Part 2
Henrique era formoso sem dar por isso. O unico modo possivel de um homem ser formoso.
Joanninha, a irmã, que já fizera vinte e sete annos, era uma doce e casta physionomia de virgem que tem padecido muito.
Nos seus grandes olhos melancolicos havia a tranquilla doçura dos que repouzam depois de uma lucta esmagadora.
Tinha a certeza de que havia na terra alegrias que nunca seriam d'ella, e no entretanto não se revoltára; puzera n'outro ponto mais alto a sua mira.
Desdobrára a sua individualidade, vivia da vida e das esperanças de seu irmão.
N'este interior recolhido e casto, Thadeu sentiu pela primeira vez acordar a consciencia.
Soffria muito ali pelas comparações dolorosas que fazia, mas comprehendeu que n'esse mesmo soffrimento havia um progresso do seu espirito e affeiçoou-se ás torturas que elle lhe dava.
O trabalho era a lei d'aquella casa, e Thadeu não sabia trabalhar.
Ali concebia-se a vida de um modo elevado e justo, a dignidade do homem estava identificada com a sua independencia, e Thadeu não passava de um parasita.
Aprendeu na convivencia de Henrique e de sua mãe e irmã muito mais do que aprendêra em todos os 18 annos de sua desconsolada existencia.
Determinou ter uma occupação, um officio, exercer um trabalho qualquer, mas bem depressa adquirio a desoladora certeza de que a sua fraqueza physica o tornava incapaz de qualquer esforço aturado e violento.
Com vinte e tres annos conseguira tão sómente, por fim de porfiada lucta, ser uma especie de caixeiro de guarda-livros de seu tio.
Aprendeu a fazer bem contas, e tornou-se util n'aquella desordenada administração de uma casa collossal.
Isto não era de certo cousa que satisfizesse as ambições de outro qualquer, mas para elle isto já era uma grande, uma sublime conquista.
Ganhava o pão que comia.
Era um escripturario humilde, mas tinha direito a dizer que não dependia de ninguem.
VI
No dia em que Thadeu soube que Margarida ia chegar, a sensação que fez vibrar todo o seu sêr, foi violenta de mais para que possa ser descripta.
Acudiram-lhe em tropel, desordenadamente, n'uma confusão louca, todas as lembranças do passado, todas as queridas visões d'aquelles nove annos de extase que elle vivêra.
Estava tudo intacto n'um cantinho luminoso da sua alma, onde elle não entrava com medo de fazer fugir as avesinhas azues que eram as suas saudades.
Margarida! Bebé! A sua alegria! A loura cabecinha encaracollada, os olhos côr de azul, limpidos, transparentes, crystallinos, como um céo de primavera! os pequeninos braços gordos e nedios! a boquinha risonha! a voz musical, uma voz de cotovia acordando os écos da alvorada!
Todo aquelle conjuncto de graças ia ser d'elle outra vez.
Com que delicia soffrega elle não beijaria os pézinhos da sua fada pequenina e loura!
Como lhe contaria tudo que tinha passado longe d'ella!
As saudades sem consolo, as lagrimas que chorára, as humilhações que soffrêra no meio d'aquelles perversos de faces rosadas e imberbes, que se tinham constituido em algozes da sua fraqueza e do seu desamparo!
Oh! amal-a-hia tanto e tanto, que ella havia de dar-lhe por força um bocadinho de affecto, e esse bocadinho só bastaria a torna-lo mais feliz do que um rei.
Margarida!
E ao repetir baixinho com um calafrio de prazer este nome querido, via saltar n'um raio de sol uma figurinha esbelta, graciosa, de fato muito curto e muito simples, um vestido branco, um cinto azul, um bibe de cercadura bordada, onde as amoras colhidas por elle tinham posto uma mancha vermelha, com os espessos cabellos louros em anneis soltos, e uma risada a vibrar ainda em torno d'ella como um rosario de perolas que se desfiasse dentro de um cofre de crystal.
Henrique julgou que elle endoudecia, e Joanninha com a sua voz velada, onde havia uns toques de doçura maternal, dizia-lhe:
--Mas olhe que ella é uma senhora! Já não póde ser a mesma. Não tenha uma esperança que vai converter-se-lhe em martyrio!
--A minha Margarida, repetia elle alheiado, meio louco! A minha filhinha adorada! Nunca tive uma alegria que d'ella me não viesse! Todos me tratavam mal, só ella gostava de mim e me queria sempre ao seu lado. Has de vêl-a, meu Henrique, verás se ha no mundo uma creança mais linda, mais mimosa, é uma fada, é uma _perola_, é a minha unica amiga n'este mundo!
VII
No dia seguinte á hora em que uma brilhante festa de familia, uma especie de baile muito intimo, reunia nas salas do marquez todos os parentes, alliados e amigos que vinham solemnisar a chegada da sua filha e herdeira, Thadeu na pequenina sala de jantar de Henrique, dobrado sobre o peitoril da janella n'uma postura de desolação e de abandono, soluçava baixinho, ao pé de Joanninha, que tentava em vão consolal-o.
Estava de casaca, coitadinho; Joanna não seria capaz de rir do desgraçado, mas como a casaca lhe ficava mal!
Tinha-se vestido para assistir ao jantar.
Antes do jantar não conseguira vêr Margarida.
--A sr.ª D. Margarida vinha muito cançada, estava no seu quarto. Dormia. Não havia ordem de a acordar.
Eis as seccas respostas que as criadas,--aquellas perversas--tinham dado ás supplicas phreneticas do pobre Thadeu.
Emquanto a ir ao encontro d'ella como tanto sonhára, não tinha podido.
Seu tio, agora que lhe descobrira algum prestimo--muito secundario, é verdade, mas um prestimo em todo o caso--abusava d'elle horrorosamente.
Tinha-o tornado uma machina de fazer contas, contas de sommar, de repartir, de multiplicar, o inferno!
Não pudera ir, mas esperava vê-la logo que ella chegasse, vê-la só, poder beijar-lhe as mãos, a testa, os cabellos, os pés! Vesti-la toda de beijos como d'antes!
E depois sabia que tambem ella havia de ter saudades! Que tambem se havia de lembrar muito do seu amigo, do seu Thadeu, do seu cão fiel!
Estava impaciente, estava no ar. Mas quando teve a certeza de que só a veria na sala, foi vestir-se logo, envergou uma casaca de seu pae que este mandára arranjar para elle, uma casaca muito larga, já fóra da moda, de panno azulado.
Que lhe importava! Ia vê-la!
Vê-la era o céo.
Vinha-lhe á lembrança aquelle ninho de melros que apanhára um dia--sabe Deus com que trabalho--para lhe dar, e o dia em que ella lhe pedira a lua com uma gravidade tão comica, apontando para o tanque, e o balouço que ambos tinham projectado fazer, e as historias que elle lhe contava debaixo do castanheiro á tarde, emquanto que a musica do piano suspirava ao longe, e havia no ar uns rumores indefinidos de que ella lhe perguntava a explicação.
--São os passarinhos que andam a arranjar-se para se deitarem a dormir dentro dos seus ninhos--costumava dizer Thadeu.
E ella ria-se virando a cabeça muito esperta para a cupula do castanheiro, a ver se descobria como se faz a _toilette_ nocturna dos passarinhos.
Entrára emfim na sala.
Havia grupos aqui e ali. Graves politicos que discutiam, financeiros de abdomen volumoso, matronas severas, moços elegantes, e no meio de tudo um bando de raparigas alegres, garridas, a chilrearem, a rirem e a cochicharem entre si, contentes da nova companheira que lhes chegava de longe, mas muito mais contentes ainda d'aquella atmosphera festiva e perfumada que as envolvia.
No meio d'esse grupo encantador é que _ella_ estava de pé.
Um corpo deliciosamente modelado, de uma graça franzina e toda moderna.
Tinha um vestido de _foulard_ muito justo, muito elegante, e no meio dos rôlos do seu crespo cabello louro aninhava-se uma rosa vermelha, uma rosa côr de sangue.
Os olhos azues, altivos e desdenhosamente fixos lembravam... os olhos metallicos de sua mãe.
Pois era aquella a sua Margarida?!
Era.
Não lhe restava a menor duvida. Apesar de todas as differenças tinha-a conhecido logo.
A sua limpida testa de creança um pouco curta, indicio de obstinação e de capricho; a sua bocca pequenina, até alguma cousa dos seus gestos antigos, tudo trouxe ao coração de Thadeu uma lufada de saudades irresistivel.
Correu para ella como doudo, atravessou pelo meio de toda aquella gente, sem a menor timidez, sem o menor receio, sem notar sequer o espanto que a sua comica apparição tinha excitado.
As raparigas que faziam um circulo em torno de Margarida separaram-se n'uma subita explosão de risadinhas, e ella, olhando muito fixa para Thadeu, exclamou rindo, rindo sem poder mais:
--Ih! credo, primo Thadeu, que casaca!... que figura!... Pelo amor de Deus vá já tirar essa casaca e venha depois!
E ria, ria sem disfarce, emquanto elle com os braços quebrados, o rosto estupido, a physionomia espavorida, sentia dentro de sua pobre alma sem consolo esphacelar-se, desfazer-se, diluir-se em lagrimas de fel a ultima esperança da sua vida!
VIII
Tres dias depois, Margarida, que se esquecêra completamente d'aquelle insignificante episodio em que Thadeu figurára, encontrou-o por acaso na Baixa, onde andava fazendo compras com sua mãe, ao lado de Henrique, que para o distrahir tinha ultimamente fingido precisar absolutamente da sua companhia.
Margarida sahia de uma loja e ia a saltar ligeira, elegante com a sua graça parisiense para dentro do _coupé_ delicioso que, de proposito para a filha, o marquez havia encommendado mezes antes á casa Binder, e que dous finos cavallos inglezes esplendidamente ajaezados faziam voar pelas ruas da nossa pacata Lisboa.
A vista de Thadeu despertou-lhe umas poucas de idéas que ainda não lhe tinham occorrido.
Lembrou-se, por exemplo, de que não o vira mais, desde o instante em que elle se apresentára diante d'ella com uns transportes ridiculos e uma _toilette_ horrorosa, na sala povoada pelas suas novas amigas, tão ironicas, tão cruelmente maliciosas...
Por que não tornára ella a vê-lo? Tinha-lhe esquecido perguntar por elle, fôra muito ingrata...
E sem raciocinar aquelle impulso estranho, parou, esperou em uma attitude de _coquetterie_ irresistivel que os dous amigos se approximassem, visto que ambos caminhavam na direcção em que ella estava, e estendendo a Thadeu a sua mão esguia e fina, a sua mão de loura, enluvada de pellica côr de bronze, disse com uma expressão de finura e malicia intraduzivel:
--Então seu ingrato! Não me tem querido apparecer! Por onde tem andado?
E ficou a olhar para elle, como quem espera alguma cousa, interrogadora, fascinante, sempre aristocratica.
A marqueza, que já estava dentro do trem, murmurou levemente enfastiada:
--Então, Margarida, ficamos aqui?...
E Thadeu córando, balbuciando, resmoneava confusamente uma banal desculpa.
* * * * *
Margarida saltou emfim o estribo que o criado conservava desdobrado, envolvendo n'um olhar magnetico dos seus scintillantes olhos azues, a bella e viril figura de Henrique de Sousa, que presenciára mudo aquella scena inexplicavel.
* * * * *
IX
Uma noite em S. Carlos estreiava-se uma celebridade lyrica na _Norma_, que então estava muito na voga.
Henrique vivamente instado pela mãe e pela irmã e tambem um pouco pelo seu proprio desejo, determinou ir ouvir a opera adoravel, que é uma verdadeira perola musical.
Havia tempos que elle andava nervoso e inquieto.
Não sabia bem o que tinha mas sentia-se mal.
Tinha impaciencias nervosas que nunca havia conhecido no seu organismo equilibrado e harmonico.
Surprehendia-se ás vezes doentiamente, a fazer planos impossiveis antes de adormecer; a imaginar quanto seria bom ser muito rico, viver na alta roda, n'aquella esphera aristocratica e distincta em que se não trabalha, em que se falla de um modo especial e caracteristico, com termos escolhidos, com inflexões muito mais suaves, com uns certos desdens que d'antes lhe pareciam ridiculos e que lhe estavam agora parecendo superiormente requintados. Ter um palacete com alguns salões apainelados em cuja escadaria de marmore povoada de estatuas e de plantas raras, se aprumassem espadanados lacaios de farda; ter equipagens luxuosas, ter uma mulher loura, franzina, de testa curta, de olhos piscos, com um sorriso felino, quasi cruel nos labios vermelhos, e um corpo flexivel, delicado, _mignon_ de estatueta de _biscuit_... Uma mulher que se chamasse Margarida.»
N'este ponto da sua scisma Henrique suspendia-se como que sentindo a estranha impressão de quem vae caminhando por uma estrada lisa e de apparencias tranquilisadoras, e encontra de repente, debaixo dos pés, quando menos o espera um reptil desconhecido.
Margarida! que tinha elle com Margarida?!
Lembrava-se que a desprezára e amaldiçoára no dia em que vira chegar a sua casa, pallido, desfeito, com uma casaca grotesca e uns olhos inchados e vermelhos de chorar, o seu pobre amigo Thadeu, que na vespera o tinha deixado tão louco de alegria e tão triumphante de felicidade!
Margarida!
Vira-a depois loura, elegante, com o seu desdenhoso olhar de myope, subir com ligeiresa fidalga o estribo de uma carruagem, descobrindo os finos bordados das suas saias, o pequeno pé primorosamente calçado, todo um poema de mysteriosas elegancias.
Nunca mais a vira, nunca mais desejára vêl-a!
Para que?
Ella lá tão em cima, elle cá em baixo lidando, tressuando, luctando para alcançar... o que talvez não tivesse nunca!
Um nome, uma posição, o pão de sua mãe e de sua irmã, sem amarguras e sem pequenas privações humilhantes!
* * * * *
N'aquella noite em S. Carlos a musica sentimental e enervante de Bellini, o contacto de todo aquelle mundo ocioso e rico ainda o tornava mais nervoso e excitado. Estava quasi arrependido de ter vindo.
N'isto sentiu que lhe batiam no hombro e uma voz aflautada, uma voz _tremelicante_, com inflexões muito alegres, disse-lhe ao ouvido:
--Anda cá acima, pediram-me para te vir buscar, para te apresentar; gostam muito de ti! Não imaginas como és estimado pela minha querida Margarida, desde que soube que tens sido o meu unico amigo, o meu auxilio na vida, aquelle a quem mais devo depois d'ella.
E Thadeu, porque era elle, arrastava pelos corredores das frisas Henrique surprehendido, contrariado, com uma estranha sensação de desconforto a comprimir-lhe fortemente o peito.
X
Na frisa, radiante de mocidade, de fina distincção, com todos os requintes da moda a fazer realçar a sua belleza moderna, fragil, quebradiça, alguma cousa amaneirada estava Margarida.
A marqueza ao lado d'ella conversava com um velho diplomata.
Á entrada dos dous a mãe teve um comprimento um pouco secco, a filha um sorriso de graça adoravel, de garridice innata mas irresistivel.
--Quiz vêl-o porque soube que tem sido muito bom para Thadeu, excellente mesmo. Elle contou-me tudo.
Pobre rapaz! _poor dear boy!_ e sorriu-se outra vez com um aspecto bondoso e protector que a transfigurou por instantes.
--Eu tinha-me esquecido, o Thadeu é que se lembrava de tudo. Fez-me reviver a minha infancia. Sempre é bom. Agora já estou tão velha que acho immensa graça a estas recordações do passado.
E graciosa, maternal, afastando toda e qualquer idéa que não traduzisse uma solicitude encantadora para o seu companheiro da infancia, Margarida foi o que seria a noiva idealisada pelo austero coração de Henrique.
E d'ali em diante o amigo de Thadeu deixava-se arrastar de oito em oito dias até o palacete dos marquezes.
Era ali optimamente recebido.
Margarida, adorada pelos paes, dava a lei em casa. Sabiam-n'a voluntariosa, cheia de caprichos e de phantasias, tinham medo de irrital-a resistindo-lhe.
Depois, Henrique com as suas maneiras de _gentleman_, com a gravidade desaffectada do seu porte, com os generosos ardores da sua rica organisação, revelava-se o que era: um homem de futuro, um homem que havia de ter nome mais tarde.
O marquez, cynico como a vida o tornára, era juiz excellente n'este assumpto.
Conhecia um _homem_ depois de duas horas de conversação.
As proprias severidades do moço, amollecidas agora ao contacto da perturbadora formosura de Margarida, agradavam ao marquez como uma cousa nova, picante, inteiramente imprevista para elle.
Thadeu nadava em um jubilo celeste.
Era muito bem tratado; Margarida tinha com elle umas garridices angelicas que ás vezes o deixavam pallido e suffocado, encostado a uma arvore ou a um banco do jardim para não cahir no meio do chão desfeito em lagrimas.
Thadeu tinha agora de vez em quando um odio selvagem á sua mesquinha e enfezada personalidade.
Se elle não fosse como era... se fosse alto, esbelto, forte... póde ser... tem-se visto tanta cousa...
E tambem ficava absorto, idiota, seguindo com um olhar esgazeado umas visões que o iam enlouquecendo.
Ella no emtanto vinha alegre, radiosa, cheia de vida, com o seu vestido de _foulard_ côr de carne a desenhar-lhe as fórmas flexiveis, com uma rosa nos seus cabellos louros, dava-lhe o braço, e arrastava-o enlevado e estupido pelas alamedas do jardim.
--Conta-me lá o que tu fazias quando eu cá não estava! conta-me em que pensavas. Estavas muito triste? Quando é que viste pela primeira vez o teu amigo Henrique? Que lhe dizias tu de mim? E elle?... elle que idéa fazia d'esta endiabrada pessoa que tu lhe descreveste tanta vez com a tua phantasia de poeta--porque tu quando se trata de mim és poeta, meu pobre Thadeu!--Anda, falla, conta-me o que vocês faziam, gosto tanto de te ouvir!
E toda dobrada sobre o hombro d'elle, meiga, electrica, fascinadora, com meneios de serpente, levava horas passeando pelo braço de Thadeu.
* * * * *
Um anno depois d'esta época, Margarida declarava terminantemente aos paes que voltava para França, que ia morrer freira no convento onde vivêra educanda, se elles a não casassem com Henrique.
E dizia-lhes estas palavras n'uma tal violencia de gritos e de soluços, tão magra, tão empallidecida n'aquella lucta intima de doze longos mezes, que o marquez encolheu os hombros com a suprema indifferença que fazia d'elle um _viveur_, e que a marqueza animada pela placidez do marido ao encarar esta questão magna, declarou á filha, hoje seus unicos amores, que ia fazer tudo para lhe dar o noivo da sua alma, o escolhido pela sua ardente paixão juvenil.
Teve medo de ver a filha definhar-lhe e morrer-lhe nos braços. Via-a tão abatida, tão triste, tão enfastiada da vida, que a idéa de perdêl-a sobrelevou a todos os seus escrupulos de rica e de fidalga.
Margarida auctorisada pelos paes pôde dizer a Henrique, que o amava!
Quanto amor! que enthusiasmo febril n'este sublime impudor da creança opulenta, formosa, aristocratica, disputada por dezenas de noivos tão ricos e tão nobres como ella, que vem espontaneamente offerecer a sua mão e a sua vida inteira ao obscuro plebeu que passa confundido no meio das multidões desconhecidas!
E esse impudor ninguem mais fidalga e altivamente do que Margarida o soube ter.
Sabia-se adorada, estremecida, sabia que um riso d'ella bastaria para as alegrias e para as torturas de uma semana passada por Henrique na labutação da sua mesquinha existencia; mas sabia tambem que elle era tão grande, tão forte, tão orgulhoso e digno que podia morrer, mas que morreria calado, sem que uma palavra revelasse o seu martyrio!
--Thadeu, meu querido Thadeu, meu amiguinho, tenho sido muito má, não tenho querido contar-te nada com medo de que lhe dissesses a _elle_ alguma cousa. Eu queria ser a primeira a dizer-lh'o, queria gozar do seu sorriso, do seu olhar de anjo, de martyr beatificado, do seu olhar que me enlouqueceu para sempre... Agora digo-te, já não tenho motivo nenhum para t'o esconder.
Vou casar-me, vou ser d'elle, só d'elle... levar-te-hei comnosco... Olha que foi elle que m'o pediu... Vê como elle é bom. Eu a fallar a verdade estava tão douda que nem me lembrei de similhante cousa; mas elle fallou logo em ti, foi a sua primeira vontade! Adoro-te visto que elle é teu amigo. Has de aborrecer-me ás vezes, meu pobre Thadeu, porque nunca entendes a tempo quando deves ir-te embora, mas eu hei de educar-te. Verás! Viveremos todos tres. Nunca mais te hei de tratar mal! nunca mais me hei de rir da tua casaca. E, a proposito, tu ainda a tens, aquella malfadada casaca? Não me faças rir no dia do meu casamento, pelo amor de Deus manda fazer uma nova para esse dia. Não tenhas medo de gastar. Eu tenho muito. Sou rica, muito rica, somos todos tres muito ricos.
E douda, anhelante, no delirio da creança que venceu a sua primeira teima, na dilatação ampla de uma alma que conquistou o seu desejo supremo, Margarida expandia n'estas palavras diffusas, incoherentes, sem nexo, toda a felicidade que era hoje d'ella e que julgava eterna.
Thadeu escutava com o olhar morto e vidrado de um somnambulo.
Depois emmudecido por uma dôr aguda que lhe rasgava as carnes de todo o seu corpo como um punhal de muitas laminas, sahiu do quarto cambaleando como um ebrio.
* * * * *
No dia do casamento de Henrique houve dous entes que na humilde tristeza de uma pobre casa, choravam unidos todas as lagrimas da sua alma.
A um d'esses entes pungia-o uma angustia dilacerante demais para que a palavra humana a pudesse traduzir.
A outro sobresaltava-o um presentimento horrivel, como que um dobrar de finados que lhe écoava lá dentro, e ao qual não podia fechar os ouvidos.
Esses dous entes esquecidos, voluntariamente afastados das pompas principescas d'aquelle dia, das festas d'aquella solemnidade esplendida eram Thadeu e a irmã de Henrique.
XI
De feito havia já cinco annos que viviam juntos em uma casa espaçosa e lindissima de Buenos-Ayres.
Henrique pedira com tão meigas e sentidas palavras a Thadeu para que elle os não deixasse, que depois da viagem de rigor feita pelos noivos á Suissa e á Italia o _bom cão fiel_ foi viver junto d'elles.
As investigações da sciencia, o estudo paciente dos homens e das cousas, altas aspirações inspiradas pelo marquez a uma gloriosa carreira politica, absorviam Henrique, emquanto que Thadeu mais amadurecido agora pela experiencia da vida, administrava a casa, tomava contas aos feitores e criados, punha em ordem os róes, recebia os rendimentos, pagava aos fornecedores, era por assim dizer o mordomo mór da opulenta fortuna da sua companheira de infancia.
Margarida continuava a ser o enlevo e o mimo de quantos viviam junto d'ella.
De uma organisação delicada, nervosa e vibratil, com um aspecto infantil, que infundia uma vaga e doce idéa de protecção; boa, d'esta bondade superficial e egoista, que consiste em não gostar de ver ninguem triste ao pé de si, todos os seus caprichos se convertiam n'outras tantas graças, todas as suas exigencias se impunham com a tyrannia adoravel de uma supplica!
O marido tinha por Margarida aquella paixão deleteria e quasi covarde, que ella lhe inspirára logo no primeiro dia.
Não sabia resistir senão a muito custo, a um olhar d'aquelles olhos humidos e radiantes, a um sorriso d'aquelles labios vermelhos, a um gesto d'aquellas mãos finas, esguias, pallidas, da suave pallidez dos lyrios.
Não era bem amor, era uma fascinação, uma embriaguez, uma d'estas doenças que exercem no cerebro a sua acção paralysadora.
Margarida que nenhuma força superior tentava dominar, déra expansão completa a todos os caprichos da sua colorida e quente phantasia.
Adorava o luxo, as cousas d'arte, a musica, as flores raras, frequentava muito o alto mundo onde era requestadissima, vivia na perpetua idolatria de si propria, que a pouco e pouco a inutilisava para os graves deveres da vida.
Thadeu no meio da sua céga e embrutecedora adoração obedecia-lhe como um escravo. Só elle sabia as despezas collossaes, as extravagancias principescas d'aquella pequenina pessoa, activa, graciosa, phantasista como um poeta oriental.
Mas economisava ridiculamente em todas as verbas, para que _ella_, a rainha, a _perola_, a _Margarita_ dos seus sonhos d'outro tempo não franzisse um minuto a sua testa curta, a sua testa de teimosa, na contrariedade de um desejo insaciado.
E ella estava tão habituada á submissão e á humildade d'aquelle pária, que o tratava como um traste, um objecto seu, com o qual não tinha de mostrar o minimo constrangimento, a minima attenção affectuosa.