uma chronica viva. Recordava-se da sua aldeia, narrava historias da sua infancia, descrevia com rudes mas pittorescas phrases a aula de primeiras letras, o abbade da freguezia, as proezas do tio frade, que com um varapáo nas unhas era homem para varrer toda uma feira, e enternecia-se até ás lagrimas, quando tocava no assumpto de despedida da mãe.

--Ah! vocês não imaginam! Não me sahe d'aqui! Parece que tenho um nó na garganta, quando me lembro d'aquelle momento. Abraçava-me a chorar e a soluçar que era uma cousa por maior! Inda me parece que a vejo ao pé das carvalheiras do adro da igreja, estendendo-me os braços de longe e gritando suffocada:

--Ah! rico filho, rico filho da minha alma!...

Que idade terá ella hoje? Ora, espera, eu tenho cincoenta e seis; ella, pelas minhas contas, vem a ter os seus setenta bem puxados... quem me dera vêl-a!

--Mas, _seu_ Cerqueira, nada mais facil! Por que se não resolve? Em dezoito dias está lá...

--Sim, é verdade.

E ficava triste e meditabundo por instantes...

--Mas tenho medo de chegar e de não a encontrar. O unico motivo que me leva á Europa, é ella, a pobre velhinha... É o unico parente que tenho, que não sei se vocês sabem, que da nossa familia restamos tão sómente nós, ella e eu... a minha terra é aqui, para aqui vim creança, e aqui me fiz gente... Que vou eu fazer á Europa, não me dirão?

Isto dizia o sr. Cerqueira; mas o que se lhe passava no intimo era bem diverso. Tinha saudades, tinha-as e bem fundas da aldeia em que nascêra e da casa em que se creára.

Porque a sua vida fôra um luctar sem treguas, um batalhar decidido e um inferno, á sahida do qual elle contava, como o mythologico Orpheu, rever as appetecidas Eurydices--a mãe e a patria...

Escrevia á mãe de tres em tres mezes, e nunca deixava de lhe recommendar que conservasse tal e qual como estava a casita, e que não mexesse nunca no leito em que elle dormira nos annos proximos á partida para o Brazil.

«Porque desejo morrer n'elle», escrevia Cerqueira á mãe amantissima.

E ia-se deixando ficar.

Por duas vezes os socios estiveram em Portugal, mas o nosso Cerqueira não se decidia.

Ás vezes parecia tomado de uma forte resolução, e, ouvindo as descripções das viagens dos socios:

--Homem, parece-me que sempre me resolvo!

No outro dia, porém, lá andava pelos armazens mourejando, dando ordens, e n'aquella atmosphera de trabalho vivificante e saudavel parecia transfigurado e como que esquecido da promessa que a si proprio fizera.

* * * * *

Um dia, quando o sr. Cerqueira encarapitado no alto banco de palhinha sobre a secretária, revendo se na sua bella letra ingleza e floreada, entrou no escriptorio um dos caixeiros annunciando-lhe que estava alli um sujeito que desejava fallar-lhe.

Cerqueira collocou a penna atraz da orelha, puxou do lenço vermelho, e abrindo a caixa enterrou unidos, no tabaco, o pollegar e o index, e mal acabava de absorver a pitada pela narina direita, tamburinando voluptuosamente com os restantes dedos na esquerda, quando lhe surgiu á porta um rapaz bem trajado e modesto, que figurava ter quando muito dezeseis annos.

--Creio que fallo ao snr. Francisco Cerqueira?

--É verdade.

--Cheguei hoje de Portugal e trago-lhe esta carta.

E o rapaz desabotoando o fraque, tirou do bolso uma carta que entregou respeitosamente ao negociante.

Olhou attento para a lettra do sobrescripto e sorriu-se; um bom sorriso beatifico e dourado de mocidade que lhe illuminou o semblante.

Depois abriu a carta, desdobrou-a e collocando-a ante o rosto começou a lêl-a devagar, como que saboreando cada palavra e cada phrase. Ás vezes parava, e como um namorado que espreita por cima d'um muro, erguia os olhos acima do papel e examinava attentamente o rapaz, que se conservava de olhos baixos, direito e tranquillo.

Chegando ao fim da carta, voltava de novo a lêl-a. Era como que um conversar com aquellas letras que vinham de longe e que lhe traziam um pouco de perfume das larangeiras do paiz natal, e um tudo nada das lagrimas de sua mãe.

--Queira sentar-se, disse benevolamente o commerciante ao mancebo.

E continuou a ler. A carta era pequena, mas n'aquellas letras arrevesadas e tremulas elle via um rosto, umas feições adoradas, e logo depois como nas tintas esbatidas e aereas de um sonho de convalescente, levantava-se uma figura de mulher ainda moça e vigorosa, ao pé de umas carvalheiras, e essa mulher estendia-lhe os braços e dizia-lhe de longe com uma voz entrecortada de lagrimas:

--«Ah! rico filho, rico filho da minh'alma!»

Arrancado d'aquella visão, o sr. Cerqueira dobrou a carta devagar com as mesmas dobras, abriu a larga carteira de marroquim vermelho e collocou-a com grande cuidado n'um determinado compartimento.

Em seguida levantou-se e pitadeando de novo:

--Olhe, o nosso guarda-livros vai espairecer até Buenos-Ayres, e creio que por lá ficará. Coitado! aquillo vai mal!... Quer o senhor occupar esse lugar n'esta casa?

O moço acceitou reconhecido, e ia a levantar-se quando um preto velho em mangas de camisa abriu a porta do escriptorio:

--O jantar está na mesa, nhônhô...

* * * * *

Passados dias notaram os socios do sr. Cerqueira que este não parava em casa um instante. Sahia frequentemente, andava mais contente e lepido que o costume. Pouco fallava ao jantar; de communicativo que era, tornara-se recolhido comsigo, mas no olhar lampejava-lhe uma doce e ineffavel alegria.

Ora que fazia o sr. Cerqueira?

Andava envolvido n'uma terrivel conspiração, queria desfazer-se, desligar-se dos queridos laços, creados pela sua longa e trabalhosa vida de perto de quarenta annos, n'aquella terra a que elle de entranhas queria, e aonde aportara pobre, desprotegido, sem recursos...

Logo pela manhã, depois de dar as suas ordens no escriptorio, mettia-se a caminho, percorria as ruas, examinando attentamente cousas que antes lhe haviam passado desapercebidas.

Entrando nos _americanos_, dirigia-se aos formosos arrabaldes da côrte...

Lembrava-se então das suas merendas saudosas e illuminadas pelo sol dos vinte annos, no morro de Santa Thereza, nas chacaras ridentes do Botafogo, á sombra das arvores do Corcovado.

E passava distrahido sem corresponder aos frequentes e affaveis cumprimentos que lhe faziam os conhecidos e amigos, do alto da imperial dos omnibus, ou da plata-forma dos _americanos_.

Alguns dos companheiros dos seus passeios e folguedos da mocidade tinham morrido, outros haviam deixado o Brazil e viviam na Europa, em Portugal.

--Como poderam elles deixar isto sem saudade? É verdade que eu gostava de morrer lá, onde nasci, na minha pobre aldeia, ao pé de minha mãe... pensava o sr. Cerqueira.

E á hora do jantar, já não havia o conversar, e aquelle teimoso questionar que tanto alegrava os dois socios!

É que o sr. Cerqueira continuava a fallar comsigo e a passar uma a uma pelos dedos as contas do mystico rosario das suas saudades...

* * * * *

Uma tarde os socios de Cerqueira bateram-lhe á porta do quarto. Houve uma certa demora em se abrir essa porta. Insistiram. Cerqueira veio emfim saber o que era.

Entraram os dous e recuaram surprehendidos ante a mudança que observaram.

No meio do quarto estava uma grande mala escura cravejada de pregos amarellos; em cima do canapé esgarçado avultavam montes de roupa branca, e pequenas malas inglezas com fechos dourados e reluzentes. As gavetas da commoda estavam corridas, havia n'aquelle quarto em fim a apparencia d'uma casa saqueada...

--O que é isto, _seu_ Cerqueira?

--É o que vocês estão vendo. Ámanhã é o dia da partida... Resolvi-me emfim...

--E eu que tinha apostado aqui com o _seu_ Fernandes que você nunca se resolvia...

--Pois, meu amigo, perdeu a aposta, cortou o Cerqueira, sorvendo sybariticamente uma pitada.