Contos

Part 2

Chapter 23,775 wordsPublic domain

E no silencio da mansarda, Carolina abria os olhos com um terror em que dançavam phantasmas sardonicos, com a cara do aprendiz.

Era a tarde de Nossa Senhora dos Prazeres. O tempo serenára, o céo não tinha nuvens e no azul espiritualisado, os vôos brancos dos pombos davam uma innocencia casta ao ambiente. Havia arraial n’essa tarde. A procissão sahida da igreja de Santos, por entre farrapos de bandeiras e verdores de buxo, devia entrar na capella do cemiterio, á noitinha, em meio de foguetes e aromas do peixe frito, cuidadosamente consumido pela fome do povoléo curioso.

Na explanada que vai terminar á porta dos Prazeres, as pequenas barracas de lona enchiam-se de grupos; filhas de saias engommadas, olheiras fundas com fadistas de calças esticadas sobre alpargatas de linho. As mulheres gordas, lenço vermelho, os grossos braços nús, refogavam mexilhão, vermelhas do calor; em torno os soldados passavam, de chibata, rostos vulgares e bestiaes dilatados em risos enormes; e meneando-se, diziam brutezas ás pequenas ovarinas sujas. Na confusão dos grupos os garotos sujos, vivamente alegres, corriam relanceando olhares famintos sobre os bolos seccos das vendedeiras ambulantes, e de passagem pediam cinco reis. Aqui e além viam-se sobre a relva, petiscando, familias de operários, pequenas louras e limpas, typos de costureiras futuras, traços finos, scismadores e delicados. Os vadios esqueleticos, de calções em frangalhos, apregoavam agua. No ar os ruidos multiplices abafavam-se uns aos outros, e das continuas pulsações resultantes elevava-se um ruido uniforme e indistincto, como de ebullição longinqua. Os municipaes da patrulha iam atravessando devagar, nos seus cavallos negros, e os capacetes esguios de cuja crista jorrava a branca cabelleira dos pennachos de linho, salpicavam de originalidade a paizagem. Eram um enlevo. As criadas olhavam-os suspirando. O ruido crescia. O sol mergulhava com uma pompa escarlate, no silencio do rio, e o poente inflammado era de uma amplidão sem balizas. Dentro do cemiterio o mesmo movimento de quem ia e vinha. Pessoas fornidas de carnes, esposas espessas de oleiros, capellistas de chapelinho, laços escandalosos e sombrinha, liam, soletrando as inscripções tumulares. Admirava-se o marmore, as fachadas. Os pequenos vagarosos colhiam alfazema e sardinheiras. Alguns olhavam através das rotulas, o interior dos jazigos, a vêr quem tinha berloques de contas e figuras bordadas a lã em molduras ricas. Alguns ferreiros de mãos callosas, descançavam na borda dos pedestaes, tasquinhando as suas merendas; muitos bebiam pelas garrafas, fazendo saudes aos compadres. E todo o mundo ria a sua pandega, a _fazer arraial_ com grossas bobages cruas de taberna e de officina. As mulheres de vestidos de merino, com folhos, mantas de lã com borlas cahidas atraz, chale bem dobrado no braço, olhavam pasmadas. Os fragmentos das palestras, apanhados de passagem, eram os mais originaes e contrastantes. Veteranos procuravam o tumulo do conde das Antas. Explicavam os emblemas, a attitude féra da estatua.

--Portugal velho! commentavam. Elle e o Saldanha!...

E familiares, um clarão purpureo na face:

--O nosso velho! diziam. No 19 de maio...

E outros queriam vêr o tumulo do Palmella. Uma velha de Aveiro ouvira dizer na terra que era obra famosa. Alguem explicava as riquezas do duque, as suas quintas, dois contos diarios de rendimento; a duqueza era bonita e um pouco gorda; elle tinha sido da marinha. De resto boas pessoas e fidalgos da gema; pela Semana Santa pediam na sé para os pobres e sustentavam asylos. E iam semeando o chão de espinhas de peixe, de cascas de laranja, e os ares de rumores de palestra. Mas estrondeavam foguetes. Uma philarmonica sentia-se ao longe. Corriam. Era a procissão. Á frente um marceneiro espadaudo trazia o pendão, pomposo na sua capa de sêda vermelha. Virgens de branco, rosas na cabeça, typos de gaiatos disfarçados em saias, vinham gravemente, acertando o passo. E sobre as cabeças um andor de pau dourado e pequeno trazia a imagem, cheia de flôres de papel. Carolina com a _garibaldi_ melhor, uma rêde de contas nos cabellos ruivos, fôra tambem á festa. O coveiro embebedava-se em casa do _Pescada_, com a barba feita, o seu carão anguloso e miseravel, inerte sob as abas d’um chapéo de Braga. Carolina vestira-se logo de manhã, toda brunida, botas de duraque sem tacões, brincos de vidro prateado, arzinho alegre, o branco appetite da sua carne anemica, feminil e debil. E fôra ao cemiterio espairecer um bocado, com um farnel no lenço, laranjas, duas queijadinhas da tia Palma.

A senhora Marcellina que fôra ama do padre Anselmo e agora arranjava criadas e concertava cadeiras, tinha promettido a Carolina ir lá ter com ella mais a mulata, que sahira do hospital havia uma semana e lhe estava devendo cousa de quatro moedas. A Marcellina morava no pateo tambem, no primeiro andar, tinha arranjos de casa e barbicas pela cara, sua meia duzia de lençoes, um rico cordão de ouro com medalha e uma Senhora das Dôres com olhos de vidro, _mesmo viva, a olhar para uma pessoa_.

E fallava-se: que havia papeis, uma panella de dinheiro no quintal, ricos manteletes nas commodas, que tinham pertencido á irmã do padre Anselmo. Marcellina era uma pessoa baixa e vagarosa, aspecto redondo e rôxo de hemorrhoida, feridas na perna emplastada, anneis pelos dedos e o vozeirão d’um quartel-mestre sahindo do capote d’alcoviteira. A sua historia apoiava o enredo principal no governo civil, no hospital e na rua das Atafonas. De resto encontrára o padre Anselmo, capellão da Guia e _tomára-lhe amizade_. Boa pessoa, o padre Anselmo, amigo do seu amigo, boas manhãs na cama, de inverno, beberricava-lhe um quasi nada, ratão, pregando bellas peças; manhã cedo, ella ainda na cama, e vinha elle da missa, descobria-a, zás, uma palmada. E morrêra. Tudo quanto é bom acaba. A gente falla, falla ... um dia chega. E dava grandes suspiros. Carolina conhecia-a. Mal luzia o buraco, já a senhora Marcellina corria a vidraça e vinha de coifa branca, espanejar o peitoril. Tinha um sorriso agradavel; um dente tropego, unico e esquecido, esverdinhava-lhe na bocca desmobilada; as barbicas hirsutas recordavam uma gata mansinha que se corcova electrica, sob as festas do dono. Era-lhe de mais a mais muito obrigada.--De rastos que eu ande, dizia, de rastos que eu ande, não lhe pago as obrigações que lhe devo. Quando estivera doente, com tosse e muita febre, ninguem dizia que ella escapava, a senhora Marcellina vinha dar-lhe caldos e fazer meia junto do seu leito de proletaria. Havia dous annos. Mas não se davam muito; a Marcellina era mais das outras defronte, fallava com ellas de janella para janella, grossos risos e pesadas graças. E ratona então, como nunca se vira. O que sabia de frades, e do poeta Bocage!... Era arrebentar de riso, senhores. Além d’isso andava sempre occupada na vida, uma azafama, chale traçado e sapato d’ourelo, a massa dos seios papuda e mollemente batida por mais de meio seculo, arrotos estrondosos... Sahiam de casa d’ella pessoas lugubres. D’uma vez a policia fôra alli. Emfim, fallavam-se cousas, ella sabia de facadas, e Carolina ouvira dizer isto--arranja pequenas a velhos. E no fundo da sua alma branca e susceptivel experimentára horror. Na tarde anterior a filha do coveiro recolhera com ares de dia, a Marcellina estava á janella; fallaram-se, como estava como não estava, o pai como ia, e que ella ia vivendo com o seu padecimento de entranha, amargos de bocca, uma canceira, uma canceira; mesmo mortinha de todo! Tinha posto bismas de confortativo que era muito bom, andava agora tomando _pózes_, caros com’á fortuna, mas o fastio era grande, afflicções por dentro... O peor eram as noites, contava todas as horas. E depois as pulgas. Ai! dizia, quem tem mazella, tudo lhe dá n’ella. Que é feito, que é feito? Não havia olhos que a lograssem. De resto amava as creaturas serias como Carolina; nunca fôra de tricas, louvado Deus. E arrotava. Tinha almoçado uma açordinha, com seu ovo; tudo lhe fazia mal.--É caruncho, é caruncho, commentava. E convidára Carolina a entrar, descançar um pouco, tinha rosas no quintal, uma franga preta que já punha ovos, manto novo na Senhora das Dores--minha rica mãi do céo!

Carolina subiu, beijocaram-se, ricas filhas para um lado, abraço para outro. Carolina sentia-se contente, uma quietação plena, chocada pela sinceridade da outra. A senhora Marcellina olhava para ella de face. E largou d’ahi a nada este dito:

--Ha-de ser um peixão!--E piscava o olho pardo com ares de entendedora. Andaram vendo o quintal; Marcellina fazia-lhe um ramilhete de rosas. D’alli a nada veio a mulata, encostada ás paredes, uma cuia enorme de postiços e fundas olheiras, olhos de carneiro morto, um cheiro a cigarro e a camphora.

Mas foi-se logo encostar. Com o tempo humido, tinha dôres do diabo nos ossos. Desejaria morrer já--raio de vida! Carolina dizia-lhe palavras commovidas; que aquillo não havia de ser nada, em o tempo limpando já a cousa era outra, que tivesse paciencia, coitadinha, que tivesse paciencia. E a mulata arrastava-se, com um sorriso em que havia alta percentagem de amargura, aspecto chato e esmagado, como sacco vazio, de roupa velha. E o seu craneo pequenino de estupida, de grande bestiaga, tinha a calva depressão idiota d’uma cabaça ôcca. Quando ficaram sós, a senhora Marcellina abaixando um pouco a voz, disse á filha do coveiro:

--Tenho uma coisita que lhe dizer, seu interesse.

--Sim? fez Carolina.

--Não é cousa nenhuma má, não senhor. O seu a seu dono!

--O que é então?

--Não se zanga, não?

--Porque havia zangar-me? Mas diga.

--Ha ahi um rapazola, que dá um cavacão pela menina. Um cavacão, c’os diabos; um cavacão!

Carolina teve um sobresalto. O coefficiente das suas orgulhosas alegrias traduziu-se n’um sorriso.

--Está a mangar, disse.

--Palavrinha, é cousa seria. Elle fallou-me n’isso.

--Para que? disse ella tremula, penetrada.

--Ora! Namoricos; não sabe como as cousas são? Rapaziadas. Todos nós temos d’isso. Emfim, fallar não offende.--Carolina estava pallida, sentia-se vagamente n’um deleite, curiosa e cheia de excitações. A senhora Marcellina, de olhos no chão, mordia o labio inferior, como quem reflecte.

--Com que então, disse Carolina, gosta?

--Hi!...

E passado um momento:

--Um rapaz como umas casas, forte, loiraço e bom trabalhador. Hein? sua sonsinha... hein?

E insinuando-se, velha toupeira:

--Tendo juizo, minha riquinha, é uma mina. Nada de cahir antes de tempo, percebes?

Carolina estava rubra, com palpitações doidas.

--E quem é? Como se chama?

--Isso queria vossê saber, isso queria vossê saber!

--Não, serio, diga.--E mais resoluta--ha-de dizer!

--Aqui defronte do becco, ha uma loja de marceneiro. Sabe. A do Ferreira, um de óculos.

--Ah! fez Carolina. Já sei.

--Ha um official, o João, bonitote, muito claro. É esse.

--É esse então? Pois senhores...

--Um bello moço, um bello moço! É vêl-o além na loja, a camisa arregaçada; que braços, hein!

Carolina adivinhava-o, sentindo-o na sua imaginação com um vigor de pintura.

--E depois? disse ella.

--E elle pediu-me que arranjasse a cousa, que lhe fallasse; tinha vergonha de vir elle mesmo... Ganha seis tostões, vive só; bom rapaz no fundo.

--E meu pai?

--Ora! Nem o adivinha. Vive sempre lá em cascos de rolhas. Quer lá saber... É vinho e deixa andar.

--Nem sei, nem sei...

--Isso, o resto arranja-se. Amanhã ha festa nos Prazeres, percebes? Elle vai por alli. Tu vaes commigo. Entendam-se lá como quizerem. Gostas d’elle?

--Sei lá, sei lá! Não é feio...

--Entendo. Amanhã vamos ao arraial. O dia deve estar bonito.

--Olhe, vou de manhã. Lá a espero de tarde.

--Vá feito. Valeu. Faço os meus arranjos e vou depois.

--Adeusinho, adeusinho.

Desceu a escada. No portal gritou para cima:

-- E obrigada por tudo, obrigadinha por tudo.

* * * * *

Não dormiu toda a noite. Uma turbulencia de idéas desencontradas agitava-a. Havia dentro d’ella alguma cousa explosiva que rebentava, que se dilatava com um volume maior que o do seu cerebro e do seu coração.

Tinha projectos, predilecções, vaidades. Iria comer petisqueiras de truz na frescura dos retiros, sob parreiras verdes, em quanto na encosta, lavadeiras batem roupa. Teria vestidos azues, de merino, ricos lenços de sêda com ramos, uma sombrinha e anneis, alguma cousa como uma opulencia.

A tia Palma não a reconheceria tão liró, feita uma rainha de Nantes com botas de biqueira. E mirava-se no espelho embevecida, desvanecimento pelintra, a admiração de si mesma. Surprehendia-se a murmurar baixinho--O meu João. O meu João está na officina. O jantar do meu João. Em o meu João vindo. O meu João sahiu.--E orgulhava-se: ter um homem, ter um amigo...

Diriam d’ella as visinhas--a que está com o João da officina, uma ruiva.--Via-se aos domingos no passeio da Estrella com elle, em roda do coreto, fazendo volutas por entre os soldados de caçadores, vestido de merino azul, de folho, arregaçado atraz, a saia branca, um lenço nas mãos suadas e gravatinha encarnada, de borlas. E d’alli a um anno quem sabe, broche de ouro, de moeda! Os pequenos é que _haviam ser_ o diabo, ranhosos, cheios de birras, cuecas vestidas cuecas amarelladas, de rastos, fazendo gallos nas testas. Deixal-os. Tambem as _outras_ se aguentavam: ora! Mas um loiro, um loiro; que bom! Sempre tinha dito--Deus não me mate sem um loiro. Ás vezes ao acordar, na molleza lassa do corpo tépido e aconchegado, espreguiçava-se pensando:

--Ai! um loiro...

E lembrava as primeiras linhas do pescoço do aprendiz, linhas fortes e firmemente contornadas, tons rosa no sanguineo da epiderme, pequeninas espiraes de cabellinhos louros, de um macio quente e provocante. E depois a sua imaginação, no delirio, na incoherencia, prolongava nitidamente essas linhas, harmonisando-as, moldando-as, curvas suaves e velludineas, cheias de saude, aquelles brancos braços herculeos e sem um pello que lhe via na officina, um peito amplo, cheio e poderoso, em que se sentissem vagas ondulações viris de seios, altas pernas nervosas, esculpturaes, direitas. E diante d’ella surgia aquelle corpo de luctador, de athleta, grandes traços magistraes e simples, de uma pureza de academia. E penetrava-se da côr da pelle, fresca e clara, sob que se sentiam correr impetos de sangue rico, joven, virginal, fremente. Tomal-o-hia pelos hombros, redondos como os d’uma estatua, e erguida nos bicos dos pés, como era baixa, dar-lhe-hia pequenos beijos furiosos na bocca, sorvendo o seu halito, estrangulando-lhe os arquejos, dominando-o e confundindo a sua na alma d’elle.

Seria assim eternamente, sem nunca se fatigar, e no alongamento as noites de inverno, como grandes corôas que se rezam, deixariam cahir as horas no silencio.

No turbilhão dos seus devaneios succediam-se rápidas as scenas, vibrantes como _kolpodes_ que tumultuam na fermentação. Quereria a vida das visinhas, agitações constantes da negociação dos corpos, que transformam a vida em sonho ou chimera. Via saias de gomma arrastando, botinas vermelhas de roseta e tacão alto, os altos penteados caracteristicos. As caras angulosas, com manchas vinolentas sorriam para ella, deitando linguas negras de fóra.

E sem explicar porquê, como um rhythmo original, ouvia as pancadas d’uma enxada na terra do cemiterio. Gelava-se.--Era o pai que estava abrindo sepulturas! No fundo sentia-se infeliz e fluctuante n’uma grande incoherencia. Agitada como estava, o somno fugia-lhe, e as idéas desviando-se pouco a pouco do primeiro intuito, marchavam já, como raios que se refrangem, pelo vasto plaino das recordações. Pensava na vida do cemiterio, o amor medonho dos cadaveres, em cuja gelida intimidade vivera tanto, abrindo mortalhas e erguendo tampas de caixões. Na sua sinceridade confessava-se horrivel, cheia de affinidades com a hyena. Nunca mais iria exaltar-se perante homens sem vida. Que infamia! Agora tinha o seu João, carnes brancas, de semi-deus. Era feliz então sentindo na alma aquella irisação de paz que a perfumava toda, como n’um banho voluptuoso. Ser amada por aquelle forte, apertada e vencida nos seus braços esculpturaes, parecia-lhe uma ventura, um milagre, alguma cousa como um sonho febril. Dar-se-hia plenamente e sem reservas, com uma abundancia louca de contactos, phrenetica e possuida d’um alto desejo de o possuir. A sua vida condensava-se-lhe colorisada n’uma recordação deliciosa, sem comprehender no deleite a saciedade, a inanição, o desprezo de si mesma por fim. No fundo do espelhinho estanhado, a sua figura illuminada pela vela de sebo tinha uma curva nitida e delicada. Sorriu-se para mostrar os dentes, pequeninos e miudos, de gatasinha branca. E dilatou-se n’um vasto contentamento interior: era bella, de uma compleição tenuissima e nervosa, toda feita de anemias. Com a mão torceu de leve sobre a fronte, uns cabellinhos ruivos, foi desabotoando, pouco a pouco, o corpete... O seio era branco, assim descoberto, estreito e appetitoso como uma miniatura, mas incapaz de amamentar um filho. Todas as linhas harmoniosas do busto, de fragilidade suave, pareciam moldadas n’um espartilho e realisavam uma elegancia moderna, boa para ensaiar figurinos, nos _ateliers_ da Maria Cecilia. Ia desabotoando: uma saia cahiu, outra e outra, e a camisa envolveu-a, como uma tunica que se desaperta. Era magra e branca. Na harmonia dos quadris, na expansão geral das proeminencias, exhalava-se a idealidade das organisações virginaes. Trivial e pequena como era, excitava assim mesmo. E ella mesma se devorava com o olhar, examinando, ensaiando attitudes, cheia d’aquella forte figura do aprendiz de marceneiro. Na tarde do dia seguinte deviam encontrar-se á noitinha, quando os passaros se amam, no mysterio das ramarias; o que iria succeder? Sentiria a sua respiração ardente, com um cheiro a decilitros de Torres, queimar-lhe a face. Fallariam embevecidos e frementes, cheios da mesma idéa profana, olhando em torno, receosos de quem passasse. Elle piscar-lhe-hia o olho maganamente; entender-se-hiam. E como na membrana d’um phonographo, na sua alma vinham arfar todas as vibrações d’aquella loucura de prazer, em que palpitaria no dia seguinte. Que farta estava d’aquella pobreza, comer açordas com alho, andar feita chineleira, ahi como um diabo, com as saias todas rotas! Raio de vida! Ao menos em elle sendo o seu João, a cousa ia melhor. E depois... uma pessoa não sabe para o que está guardada n’este mundo. A tia Marcellina conhecia uma que fôra peixeira, pé descalço por essas ruas, a vender carapaus, um fedor a peixum de seiscentos diabos, e agora estava uma opiniosa com um fidalgo, n’um primeiro andar, ricas cortinas de renda nas janellas. Podia bem ser que nem sempre estivesse com o João--que elle era bom rapaz, coitado, mas diz que de sete em sete annos mudam as naturezas, salvo seja. A variedade attrahia-a. A Marcellina tinha-lhe fallado nos padres como bons patrões, unhas muito limpas, sua palma benta pelo domingo de Ramos, cotos de cera pelas Endoenças, bom lugar na capella-mór, onde se podia estar refastelada a ouvir a musica do _lausperenne_. E certos particulares, nos priores principalmente, um respeito, bellos lençoes de linho, almocinhos que era um regalo, nunca recolhiam tarde, muito limpos e pés lavados todos os dias. Divagava pelos braços dos desembargadores, dos soldados e dos marujos inglezes. Conhecia uma, da esquina, a Poloina, que até tinha inscripções; todos os seis mezes ia receber seu _milho_, que lhe pagava o governo, ou que raio era.

Outra, a Libania, um diabo bexigoso, tinha dinheiro a razão de juros, seu grilhão com medalha, annel de _luzeiro_. E fulana e sicrana, que tinham de seu, umas casitas, seu estanco, nunca tinham ido ao Desterro, viviam á barba longa e andavam gordas. Assim como assim, era boa vida; deixem lá fallar. Para pessoa pobre não havia outra. Que ser séria era bem bom fallado, mas o resto, tudo patacuada. Havia tolos que davam vestidos, ricos chales de cachemira, pagavam a cêa, sua noite ao Price,--os babosos! Depois não se cança a gente. Quem tinha juizo sempre ia bem. Havia tal que era mesmo pelo beiço. E citava exemplos. A prostituição desenhava-se-lhe como a solução natural no problema da vida de uma rapariga pobre, que todas amam, umas mais, outras menos. E a sua ardencia, aligeirava-lhe as difficuldades. Pão, pão; queijo, queijo--que ella não era lá de meias medidas. E deixou cahir a camisa. Entrou a lavar-se com pequeninos estremecimentos de frio; os cabellos ruivos desnastravam-se-lhe pelas espádoas, embaraçando-a; chapinhava na agua com ruido, rapidos movimentos cheios de graça, como fremitos de diapasão.

Ouviu chorar de repente na calada nocturna, um sino, de uma tristeza de morte. E depois houve ruido na rua, os candieiros mostravam-se pelas janellas; um grupo de tochas, sinistro e lento, passou no meio de pessoas descobertas. Era Nosso Pai, a alguem que estava agonisando. Carolina viu.

E poz-se a recordar a vida do pai, pelo cemiterio áquella hora gelado no silencio noctambulo, em quanto os mochos deixam cahir notas agudas, sinistramente escarninhas. Elle estava talvez dormindo nos seus farrapos, no coração d’um velho tumulo profanado, entre caixões esquecidos. Ou perseguido pela insomnia--talvez não tivesse ido ao _Pescada_--pensava n’ella por ventura, na sua solicitude de pai, porque tambem teem coração os coveiros, mercê de Deus! E ella, sua filha, pensava em abandonal-o, em fazer-se servir como uma isca de figado aos cocheiros e aos trabalhadores, com reducção de preços! Roçava então pela miseria do coveiro a sua piedade como uma aza de gaivota, e pensava:--Pobre velho!

Vinham-lhe subitaneas ternuras, vibrações de lagrimas intimas, uma desconsolação pathetica de tudo quanto a cercava. A idéa de morrer apparecia-lhe diffusamente, envolta n’uma photosphera de soffrimentos. Lembravam-lhe irmãs de caridade, jovens e pallidas, um rosario na cinta, o negror do habito amortalhando corpos de virgens maceradas. E longas penitencias no marmore das clausuras, entre açoutes de martyrio, ao rumor dos _confiteor_. Ia arrepender-se, pedir perdão...

Mas o corpo do aprendiz apparecia-lhe de uma tentação hilariante, branco, moço, potente e triumphador! Esmaecia, como um vago luar que empallidecei.

A Marcellina appareceu á tarde, depois da procissão, afogueada, cheia de esfalfamentos; que arrebentava se a não deixassem sentar um bocadinho, e que ia muito mal; a noite passada não tinha podido pregar olho; tudo eram bonecages diante d’ella, uma confusão, uma algazarra de metter medo. E estava ainda com febre--dava o pulso--que vissem, que vissem... Nunca fôra esmorecida, louvado Deus, lá isso não; que até pela febre amarella... ai! nem se queria lembrar. Aguas passadas... Tinha ido ao banco do hospital, explicado o que sentia, e desconfiava que aquillo era cousa de _nórisma_.

Um rapazote novo que parecia ainda estudante, torcera a venta, e ella bem vira... ai! tomára já morrer; que andar uma creatura a penar por esse mundo e depois marchar da mesma maneira... ora!... que lhe faltava! Antes ir d’uma vez. E que Deus lhe perdoasse, que Deus lhe perdoasse!...--Carolina sorria-se compassiva e cheia de interesse, tinha ternuras pelintras, roçava o seu rostinho branco pelo queixo barbado da inculcadeira, chamando-lhe _Li-Li_ com voz de criança amuada. Ia cahindo a tarde. O sol mergulhára no mar acharoando de tons metallicos e cupricos as nuvens do occidente, em gradações insensiveis, de uma grande riqueza de pinturas. Por entre tumulos, os cyprestes antigos erguiam-se como sentinellas immoveis, armadas de capacetes ponteagudos. Fóra as guitarras rumorejavam fadinhos tristes, do Calcinhas e do João Brandão; um trolha cantava rouquejando, com voz expectorada:

Habitantes d’este lugar Se m’alegra ó _curação_...

E vozes de garotos apregoavam--_vai agua ou não vai agua_!--no meio do vasto rumor de quem sahia.