Contos d'Aldeia

Part 2

Chapter 2 3,884 words Public domain Markdown

Tinha remoçado cincoenta annos! Os francezes invadiam Portugal! Quando elle estava na tenda de campanha, a dormir no dia seguinte ao de uma batalha, viu entrar inesperadamente o exercito de Bonaparte. As paredes de lôna da tenda iam recuando, recuando, para dar entrada ás hostes immensas do inimigo. Os esquadrões insoffridos da cavallaria corriam sobre elle. Em volta da tenda levantou-se rapidamente--como nas magicas do theatro!--uma bateria, com as boccas dos canhões apontadas para o leito. Os piquetes de infanteria corriam a marche-marche, de bayonetas caladas, para o surprehenderem no somno. Ao fundo, no viso de um outeiro, Bonaparte, o terrivel Bonaparte, com as suas botas de escudeiro e o seu chapeu de bicos posto de travez, como o chapeu de um estudante de Salamanca, assestava sobre elle o oculo de alcance, sorrindo alegremente da victoria!

O capitão Macario via tudo aquillo, ouvia o estrepito dos cavallos, o tropido da infanteria, as gargalhadas de Bonaparte, e sentia-se preso ao leito, impotente, inerme, anciado, sem poder gritar!... Façam ideia!

De repente, todo aquelle exercito enorme se transformou n'um gigante, que lhe prendeu brutalmente as pernas com dois grilhões de ferro!

O capitão esforçou-se ainda por se levantar; mas conseguiu, apenas, depois de muito custo, soltar este brado afflictivo, com uma voz convulsa:

--Ás armas!

E despertou, ouvindo as gargalhadas de... Bonaparte!

O velho abriu desmesuradamente os olhos, volveu-os espantado em torno de si; e, quando um instante depois, se sentiu completamente acordado, deu com o nétinho, que lhe puxava pelas pernas, para lhe subir ao collo!

A creancinha estava com os olhos levantados para o avô, a sorrir, muito alegre, porque julgou que tinha sido para ella, como brincadeira, aquelle grito suffocado--_Ás armas_!

O GALLO PRETO

(A JOÃO DE DEUS)

Havia d'antes em Penajoia--terra que ninguem é capaz de ver no mappa geographico de Portugal--uma aula regia de primeiras letras.

A aula era n'uma casa de um só andar, rente do chão. Ficava no meio de uma clareíra, e tinha ao lado dois grandes sobreiros, que a abrigavam do sol, no estio, e que rangiam, no inverno, quando sopravam as rajadas do nordeste.

Os alumnos entravam ás oito horas da manhã, saíam ao meio-dia, para jantar; e voltavam depois ás duas horas, para sairem ás cinco da tarde. Alguns d'elles vinham de longe, meia legua, tres quartos de legua de distancia. Eram todos pequeninos e pobres. Saíam ao romper da manhã de suas casas, com o livro debaixo do braço, e a louza das contas pendente de um cordão, lançado a tiracollo. No caminho, os que vinham de mais longe, iam-se reunindo aos condiscipulos que encontravam; jogavam o botão, ou, se era tempo, trepavam aos castanheiros para cruelmente roubarem os ninhos dos melros e verdelhões.

O mestre, que tinha sido um valente cabo de milicianos, era um velhote rabujo, de pellos nas orelhas, e que pouco mais sabia do que os alumnos, que ensinava.

Um dia perguntei-lhe eu:

--Diga-me cá, sr. Joaquim, que methodo adopta?

--Que methodo?!--exclamou elle, estranhando a pergunta. E depois, levantando as sobrancelhas, e com as sobrancelhas os oculos, fitou-me desconfiado, e respondeu com ar solemne:

--Adopto o methodo do Achiles (do _Axiles_, foi como elle dísse).

Mas, a despeito de tudo isto, era um tyranno, como o são quasi todos os ignorantes.

A aula, como já disse, ficava ao rez do chão. A luz entrava por duas frestas, que ficavam acima dois palmos da cabeça de um homem; porque assim era preciso--explicava o mestre--para que os rapazitos se não distrahissem, a olhar para fóra. Ao fundo da sala ficava uma meza de pinho e uma cadeira, que era o logar do mestre. Depois seguiam-se bancadas de pau, collocadas como uma platéa, duas a duas, deixando ao meio um intervallo, por onde entravam os alumnos; e, quando todos tinham entrado, por onde passeiava gravemente o professor, com o livro n'uma das mãos, e na outra um junco.

Os pequenos, assim que se aproximavam da aula, impallideciam.

E antes de entrarem, quem ali passasse, via-os muitas vezes ainda a repetirem a lição, trémulos, enfiados e com a mesma coragem de quem tem de subir a uma forca!

O Gabriel era ainda um pequenote de sete annos. Morava ao pé do abbade. E o abbade, que era um santo velhinho, é quem muitas vezes lhe ensinava a lição. Por isso, e como o pequeno era esperto--ui! diziam os conhecidos, o Gabriel? esperto como um alho!--era o Gabriel que quasi sempre ensinava a lição aos outros.

--Como se lê esta palavra, Gabriel? dizes-me?--pedia-lhe de uma vez o João do moleiro.

--Soletra lá.

E principiou o outro:

--_P-h-i_, _pi_.

--Qual _pi_! Tambem eu cuidava! _P-h-i_, _fi_--emendou o Gabriel.

--_Fi_!--exclamou o João,--_Fi_! Pêta! Tu enganas-me, Gabriel.

--Não engano, João; lê _fi_­, que foi como me ensinou o sr. abbade.

N'isto, chegou á porta da aula o mestre.

Vinha a palitar-se, e com a face e orelha direita mais vermelhas, porque tinha dormido a sésta.

Chegou á porta e gritou:

--Canzuada, salta para dentro!

E lá entram todos de chapeusinho na mão, cheios de medo, como um rebanho de ovelhas a entrar para um matadouro.

Assim que o mestre tirou o livro da gaveta, em seguida a palmatoria, e depois o lenço escarlate, de chita, fez-se um silencio lugubre na sala.

--Lê tu, João--principiou elle.

O João do moleiro foi lendo, mas cada vez que se ia aproximando da terrivel palavra, ia-lhe faltando o animo.

Dizer que _P-h-i_ diz _fi_, que temeridade! Emfim continuou írremediavelmente:

--_E como a sciencia chama_... _chama_...

E ergueu supplicante os olhos para o verdugo.

O mestre tossiu para se dar ao respeito, e bradou:

--Lê para bai-xo, me-ni-no--accentuando as syllabas com um sorriso ameaçador.

--_Chamada_--continuou o pequeno indeciso--_chamada_... e terminou em tom mais baixo, com a incerteza de quem não sabe o que diz--_Philosophia_.

--Como?--bradou o mestre, descarregando-lhe com o junco pelas orelhas.--Como?

O pequeno fechou os olhos, encolheu os hombros, e emendou a chorar:

--_Pi-lo-so-pi-a_.

O professor descarregou segunda juncada, e berrou:

--_Pilosópia_, burro, _pilosópia_!

--_Pilosópia_,--repetiu o pequeno.

Apenas o João do moleiro disse a palavra, levantou-se o Gabriel do seu logar e declarou com a voz serena e com as lagrimas a saltarem-lhe dos olhos:

--Snr. mestre, quem ensinou a dizer assim ao João do moleiro fui eu.

Oh! que escandalo, Santo Deus! O mestre ergueu-se de golpe. Os discipulos tremiam como varas verdes; e os mais pequeninos até choravam! Podéra! O que iria acontecer, Nossa Senhora! O mestre ia correr tudo a bolaria, não ha duvida.

--O que é lá?--gritou o mestre Joaquim com uma voz convulsa.--O que é?

E ficou a olhar para o Gabriel, inclinando com o indicador o pavilhão da orelha direita.

--Fui eu que ensinei assim--repetiu o Gabriel assustado.

--Vem cá--chamou de afogadilho o mestre--já aqui, seu atrevido. E bateu com a palmatoria na mesa. O Gabriel poisou o livro no logar e aproximou-se.

--Aqui já.

O mestre descarregou-lhe nas mãosinhas tenras meia duzia de furiosas palmatoadas.

Foi muito bem feito! Apre! Offender a sabedoria do seu mestre!

* * * * *

De uma outra vez, de tarde, aconteceu passar o abbade pela aula do mestre regio. Fóra ouvia-se uma gritaria, que eu sei lá! parecia que o mundo ia acabar.

Á porta da aula estavam tres pobres mulheres, cada uma com um filhinho ao collo.

--Ahi vem o sr. abbade--disse uma d'ellas.--Vamos pedir-lhe, mulheres. Aquillo foi Nosso Senhor que o trouxe por aqui.

Abeiraram-se do abbade, e imploraram-lhe que fosse elle pedir ao mestre que perdoasse por esta vez aos rapazinhos.

--Então o que aconteceu?--perguntou o reitor.

--Quem sabe lá, sr. abbade! Elles berregam, que parece que os matam!

--Se eu já até ouvi o meu Manoel, que é tam fraquinho!

--E o meu João, sr. abbade, que tam doentinho tem andado.

--E o meu José! aquelle que foi este anno á primeira confissão, sr. abbade; sabe?

O abbade dirigiu-se á porta e bateu.

--Quem é?--perguntou de dentro a voz aspera do mestre.

--Abra, mestre Joaquim, faz favor?

O abbade entrou. Para os pequenos foi como se vissem a Providencia.

--Então o que lhe fizeram estes mariolas, sr. Joaquim?--perguntou o abbade, olhando em roda para os alumnos.

--O que me fizeram? Roubaram-me dois lapis!

--Oh! que grande peccado!--exclamou o abbade, arregalando os olhos.

--E é que nenhum confessa--explicou o mestre. E bradou, voltado para os pequenos--nenhum confessa, mas eu _ra a i xo-os_, aqui, todos.

O abbade poz-lhe a mão no hombro e serenou-o, dizendo-lhe:

--Pois se nenhum confessa, é o mesmo; que vamos já saber quem foi. Espere ahi que volto já.

Saíu o abbade, e, passados instantes, entrou na aula, precedido de uma rapariga.

Aproximou-se da mesa e disse:

--Põe tudo aqui em cima, Josephinha. Assim. Agora vai-te embora.

A pequena poisou uma panella de folha, e tirou debaixo do avental um gallo preto. O abbade metteu o gallo dentro da panella, cobriu-a com o testo, e principiou assim:

--Fez-se um grande peccado! Roubaram um lapis! Quem rouba um lapis, é muito capaz de roubar tudo! Meus filhos, um de vós commetteu o crime; e não o confessa por vergonha. Ora, por causa d'aquelle que roubou os lapis, vão padecer todos os mais. Ahi teem! Em vez de só fazer um peccado, que Nosso Senhor lhe perdoava, se o confessasse e se arrependesse, vae commetter muitos: faltar á verdade, que é tão feio, e depois deixar que os outros soffram injustamente.

Os pequeninos ouviam o abbade com religiosa veneração.

O abbade proseguiu:

--Hão de vir todos, cada um por sua vez, pôr a mão sobre esta panella. O gallo preto ha de cantar logo que sinta sobre o testo a mão criminosa do que roubou o lapis. E fica assim conhecido o ladrão; o sr. mestre Joaquim ha de castigal-o, e eu não o quero ver mais. Ora, torno a dizer, se confessar está perdoado.

Na aula, silencio profundo.

--Nenhum se accusa?--disse o abbade.--Venha o numero 1.

Foi o numero 1 e poisou a mão sobre o testo. O gallo não cantou.

Foi o numero 2, foi o numero 3 e chegou até ao numero 4.

Antes de chegar a vez ao numero 5, todos os olhares convergiram para um canto da aula, d'onde partiam uns soluços afflictivos.

--Quem chora ahi?--perguntou o abbade.

Ergueu-se o Eusebio da _Entrevada_.

Era um pequenino de oito annos, muito pobresinho, com um palmito de cara que estava mesmo a pedir pão.

Era um cinco reis de gente, o Eusebio.

--É o da _Emprégada_--explicou o do Moleiro.

--Anda cá, menino--chamou o abbade--anda cá. Tu porque choras?

O pequeno aproximou-se para justificar as suas lagrimas, mostrou ao reitor os dois lapis roubados.

--Ah! foste tu, Eusebio?!

E Jesus! O pequeno chorava que era um dó do coração! E nem podia responder; apenas acenava.

--Então foste tu. E, olha, para que os tiraste?

--É que o sr. mestre--balbuciou o criminoso--disse-me que trouxesse eu um lapis, e eu não quiz pedir o dinheiro á minha mãe, que está _emprégadinha_ na cama, e nem tem dinheiro para o caldo. E depois com medo de que o sr. mestre me batesse...

--Pegaste n'um lapis. Foi assim?--concluiu o parocho.

--Foi, sim, senhor.

--Mas tu tiraste dois!

O pequeno desatou a chorar.

--Para que tiraste dois?--insistia o padre.

--Era--explicou o Eusebio--para quando se acabasse um!...

O mestre estava já de palmatoria prompta.

O Eusebio estendeu resignado a mãosinha trémula.

--Basta--terminou o abbade.--Eu prometti que se perdoava a quem confessasse. Para outra vez, querendo alguma coisa, vae-me pedir, ouviste? Que eu não tenho tempo de saber o que vos falta. Ora vae para o teu logar, e promette que não tornas a fazer outra.

O mestre Joaquim _sentiu muito_ não applicar o correctivo.

--Deixe lá, sr. Joaquim--dizia-lhe o abbade.--É preciso muita misericordia para tratar as creanças. Lembre-se do que dizia Jesus: _Sinite parvulos venire ad me_.

O mestre, que não sabia latim, mas que diante do curso quiz occultar a ignorancia, respondeu a sorrir com ares de quem percebia:

--_Et cum spiritu tuo_!

ESTÁ NO CÉO!

Um sargento de atiradores, que, desde a madrugada, tinha percorrido oito leguas, a pé, sem descançar, entrou n'uma taberna que ficava á beira da estrada, e perguntou se era por ali que morava Maria La Courdaye.

O taberneiro descobriu-se respeitosamente deante do soldado, e, saindo á porta, estendeu o braço, e indicou-lhe:

--É ali, do lado direito. Abra uma cancella e entre.

--Obrigado! Boa noite--agradeceu o militar. E dirigiu-se apressadamente para lá.

* * * * *

No muro da estrada havia uma cancella de pau; e aberta a cancella, atravessando-se por um caminho assombreado de algumas arvores frondentes, via-se ao fundo a modesta casinha branca, escondida entre a verde ramaria de uns carvalhos.

Tinha ao lado uma leirita plantada de horta; e, á sombra de um choupo, mais no fundo, uma pia de pedra, onde murmurava uma veia de agua muito crystalina. Do esgalho de uma arvore prendia-se ao tronco de outra uma corda, estendidas na qual alvejavam, expostas á luz perpendicular do sol do meio-dia, umas roupinhas brancas de creança. No cunhal da casa havia uma parreira, que subia encostada á parede, com as suas largas folhas de um verde accentuado d'entre as quaes pendiam os cachos escuros com os bagos cobertos de pó luzente e subtil das estradas. Da chaminé desenrolava-se serenamente uma espiral branca de fumo, que se expandia pelo ar. A casinha branca, de um só andar, apparecia encastoada no fundo escuro de uma collina. E no cabeço do outeiro, a espessura immovel e macia de um pinheiral fechava o horisonte, como um largo reposteiro de velludo verde.

N'essa casa vivia uma formosa mulher na companhia de dois filhos.

Coitadita da pobre! Ficava viuva aos vinte e cinco annos e com dois filhinhos que eram o seu encanto. O mais velho tinha sete annos e chamava-se Miguel, que era o nome do pae; o mais pequenino contava apenas onze mezes, e tinha nascido pouco depois que o pae partiu para a terrivel guerra da Criméa.

De uma vez, depois de cearem, a mãe, para que o Miguel não fizesse bulha e acordasse o _menino_, chamou-o para ao pé de si, abriu a carta geographica, e disse-lhe:

--Olha, meu filho, onde está o teu querido papá?

O pequenino abriu muito os olhos, e respondeu a sorrir:

--Na guerra! Pum! Pum!

--Anda vêr onde elle está.

E, pegando-lhe na mãosinha, fechou-lhe os trez dedos mais pequenos, estendeu-lhe o indicador, e foi-lh'o levando por todas as terras por onde o pae tinha seguido. O dedo da creança ia subindo montanhas, descendo aos valles, atravessando as planicies, costeando pelo litoral e cortando o mar. O pequeno balbuciava todos os nomes que a mãe proferia. Quando chegou á Criméa parou. Ergueu a sua cabecinha loura, e levantou os olhos para a luz do candieiro, a vêr se elle lhe fazia a mercê de o alumiar bem. Depois levou a mão ao _abat-jour_ e tirou-o para o lado.

--Deixa o candieiro, meu filho.

--Ora, ora--exclamou o Miguel, fazendo biquinho.

--Deixa, meu filho--pedia a mãe.

--Eu quero vêr o papá.

E debruçou-se outra vez sobre a carta, a procurar com o olhar investigador um ponto qualquer.

A mãe, n'esse instante, com o mais novinho adormecido nos braços, olhou para o crucifixo, que tinha pendurado á cabeceira, e principiou a rezar baixinho, com duas grossas lagrimas a tremerem-lhe á flôr das palpebras.

--Está aqui o papá?--perguntou o Miguel.

--Está, meu filho, está.

--Na guerra?

--Sim, meu rico amor, na guerra.

O Miguel ficou pasmado a olhar para a Criméa, e exclamou:

--Eu quero ir á guerra dar um beijo ao papá.

--Oh! meu filho!

--O que é a guerra, mamã?

--Não sei, Miguel. O teu papá, quando vier ha de contar-nos, sim?

No dia seguinte, logo depois da ceia, quando o _menino_ já dormia no regaço da mãe, o Miguel pediu:

--Eu quero ver outra vez o papá.

E foi procurando, pouco a pouco, pelo mappa. Assim que apontou a Criméa, exclamou radiante:

--Ah! aqui está elle!

E depois, no outro dia, logo á bocca da noite, bateram apressadamente á porta. Quem seria, Jesus! A mãe do Miguel até tremeu. Pegou na creancinha e foi vêr quem era. O Miguel--aquillo era já um homem ás direitas!--ía ao lado da mãe, segurando-se-lhe a uma das prégas do vestido.

--Ha-de ser o papá--disse elle.

Abriu-se a porta, e no fundo estrellado da noite, sobresaiu a elevada corpolencia de um soldado. A claridade do luar batia-lhe em cheio no rosto avincado da fadiga e queimado do sol, com grandes bigodes espessos. Os botões da fardeta reluziam.

--É aqui que móra a sr.^a Maria La Courdaye?--perguntou elle, enxugando ao canhão o suor copioso que lhe escorria na testa.

--Sou eu--respondeu a mãe de Miguel.

--É a mulher do Miguel La Courdaye?

--É o papá--disse do lado o pequenito, fitando o soldado com os seus grandes olhos azues.

--Pois, senhora...

O soldado olhou em redor, peturbado, afflicto, e continuou:

--Pois o Miguel, o 26 dos atiradores, o meu querido e bravo camarada...

--Hein?--balbuciou a pobre mulher.

O sargento apontou com o indicador para o céo, e, approximando-se da porta, terminou:

--Morreu!

E deitou a correr pela estrada fóra, porque não tinha coragem de assistir áquelle lance angustioso. Não tinha animo, elle, que no calor da refrega, affrontára os maiores perigos!

Depois da ceia, o Miguel quiz ainda ver o seu papá. Abriu o mappa, e quando chegou á Criméa, disse:

--Eh! aqui está elle!

--Já não está, meu filho--respondeu-lhe a mãe a chorar.

O pequenito olhou para ella, e perguntou:

--Então?

--Está no céo!

--Está no... céo? Então vou procurar o céo.

E ficou, por muito tempo, debruçado sobre o mappa, a procurar onde ficaria o céo para ver o seu papá, até que deixou pender a sua loira cabecinha sobre o livro, e adormeceu.

O RETRATO DOS PAES

A mala-posta, que seguia do Porto para Braga, passava, ás 7 horas da manhã, defronte da Izabellinha--aldeola obscura, que fica emboscada n'uma deveza cerrada de carvalheiras, entre Santiago da Cruz e a estrada de Barcellos.

Como era subida, os cavallos iam a passo, de redeas bambas, com as cabeças pendentes, saccudindo com as caudas os moscardos teimosos, que lhes afferretoavam nos ilhaes. Na imperial do tejadilho os passageiros cabeceavam com somno. O cocheiro, com o chapéo desabado cahido para o sobr'ôlho esquerdo, por causa do sol, e com as redeas entaladas nos joelhos, petiscava lume da pederneira e acendia pachorrentamente no morrão um cigarro de Xabregas.

--Ainda não enxergo o manco--disse o conductor, com os olhos fitos n'um atalho, que vinha sahir á estrada.

--Toque-lhe a busina, homem--alvitrou do lado o cocheiro, com a voz rouca da aguardente--toque-lhe a busina; que, se não apparecer, adeus! a culpa é d'elles.

O conductor limpou com a palma da mão o boccal da corneta, que levava ao tiracollo, applicou-o aos beiços, inchou as bochechas d'ar, e soprou de rijo, tirando um som roufenho, prolongado, com intermittencias, que se ouvia de longe.

O manco, que estava encostado no cunhal do muro, á sombra d'um castanheiro, sahiu a meio da estrada.

Ao passar a mala-posta, o conductor atirou-lhe d'alto com uma sacca de brim, surrada, suja e fechada com uma vareta de ferro, em cuja extremidade pendia um aluquete triangular. O manco estendeu os braços para a suspender no ar. Assim que a aparou, sopesou-a duas vezes, com os braços esticados, e observou:

--Hoje pesa!

--Hoje ha paquete--explicou succintamente o conductor.

E, como a estrada principiava a descer n'uma ladeira ingreme, volteou com força e á pressa a manivella do travão, e disse para o manco:

--Adeus.

A mala-posta seguiu a trote largo pelo meio da estrada, aos solavancos, levantando nuvens densas de poeira, com grande ruido das rodas, fremito das vidraças e o tilintar constante dos guisos das colleiras.

O manco atirou para o hombro com a mala das cartas, fincou o braço concavo da mulêta no sovaco direito, e desandou pelo atalho fóra, a coxear, para casa do Bento do correio.

Ao fundo do atalho, em continuação do muro tosco dos campos, ficava uma estacada já velha, combalida, esverdengada das chuvas da invernia a resguardar uma leira hortada de couves e cebollinho. Tinha dentro uma casita de telha vã com porta e postigo sem vidraça. Dirigiu-se o manco á cancella da palliçada, correu-lhe o ferrôlho pêrro na armella, e gritou:

--Ó tia Anna! tia Anna!

Abriu-se a porta da casa, e appareceu no limiar uma velhinha tremula, curvada para diante, com uma roca enfiada á cinta, a fiar estopa.

--Que é lá, manco?--perguntou ella, inclinando-se para fóra, com a mão fincada na humbreira.

--Correio!--gritou o manco com um grande berro.

A velha fez-lhe com a mão signal de que esperasse. Poisou dentro a roca e o fuso, e sahiu á horta ageitando com os dedos as farripas brancas do cabello, que lhe espreitavam por debaixo do lenço. O rapaz transpoz a cancella, foi ao encontro da tia Anna, e gritou-lhe com a bocca muito aberta:

--Correio! ouviu?

A mulher fitou-o com os olhos espantados, e perguntou:

--Que é? Não oiço.

O manco sorriu-se resignado; collando então a bocca ao ouvido da tia Anna, repetiu com maior brado:

--Correio! correio! ouviu agora?

--Ah!--exclamou a velhinha, esfregando as mãos de jubilo radiante--ouvi, meu filho, ouvi:--é correio!

--É correio, é--confirmou elle com um aceno affirmativo.

E, pondo-lhe a mão no hombro, disse-lhe adeus até logo, correu de novo o ferrôlho, e tomou á direita, pelo carreiro de um milharal, caminho do correio.

* * * * *

Não se imagina o que é a chegada do correio a uma aldeia qualquer do Minho! Cartas dos filhos ausentes!

Que anciedade em vêr realisadas as esperanças e...

Deixemos estas considerações, e relatemos os factos.

D'aquella mesma porta, vinte annos antes, sahira uma vez a tia Anna, ainda forte, robusta e sadia, para acompanhar ao Porto o seu querido e unico filho, que teimou em embarcar para o Brazil. O homem da tia Anna não se oppoz.

--Deixa-o lá, mulher--disia-lhe elle--se o rapaz tem inclinação, em Deus o ajudando, melhor amanhará a vida por lá do que por cá. Elle sabe lêr, elle sabe escrever, elle sabe contas, está mesmo a calhar.

--Ai! meu rico filho--soluçava a pobre mãe, a chorar, com o rosto escondido no avental.

--Não chores, mulher. Partir, tinha elle de partir, mais hoje, mais ámanhã. Eu que o mandei ao mestre, não foi para ficar na lavoura. Assim com'assim tanto monta estar o rapaz n'uma loja no Porto, como no Brazil. Vem a dar na mesma.

Estas e outras razões do marido venceram as saudades da mãe.

Foi preciso vender dois grilhões e um par d'arrecadas, venderam-se; foi preciso vender tambem uns novilhos, que se engordavam para embarque, venderam-se na feira de Villa-Nova; e apuradas sete moedas e meia, impoz-se o rapaz para o Brazil. No Porto, a tia Anna tomou passagem para o filho, á prôa, na galera _Constancia_, da casa dos Pennas; mercou-lhe uma caixa de pinho nova; vestiu-o com dois fatos baratos n'um algibebe da Ponte-Nova; escolheu-lhe um par de chinellas nas sapateiras das Carmelitas; guardou-lhe e ageitou-lhe tudo na arca, e poz-lhe a um canto, com a maior devoção, o registo do Bom Jesus do Monte.

Pobre mulher! Liquidou as parcas economias, que representavam privações e sacrificios, afadigou-se de trabalho, ralou-se de saudades, chorou muito; e, quando viu de terra a galera _Constancia_ seguir lentamente rio abaixo, com as vellas enfunadas pelo nordeste e a prôa inclinada á barra, cahiu de joelhos e de bruços no caes de Massarellos, com as mãos tremulas atadas na cabeça, a soluçar afflictivamente pelo filho da sua alma, que lhe acenava com o lenço, debruçado na amurada do navio, a chorar!

* * * * *