Part 5
Ao terceiro dia, a filhinha chamou com voz debil pela mãe, pediu-lhe que se sentasse na enxerga, bem junto d'ella, encostou-lhe a sua loira cabecinha no regaço, e disse-lhe:
--O pae é muito mau! E a mãe chora tanto! Se eu morrer, hei de pedir a Nossa Senhora que leve a mãe para junto de mim; quer?
Rosa não respondia, porque os soluços, que lhe estalavam o peito, lhe embargavam a voz.
A Isabelinha então, já com a vista turva, e a bocca entreaberta, lançou os braços ao pescoço da mãe, para a achegar mais de si, estremeceu da derradeira convulsão e... expirou!
Ao cabo de um mez, durante o qual o padecimento de Rosa fôra horrivel, o mesmo coveiro que enterrou a filha, abriu ao lado outra cova para receber a mãe.
* * * * *
O rosto d'aquella mulher, magro, livido, macerado, tinha a impressão indelevel das torturas por que passára. Não havia n'elle as contorsões da agonia dos delinquentes, que morrem convulsionados pelo terror de um castigo eterno. O derradeiro alento entreabriu-lhe nos labios um sorriso de bemaventurança!
É como ficam as creaturas, santificadas pelo martyrio, e que esperam na morte a hora do seu resgate!
E quem diria--pobre creança!--que tinhas apenas vinte e cinco annos, e que foste formosa, e que te julgaste feliz no dia em que poisaste pela vez primeira os labios convulsos de alegria na face côr de rosa de tua filha!?
E saber-se que o martyriologio é com certeza o unico elogio funebre de tantas desgraçadas como Rosa!
E Benjamim?
Benjamim, aquelle homem que seduziu impunemente uma mulher e que matou impunemente a filha, prosegue inflexivel na vida crapulosa, dominado pelo vicio da embriaguez, em que tem perdido, pouco a pouco, o vigor e a vida de todas as faculdades, a saude, a honra e a propria dignidade de um ser humano!
AS ARRECADAS DA CASEIRA
Resa a _Folhinha_ que é a 26 de fevereiro o dia de S. Torquato--santo guerreiro, que recebeu na face esquerda um golpe d'alfange mahometano, em guerra de christandade;--mas a grande romaria tinha sempre logar ahi pelo meado de junho.
Fica a ermida situada em vasta esplanada, no alto de uma collina.
Logo ao romper d'alvorada, pelos atalhos da encosta vinha subindo a turba-multa dos romeiros foliões. Ha cinco annos, como estava um dia de muito sol e de grande calor, era bonito ver o rancho dos lavradores, que vinham abrigados debaixo dos enormes guarda-soes de paninho escarlate. Aquillo é por luxo! Olha quem! Elles que andam todo o santo dia do trabalho, no meio dos campos, a sachar, a lavrar, a podar, expostos á torreira, teem lá medo do calor! Pois assim que chega um dia de festa, fingem-se mimosos e abrem então os seus guarda-soes. Outros que são mais francos, nem sequer os abrem; qual! mettem-nos debaixo do braço assim como quem abrange um molho de varetas de baleia com paninho encarnado, e lá partem alegres para a romaria.
No logar do arraial havia arcos de buxo com flores, fluctuavam as bandeiras no topo dos mastros, estalavam no ar os foguetes de tres respostas; e, de quando em quando, para que a folia não arrefecesse nos animos, rebentava um morteiro, que atroava por todas aquellas serranias. Então, via-se uma revoada de passarinhos, que fugiam para longe, espavoridos pelo estrondo!
Por detraz da ermida ficava uma alameda, e era da alameda que se gosava um panorama delicioso.
Ainda me parece que estou a ver de aqui os excellentes campos de milho já maduro, as searas do trigo douradas do sol, e em alguns campos, como o trigo viera temporão, e já tinha havido a sega, apparecia apenas a resteva; dos ramos dos ulmeiros, pendiam as vides d'enforcado, e, àquem e além, em alguma herdade de proprietario abastado, destacava-se da ramaria escura dos castanhaes as folhas de um verde tenro e alegre das latadas. Ao fundo, pelo corrego abaixo, seguia uma levada que ia mover ali perto as rodas de uma azenha.
No arraial alvejavam as tendas de lona, onde se vendia o vinho verde e o savel frito. Era ali que estava a grande animação!
--Beba um quartilho, tio José--offerecia um freguez.
--Pois venha de lá.
E então a peixeira, com os braços arremangados e farruscados da fritura, servia um coparrão de vinho espumante.
--Vae outro?
--Nada--accudia o tio José, enxugando os beiços ás costas da mão--nada; eu quero beber, mas a modos. Se um homem lhe bebe de mais, como o outro que diz acaba por beber o juizo.
Como havia missa cantada e sermão, ouvia-se cá fóra a musica do côro e o canto arrastado e nazal dos padres. Os devotos entravam e saiam constantemente. De uma vez, á porta lateral da sachristia que deitava para o adro, appareceu o sachristão vestido de batina escarlate com sobrepeliz franjada de rendas, a agitar o thuribulo de prata para atear mais o fogo do incenso! Não faltava nada!
Em meio d'aquelle povileo houve um movimento extraordinario! Os romeiros que estavam ao longe a admirar os musicos do palanque, acudiram tambem a ver o que se passava! Havia apertões, recuadas, empuxões e gritaria. Formaram-se de repente duas alas de povo, para abrir uma passagem respeitosa; e, n'isto, a berlinda da senhora morgada, que era a juiza da festa, appareceu então, tirada por dois cavallos possantes, com criados de libré, chapeus de tope e agaloados, rodando vagarosamente em direcção á porta da capella. N'esse momento solemne subiu ao ar uma girandola triumphante!
* * * * *
Quem nunca faltava á romaria de S. Torquato era a tia Custodia da Moita, que lá ia sempre com o homem e o netinho. Ninguem havia por aquelles arredores mais estimado e bemquisto. A sympathia que elles inspiravam vinha de serem muito amigos do proximo, tementes a Deus e ao mesmo tempo serem muito felizes!
Ora façam uma idéa do que elles soffreriam! Tinham tido uma unica filha, bonita moça, amiga dos paes; mas como era muito amoravel e não podesse ouvir chorar ninguem que não acudisse logo a consolar, deixou-se levar pelas lamurias d'um fidalgote de Braga e...
A innocencia, a bem dizer, se não é de todo cega, trata o amor de lhe vendar os olhos!
No fidalgo--são baldas certas!--ao cabo de um mez de apaixonados amorios, nunca mais ninguem lhe tornou a pôr a vista em cima. A desgraçada rapariga não teve mão em si, e confessou tudo á mãe. A velhinha chorava, que era uma dôr de coração ouvil-a.
--Vocemecê anda doente?--perguntavam-lhe as visinhas.
--Não ando lá muito boa, não.
--Vá ter com o cirurgião, tia Custodia.
--A doença que eu tenho, filha--oppunha ella--são paixões d'alma, e não se curam na botica!
Decorridos alguns mezes, a rapariga expirou, depois de ter deixado no collo da mãe uma creança recem-nascida.
Ora vejam! Desgraças que acontecem!
Vae para tres annos que o mez de Dezembro foi para este pobre paiz um mez de calamidades! Ainda toda a gente se recorda com magoa d'aqueles dias e noites tempestuosas, em que a chuva caia copiosa e torrencial, levantando os rios do seu leito, alagando os campos e destruindo as sementeiras! Na manhã seguinte a uma d'essas noites terriveis, doia o coração a quem fosse pelas aldeias e visse tantos estragos do temporal. Uns riachos, que no verão parecem uma fita d'agua, que serve apenas de bebedouro ao gado, tomaram taes proporções, era tão forte a sua corrente, que levavam adiante de si as rodas dos moinhos, os telheiros, as arvores, o gado, tudo! Era uma desolação completa! Á porta dos curraes ficavam os pastores toda a noite de guarda com receio de que as enxurradas lhes levassem os bois e os rebanhos. De dia, encontravam-se os lavradores á entrada dos campos, a contemplarem pesarosos tamanhas ruinas; e alguns, com os braços cruzados, meneando tristemente a cabeça, exclamavam, abatidos pelo infortunio:
--Ora ahi está tanto trabalho perdido!...
Depois da chuva e das trovoadas vinham então as lufadas asperrimas do norte. Parecia mesmo que era castigo! A ventania varejava impetuosamente nos ramos nús do arvoredo; e, se algum sobreiro mais valente, que se tinha arreigado mais á terra, tentava resistir, soprava de rijo um pé de vento, arrancava-o, como se lhe mettesse pela raiz uma pá de ferro e... derribava-o! Imagine-se o que succederia ás arvores mais tenras!
A tia Custodia da Moita trazia arrendada a quinta d'um proprietario do Porto. Assim que chegava o mez das colheitas, a Custodia ou o marido vestiam-se com o fato domingueiro e iam á cidade pagar a renda. E que se não dilatassem muito tempo: quando não, era logo uma carta do senhorio ameaçando-os de os pôr fóra. Morava elle na Reboleira, uma casa de apparencia ordinaria, com uma escada muito ingreme, suja e pouco allumiada. Os caseiros encontravam-o sempre a passeiar ao longo da sala, que deitava para o rio, com as mãos enfiadas nos bolsos d'um casacão de saragoça já velho e remendado. Até a Custodia dizia ás visinhas:
--Tão rico, o sr. Torres, e anda que nem um pobre de pedir!
O Torres era um celibatario, egoista, magro, esguio, nariz adunco, olhos pequeninos e vivos como os de uma ave de rapina!
Depois da invernia, a primeira vez que se chegou o mez da renda é que era vêr o Torres!
Entrou a tia Custodia, levando o netinho pela mão. Expoz ao senhorio a sua desgraça, pedindo-lhe que por essa vez lhe perdoasse ou diminuisse a renda.
--Adeus, minhas encommendas!--exclamava o avarento--De cantigas não como eu! Se vocemecê não quizer, não falta por lá quem me amanhe as terras.
Para encurtar razões, a pobre mulhersinha saccou da algibeira um embrulho, e entregou-o ao Torres. Eram dois pares de arrecadas e um grilhão de ouro.
--Só o cordão, meu senhor,--dizia a caseira--tem quatro moedas!
O Torres observou o ouro, sopesou-o na mão; e, fechando-o n'uma gaveta, disse:
--Pois bem! Quando me trouxer a renda, levará o penhor. Adeus! até ao verão.
Depois que a Custodia saiu, um visinho tendeiro dizia contristado:
--A pobre de Christo até ia a chorar; e o rapazinho de vêr chorar a avó, chorava tambem! Aquelle Torres, diabos o carreguem, é assim...
E mostrava a mão fechada, explicando:
--Um unhas de fome!
* * * * *
No anno seguinte não appareceu na romaria de S. Torquato a tia Custodia da Moita. Coitada! Como não queria confessar ao marido que tinha empenhado as arrecadas e o grilhão, fingiu-se doente, e não houve forças humanas que a tirassem de casa sem o seu ouro.
--Não que o seu homem--pensava a tia Custodia--se tal soubesse, e Jesus! era capaz de ir ter com o senhorio e fazer alguma desordem.
--O meu Joaquim?--accrescentava ella.--Boa! Tem sessenta e cinco annos; mas aquillo para armar uma bulha parece um rapaz!...
* * * * *
_Post-scriptum_.
Agora veja-se o bom e o bonito!
Ha poucos mezes os jornaes do Porto prantearam a morte do sr. Torres, capitalista abastado, _philantropo e respeitado por todos os conhecidos_.
Esqueceu a confirmação das victimas, a quem elle emprestava a 28 por cento!
Oh! mas era boa pessoa e caritativa, que até deixou o retrato á ordem do Terço e duzentos mil reis para missas de doze vintens pela sua alma!...
O ANACREONTE DE CANDEMIL
Ao declinar do dia, pela tortuosa vereda que ia dar á estrada, seguia vagarosamente o tio Ambrosio, que voltava dos campos, com a enxada ao hombro. Como áquella hora silenciosa estava o caminho deserto, ouvia-se-lhe de longe o bater compassado e sonoro dos tamancos nas pedras da calçada.
Logo adiante do carvalhal, e antes de chegar ao cruzeiro confinante ao adro, ficava a taberna. Eminente sobre a porta estava pendente o ramalho verde de loureiro, que a viração fresca da tarde agitava, raspando-o pelo cunhal da hombreira. Da frincha das portas mal cerradas sahia para a penumbra crepuscular exterior uma restea de luz amarella, que se estendia pela estrada até ao talude saibrento, que murava o caminho do outro lado.
O tio Ambrosio endireitou com a taberna, impelliu uma das portas, e entrou.
Dentro, abancados em torno da meza, estavam já os parceiros da bisca. A taberneira, matrona de papeira, seio farto e braços arremangados, assistia á conversa, sentada a um canto, com os cotovellos fincados no balcão. Junto d'ella dormia pachorrentamente um gato maltez, zebrado, encolhido sobre as patas, como um novello. Á entrada de Ambrosio o gato ergueu repentinamente a cabeça e abriu os olhos espantados; mas, depois, como a visita lhe não fosse estranha, foi deixando, pouco a pouco, descahir a cabeça, fechou os olhos, e permaneceu na mesma posição, a resonar.
Ao lado de cada freguez havia um copo de vinho; e a luz da candeia, pendurada em cima, refrangendo-se na superficie do vidro, projectava, em torno de cada copo, um circulo sanguineo.
* * * * *
O tio Ambrosio de Candemil levava a vida airada a cantar e a beber! Tinha já sessenta annos, cabellos brancos que nem uma estriga córada, voz tremula, nariz rubro e verrugoso; mas que lhe sahisse a desafio a cachopa mais palreira, que elle saltava logo:
/* Não sei que mal deu agora Nas uvas do parreiral; Faz-me cantar toda a noite, Como os melros do olival. */
E depois, com a jaqueta lançada ao hombro, o chapéo derrubado para a nuca, ainda o Ambrosio cantava e foliava, como um rapagão de vinte annos.
Em idade tenra e menos canceirosa, arraial em que elle não apparecesse, era como se faltasse o prégador em festa de romaria! Esperava-se por elle até ao fim. Espreitava um d'aqui, outro d'acolá; e, quando na azinhaga apparecia o chapéo de sol de paninho escarlate, era logo uma gritaria:
--Ahi chega o tio Ambrosio.
--Olha que tal elle vem!
E o guarda-sol oscillava de um e de outro lado, roçando pelos silvedos, como a vela de um navio que bordeja á tôa, perdido o rumo!
* * * * *
O tio Ambrosio entrára silencioso na taberna, accendeu um cigarro ao pavio da candeia, e encostou-se a vêr jogar. Um dos freguezes fallou-lhe em sentar-se.
--Hoje não--oppoz elle peremptoriamente.
--Só uma bisca, tio Ambrosio.
--Já disse--insistia elle, chupando o cigarro.--Nada; que eu bem sei como o jogo é. Uma comparação: é como quando um homem trepa acima d'uma cerejeira, que, em tirando por uma cereja, vem logo uma mão cheia d'ellas.
Os outros, que já lhe sabiam a balda, calavam-se. O silencio contrariava-o Precisava que insistissem, para assim desculpar a consciencia. Ao cabo de dez minutos, atirava fóra com a ponta do cigarro, e dizia:
--Com'assim vá lá. Mas só tres jogos, e arrumou.
Espevitava-se o morrão da candeia, cedia-se o logar respectivo, e então é que era vêr a partida.
O jogo corria silencioso até quasi ao fim; mas, depois, o tio Ambrosio, com as cartas abertas em leque na mão esquerda, e com uma carta levantada na outra mão, olhava de soslaio o adversario da direita, e principiava:
--Ora ponha-me aqui a bisca, ainda que lhe custe.
E batia com a carta sobre a meza de um modo triumphante.
O do lado jogava uma carta de trunfo. E o tio Ambrosio a tremer, irritado, com o punho cerrado suspenso sobre as cartas, supplicava ao jogador, que tinha defronte:
--Recorte, parceiro, recorte.
--Recorte--repetia o outro por entre dentes,--recorte o quê? olhe.
E jogava a bisca.
O Ambrosio, então bebia de um trago meio copo de vinho, e exclamava desesperado:
--As cartas teem o demo!
No fim perdia o jogo; e, como os adversarios renovavam o vinho, e elle enchia o copo que lhe pertencia, perdia o juizo.
Havia já muito tempo que lhe era difficil topar na terra um parceiro amigo para a sueca.
--Adeus!--diziam-lhe elles, encolhendo os hombros.--Quando você pega n'um baralho, até parece que lhe dá o trangulomangulo. Coisa assim!...
O vicio da jogatina passou-lhe ao cabo d'estes repelões; mas, por desgraça, foi procurando no copo a distracção que lhe faltava no baralho. D'ahi em diante, diga-se em abono da verdade, o tio Ambrosio só cantava e bebia.
_Canta que logo bebes_, diz o rifão.
Com o tio Ambrosio, porém, mudava o caso de figura. Bebia primeiro, bebia depois, bebia no fim; e desatava a cantar que nem um rouxinol.
Ora, depois d'isto, em que tenho a gloria de ser o Plutarcho d'este heroe, vejam se andei mal, chamando-lhe Anacreonte de Candemil.
A distancia que vae de Ambrosio a Anacreonte mede-se pela que vae do tamanco transmontano á sandalia grega, das cêpas tortas d'Amarante aos vinhaes racimosos de Chios, das faldas agrestes do Marão ás formosas marinhas da Jonia, _provincia das violetas_.
* * * * *
Pelos primeiros dias de maio, antes das festas do Espirito Santo, o céo estava sereno e azul, as arvores frondentes, e na ramaria dos bosques gorgeiavam os melros. Havia flôres nos prados, flôres nas encostas, flôres por toda a parte. A natureza enfeitava-se como noiva graciosa que se prepara alegre para o festim dos esponsaes.
Pois, quando havia tanta luz, tanta vida, tanto amôr, gorgeios pelos ninhos e rosas pelos silvados, era triste pensar que alguem estava para deixar a vida!
Logo de madrugada o sr. abbade atravessou da residencia para o adro, antes da primeira missa do dia. O sino principiou a dar o signal do Senhor fóra.
E d'ahi por alguns minutos, o Viatico seguia por um atalho, ao canto plangente do Bemdito, entoado em côro pelas mulheres, que caminhavam atraz, acompanhando o Sagrado.
O pallio parou á porta da casa em que morava o tio Ambrosio de Candemil.
Dentro, sobre uma arca de castanho, revestida com toalha de linho, estava um crucifixo ladeado de duas tocheiras de chumbo. A um canto da sala, o velho Ambrosio agonisava reclinado no espaldar do leito. Não tinha na face a alegria expansiva dos ultimos dias, em que cantarolava na taberna. Estava pallido, os olhos amortecidos, as faces descarnadas, a bocca enviezada de paralytico.
Foi confessado e sacramentado.
O abbade abeirou-se lentamente do enfermo, com o ciborio nas mãos. Preparou-o solemnemente para o trespasse.
Quando lhe ungia os labios com os santos oleos, murmurando as palavras do ritual:--_Per istam unctiouem indulgent tibi Dominus quid quid delinquisti per gustum_, o Ambrosio fincou os punhos na enxerga, ergueu-se com esforço e ancia, volveu os olhos em torno do leito, como quem desperta de um sonho, e inclinando-se para o abbade, perguntou-lhe com voz debil e convulsa:
--É vinho?
E descahiu lentamente para traz, com um sorriso de bemaventurado a radiar-lhe a fronte--como um justo que morre na esperança de encontrar na vida d'além-tumulo as adegas bem providas d'Amarante!
_Talis vita, finis ita_.
O ABANDONO DO MOINHO
Á porta da azenha estava o macho íntonso, preso pelo cabresto a uma argolla da parede.
Emquanto o não carregavam voltava melancolicamente a cabeça para o lado, estendia o pescoço lanudo, e ia tosando uma moita de silvas, que murava o atalho.
De entre o ruido trémulo da mó e o marulho da levada, caindo do cubo nas pennas do rodisio, em baixo, ouvia-se gritar lá dentro:
--Anda d'ahi, que são horas. Avia-te.
Depois, appareceu á porta o moleiro, com o chapéo enfarinhado caído para o hombro esquerdo, segurando no hombro direito o taleigo da fornada. Vinha ainda a gritar:
--Despacha-te, rapariga. Mexe-te, filha.
E atirou com o folle para cima da besta. A moça veio depois, e carregou-a com um folle do outro lado. Atiraram-lhe em seguida a cilha para cima; e o moleiro com o joelho fincado na barriga do macho, principiou a apertar a carga, torneando o arrocho com esforço.
--Prompto! Põe-te já a caminho, que eu não me delato, Therezinha.
Apenas se julgou fóra do alcance da vista do pae, que se deixou ficar á porta, com uma perna cruzada sobre a outra, o chapéo braguez derrubado para os olhos, a vel-a subir a encosta, a rapariga saltou para cima do macho, ageitou-se no meio dos taleigos, e continuou pelo atalho acima, a cantar:
/* Ao passar hoje no rio Vi nas aguas o teu rosto; Cuidei que ias na levada... Ai! coração que desgosto!
E ao vêr o teu rosto ali (O que são coisas do mundo!) Cuidei logo que uma estrella Tivesse cahido ao fundo. */
O moleiro voltou para dentro, a prover a moega de grão; enfiou depois a jaqueta de cotim axadrezado, calçou as sapatas ferradas, que tinha a um canto, fechou por fóra a porta da azenha, arrecadou a chave, e abalou na piugada da filha.
Assim que chegou a meio do atalho, cortou á esquerda por uma quelha pedregosa, atravessou por um carreiro, que costeava uma bouça; e, fincando as mãos no muro tosco de rebos, saltou de um pulo para o meio da estrada.
Corriam os primeiros dias de março.
Como tinha descampado, havia pouco tempo, os caminhos estavam lamacentos, sulcados pelas rodas dos carros; e nas terras baixas viam-se ainda as aguas da chuva empoçadas e cobertas de limo. O céo era de um azul crystalino, a atmosphera muito limpida; e, ao meio dia, quando o sol cahia d'alto nos prados, até parece que as rôxas previncas, as flôres amarellas do trevo e as margaridas, retraíam as corollas ao peso abafadiço do calor! Nos ramos folhudos dos carvalhos e dos pecegueiros, que já floreciam, os melros assobiavam alegres, e no fundo azul do firmamento destacavam-se duas borboletas brancas que voavam d'entre os silvados, subindo, subindo sempre, a tremer, n'um raio de sol doirado! Oh! era encantador!
O moleiro apenas escalou o muro tosco da bouça, parou um instante, collocando a mão sobre os olhos, como uma palla, para vêr se lobrigava a filha. A distancia de trinta metros a estrada volteava para a direita. Uma copada deveza de sobreiros, ao fundo, não o deixava enxergar para além. Por isso, foi continuando por ali fóra, apertando mais o passo, com os braços bamboleantes e a esbofar de calor.
D'um lado e d'outro, nos campos, fazia-se a lavoura. Duas juntas de bois castanhos, aguilhoados pelo lavrador, tiravam lentamente o arado, que ia levantando e revolvendo a leiva. Áquem e além, no declive do monte, d'entre a verdura tenra da enfesta, alvejavam as frontarias caiadas d'alguns casalejos, batidos do sol do meio dia. Era um calor de rachar!
D'um atalho, que ia dar á egreja, surgiu o sr. abbade montado na sua egua, oh! uma boa egua d'abbade, gorda, pacifica e mansa que nem uma ovelha. Sua reverencia vinha abrigado por um enorme guarda-sol de panninho azul, e o seu ventre redondo e farto oscillava pachorrentamente ao chouto pesado da cavalgadura.
--Ó José moleiro,--chamou elle com voz de papo.--Eh! homem! Tu vaes á cata dos francezes?
O moleiro descobriu-se respeitosamente, e, enxugando o suor da testa á manga da vestia, respondeu-lhe:
--Vou vêr se topo a minha Thereza, que foi levar a fornada da outra banda, a casa da morgada.
O abbade, do alto da egua, continuou:
--Vi-a hontem; e olha que está féra e bonita.
--Escorreitinha é ella, graças a Deus,--disse o José, seguindo ao lado o passo da cavalgadura.
--E é moça de tino,--proseguiu o padre circumspectamente,--mas tem-me cuidado n'ella, que olha o demo, José, quando as arma, escolhe sempre do melhor, ouviste?
Mais adiante, ao passarem por um quinchoso, a cujo muro estava debruçada uma rapariga esguedelhada, com os braços pendentes para fóra, perguntou-lhe o abbade:
--Que é de teu pae, ó cachópa?
--Está a trabalhar nas obras do rio, sr. abbade,--respondeu ella córando.
O abbade esporeou a egua, e disse para si:
--Elle é bem melhor ganhar o pão ao pé da porta, lá isso não tem duvida.
--Pois quant'é!--concordou o moleiro, acenando affirmativamente a cabeça.
E continuaram ambos pela estrada, até a uma cangosta, por onde o abbade metteu, deixando só o José moleiro.
O caminho agora descia, até ao rio, onde andavam as obras da ponte nova. Já de longe se avistavam os trabalhadores.
Havia ali um grande movimento de gente. Por entre o tronco nú dos salgueiros, viam-se já as primeiras pedras do arco, subindo pelo _simples_ de madeira, que se levantava d'uma á outra margem.
Uma fileira de mulheres e creanças passavam constantemente da draga do areial com cestos carregados á cabeça. Antes de chegar ao rio, a estrada apparecia toda coberta de cascalho, que reluzia á luz intensa do meio-dia.