Part 3
Chegou a primeira carta a Izabellinha decorridos tres mezes da partida do rapaz. Foi um alegrão que os paes tiveram! A carta era escripta em papel paquete, muito fino, pautado; e até como os portos do Brazil estavam suspeitos de febre amarella, vinha o papel todo golpeado. Foi lida a carta pelo Bento do correio, foi lida pelo boticario, foi lida pelo snr. cura, antes de ser delida pelo calôr do seio da mãe, que a guardava junto do coração, como reliquia; e, de cada vez que ella ouvia as palavras do filho, era um chorar copioso, que retalhava o coração. O brazileiro da Granja, que indusira o rapaz a embarcar, esse sorria-se, e consolava-a d'este modo:
--Deixe lá, tia Anna! Ali é que um home se faz gente. Está aqui, está um brazilêro como a mim. Lhi garanto, tia Anna, que o rapaz se tiver tento na boia, hem? arranja pátácária gorda, e, em pouco tempo, átiça baixella em casa.
Nenhumas d'estas consoladoras esperanças, nem até a de _átiçar baixella em casa_, leniam as saudades d'aquelle coração attribulado da tia Anna.
--Ora!--oppunha ella com a voz nazal e soluçante de quem suspende as lagrimas para falar.--Em um homem tendo saude e a graça de Nosso Senhor, em toda a parte do mundo é Brazil! Riquezas são o demonio.
--Não diga pátácuádas, mulher--contestava o brazileiro azedo e carrancudo--não diga pátácuádas.
Depois, passados mais annos, á proporção que as saudades da aldeia se desvaneciam no animo do rapaz, as cartas iam rareando.
De quatro em quatro mezes escrevia para a terra, dizendo que o trabalho lhe roubava o tempo de o fazer amiudadas vezes. Que não tivessem cuidado, que ia bem de saude e que esperava ser feliz em poucos annos.
A tia Anna, quando não tinha carta no correio, ia da Izabellinha a Braga, a pé, entrava no Carmo, ajoelhava á beira da campa do milagroso Frei Joãosinho da Neiva; e, com as mãos postas em supplica junto da bocca, implorava com ancioso fervor pela saude e prosperidade do filho ausente. Ao passar pela caixa das esmollas, á entrada da egreja, lançava algum dinheiro no gazufilacio. Pedia a Nossa Senhora da Conceição dos Congregados pelo filho do seu coração. Entrava em Santa Cruz, ajoelhava em frente do altar do Senhor dos Passos, e rezava uma estação e um rozario com as faces de rojos; subia a beijar os pés da sagrada imagem; e benzendo-se tres vezes com a corda d'esparto puido e lustrosa, que cingia a tunica do Senhor, retirava-se ás recuadas, rezando a meia-voz, até sahir do templo!
* * * * *
Seis mezes antes do manco annunciar á tia Anna que tinha chegado o correio, recebeu ella uma carta do filho, dando-lhe parte de que ia casar com menina rica, de nascimento--dizia elle--prendada. Queria o retrato dos paes, e enviava-lhes dez moedas para as despezas necessarias.
Quando isto constou na Izabellinha, houve geral regosijo.
--Eu não lhe dizia, tia Anna--lembrava-lhe uma visinha.--Se eu logo vi! Aquelle seu Joaquim nunca me enganou. Eu futurei aquillo!
--Pois isso bastava uma pessoa olhar para elle--acudia outra, aleitando um filhinho gordo, que tinha no regaço--Aquelle ôlho d'elle, lembra-se, tia Josepha?
--Pois não alembra? O rapaz era fino, que nem um alho! Se aquelle não se arranjava por lá, então--bôa te vae!--não sei o que ha-de ser d'outros que foram depois. Olhe vocemecê, tia Anna, aquelle filho da moleira, o zerôlho; aquillo é um morcão, que não serve para nada.
A tia Anna, sem attentar no confronto, que lhe realçava as qualidades do filho, ria e chorava simultaneamente. E não se sabia dizer se aquellas lagrimas serenas illuminavam o sorriso, se o sorriso mais entristecia as lagrimas!
Dois dias depois da recepção da carta, resolveram-se, ella e o marido, a ir a Braga para tirarem o retrato. Vestiram-se com a melhor roupa domingueira, que servia para a romaria do Espirito Santo, no Bom Jesus do Monte. Ella ia toda sécia de saia escura de serguilha, com tomado e muitas pregas miudas no coz, collete de chita amarella salpicada de florinhas verdes, camisa branca de linho com mangas enfunadas e abotoadas no pulso, meias finas, e sóquinhas de panno azul com ponteiras de verniz.
Atou na cabeça um lenço branco de cambraia bordado, lançou aos hombros o capotilho novo de baeta escarlate debruado de fita larga de velludo preto com as pontas cahidas á frente, até á cintura, e tomou na mão enrugada e secca um lenço engommado de franja e entremeios de renda.
O marido enfiou as melhores calças de panno, avincadas, com abertura em baixo a apolainarem o tamanco, collete de fostão amarello com duas ordens de botões de vidro, niza azul de abas curtas, golla alta, botões amarellos, as mangas justas de canhão até á raiz dos dedos, e collarinho muito engommado e teso apontado ao lóbo das orelhas.
Poz na cabeça chapéo de feltro de copa afunilada, e sobraçou o guarda sol de panninho escarlate com espigão de metal lustroso e um cabo de ôsso representando um punho, toscamente esculpido nos torneiros da Bainharia do Porto.
Atravessaram assim o Arco da cidade em Braga; e seguiram pelo meio da rua do Souto, um ao lado do outro, radiantes, em busca do retratista.
Adiante da galeria do paço episcopal, deparou-se-lhes pendurado na humbreira de uma porta um quadro grande de caixilho doirado com muitas photographias em exhibição.
Perguntaram na loja de pannos, que havia ao lado, onde se tiravam os retratos; e, devidamente encaminhados, subiram ao segundo andar, onde ficava o _atelier_.
O photographo retratou-os em grupo, um junto do outro, ambos de pé, o marido com a mão direita espalmada assente sobre a espadoa descahida da mulher.
Ficaram com as cabeças muíto levantadas, os olhos arregalados e espantadiços, os beiços franzidos, os membros hirtos e constrangidos, n'uma attitude lôrpa, grotesca e ridicula!
* * * * *
Logo que o manco partiu, a tia Anna seguiu-lhe no encalço para procurar carta do filho.
No dia em que chegava a mala do Brazil, iam as mulheres da Izabellinha pedir ao Thomé boticario, que deixasse ir o filho ao correio para lhes lêr as cartas.
Se não havia freguezes a aviar, o pae mandava-o, e o Andrésinho partia alegre, porque gostava da brincadeira.
Era lindo vêr aquelle quadro!
O rapaz sentava-se no espigão d'um muro baixo, á sombra d'um sobreiro. Em volta d'elle, mulheres e homens apinhados, com as bôccas abertas, escutavam-no com religioso silencio.
O filho do boticario ia lendo uma por uma, muito vagarosamente, as cartas que lhe entregavam.
Não havia segredos para ninguem.
Como o rapaz lia d'alto e bom som ouviam todos as cartas uns dos outros, como se fossem uma só familia. E alguma noticia triste ou noticia alegre era egualmente sentida e commentada por todo o auditorio.
A tia Anna, como já lhe custava a andar, chegava no fim de todas.
Cediam-lhe logo passagem.
--Deixae, que eu tenho tempo--dizia ella, com a carta do filho apertada na mão.
Por fim, chegou-lhe a sua vez.
O filho accusava a recepção dos retratos, mas dizia que não tinha gostado. A tia Anna entristeceu.
A carta proseguia no mesmo assumpto e terminava assim:
«Vão vocemecês a casa do meu correspondente, os srs. Nogueira & Sá, da rua das Flôres, e perguntem pelo meu amigo e socio Joaquim da Silva Ferreira, que lhes dará as instrucções precisas».
O André, depois de lêr, explicava sempre:
--Percebeu, tia Anna? Quer que vocemecê e o seu homem vão ao Porto, á rua das Flôres, a casa dos srs. (e recorria á carta), dos srs... Nogueira & Sá, e lá procurem o sr..., o sr... (recorria de novo ao papel) Joaquim Ferreira da Silva, que, pelos modos, vem a ser o socio do seu José. Percebeu?
--Percebi, percebi.
--Pois é o que teem a fazer; e adeusinho, até outra vez.
O rapaz restituiu a carta; e, como não havia mais ninguem por ali, saltou do muro, e voltou para a botica.
* * * * *
Na loja de ferragens da firma commercial Nogueira & Sá, estavam, havia cerca de uma hora, a tia Anna da Izabellinha e o marido á espera do socio do filho, que os mandára esperar ali.
Era meio-dia, quando o brazileiro entrou.
O patrão Nogueira apresentou-os ao recem-chegado. A tia Anna e o homem levantaram-se humildes, com os braços cahidos, conturbados d'acanhamento.
--Então são vocemecês os paes do meu socio, hein?
--Saiba v. s.^a que sim--responderam ambos em côro.
--Pois por muitos annos, e bons--disse-lhes o brazileiro.
Tirou da algibeira do collete branco um relogio d'oiro, viu as horas, e voltando-se para o Nogueira:
--São horas. Tem lá cima tudo preparado, hein?
--Está tudo prompto--respondeu o ferragista.
O Silva voltou-se para os lavradores, e disse-lhes:
--Subam lá cima com este senhor, que eu espero-os aqui. Não si démorem, hein?
A tia Anna seguida do homem subiram a uma sala do primeiro andar. Sobre um canapé de palhinha estava estendido um casaco preto, um par de calças, um par de botas e um chapéo alto de seda. Ao lado havia um vestido de seda preta com folhos, um chale de cachemira, uns sapatos de duraque, um chapéo de velludo carmezim com flores amarellas e plumas brancas.
Entrou na sala uma criada velha das manas do Nogueira, tomou nos braços o vestido de seda, o chapéo, o chale e os sapatos, e pediu á tia Anna que a seguisse ao gabinete proximo.
O caixeiro da loja ficou só com o lavrador. Disse-lhe que mudasse o fato d'aldeão que trajava e o substituisse por aquelle que via ali.
--Mas... oppoz timidamente o pobre do homem.
--Eu ajudo-o, eu ajudo-o. Ande depressa.
E, á pressa, atabalhoadamente, tirou-lhe a niza, o collete amarello e as calças de saragoça.
Quando o homem se sentou n'uma cadeira para enfiar o canno das botas, cahiam-lhe da testa bagas de suor copioso.
Estava afflicto, quasi apopletico, com o laço da gravata a apertar-lhe a garganta, como a corda d'um enforcado.
Aquelle casaco pesava-lhe nos hombros como uma armadura d'aço de D. João II.
Abriu-se a porta do gabinete e appareceu a tia Anna vestida de senhora. Oh! Os pés estorciam-se-lhes nos sapatos, o chapéo cahia-lhe para a nuca! A criada vinha atraz, a passo, como aia que segue uma rainha; e, lançando um olhar e sorriso maliciosos ao caixeiro, dizia:
--Hein? Estão que nem dois fidalgos!
Marido e mulher empallideceram e tremeram quando se viram n'aquelles trajes. Despertou-lhes na consciencia o sentimento do ridiculo.
Entreolharam-se mudos, contrafeitos, e desceram ambos, com muito custo, amparados ao corrimão, os degraus da escada até á loja.
E a criada e o caixeiro, que os viam do patamar, abafavam com a mão na bôcca as gargalhadas da troça.
--Ai o diacho da velha--exclamava a creada a rir--que me parece mesmo um entrudo!
* * * * *
Entraram ambos na photographia _Fritz_, da rua do Almada.
O socio do filho explicou ao retratista como desejava o grupo.
Passaram ao _atelier_, muito desconfiados, a olharem-se de soslaio.
O homem bofava, a suar constantemente.
Foram colocados no fóco, um ao pé do outro, com uma meza de permeio, e por detraz com um reposteiro azul, que cahia em amplas dobras sobre o tapete. Quando o photographo assestou sobre elles a lente da machina, retirou de repente a cabeça de sob o panno de velludo preto que o cobria, e observou espantado:
--Então vocemecês estão a chorar?!
Enxugaram os olhos á pressa, e collocaram-se na mesma posição.
Á segunda tentativa, porém, as lagrimas e os soluços irromperam violentos; e o homem da tia Anna, afastando-se da meza, dirigiu-se ao socio do filho, e expoz-lhe, a chorar:
--Com'assim, meu senhor, nós não tiramos o retrato. E, enxugando as lagrimas ao canhão do casaco, continuou:
--Nada; escreva v. s.^a ao meu José, e diga-lhe que não senhor, que... não pode ser!... Se elle não quer mostrar á senhora o retrato que lhe mandamos, é o mesmo, que diga... que já não tem pae, nem mãe!
Aqui foi um soluçar afflictivo e um abanar convulsivo de cabeça, que deixou estarrecido o brazileiro.
A tia Anna concordava com o marido:
--Diga-lhe, meu senhor, que nós--dizia ella com voz tremula--que... morremos, sim que já morremos... ambos!
* * * * *
Na tarde d'esse mesmo dia, quando os ultimos raios do sol poente purpurisavam a cumiada das montanhas, e pelos respaldos dos outeiros vinham descendo as sombras esfumadas do crepusculo, voltavam ambos para a Izabellinha.
Sentavam-se repetidas vezes na orla do caminho, a fingir que a distancia os fatigava! Permaneciam silenciosos durante alguns minutos, um ao lado do outro, com os olhos esmorecidos e roxos de chorar.
Mas o homem, quando via rebentar as lagrimas nos olhos da mulher, fazia-se forte, continha a commoção, e dizia-lhe baixo, a sorrir contrafeito, acotovellando-a d'esguelha:
--Então, ó Anna! Ai! que já não tenho companheira para as romarias!
E era triste vêr então aquelles dois velhos seguirem para a sua aldeia, a pé, cabisbaixos, a suspirarem de quando em quando, com o coração retalhado pela mais cruel das decepções!
O SERMÃO
Era um dia de festa e de grande romaria.
Desde madrugada, que eu estava debruçado no muro do meu quintal, á sombra de uma acacia, onde trinava um rouxinol, para ver passar os romeiros, que se dirigiam, em bandos, para o arraial.
Antes de chegar ao adro, passava-se por dois arcos de murta com flôres, dos quaes pendiam bandeiras e galhardetes de côres garridas.
Ás onze horas da manhã ouvia-se o murmurinho surdo do ajuntamento no logar da romaria. Pela estrada já pouca gente passava; e a que ainda vinha á festa, caminhava de vagar, fatigada, rente dos muros das quintas, para se abrigar do calôr ardente e abafadiço de julho.
De repente, na curva que a estrada faz, junto do pinheiral, appareceu a carruagem da sr.^a viscondessa, que era, n'esse anno, a juiza da festa.
Os transeuntes paravam, encostados aos muros, e voltavam-se para ella, com os chapéos na mão, como se abrissem passagem respeitosa a uma rainha. A carruagem descoberta era tirada por duas egoas inglezas, que esbofavam com ruido, batendo as patas a compasso na areia fina e reluzente da estrada. O cocheiro vinha aprumado na almofada, com as pernas esticadas, e na mão direita levantada suspenso o pingalim. Dentro, reclinada no estofo escuro da carruagem, a sr.^a viscondessa sorria affavel para os lados, agitando levemente a cabeça. Uma _marquezinha_ côr de perola abrigava-a do sol. No logar da frente ia o sr. abbade, um abbade ainda novo, muito escanhoado, vestido com batina lustrosa, cabeção de renda, barrete de setim levemente inclinado na corôa da cabeça. Levava as mãos crusadas sobre o ventre e os olhos fitos no vestido da viscondessa, um vestido verde-mar, com guarnições de renda, que se abria diante d'elle, como um leque.
Os romeiros, só depois da carruagem passar, é que continuavam o caminho, e, olhando entre si d'um lado e d'outro da estrada, sorriam gloriosos.
Quando a sr.^a viscondessa apeou á porta da egreja, estalou no ar uma girandola de foguetes; e eu, que não tencionava assistir á festa, acendi um charuto, e dirigi-me vagarosamente para o logar da egreja, antes que principiasse o sermão.
* * * * *
Estava a egreja armada com sanefas e cortinas de damasco escarlate, onde as luzes das tocheiras de prata do altar punham reflexos vermelhos.
Fóra da têa gradeada do altar-mór, via-se o povo, de pé, apinhado, com o olhar espantado e perdido na decoração ostentosa do templo. A pedra do altar-mór estava revestida com toalha franjada de rendas. Um tapete largo de variegadas côres cobria o estrado do altar, descia os tres degráos preso por varões de metal lustroso, e estendia-se na capella-mór até á grade. Tres padres velhos, avergados sob o peso das capas d'asperges com brocados d'oiro, estavam sentados ao lado, com os pés unidos e estendidos para a frente. Sentia-se um cheiro forte a incenso; e, no côro, soavam as ultimas notas plangentes das rabecas acompanhadas a orgão e rabecão.
A sr.^a viscondessa entrou apressada pela porta lateral, que dava para a sachristia, e ajoelhou-se em frente do altar, com a cabeça muito levantada e os olhos pregados na imagem do Christo crucificado em meio de luzes e ramos de flôres. Depois de rezar, com as mãos postas em supplica junto do seio, persignou-se lentamente e sentou-se.
N'esse instante, houve um rumôr vago entre os fieis, que enchiam o templo.
O prégador apparecêra no pulpito. O seu rosto oval de uma pallidez maviosa, fronte larga, barba escanhoada e azulada no queixo, destacava-se da alvura da sobrepeliz de cambraia bordada.
As suas mãos estreitas e brancas sahiam d'entre as rendas aniladas das mangas, que lhe chegavam até á raiz dos dedos.
O abbade olhou attentamente o auditorio, e ajoelhou. Ergueu-se depois, arrepanhou os canhões da sobrepeliz, ageitou a estola, expigarrou com tom solemne e passou á flôr dos labios o lenço, que depôs cuidadosamente ao lado. Em seguida, fincando a palma das mãos no parapeito do pulpito, adiantou o busto para a frente e principiou com voz debil:
/# --«_Mulierem fortem quis inveniet? Proverb. 31_». #/
Era o sermão de Santa Izabel, rainha e martyr. O prégador historiou a vida da santa, desde o tempo em que, menina e môça, nos seus palacios de Aragão, o seu principal divertimento era a oração e o exercicio da caridade. Desposada por el-rei de Portugal, D. Diniz, em breve as leviandades amorosas do esposo lhe amarguraram o coração trahido.
/# --«Porque--exclamava o prégador, alçando o braço--quantas vezes o manto de uma rainha esconde um coração attribulado!? Em meio da ostentação d'um palacio, cercada de todas as magnificencias reaes, filha e esposa de rei, como a grande rainha de Lacedemonia, _quae Regis filia, Regis uxor_, a princeza santa não tinha o socego, o descanço, a alegria da mulher humilde d'um mechanico!
Era rainha, _Regis uxor_, era poderosa, era rica; mas a principal riqueza era a da sua alma.
O oiro copioso dos seus cofres não tinha o grande valôr do oiro d'alto quilate do seu coração,--oiro de lei, purissimo, sem liga, que se não gasta e consome com o uso, antes se acrysola e engrandece com o exercicio das boas acções!» #/
Algumas mulheres soluçavam commovidas; e a sr.^a viscondessa, que o ouvia com attenção, fechava os olhos em signal de concordancia, e acenava affirmativamente a cabeça.
Proseguia o sermão. O prégador falava da santa, quando acudia pressurosa aos infelizes. Referiu o milagre da transformação dos pães em flôres, sendo surprehendida pelo rei, quando ia esmolar aos pobresinhos!
Depois, adiantando parallelas as mãos, como se quizesse attrahir n'um braçado o auditorio estupefacto, dizia:
--«Vêde para que serve o oiro! Não vos julgueis desgraçados, se vos não assistem grandes riquezas! Não deixeis que a inveja se enrosque, como serpente ardilosa do inferno, em vossos corações».
E, apontando o indicador para o céo, proseguia com voz mais solemne:
--«É ahi que se vê a previdencia de Deus! Concedeu o oiro aos ricos, para que o distribuissem pelos pobres! Pedir não é humilhação nem vergonha! Deu-nos o exemplo Jesus, o Divino Mestre, que ensinou aos discipulos a pedir com humildade!
E que maior consolação--continuava o prégador--que maior consolação do que soccorrer com a esmola áquelles que a fortuna fez menos abastados!? Apagar a fome, saciar a sêde, vestir os nús, enxugar as lagrimas das viuvas, amparar a orphandade, dar arrimo á velhice!»
E exclamava:
--«Oh! santa caridade! Oh! flôr sacrosanta do altar de Deus! A caridade...»
E retrahindo-se no pulpito, arqueando os braços á frente, aproximando as mãos com as cabeças do indicador e polegar delicadamente unidas, recitava com voz untuosa, repassada de mimo:
Á noite a virgem modesta, A casta filha de Deus, Furta-se aos hymnos da festa, E envolta em candidos véos,
Desce a escada sumptuosa, Mãe dos maus, irmã dos bons, Lá vai levar carinhosa A toda a parte os seus dons.
Foi de um effeito surprehendente! O auditorio sentia calefrios: passava n'elle a corrente magnetica do enthusiasmo!
O prégador rematou em tom familiar, com voz mais baixa, aconselhando aos pobres, que seguissem o exemplo de Jesus, que andou a pedir pelo mundo; e aos ricos, que se amoldassem pela Rainha Santa, que distribuia pelos desgraçados as riquezas do seu palacio.
--«_Amen_.»
E sahiu do pulpito açodado, vermelho, anhelante, a enxugar com o lenço o suor copioso, que lhe corria da testa.
* * * * *
N'esse dia, jantou o sr. abbade com a sr.^a viscondessa. Quando eu cheguei, tinham-se já levantado da mesa, e estavam sentados no terraço, á sombra do toldo listrado.
Defronte da viscondessa, o abbade, refestelado n'uma larga cadeira de vime, sorvia o café a pequeninos goles.
Cumprimentei o prégador pelo sermão; e a sr.^a viscondessa, levantando enthusiasticamente a cabeça, confirmou do lado:
--Admiravel! admiravel! Diga-me, sr. Alberto--continuou ella, batendo-me familiarmente no joelho--não acha que o abbade recitou a poesia com mais mimo e mais sentimento do que a Emilia Adelaide, em D. Maria?
--Ah!--exclamei eu, espantado do confronto--sem duvida!
O escudeiro entrou com uma bandeja de prata para receber as chavenas. Aproximou-se da sr.^a viscondessa, e disse-lhe a meia voz:
--Está lá baixo uma pobre, que pede uma esmola a v. ex.^a.
--Que impertinencia!--exclamou ella, carregando o sobrôlho com gesto d'enfado.--Pois dê-lhe lá uma esmola, Francisco.
O sr. abbade, que ia para beber o ultimo gole de café, ouvindo aquillo, suspendeu a chicara no ar, e accudiu do lado, com modo insinuante:
--Isso! Costume-os, sr.^a viscondessa--dizia elle, meneando pausadamente a cabeça--costume-os mal, e verá que lhe não largam a porta!
ÁS CEREJAS
Bateram as tres badaladas do meio dia na torre de Santa Eufemia. Os rapasinhos, que frequentavam a aula regia do José Sabino, começaram a sahir, com as lousas pendentes do pescoço e os livros debaixo do braço. O mestre escola esteve um instante á porta, a recommendar-lhes, com tom de voz ameaçador:
--Ora olhae agora se ides direitos e quêdos para casa, se não...
E agitava na mão pennujenta o junco punidor.
Emquanto o olhar austero do mestre os alcançava, bem iam elles, todos muito direitos, dois a dois, de mãos dadas, como uma leva de degredados; mas, apenas o caminho voltava para a direita, e entre o mestre e os discipulos ficava uma sebe muito alta e espessa, que os abrigava, adeus! corria tudo em debandada, como abelhas que irrompem d'um cortiço!
Eu, então, gostava immenso de ver a pequenada assim, a correr, a saltar, a rir ás gargalhadas, escalando os muros, invadindo os campos, como uma horda de vandalos terriveis. Só me custava ver, no tempo defeso, quando elles trepavam pelos castanheiros, para ir lá cima roubar entre os ramos as ninhadas dos passarinhos.
Assim que chegava o mez do S. João aquella enorme figueira do passal apparecia toda carregada. E os ramos que ficavam eminentes sobre o cunhal do muro, até vergavam para fóra, para o lado do atalho, com o peso dos figos!
Era um fartote para os pequenos!
O mais dextro marinhava pelas fendas do muro, escachava-se n'um galho mais consistente da arvore, e de lá ia atirando para baixo os figos maduros, a que podia chegar.
E o bonito era ver o abbade, o bom velho do abbade, que desatava a rir muito satisfeito, quando a criada lhe referia indignada o assalto dos pequenos.
--Coitaditos!--dizia elle--Ó Anna, quem me cassára a mim no tempo em que eu fazia o mesmo ás macieiras do parocho da minha terra!
De uma vez que os surprehendi na figueira do passal, lembrei-me com saudade de um assalto que eu dei tambem--vae isso ha um bom par d'annos!--a uma cerejeira...
Eu conto a historia:
* * * * *