Contos

Part 10

Chapter 103,787 wordsPublic domain

E paramentado de rico, fez ainda sahir da maleta de coiro uma especie de sacco de lona com fechos e corrêas. Debaixo da cama, por esquecimento tinham ficado as alpargatas do Carvalhosa. O tio Sabino calçou-as, as suas narinas palpitavam. Correu o fecho da porta cautelosamente, foi até ao escriptorio do Carvalhosa e saccou da gaveta do contador uns rolinhos de libras; de passagem pelo _toilette_ arrecadou o cofre de joias, os anneis e a caixa de pós d’arroz; de cima da banquinha de noite desappareceu a palmatoria de prata dourada e tudo foi arrecadado no sacco.

_Ai!--i--ó--ai! Quem escorrega, tambem cái._

Fechou destramente o sacco, tendo-lhe mettido primeiro a camisa de chita que despira, a fim de não tinirem dentro os metaes. E de chapéo á banda e cachimbo na bocca sahiu, o sacco pendente, fechando a porta e tirando-lhe a chave. Ninguem estava no corredor; Maria do Resgate engommava na saleta; as crianças na cozinha cortavam papagaios, chilreando.

--Até logo, minha sobrinha, até logo.

Ella veio correndo, com o seu riso affectuoso.

--O jantar é ás cinco, sim? Mas querendo dá-se ordem para mais tarde.

--Qual! Não temos precisão de incommodos. Ás quatro e meia estou.

Deu-lhe dois beijos na testa, levantou ao collo os petizes dizendo-lhes calinices--a moça abriu a cancella para elle sahir.

--Tenho bem que dar ás pernas ainda hoje, ia dizendo o tio Sabino. Ir á alfandega, ir ao consul, ir á _cámisaria_, ir tomar _midida di roupa_ ao alfaiate... Até logo, até logo...

E com a mala pendente, o lenço escarlate fóra do bolso do frack e a bengala debaixo do braço, desceu a escada, cantarolando:

_Ai!--i--ó--ai!_

Eram seis horas da tarde e nada de tio Sabino.

--Talvez se demorasse na alfandega.

Sete horas, e Maria do Resgate acabara de notar a porta da alcova fechada. Diabo!...

No dia seguinte a policia andava em campo para descobrir o larapio, que com tamanha pilheria roubára a familia do Carvalhosa. Nem o habil Antunes, nem o sagaz Castello Branco, nem o astucioso Ferreira conseguiram cousa alguma.

É necessario cuidado com os tios da America.

[Illustração]

A IDÉA DA COMADRE MONICA

Logo nos fins de setembro, quando tinham cahido as primeiras gotas de chuva, o Canellas tratou de encetar a sua vindima. Não era cedo já, a fallar serio. Havia duas semanas que o Garrocho começára, e que muitos lavradores tinham aberto os seus lagares. A _novidade_ promettia. O verão ia temperado, no inverno não chovera de mais, e d’esta moderação de clima provinha a riqueza dos cachos e a vigorosa maturação dos frutos. Feitas as contas o Canellas devia seis moedas ao todo. O da Vanga, emprestára-lhe tres libras para comprar o jumento na feira da Vidigueira; devia quatro meias corôas ao boticario, da doença da mulher; devia ao medico; devia uns _fiados_ na loja; oito mil reis, das casitas. Se fosse feliz na colheita da uva, pagava tudo e ainda guardava a sua tarefasita de vinho. Deus ia ajudando um homem, dizia elle para a mulher, e quando o pequeno fosse crescido melhor passariam. Assim, uma bella manhã, o Canellas com a mulher e o filho, deitaram caminho das vinhas, mais o burro. Pela estrada iam encontrando os ranchos de vindimadores; os rapazes trigueiros e musculosos da freguezia, ceifões e polainas, os chapéos de grosseiro feltro derrubados para diante; grupos de raparigas de sangue vivo, grandes olhos ardentes de meridionaes, os cestos ao quadril; velhos trabalhadores corcovados, de barrete, alforge ao hombro, atraz dos seus jumentos vagarosos, felpudos e pacificos; pesados carros de duas rodas calçadas em chapas de ferro, luzentes do attrito no saibro das estradas e pejados de enormes cestões de verga, para o carrego das uvas. A cada volta do caminho convergiam veredas por onde os magotes derivavam, dando--boa fortuna!--aos que se dirigiam para outro sitio. O campo n’aquelle tempo começava a perder o viço. Entre vinhedos de um verde carregado, emmaranhado e pittorescamente confuso, alastravam-se a perder de vista os ferragiaes amarellos, sêccos de raizes do trigo ceifado, onde as ovelhas mansissimas, sonoras de chocalhos, pasciam destroços, as hervagens finas dos barrancos, os fenos fibrosos dos corregos e as gramineas deixadas nos vallados. A região sem grandes depressões atrevidas, sem cordilheiras de arestas a prumo, offerecia á contemplação um aspecto sereno de ondulações graduaes, moldadas quasi na mesma curva regularissima; toda a zona abrangida n’um olhar, soffria o cultivo solícito e amigo da aldêa proxima, branca agglomeração de casinholas de taipa, sem estructura regular, desenhada no fundo cinzento, metallico e um pouco triste, das grandes oliveiras de troncos fendidos. A léste, no esfumado anil da massa de ar, linhas quebradas de valles distantes esboçavam-se risonhamente na luz da manhã. Nos limites da freguezia, no _termo_, a herdade assignalava-se com azinheiras gigantes e sombrias, grandes braços pelludos de musgos, contorcidos como n’uma desesperação sem remedio, contra o risonho céo transparente, bordado pelo algodão das nuvens em farrapinhos tenues, como um capricho de criança. O Canellas dirigiu-se á sua vinha, que ficava distante.

--Olha se nós recolhemos este anno um potinho de vinho!... Vendido, dava bem para um porco de quatro arrobas.

--O vinho ha-de estar barato, disse a Luiza, a esposa.

--E eu hei-de ter uns sapatos, gritou o garoto, saltando com os seus rijos pés immundos, na poeira da vereda. O burro, de orelha pendente, o passo reflectido, o olhar tristonho e lyrico, ia caminhando, todo coberto de moscardos. Á frente de todos, o cão _Bedelho_, corria e ladrava ás perdizes. O ar aquecia, o sol rebentava no céo a cascata da sua luz crua e candente, em quanto nos silvados e nas faias do proximo ribeiro, os garotos dos melros, na frescura humida das folhas espalmadas, faziam troça da companhia.

A vindima durou-lhes quatro dias, e a novidade fundira-lhes bem. Foi um tempo alegre, o que passaram. Em quanto a Luiza toda arregaçada, de chapeirão nos olhos, colhia os fructos mais o filho, cantando, o Canellas com uma vara de marmeleiro dirigia o burro carregado com dois cestões cheios, da vinha para a aldêa, e com outros dois vazios, da aldêa para a vinha. Quando acabaram o trafego, houve jantar de carne, para que foi convidada a visinha Monica, madrinha do rapaz. E á noite na banca da _casa de fóra_, jogaram-se as cartas, a Padre-Nossos.

--Quando fôr tempo, disse a Luiza á comadre, ha-de provar um copinho do nosso. A Monica arrebitou a penca, um riso guloso.

--Agora para o inverno, que é para aquecer. E vieram as confidencias, os orgulhos do bom governo de casa, a feliz plenitude de não deverem nada a ninguem--senão obrigações. Tinham pago ao medico, tinham pago á botica, ao da Vanga, os oito mil reis das casas... E ainda, na despensa, ao canto, fervia a talhita de mosto, objecto das mais caras esperanças e base de uma abundancia de chouriços excepcional em casa pobre, no inverno que ia entrar.

A Monica, sêcca figura de viuva pobre, seios chatos e estereis, um grande lenço de chita preta no pescoço, as contas de louça desfiadas a _gloriæ_ e a _Salve-Rainhas_ durante a monotonia dos serões, roía-se de inveja, um riso amarello de comilona e de desamparada. E formulando bons desejos que não sentia, ia pedindo a Deus désse aos compadres tanta fortuna como desejava para si propria. O casal agradecia. O Canellas a espaços, esfregando as grossas mãos de cavador, observava:

--_Estemos_ pagos e _sastifeitos_! _Cinco senhoras!_

--_Estemos_ pagos e _sastifeitos_! E em côro, todos formulavam planos de futura prosperidade: a compra de uma courella á Barrada, a acquisição de uma adega e a postura de bacello, nas terras da Pichaleira. A Luiza tinha precisão de um capote de pano para ir á missa; indagava da comadre qual era o preço, queria do bom!

--O meu, dizia a Monica, custou-me quatro _sobranos_. Ainda foi no tempo do meu homem, que Deus tenha. Que hoje!... Quero um trapo de uma saia e tenho de o ganhar.

Desde aquella festança, a Monica cresceu de desvelos para o afilhado, vinha todas as manhãs saber como tinha passado a comadre, e como estava o pote do vinho.

--Nada para sustancia como dois dedos de sumo. Logo pela manhãsinha, que regalo!...

E armavam grandes palestras a respeito do tempo, das lavoiras, dos casamentos e dos escandalos. A filha do Cardoso estava maluca pelo Francisco da Balsa. Contavam-se cousas bonitas. O mundo ia por agua abaixo. E por transições subtis, alludiam ao pote da despensa. Um domingo provaram. Era todo vermelho, transparente e fluido, de um aroma delicado de roupeiro e moscatel. Boa gota, comadre! Sim senhoras. Boa gota! dizia a Monica, beberricando. E com um estalo de lingua: é de rachar pedras, caramba! De tarde sentiram a cabeça pesada e foram-se deitar muito vermelhas. No outro dia, outra. Cada vez sabia melhor. O rapasito estava na escóla, a tractos com o _Monteverde_. Á noite, depois da cêa, o Canellas ia logo para a cama, cançado de cavar desde o romper do sol nas fazendas dos senhores proprietarios da terra, e não dava pela falta. Ellas, as duas, em se apanhando sós, era aos quartilhos. E dilatadas em narrativas eroticas de frades, de estudantes e mulheres infieis á honra conjugal, passavam as tardes juntas e os serões, com grandes risadas, uma profusão de gestos e de palavras, certa licença de epithetos, reparavel.

Finalmente pelo Natal, o Canellas foi _emechar_ o seu vinho, segundo o uso. Destapou o potito: que diabo!... Estava quasi meio. Chamou a Luiza todo desconsolado.

--Ó mulher, não sabes? Temos o pote em meio. Quem tirou d’aqui o vinho? A Luiza debruçou-se, muito admirada.

--Santo nome de Deus! exclamou. E com um accento choroso: ora vejam a nossa desgraça!...

--Tu bebestel-o, mulher! affirmou o Canellas. Ella encarou-o duramente, sem resposta. O Canellas aprumou-se colerico.

--Tu vendestel-o, mulher! A Luiza voltou-lhe as costas, desdenhosa. Á tardinha, depois d’uma scena violenta, o Canellas sahiu. A mulher foi logo a casa da comadre contar tudo, pedir conselho. A Monica depoz a meia, tirou os oculos gravemente.

--Ai, não tenha receio. Esta noite, arranja-se.

--Mas como, comadre, como? Se elle sabe de tudo, ai espinhela! Foi para casa cheia de medo. O Canellas voltou á noite para cear, taciturno, abatido, sem dar palavra. Bateu no pequeno mal achou pretexto, atirou o chapéo com mau modo. Ao entrar no quarto da cama, resmungava:

--Estas bebedas, senhores!... Não dormiu toda a noite, a pensar no seu vinho e a amaldiçoar a hora em que casára. Mas não vira nunca a Luiza _alegre_, não tinha motivos de suspeita. Havia bons annos que não guardava vinho. O pote, de barro, estava talvez secco, era poroso, tinha seis gatos no bojo, podia ser que absorvesse, ou deixasse sahir o mosto. Mas tanto!... Deram dez, deram onze, deu meia noite, e elle ás voltas na cama. De repente sentiu correr no telhado. Poz o ouvido á escuta. Ouviu rir. Uma voz gritou: Canellas! Canellas! Riam, aos pulos nas telhas. Canellas! Santo nome de Jesus! Era o diabo! Chamou a Luiza: ó mulher! Não ouves? São as bruxas. Não ouves? Canellas! Canellas! Começou a rezar o _Credo_, enganava-se no meio, começava outra vez, não sabia concluir. Diziam:

--Vamos ao vinho! E a correria continuava. Vamos ao vinho! O pobre estava em suores, varado de medo.

No outro dia mal luziu o buraco, saltou fóra da cama, vestiu-se ás apalpadellas, poz a manta ao hombro, agarrou nos alforges, desprendeu o burro e partiu para o trabalho. Tinha a cabeça em agua, não se lhe tiravam da mente os gritos e as risadas. _Canellas! Canellas!_ Então, as bruxas andavam com elle? _Vamos ao vinho! Vamos ao vinho!_ E sentil-as-hia correr no telhado todas as noites, aos berros e ás gargalhadas, distribuindo os seus pobres almudes pela communidade, e ainda em cima, escarnecendo-o. Durante o dia viram-no mettido comsigo, acabrunhado, carrancudo, dando enxadadas na terra desesperadamente, a suar como um cavallo.

Ao cahir da noite entrou em casa; a Luiza estava ao canto da chaminé, diante do lume de azinho, o chale pela cabeça, aspecto adoentado e beato, o rozario entre os dois dedos. Demais, gravida de cinco mezes...

--Ora santas noites!

--Santas noites!

Reparou na postura da mulher, tão finadinha como um carapau.

--Que é isso? Estás doente?

--Deixa-me, ando morrendo, mesmo morrendo. Todo o santissimo dia com febre, calafrios, dôres. Ai!... e nas cruzes.

--Mas o que é?--Ella disse choramingando:

--Não vivo muito, não! O Canellas commoveu-se: estás doida! E solicitamente, achegando-se:

--E a respeito de vontadinha de comer, ha?

--Nem nada, marido. Ainda hoje me não entrou migalha n’esta boquinha de Deus. Tudo me sabe mal.

--Mas não appeteces nada? chá e fatias; mata-se o gallo.

--Ai, não! Só appetecia uma cousa. Mas não, é melhor não.

--Dize o que é, anda. Se fôr caro compra-se: ora!...

Ella ficou calada, rezando automaticamente.

--Então, que dizes? Que appeteces? Vamos.

--Olha, o que eu comia bem agora, eram uns peixinhos da ribeira das Sormarias. Tenho mesmo vontade, mesmo de dentro. O Canellas foi logo albardar o burro, agarrou n’um cesto e poz-se a caminho, sem querer ouvir mais.

--Não tenha algum desmancho! ia elle dizendo.

Apenas lhe não sentiu os passos, a Luiza correu a chamar a comadre. Entraram ambas na despensa. Tinham mettido o resto do vinho n’um odre; uma agarrou por um lado, outra por outro, e arrastaram o couro turgido até á porta. Era noite fechada e ninguem passava na rua. Das chaminés evolava-se o fumo dos lares, ouvia-se rir nas habitações das familias, e um cão latia no campo, sem echo; em quanto, acalentadas no berço as crianças choravam. D’alli a pouco as duas, viram chegar o Coxo, taberneiro, pesada figura de velhaco, apopletico, gorro sebento, um riso desdentado de patife, ironias bestiaes, navalha.

--Venha o bago! disse a Monica. O Coxo quiz roubar-lhe um beijo. A Luiza occultára-se atraz da porta.

--Podias ter vindo mais cedo, disse a velha. Estendia as mãos ao preço do odre, dizendo:

--São tres almudes, tinto; a quartinho, tres mil e seiscentos. Sete meias corôas e mais um tostão. Barato como pouco. O Coxo deu o dinheiro, pegou no odre, e foi-se depois de ter cingido amorosamente o estafermo.

--Agora, tornou a Monica, venha a minha commissão e aqui tem o dinheiro.

A Luiza deu-lhe seis tostões.

--Vamos á ribeira, disse ainda a velha. Embrulharam-se nos chales, fecharam a porta; á socapa sahiram para o campo, e apenas na estrada, deitaram a correr. Era quem mais podia, por aquellas ladeiras acima, em direitura á ribeira.

--Ai que arrebento! dizia a viuva, arquejante, a espaços. A final chegaram ao sitio. Pararam, em conferencia.

--Tu vaes para o outeirinho de lá. Eu fico, mesmo defronte, agachada na rocha. Assim foi. Não viam nada á roda. O céo pesava de grossas nuvens caliginosas e tragicas. Esbarravam com as azinheiras seculares, cahiam sobre carrascaes e tojeiros. Nas trevas, as ramas torcidas pelo nordeste, tinham gestos aggressivos, de reprobas. Por todo o campo, quando passava a rajada, sentiam-se risos abafados, segredos de feiticeiras, a sombra mexia-se, ondulava, tinha transmutações sinistras. O Canellas no entanto, estava mettido á agua, com o cesto no braço, puxando a linha da isca. Inda não conseguira apanhar peixe; o medo agoniava-o. Se as bruxas soubessem que estava alli!... De repente, cahiu uma pedra na ribeira, e esboroamentos de terra foram descendo, como deslocados por um pé em falso.

--Mau! E o anzol não prendia. Diabo!...

Pareceu-lhe que diziam segredinhos nas barranceiras, acima da sua cabeça. Andava gente em cima, viu um vulto acocorar-se.

--Ó camarada! gritou elle, em tremuras. Tudo calado. Puxou a linha; nada! De repente, uma voz moribunda chamou:

--Berrabaz!

Outra respondeu:

--Satanaz! O Canellas não sabia de que terra era. O que faria á sua vida? Alli acabava n’aquella noite. Benzeu-se. Iam dar cabo d’elle, espetar-lhe agulhas nos rins, metter-lhe á força um sapo nos dentes... Tornou a voz:

--Vamos afogar o que está na ribeira?

--Não, que a mulher está rezando o rozario á Virgem.

--Olhem se a Luiza não tem ficado rezando ao lume, hein? Santa mulher! Como elle estava agradecido ás suas orações!...

--Berrabaz!

--Satanaz!--Um cão uivava funebremente, no casal do Pelles. O Canellas batia os dentes, deixára cahir o cesto. O vento dava risadas de escarneo, dançavam as azinheiras e o céo fazia ouvidos de mercador. A voz insistiu:

--Vamos afogar o que está na ribeira?

--Não, que a mulher está rezando á Virgem. D’alli a nada:

--Berrabaz!--Satanaz!

--Vamos a beber-lhe o vinho?--O Canellas pulou:--com mil raios!

--Vamos.

--Vamos a partir-lhe o pote?

--Vamos.

O desgraçado ergueu as mãos desesperado e murmurou chorosamente:

--Ai a minha desgraça! Ai o meu rico vinho tinto!

* * * * *

Alta noite, a Luiza enrolada sempre no seu chale, rezando sempre as suas contas ao canto do lar, viu romper pela casa dentro o Canellas esbaforido, sem peixes, sem anzoes, sem sapatos, sem chapéo, sem manta, alagado em suor, trémulo de medo e morto de cansaço. Contou tudo á Luiza:

--E vai, ouvi dizer: vamos a beber-lhe o vinho? Vamos. Partimos-lhe o pote? Partimos. Tu sentiste alguma cousa, mulher? A Luiza persignava-se, com os olhos em alvo.

--Eu nada, disse ella. Não senti nada: uma cousa assim!...

Foram vêr á despensa. Tinham bebido o vinho, e o pote estava em pedaços. Entraram a chorar. Veio a comadre.

--Que é lá isso de prantos n’esta casa? disse ella, afflicta. Contaram-lhe.

--Pois eu lhes juro, que as bruxas nunca mais os perseguem. Sei as orações de as afugentar.

De facto, nunca mais tornaram, nem bruxas nem boas vindimas, nem potes de vinho.

Tal foi _a idéa da comadre Monica_.

[Illustração]

HISTORIA DE DOIS PATIFES

Toda a manhã, Fernanda andou impaciente pelas casas, esperando os gatinhos. Ao acordar, fôra aquella a sua primeira idéa--os dois pequeninos animaes cheios de viveza e graça, em cujos olhos ria uma innocencia travêssa e dôce. Havia tempos que a tia Consuelo lh’os promettera, quando fossem crescidinhos. E a cada visita á boa senhora, Fernanda levava horas e horas com elles, brancos de neve, uma finura de pennugem que acariciava a pelle, as duas cabecinhas inquietas com orelhas que se fitavam petulantemente, a cada ruido do gabinete. Fernanda tinha uma paixão por aquelles dois diabitos brancos que levavam os dias, ou sugando as tetas da mãi, grande gata de pello fulvo e pupillas glaucas, ou rebolando no tapete os corpinhos electricos, n’uma embriaguez de vida que fazia prazer. O gato era o mais leviano, com as suas patinhas fôfas e os dedos rosados na planta, de que as unhas transparentes e curvas sahiam desembainhadas, nos momentos de irritação, se lhe pisavam a cauda. Tinha os olhos azues, cheios de fibrilhas inquietas mais escuras, uma ingenuidade selvagem no encarar, fitando as orelhas velludinosas, em que parecia residir toda a petulancia d’essa cabeça infantil. O focinho côr de rosa, com barbicas alvoroçadas sorria um pouco, mesmo quando assanhado, e das gengivas vermelhas e humidas, os dentinhos em serra, agudos e pequenos, resahiam gulosos, desafiando a gente. A gatinha affectava mais seriedade e mais _coquetterie_, uma ambição contida de se fazer senhora e uma sciencia complicada em se fazer amar do macho. Nunca era a primeira no ataque, e zangava-se mal presentia uma offensa. Á comida exigia os melhores pedaços, rosnando sôfrega, com a pata erriçada de unhitas curvas, contra o primeiro que lhe chegasse ao prato. Dormitava muito, como a mãi; ás vezes o irmãosito chegava-se, cauteloso, estendendo as patas e movendo vagarosamente a cauda, as pupillas cheias de um clarão de patifaria. Com um movimento destro erguia uma pata--zás!--no ventre da sua companheira, que entreabria preguiçosamente os olhos, immovel, com o focinho enterrado na penugem do ventre. Esta indifferença benevola, arrojava o _gaillard_ do gatinho a maiores garotices. Chegava-se então muito meigo, unhas escondidas, o dorso alto, as orelhas chatas e deitadas para traz. Com as duas patas da frente, cingia o pescoço da pequenina, e entrava a morder-lhe repetidamente o peito, os labios, a pontinha das orelhas, em quanto com as unhas trazeiras lhe raspava voluptuosamente o ventre e as côxas, provocando cocegas.

Ella estremecia, toda percorrida de um gozo intimo e alongando o corpo para traz; e de ventre para o ar ficava immovel, espreitando, com a bocca entreaberta e os olhitos reluzentes de uma caustica lasciva, de bacchante núa. Abraçavam-se então, luctando, as caudas em espiras; armavam saltos por cima dos moveis, iam esconder-se nas franjas espessas dos _fauteils_ muito baixos, e suspendendo-se em cacho dos pés esculpidos das consoles encrustadas de metal e madre-perola, sacudiam-se, balançando os corpos como dois gymnastas em exercicios de destreza. A tia Consuelo, impacientava-se já de semelhantes correrias. Descobrira uma nodoa no carmezim do divan da sala e achára extirpado a unhadas o ventre de uma antiga _bergère_ preciosa, do tempo da senhora infanta D. Anna. Além d’isso, a estroinice dos brutinhos punha uma nota impertinente na monotonia somnolenta da casa, antiga casa cheia de silencio e conforto, onde o piano dormia mezes inteiros e os moveis do salão alinhavam, como collegiaes em revista, os seus bôjos vestidos em camisas de bretanha.

A gatarrona mãi toda insensivel ás festas, muda e impertigada como a dona da casa, era tão indolente como esta; e ao lado de D. Consuelo, sobre uma almofada de sêda, dormia dias inteiros, com uma colleira escarlate de fechos de ouro. Só ella, com a sua idade circumspecta e a sua molleza freiratica, dizia bem no salão de côres austeras em que D. Consuelo recebia os padres de S. Luiz e as irmãs do _Coração de Maria_, e levava as tardes sepulta na _voltaire_, toda amortalhada em velludo negro, touca de rendas pretas e as _Meditações sobre o divino Jesú_ nos joelhos. De fórma que, um domingo determinou expulsar do santuario os patifes ruidosos, o que alegrou Fernanda vivamente: ia emfim ser toda d’aquelles garotinhos gentis e ferozes.

Era domingo, luminoso dia do primavera germinadora e florida, sonoro de rumores de gente festiva e cortado de vôos d’andorinhas meigas, que entravam a construir os ninhos pelas cimalhas das aguas-furtadas. Fernanda não quiz almoçar sem que os bichos viessem; conseguira dois lugares á mesa para elles; a gatinha ficar-lhe-hia quasi no collo, o gato mais longe, com um pratinho de porcellana provido dos melhores bocados. E que nome lhes poriam? Foi um meditar profundo sobre o problema.

Houvera em casa uma gata franceza, que morrera de velha e tinha um rabo branco caricioso--_A Blanche_. Pobre querida! Estava sepultada no jardim entre duas roseiras de todo o anno. E Fernanda recordava o seu modo subtil de se roçar pelas saias á comida, com o _rhum-rhum_ dolente de uma beata offerecendo rezas, e o seu comer dificultoso de desdentada, rejeitando os ossos das perdizes e preferindo bolos fôfos, de recheios aromaticos, que ao almoço se serviam em pilhas, sobre cabasinhos de rosas, de velho Sèvres _rocócó_. E apparecera morta uma manhã de inverno, ao pé do lago. A gatinha devia chamar-se _Blanche_ tambem, um nome da côr do seu vestido setinoso de princeza. Mas o Arthur, o garoto mais velho da casa, era de opinião diversa. Segundo elle, deviam baptisar-se os dois _bébés_, na banheira de marmore do rez-do-chão, sendo elle padrinho, mais o trintanario.