Contos d'Aldeia

Part 4

Chapter 4 3,981 words Public domain Markdown

Já me pennujava o buço; e como tinha a vida menos canceirosa e o sangue na guelra, dei em frequentar os theatros e em lêr romances! Foi a minha perdição! Por um capricho da sorte, quasi todos os romances falavam de janotas que se perdiam de amor por actrizes. De uma vez até se me deparou um dialogo entre Alexandre Dumas e outro escriptor francez. Dizia assim:

--Parece incrivel, Alexandre, que em Pariz andem cincoenta rapazes doidos d'amor por actrizes.

--Parece incrivel--oppôz o Papá Dumas, que era peccadoraço vezeiro n'este particular--que haja cincoenta que o não estejam!

Vão lá dizer-nos que tudo aquillo é ficção!

A gente principia a lêr romances e tem logo vontade de realisar na vida o que elles nos referem. Todos queremos ser Antonys, Werthers, Camors, Armandos...

Nos bastidores do theatro Baquet levantei eu o altar para o sacrificio do meu coração. Principiei a entabolar relações com os actores comicos,--que a gente se persuade estão sempre a rir, e que, por via de regra, são os mais sorumbaticos cá por fóra,--depois com os tyrannos e os galãs. Era isto indispensavel a um noviço, que, mais tarde, tivesse de cahir apaixonado aos pés mimosos de qualquer actriz sentimental.

Eu então tinha gosto e geito para o namoro--diziam-me os amigos! E esta fama veio de me ouvirem improvisar um madrigal á mais gentil e talentosa actriz d'esse tempo.

Estava eu á porta do camarim do Dias, que tem um filho chamado Josué. Como durante o espectaculo a actriz não tivesse correspondido á impertinencia dos meus olhares frechados por um binoculo, quando ella passou, voltei-lhe as costas e não a cumprimentei. Vejam que despeito!

Chegou-se ella ao pequenito, acariciou-o, e disse-lhe, a sorrir:

--Tu não voltas a cara á gente, não Josué?

E fitou-me com ar insinuante.

--Este Josué--accudi eu, soprando uma espiral de fumo do charuto--parece-se agora com o Josué da Biblia.

--Porquê?--perguntou Dias.

--Faz parar o sol!

Explendido!

D'ahi por diante, uns sujeitos que hoje são mais felizes e mais tolos do que eu, vinham pedir-me phrases para elles improvisarem á passagem das requestadas.

Chegou de uma vez, em meado de abril, uma companhia de zarzuella.

Ás primeiras damas não falava eu. Qual! Essas, via-as eu passar pelo braço d'uns figurões de bigodes espessos e suissas grisalhas, cabellos lustrosos puxados para as temporas, com ares serios e graves de diplomatas.

Eu só conhecia as comparsas, as que faziam de soldados rasos na _Marina_, de nymphas no _Joven Telemaco_, de camponezas na _Catalina_, e que no _Relampago_ dançavam o tango, vestidas d'encarnado, com os rostos farruscados a fingirem pretos!

D'entre ellas havia uma, a Consuelo, que era muito formosa, muito elegante, e que eu preferia ás outras. Ainda me parece que a vejo, quando ella passava no meio dos adoradôres, saracoteando os quadris, o peito ancho, o tronco descahido para traz, na cintura, e a cabeça levantada e oscillante, como a cabeça esbelta d'um cavallo andaluz. Tinha os olhos pretos, humidos e azougados, que é como o povo diz d'uns olhos que teem a sclerotica levemente azulada, os labios côr de cereja, um pescôço de garça, como o dos retratos da Marie Antoinette, e um pé tão pequenino, gracioso e arqueado, que inspirava desejos de lhe dizer com o nosso Padre Manoel Bernardes: «Dá-me limpeza grande nos meus labios para calçar teus pésinhos de mil osculos santos!»

Ás vezes, tinha momentos de uma tal melancolia, de tão profunda magua, que me deu vontade de lhe saber a causa. Encontrei-a uma noite de beneficio, sósinha, a cantar a meia voz esta seguidilha:

En un ameno bosque Mi niña duerme, Cuidado, pajarillos, No se despierte. Decid al viento Que mientras ella duerme, Que sople quedo.

E ficou depois muito triste, encostada á porta do camarim, com os olhos fitos no bico de gaz, que se abria trémulo como o leque febril d'uma hespanhola. Tanto indaguei e com tão sincera simpathia o motivo d'aquella tristeza, que cheguei a sabel-o um dia.

Coitadinha! Consuelo era filha d'uns saltimbancos. A mãe--que já tinha morrido--dançava na corda bamba, o pae fazia jogos malabares, prestidigitação, sabia lêr a _buena-dicha_ e era um tenor excellente em barracões de feira. Uma irmãsita mais nova, a Conchita--oh! que linda!--essa dançava boleros e fandangos, no meio das praças publicas, sobre um tapete esfarrapado, ao som de um tambôr, que o pae rufava para attrahir a multidão.

A Consuelo, com as mãos fincadas nos quadris, a cabeça levantada, e a sorrir, cantava malagueñas, emquanto o pae agitava uma pandeireta byscaia com soalhas de latão!

Como era bonita não lhe faltavam galanteios e bravos.

--_Alza_--_Olé! olé!_ gritavam os espectadores, batendo as palmas--_Alza_, Consuelo!

Logo depois que a mãe morreu, principiou a ir lá por casa, emquanto o saltimbanco estava na taberna, uma velha esqualida a induzir a Consuelo que fugisse ao pae e que fosse para uma companhia de zarzuella, que um emprezario rico ia organizar. Tanto a velha lhe prégou, e sempre com prendas, com ramos de violetas e _Que guapa que és_! _Caramba_! _que serás feliz_! que a pobre rapariga, uma fria manhã de nevoeiro, levantou-se da cama, foi, pé ante pé, beijar a Conchita, que ainda dormia, e fugiu!

Vejam que desgraça!

Afinal, de terra em terra, de desillusão em desillusão, sem um raio benefico de esperança, que lhe fulgurasse na negrura da sorte, veio a Consuelo parar a Portugal!

--Hoje--disse-me ella--não me contentava o oiro, nem as palmas, nem nada! Trocaria tudo, por vêr meu pae e a minha Conchita!

E a voz trémula embargou-se-lhe na garganta suffocada pelas lagrimas!

--Mas que canção é essa que a faz entristecer?--perguntei eu.

Era uma canção popular, com que a mãe da Consuelo embalava nos braços a Conchita, quando era ainda muito pequenina:

En un ameno bosque Mi niña duerme, Cuidado, pajarillos, No se despierte.

Antes tres dias de partir a companhia para Sevilha, eu e uns amígos offerecemos a Consuelo um jantar, no campo, debaixo d'uma ramada.

Era pelos ultimos dias de maio.

Tinhamos partido de madrugada, emquanto as gottas do orvalho tremeluziam nas encostas floridas, para fugirmos ao calôr intenso do meio-dia.

A verdura tenra dos prados ondulava serenamente á mercê da viração fresca da manhã.

Quando a estrada costeava o sopé d'uma colina, nós saltavamos da carruagem e seguiamos então a pé, cortando a eito pelos atalhos, atravessando por meio de campos de milho e de extensos trigaes, abrigados pela sombra das carvalheiras, onde chilreavam os pintasilgos e rouxinoes.

Ás portas dos curraes encontravamos ainda as vaccas sahindo pausadamente para o pascigo. Na residencia do sr. abbade via-se o muro do passal coberto de trepadeiras; e por baixo do peitoril d'uma janella, n'uma gaiola de canna pendurada na parede, assobiava um melro.

Consuelo ia encantada!

O ar fresco, puro e sadio do campo abria-lhe appetites selvagens e contraditorios.

Ás vezes desejava ser como o boi manso, que vae pastando tranquillamente, n'um bosque, á beira d'agua corredia; outras, então, queria antes ser como a pôtra que se avistava, ao longe, n'um extenso prado, correndo, com as crinas esparsas, aos pulos, sobre os giestaes floridos!

Ao passar pelos silvados, Consuelo colhia as amoras maduras, e comi-as com soffreguidão.

Ao cabo de um quarto de hora de caminhada, avistou Consuelo, no fundo d'uma ladeira, que descia para um pomar, uma cerejeira carregada de fructo.

--Cerejas!--exclamou ella.--Ai! eu quero cerejas!

Descemos todos ao pomar; e então eu, que era o mais aldeão, trepei pela arvore acima, até aos ramos mais altos.

Consuelo ficou em baixo para aparar as cerejas. Os primeiros dois pés que eu lhe lancei, collocou-os ella sobre o pavilhão dos ouvidos, como dois brincos. Ficavam-lhe como duas contas enormes de coral! Em seguida apanhou na ponta dos dedos a roda do vestido, á frente, e disse-me que atirasse para ali as cerejas que fosse colhendo.

--Lá vae, Consuelo!--gritava eu de cima!

--Venham--dizia ella.

E, fechando os olhos, retezava e repuxava o vestido para as aparar ali todas.

Já Consuelo tinha uma bôa regaçada, quando, de repente, ouvimos, ao longe, uma voz trémula, que cantava assim:

En un ameno bosque Mi niña duerme; Cuidado, pajarillos, No se despierte.

Consuelo foi deixando, pouco a pouco e quasi insensivelmente, cahir o vestido, cahir as cerejas, cahir os braços; e ficou a olhar para mim, com a cabeça erguida, na immobilidade de uma estatua.

Eu, que estava nos ultimos galhos da arvore, em ponto eminente, ainda pude alcançar a estrada.

E vi, então, sahir d'uma taberna, que se abria, uma companhia de saltimbancos.

Ia atraz um velho, vestido de malha, com lentejoulas, que relusiam ao sol. Levava, pela mão, uma pequenita, com uma saia curta de cambraia muito suja e remendada. O saltimbanco caminhava devagar, com a cabeça descahida para o peito, os olhos no chão, a cantarolar:

/* Cuidado, pajarillos, No se despierte... */

Depois, quando desci os olhos para a Consuelo, que permanecia em baixo, como estarrecida, vi-lhe á flôr das palpebras duas lagrimas enormes, que tremiam, como duas gottas d'orvalho nas pétalas d'uma rosa!

O JANTAR DO NATAL

Até a natureza se enfeita para festejar tambem o Natal do Deus-Menino!

Ao meio dia, quando o sol parece estacionar no zenith, como um viajante que pára no viso de uma montanha, para resfolegar da caminhada, estava o firmamento azul, de uma limpidez crystalina, tépido o ar, e d'entre as flôres silvestres dos prados e das encostas ascendia uma tenue vaporisação, como se a terra fosse um enorme thuribulo a incensar para o céo!

As vaccas descançavam nos curraes, os rebanhos nos redis; e, á sombra das arribanas, viam-se os carros com os cabeçalhos caídos, os arados com as rabiças por terra, e as cangas, os ensinhos, todo o utensilio da lavoura deposto a um canto, como armas valentes do trabalho nas feriadas e alegres horas do descanço.

As moças iam colher arregaçadas de violetas e rosas para inflorar o presépe. Nas cosinhas andava tudo n'uma roda viva! Tirava-se da arca a melhor toalha de linho, a melhor louça da copa, e punha-se na mesa que nem um palmito! Até o balaio do pão estava aberto e franco; porque não havia de haver pobresinho que fosse da porta sem a consoada!

E o presépe? Aquillo podia-se ver! Á frente, deitado sobre as palhas de um estabulo, via-se o Menino, de barriga para o ar, nusinho em pellote, a sorrir para Nossa Senhora, que o contemplava, de joelhos, com o radiante jubilo das mães. Da outra banda estava S. José com a enxó e o martello de carpinteiro postos ao lado. Mais atraz, uma vacca malhada fitava no Infante os seus grandes olhos redondos; e um jumento lanzudo, de orelha empinada, aproximava cubiçosamente o focinho, dilatando as ventas ao cheiro fresco da palha. Pelos atalhos da encosta, desciam á frente das bailadeiras, os pastores de Bethlem, um a soprar na gaita de folles, outro a rufar no tambor, outro a bater as castanholas. No cabeço do monte, appareciam já os tres reis magos, S. Balthazar, S. Belchior, que é o rei preto, e S. Gaspar; e todos elles cobertos de capas de arminho, com as corôas reluzentes, e montados em cavalos baios e russos, ajaezados de ouro e pedrarias. No cimo de tudo, entre nuvens, surgia uma pomba branca, de cujo bico côr de rosa se espargiam raios de luz celestial, que vinham aureolar o berço do Deus Menino! Era uma coisa rica!

Em volta do presépe, a pequenada cantava alegremente:

/* Ó Infante suavissimo Vinde, vinde já ao mundo... */

E interrompiam o cantico para correrem á porta a ouvir as raparigas da visinhança, que entoavam em côro:

/* Vimos dar as boas festas Á senhora morgada E pedir-lhe que nos mande Já a nossa consoada. */

Pois não? Lá entra aquella tropa fandanga na cosinha para ajudar a fazer os mexidos e a apurar as rabanadas com mel e vinho quente! Uma folia, que era mesmo um regalo ver!

Antes de se ir para a mesa, contaram-se os convivas; que não fosse chegar-se ao numero treze, e não houvesse mais alguem! Crédo! O numero treze é numero aziago! Estando treze pessoas ao jantar, no praso de um anno, tem de morrer uma. E deixem lá fallar quem falla, e quem diz que são historias! Até Alphonse Karr confessa que não gosta de jantar em mesa de treze pessoas!

--Tambem esse?--pergunta circumspectamente a sr.^a morgada, sem ter o gosto de o conhecer.

--Podéra, minha senhora!

--Então, vá vendo!

--Mas--atalha o sceptico--diz que não gosta de estar á mesa de treze pessoas, quando o jantar chega só para doze.

--Ah!--exclamou a companhia--olha o démo do homem!

Quando todos procuravam o seu logar respectivo, exclamou alguem:

--E o tio Simão?

--Ai! que falta o tio Simão!

E cada um se desculpava com o proximo.

--Esta gente traz a cabeça a juros!--exclama a senhora.

--Já viram? Ir-se jantar sem o velhinho!

--Quem chega aos açudes chamar pelo Simão?

--Vou eu.

--Eu vou.

--Eu tambem.

Afinal, vae tudo.

As raparigas ergueram-se todas de uma vez e deitaram a correr! Parecia mesmo uma revoada de pombas mansas, que ouvissem estoirar ali perto um tiro de espingarda! Fugiu tudo!

* * * * *

Morava o tio Simão da outra banda do rio. Tinha uma casita de telha vã, com o seu palminho de terra plantado de horta. Contava 75 annos, mas rijos, e tão rijos, que o deixavam ainda atravessar as poldras, todos os domingos, quando vinha jantar a casa da sr.^a morgada. Fôra elle casado, e tivera tres filhos; mas chamou Deus a si os tres filhos e a mulher, e deixou-o sósinho n'este mundo, a viver da caridade dos seus bemfeitores.

De uma vez que estava sentado ao sol, que--como diz o outro--é a roupa dos pobres, viu aproximar-se um cão amarello, pequeno, feio, rabudo, com duas malhas na cabeça. O Simão atirou-lhe pão; e, tanto que lhe foi dando de comer, conservou-se o cãosito junto d'elle. Depois já ninguem o retirava dos pés do seu bemfeitor.

Para quem vive sem companhia vejam lá que alegrão é encontrar junto de si um pequenino animal, que nos vê com olhos cheios de desinteressado carinho! Ficou o cãosito sendo o companheiro do tio Simão. Como viesse sem nome, que é como apparecem os engeitados, o tio Simão baptisou-o.

--Fiel!--exclamou elle--Fiel, anda aqui.

E aproximava-se o Fiel do velhinho, com a obediencia affectuosa de um filho amado. Para onde fosse o Simão ia o Fiel.

Assim que o sol lhe bateu no postigo--que era ao meio dia que tinha logar a visita--o Simão enfiou a jaqueta melhor que tinha, pegou no cajado a que se arrimava, chamou pelo Fiel, deu volta á chave e encaminhou-se para a residencia da morgada. Quando ia a poisar o pé na primeira pedra, viu o Fiel, que ia na frente, resvalar na pedra escorregadia, e cair ao rio!

O Simão recuou cheio de susto, de afflicção, com as mãos postas em supplica. O cão principiou a nadar para o seu dono; mas ia tão grossa a levada, que o não deixava vencer a corrente. Depois de muito esforço, conseguiu afinal abordar; mas todo alagado, a tremer, a ganir, com o corpinho coberto das contusões, que tinha recebido do embate das pedras.

--Anda, Fiel, anda, meu filho--dizia o pobre velho a chorar.

Tomou o cãosito nos braços, achegou-o do seio, e desandou para casa. No caminho ia dizendo:

--É o mesmo! Farei eu o caldito, que ha-de chegar para nós ambos!

* * * * *

As raparigas, que tinham saído da casa da sr.^a morgada, iam já perto do sinceiral do rio, e não tinham ainda visto o Simão. Desceram por uma vereda; e, quando chegaram á margem, gritaram algumas:

--Ó tio Simão! eh! tio Simão!

Ninguem lhe respondeu.

--Vamos topal-o em casa--propoz a mais expedita.

Arregaçaram as saias; e, pé aqui, pé ali, atravessaram cautelosamente para a outra banda.

Ao chegarem a casa do tio Simão, aldrabaram á porta; e a que bateu não ouvindo o ladrido do cão, exclamou para as companheiras:

--Querem vocês ver que o tio Simão já foi? O Fiel não dá signal!

Ao cabo de um instante, porém, appareceu o velhinho a abrir-lhes a porta. E Jesus! que gritaria! Fallavam todas a um tempo, e ninguem as entendia.

--Aposto que estava a ajanotar-se!--dizia uma.

--Ora, já viram? acudia outra. Como vae para o meio das moças, o tio Simão enfeitou-se que nem um altar-mór!

--Hoje deita os rapazes todos a um canto! Olha, véstia nova, hein?!

E emquanto lhe diziam isto, uma ageitava-lhe a gola da jaqueta, outra laçava-lhe o lenço do pescoço!...

Quando conseguiu que ellas o ouvissem, o velhinho respondeu:

--Digam vocês á sr.^a morgada que hoje não vou lá.

--Como não vae, tio Simão? Dia de Natal e não ha-de ir? Isso tem lá logar!...

Elle então contou-lhes o que tinha havido.

--Ora, adeus. O Fiel o mais que tem é nada! É um mimalho, é o que elle é. Deixe que eu lá vou.

Entraram todas para ver o que tinha o Fiel. O cão estava deitado na enxerga do Simão, abafado com o cobertor da cama, a tremer.

Uma das raparigas tirou-o para fóra, enxugou-lhe o pello com geitoso carinho, embrulhou-o no avental e disse:

--Eu levo-o comigo, coitadinho!

Na lareira já cantava a panella, que estava sobre quatro achas accezas.

O tio Simão, que assistia a tudo aquillo com lagrimas nos olhos, disse:

--Deus vos pague no céo, minhas filhas, os beneficios que fazeis a este pobre velho.

Tornou a pegar no cajado, que tinha ao canto, e foi com as raparigas. Como elle ia alegre, direito, valente no meio d'ellas!

Os visinhos diziam-lhe:

--Ó Simão, deram comtigo as moças, estás arranjado!

E elle fartava-se de rir como um perdido!

Outros, quando viram o Fiel no collo da moça, perguntaram com malicia:

--Ó menina, onde é o baptisado?

* * * * *

Ao cair da tarde, o velhinho voltou para casa. Vinha vermelho, e caminhava depressa, aprumado, como um rapaz. Como até vinha a cantarolar pelo caminho:

/* Eu entro já na lapinha Pois me não posso conter, Porque a sua formosura Me enche de gosto e prazer. */

Um visinho que o viu passar, disse comsigo:

--Hoje o Simão leva o seu grãosito na aza!

Á frente, o Fiel, ia seguindo pela estrada, voltando-se constantemente para traz, com medo de que o dono lhe fugisse, e se deixasse ficar com as raparigas!

E, então, o Fiel ia tão alegre, tão bom, tão esquecido do banho, que até já ladrava ás pernas dos transeuntes! Era um tiranno!

VINHOS E AGUAS-ARDENTES

Quando entrei no cemiterio, lobriguei, ao fundo, por entre a rama de alguns cyprestes, que orlavam as ruas transversaes, o coveiro a levantar as ultimas pazadas de terra de uma valla.

O homem cantarolava assim:

/* Menina, que está á janella, A lançar goivos á rua... */

E, depois, agachado no cairel, media com o cabo da enxada a profundidade da cova, proseguindo alegremente:

/* Se o coveiro aqui passa, Vae pôr-lh'os na sepultura. */

Metteu a pá da enxada na leiva de terra, que lhe ficava ao lado, transpoz o comoro de outras sepulturas, e parou junto de um esquife pobre, de pau, sem fôrro, com os symbolos da morte pintados d'amarello.

Arrastou-o com esforço para a bôca da valla, escancarou as tampas; e, ao dar com o rosto do cadaver, exclamou de si para si:

--Ora espera! Eu conheço esta rapariga!

Entreabriu os labios com a unha do dedo polegar, concentrou-se um instante a meditar com os olhos fechados; e, por fim, continuou compadecido:

--Ah! És a Rosita do tecelão!

Á medida que retirava com geitosa piedade o cadaver do esquife, lamentava:

--Pobre rapariga! Eu logo vi que te não delatavas atraz da filha!

Depois, o resto foi rapido e breve.

Baldeou o cadaver ao fundo da cova, lançou-lhe por cima a terra que tinha levantado, recalcou bem com os pés juntos os ultimos torrões, e retirou-se para casa, com a enxada ao hombro!

* * * * *

Ahi vae lêr-se a historia d'essa mulher. A sua vida é a vida trivial de muitas desgraçadas.

Quando tinha apenas desoito annos, Rosa chorou as primeiras lagrimas do coração retalhado sobre o cadaver da mãe, que lhe expirou nos braços.

Ficava sósinha no mundo, a viver pobremente do seu trabalho honesto e incessante, sem uma voz consoladora que a alentasse a arrostar todas as adversidades, que a sorte lhe havia de deparar.

O grande perigo estava-lhe na peregrina formosura do rosto e na innocencia do coração, que é a formosura da alma.

Um dia o Benjamim tecelão, um rapaz alegre e bem parecido, que de ha muito lhe arrentava a porta, disse-lhe que a amava; e, para justificar a sua declaração, propoz-lhe com voz trémula a sua mão d'esposo. Mentiu-lhe.

Ao cabo de onze mezes, durante os quaes o tecelão ia inventando embargos á realisação da sua promessa, a pobre rapariga deu á luz uma filha. As primeiras alegrias da mãe deram tréguas ao sofrimento do coração ludibriado. A filha chamava-se Isabel, que era o nome da mãe de Rosa.

Depois, quando as lagrimas lhe rebentavam copiosas, Rosa tomava a creancinha nos braços, e um sorriso d'ella era-lhe um grato refrigerio para as amarguras da vida.

O operario entendeu que a filha era um vinculo mais apertado do que a estola d'um sacerdote. Propoz a vida em commum. Rosa accedeu de prompto, fiada em que o amor de pae talvez despertasse na consciencia de Benjamim a ideia do casamento, que a rehabilitasse.

O tecelão, vendo que o trabalho de Rosa bastava ás despezas da casa, deixou-se ficar uma semana sem ir á fabrica. Quando a ociosidade lhe era tediosa, ia procurar distracção na taberna mais proxima. Voltou de novo ao trabalho; mas o seu producto dispendia-o comsigo e com os amigos, ás mesas das tabernas e ás bancas do jogo, esquecendo-se de Rosa e da filha. Aconteceu Rosa adoecer da muita fadiga, e pedir algum dinheiro a Benjamim. Não teve elle coragem de lh'o negar; mas entregou-lh'o de um modo tão aspero, que offendeu o coração da desventurada mãe.

Foi ahi que principiou o calvario de Rosa!

Benjamim entrava em casa, por altas horas da noite, cambaleante e obsceno. Atirava quantos insultos lhe lembravam ao rosto da rapariga. Rosa amparava-o com brandura, soffria-lhe os escarneos com a mais santa resignação, auxiliava-o a deitar-se; e, depois, quando Benjamim, com os cabellos em desalinho, o rosto descórado, resomnava, prostrado com o peso da embriaguez, ella quedava-se a contemplal-o, com as faces cobertas de lagrimas.

O viço da sua formosura ia pouco a pouco desapparecendo. Já não tinha o mesmo brilho nos olhos, o mesmo setim na cutis, a mesma ondulação nos contornos do rosto. As lagrimas deixavam um vestigio indelevel da sua passagem, e Rosa envelhecia e esfeiava.

Benjamim, ao accordar do dia seguinte ao da embriaguez, sentia-se enfastiado da presença d'aquella _velha_, e sahia de casa sem lhe dirigir uma palavra de gratidão e carinho!

De uma vez--tinha Isabel sete annos--o tecelão chegou a casa n'um estado lastimoso. Dois amigos e consocios de taberna levaram-no nos braços, até á porta. Benjamim subiu a custo os degraus ingremes da escada; abriu de repellão a porta da sala, e appareceu hediondo, a tremer, com os olhos injectados, os labios convulsos, os cabellos empastados de um suor viscôso. Fez um esforço para se aproximar de Rosa. Estendeu os braços para se arrimar á parede; abriu as pernas para conservar o equilibrio; e, ao arriscar vacillante o primeiro passo, cahiu de bruços, com todo o peso do corpo, sobre o pavimento!

Isabel, que já dormia, acordou sobresaltada com o estrondo da quéda, e principiou a gritar de medo! Benjamim ergueu-se de golpe, dirigiu-se á enxerga, em que dormia a filha e espancou brutalmente a pobre creança, que emmudeceu de terror aos primeiros tratos. Accudiu Rosa, implorando com altos brados a Benjamim que perdoasse á filha; mas o bebado respondia ás supplicas da mãe com pancadas e empuxões.

Ao outro dia, a Isabel tinha o corpinho tão macerado, que mal se podia remover da cama. Rosa levantou-a carinhosamente nos braços, agasalhou-a n'umas saias de baeta, e, logo que o tecelão sahiu de casa, foi com a filha ao hospital da Misericordia. O facultativo, que observou a creança, viu, atravez das lagrimas da mãe, a causa d'aquellas contusões. A pequenita estava muito doente.