Chapter 5
Então começou para Maria da Piedade uma existência de abandonada. Tudo de repente em volta dela--a doença do marido, achaques dos filhos, tristezas do seu dia, a sua costura--lhe pareceu lúgubre. Os seus deveres, agora que não punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados como fardos injustos. A sua vida representava-se-lhe como desgraça excepcional: não se revoltava ainda: mas tinha dêsses abatimentos, dessas súbitas fadigas de todo o seu ser, em que caía sôbre a cadeira, com os braços pendentes, murmurando:
--¿Quando se acabará isto?
Refugiava-se então naquele amor como uma compensação deliciosa. Julgando-o todo puro, todo de alma, deixava-se penetrar dêle e da sua lenta influência. Adrião tornara-se, na sua imaginação, como um ser de proporções extraordinárias, tudo o que é forte, e que é belo, e que dá razão à vida. Não quis que nada do que era dêle ou vinha dêle lhe fôsse alheio. Leu todos os seus livros, sobretudo aquela _Madalena_ que tambêm amara, e morrera dum abandono. Estas leituras calmavam-na, davam-lhe como uma vaga satisfação ao desejo. Chorando as dores das heroínas de romance, parecia sentir alívio às suas.
Lentamente, esta necessidade de encher a imaginação dêsses lances de amor, de dramas infelizes, apoderou-se dela. Foi durante meses um devorar constante de romances. Ia-se assim criando no seu espírito um mundo artificial e idealizado. A realidade tornava-se-lhe odiosa, sobretudo sob aquele aspecto da sua casa, onde encontrava sempre agarrado às saias um ser enfermo. Vieram as primeiras revoltas. Tornou-se impaciente e áspera. Não suportava ser arrancada aos episódios sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e sentir-lhe o hálito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das feridas dos pequenos a lavar. Começou a ler versos. Passava horas só, num mutismo, à janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a rebelião duma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balcões, entre o canto dos rouxinóis: e queria ser amada assim, possuída num mistério de noite romântica...
O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrião e alargou-se, estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos heróis de novela; era um ente meio príncipe e meio facínora, que tinha, sobretudo, a fôrça. Porque era isto que admirava, que queria, porque ansiava nas noites cálidas em que não podia dormir--dois braços fortes como aço, que a apertassem num abraço mortal, dois lábios de fogo que, num beijo, lhe chupassem a alma. Estava uma histérica.
Às vezes, ao pé do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de tísico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um ódio torpe, um desejo de lhe apressar a morte...
E no meio desta excitação mórbida do temperamento irritado, eram fraquezas súbitas, sustos de ave que pousa, um grito ao ouvir bater uma porta, uma palidez de desmaio se havia na sala flores muito cheirosas... À noite abafava; abria a janela; mas o cálido ar, o bafo môrno da terra aquecida do sol, enchiam-na dum desejo intenso, duma ânsia voluptuosa, cortada de crises de chôro...
A Santa tornava-se Vénus.
E o romantismo mórbido tinha penetrado tanto naquele ser, e desmoralizára-o tam profundamente, que chegou ao momento em que bastaria que um homem lhe tocasse, para ela lhe caír nos braços:--e foi o que sucedeu emfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois anos. Era o praticante da botica.
Por causa dêle escandalizou toda a vila. E agora deixa a casa numa desordem, os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas horas, o marido a gemer abandonado na sua alcôva, toda a trapagem dos emplastros por cima das cadeiras, tudo num desamparo torpe--para andar atrás do homem, um maganão odioso e cebento, de cara balôfa e gordalhufa, luneta preta com grossa fita passada atrás da orelha, e bonésinho de sêda posto à catita. Vem de noite às entrevistas de chinelo de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar uma Joana, criatura obêsa, a quem chamam na vila a _bola de unto_.
CIVILIZAÇÃO
I
Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e gado.
Desde o berço, onde sua mãe, senhora gorda e crédula de Trás-os-montes, espalhava, para reter as Fadas Benéficas, funcho e âmbar, Jacinto fôra sempre mais resistente e são que um pinheiro das dunas. Um lindo rio, murmuroso e transparente, com um leito muito liso de areia muito branca, reflectindo apenas pedaços lustrosos de um céu de verão ou ramagens sempre verdes e de bom aroma, não ofereceria, àquele que o descesse numa barca cheia de almofadas e de Champanhe gelada, mais doçura e facilidades do que a vida oferecia ao meu camarada Jacinto. Não teve sarampo e não teve lombrigas. Nunca padeceu, mesmo na idade em que se lê Balzac e Musset, os tormentos da sensibilidade. Nas suas amizades foi sempre tam feliz como o clássico Orestes. Do Amor só experimentára o mel--êsse mel que o amor invariavelmente concede a quem o pratíca, como as abelhas, com ligeireza e mobilidade. Ambição, sentira sómente a de compreender bem as ideas gerais, e a «ponta do seu intelecto» (como diz o vélho cronista medieval) não estava ainda romba nem ferrugenta... E todavia, desde os vinte e oito anos, Jacinto já se vinha repastando de Schopenhauer, do Eclesiastes, doutros Pessimistas menores, e três, quatro vezes por dia, bocejava, com um bocejo cavo e lento, passando os dedos finos sôbre as faces, como se nela só palpasse palidez e ruína. Porquê?
Era êle, de todos os homens que conheci, o mais complexamente civilizado--ou antes aquele que se munira da mais vasta sôma de civilização material, ornamental e intelectual. Nesse palácio (floridamente chamado o _Jasmineiro_) que seu pai, tambêm Jacinto, construira sôbre uma honesta casa do século XVII, assoalhada a pinho e branqueada a cal--existia, creio eu, tudo quanto para bem do espírito ou da matéria os homens teem criado, através da incerteza e dor, desde que abandonaram o vale feliz de Septa-Sindu, a Terra das Águas Fáceis, o doce país Ariano. A biblioteca, que em duas salas, amplas e claras como praças, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes de Caranânia até ao teto de onde, alternadamente, através de cristais, o sol e a electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma--continha vinte e cinco mil volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de marroquim escarlate. Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar espaço, o bibliotecário apenas colecionára os que irreconciliavelmente se contradizem) havia mil oito centos e dezassete!
Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri, buscando êste economista ao longo das estantes, oito metros de economia política! Assim se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto de todas as obras essenciais da inteligência--e mesmo da estupidez. E o único inconveniente dêste monumental armazêm do saber era que todo aquele que lá penetrava, inevitavelmente lá adormecia, por causa das poltronas, que provídas de finas pranchas móveis para sustentar o livro, o charuto, o lápis das notas, a taça de café, ofereciam ainda uma combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o corpo encontrava logo, para mal do espírito, a doçura, a profundidade e a paz estirada de um leito.
Ao fundo, e como um altar-mór, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A sua cadeira, grave e abacial, de couro, com brazões, datava do século XIV, e em tôrno dela pendiam numerosos tubos acústicos, que, sôbre os panejamentos de sêda côr de musgo e côr de hera, pareciam serpentes adormecidas e suspensas num vélho muro de quinta. Nunca recordo sem assombro a sua mesa, recoberta toda de sagazes e subtis instrumentos para cortar papel, numerar páginas, colar estampilhas, aguçar lápis, raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, cintar documentos, carimbar contas! Uns de níquel, outros de aço, rebrilhantes e frios, todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas rígidas, as pontas vivas, trilhavam e feriam: e nas largas fôlhas de papel Whatman em que êle escrevia, e que custavam 500 réis, eu por vezes surpreendi gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos êle considerava indispensáveis para compôr as suas cartas (Jacinto não compunha obras) assim como os trinta e cinco dicionários, e os manuais, e as enciclopédias, e os guias, e os directórios, atulhando uma estante isolada, esguia, em forma de tôrre, que silenciosamente girava sôbre o seu pedestal, e que eu denominára o Farol. O que, porêm, mais completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de civilização eram, sôbre as suas peanhas de carvalho, os grandes aparelhos, facilitadores do pensamento,--a máquina de escrever, os auto-copistas, o telégrafo-Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele santuário. Tic, tic, tic! Dlin, dlin, dlin! Crac, crac, crac! Trrre, trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos êsses fios mergulhavam em fôrças universais, transmitiam fôrças universais. E elas nem sempre, desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Pôrto, uma voz oracular e rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade:
--«_Maravilhosa invenção! ¿Quem não admirará os progressos dêste século?_»
Pois, numa doce noite de S. João, o meu supercivilizado amigo, desejando que umas senhoras parentas de Pinto Pôrto (as amáveis Gouveias) admirassem o fonógrafo, fez romper do bocarrão do aparelho, que parece uma trompa, a conhecida voz rotunda e oracular.
--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
Mas, inábil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital--porque de repente o fonógrafo começa a redizer, sem descontinuação, interminavelmente, com uma sonoridade cada vez mais rotunda, a sentença do conselheiro:
--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
Debalde Jacinto, pálido, com os dedos trémulos, torturava o aparelho. A exclamação recomeçava, rolava, oracular e majestosa:
--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
Enervados, retiramos para uma sala distante, pesadamente revestida de panos de Arraz. Em vão! A voz de Pinto Pôrto lá estava, entre os panos de Arraz, implacável e rotunda:
--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
Furiosos, enterramos uma almofada na bôca do fonógrafo, atiramos por cima mantas, cobertores espessos, para sufocar a voz abominável. Em vão! sob a mordaça, sob as grossas lãs, a voz rouquejava, surda mas oracular:
--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
As amáveis Gouveias tinham abalado, apertando desesperadamente os chales sôbre a cabeça. Mesmo à cozinha, onde nos refugiamos, a voz descia, engasgada e gosmosa:
--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
Fugimos espavoridos para a rua.
Era de madrugada. Um fresco bando de raparigas, de volta das fontes, passava cantando com braçados de flores:
Todas as ervas são bentas Em manhã de S. João...
Jacinto, respirando o ar matinal, limpava as bagas lentas do suor. Recolhemos ao _Jasmineiro_, com o sol já alto, já quente. Muito de manso abrimos as portas, como no receio de despertar _alguêm_. Horror! Logo da ante-câmara percebemos sons estrangulados, roufenhos: «_admirará..._ _progressos..._ _século!..._» Só de tarde um electricista pôde emmudecer aquele fonógrafo horrendo.
Bem mais aprazível (para mim) do que esse gabinete temerosamente atulhado de civilização--era a sala de jantar, pelo seu arranjo compreensível, fácil e íntimo. À mesa só cabiam seis amigos que Jacinto escolhia com critério na literatura, na arte e na metafísica, e que, entre as tapeçarias de Arraz, representando colinas, pomares e portos da Ática cheias de classicismo e de luz, renovavam ali repetidamente banquetes que, pela sua intelectualidade, lembravam os de Platão. Cada garfada se cruzava com um pensamento ou com palavras dextramente arranjadas em forma de pensamento.
E a cada talher correspondiam seis garfos, todos de feitios dissemelhantes e astuciosos:--um para as ostras, outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro para a fruta, outro para o queijo. Os copos, pela diversidade dos contornos e das côres, faziam, sôbre a toalha mais reluzente que esmalte, como ramalhetes silvestres espalhados por cima de neve. Mas Jacinto e os seus filósofos, lembrando o que o experiente Salomão ensina sôbre as ruínas e amarguras do vinho, bebiam apenas em três gotas de água uma gota de Bordeus (Chateaubriand, 1860). Assim o recomendam--Hesíodo no seu _Nereu_, e Diocles nas suas _Abelhas_. E de águas havia sempre no _Jasmineiro_ um luxo redundante--águas geladas, águas carbonatadas, águas esterilizadas, águas gasosas, águas de sais, águas minerais, outras ainda, em garrafas sérias, com tratados terapêuticos impressos no rótulo... O cozinheiro, mestre Sardão, era daqueles que Anaxágoras equiparava aos Retóricos, aos oradores, a todos os que sabem a arte divina de «temperar e servir a Idea»: e em Sybaris, cidade do Viver Excelente, os magistrados teriam votado a mestre Sardão, pelas festas de Juno Lacina, a coroa de fôlhas de ouro e a túnica Milésia que se devia aos bemfeitores cívicos. A sua sopa de alcachofra e ovas de carpa; os seus filetes de veado macerados em vélho Madeira com _purée_ de nozes; as suas amoras geladas em éter, outros acepipes ainda, numerosos e profundos (e os únicos que tolerava o meu Jacinto) eram obras de um artista, superior pela abundância das ideas novas--e juntavam sempre a raridade do sabor à magnificência da forma. Tal prato dêsse mestre imcomparável, parecia, pela ornamentação, pela graça florida dos lavores, pelo arranjo dos coloridos frescos e cantantes, uma joia esmaltada do cinzel de Cellini ou Meurice. Quantas tardes eu desejei fotografar aquelas composições de excelente fantasia, antes que o trinchante as retalhasse! E esta superfinidade do comer condizia deliciosamente com a do servir. Por sôbre um tapete, mais fôfo e mole que o musgo da floresta da Brocelândia, deslizavam, como sombras fardadas de branco, cinco criados e um pagem preto, à maneira vistosa do século XVIII. As travessas (de prata) subiam da cozinha e da copa por dous ascensores, um para as iguarias quentes, forrado de tubos onde a água fervia; outro, mais lento, para as iguarias frias, forrado de zinco, amónia e sal, e ambos escondidos por flores tam densas e viçosas que era como se até a sopa saísse fumegando dos românticos jardins de Armida. E muito bem me lembro de um domingo de maio em que, jantando com Jacinto um bispo, o erudito bispo de Chorazin, o peixe emperrou no meio do ascensor, sendo necessário que acudissem, para o extrair, pedreiros com alavancas.
II
Nas tardes em que havia «banquete de Platão» (que assim denominávamos essas festas de trutas e ideas gerais), eu, vizinho e íntimo, aparecia ao declinar do sol, e subia familiarmente aos quartos do nosso Jacinto--onde o encontrava sempre incerto entre as suas casacas, porque as usava alternadamente de sêda, de pano, de flanelas Jaegher, e de _foulard_ das Índias. O quarto respirava o frescor e aroma do jardim por duas vastas janelas, providas magnificamente (alêm das cortinas de sêda mole Luís XV) de uma vidraça exterior de cristal inteiro, duma vidraça interior de cristais miudos, dum tôldo rolando na cimalha, dum estore de sedinha frouxa, de gases que franziam e se enrolavam como nuvens, e duma gelosia móvel de gradaria mourisca. Todos êstes resguardos (sábia invenção de Holland & C.ª, de Londres) serviam a guardar a luz e o ar--segundo os avisos de termómetros, barómetros e higrómetros, montados em ébano, e a que um meteorologista (Cunha Guedes) vinha, todas as semanas, verificar a precisão.
Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de _toilette_, uma mesa enorme de vidro, toda de vidro, para a tornar impenetrável aos micróbios, e coberta de todos êsses utensílios de asseio e alinho que o homem do século XIX necessita numa capital, para não desfear o conjunto suntuário da civilização. Quando o nosso Jacinto, arrastando as suas engenhosas chinelas de pelica e sêda, se acercava desta ara--eu, bem aconchegado num divã, abria com indolência uma Revista, ordináriamente a _Revista Electro-Pática_, ou a das _Indagações Psíquicas_. E Jacinto começava... Cada um dêsses utensílios de aço, de marfim, de prata, impunham ao meu amigo, pela influência omnipoderosa que as cousas exercem sôbre o dono (_sunt tyranniæ rerum_) o dever de o utilizar com aptidão e deferência. E assim as operações do alindamento de Jacinto apresentavam a prolixidade, reverente e insuprimível, dos ritos dum sacrifício.
Começava pelo cabelo... Com uma escôva chata, redonda e dura, acamava o cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escôva estreita e recurva, à maneira do alfange dum persa, ondeava o cabelo sôbre a orelha; com uma escôva côncava, em forma de telha, empastava o cabelo, por trás, sôbre a nuca... Respirava e sorria. Depois, com uma escôva de longas cerdas, fixava o bigode; com uma escôva leve e flácida acurvava as sobrancelhas; com uma escôva feita de penugem regularizava as pestanas. E dêste modo Jacinto ficava diante do espelho, passando pêlos sôbre o seu pêlo, durante catorze minutos.
Penteado e cansado, ia purificar as mãos. Dois criados, ao fundo, manobravam com perícia e vigor os aparelhos do lavatório--que era apenas um resumo dos maquinismos monumentais da sala de banho. Ali, sôbre o mármore verde e róseo do lavatório, havia apenas duas duches (quente e fria) para a cabeça; quatro jactos, graduados desde _zero até cem graus_; o vaporizador de perfumes; a fonte de água esterilizada (para os dentes); o repuxo para a barba; e ainda torneiras que rebrilhavam e botões de ébano que, de leve roçados, desencadeavam o marulho e o estridor de torrentes nos Alpes... Nunca eu, para molhar os dedos, me cheguei àquele lavatório sem terror--escarmentado da tarde amarga de janeiro em que bruscamente, dessoldada a torneira, o jacto de água a _cem graus_ rebentou, silvando e fumegando, furioso, devastador... Fugimos todos, espavoridos. Um clamor atroou o _Jasmineiro_. O vélho Grilo, escudeiro que fôra do Jacinto pai, ficou coberto de empôlas na face, nas mãos fieis.
Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, de linho, de corda entrançada (para restabelecer a circulação), de sêda frouxa (para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento.
E era êste bocejo, perpétuo e vago, que nos inquietava a nós, seus amigos e filósofos. ¿Que faltava a êste homem excelente? Êle tinha a sua inabalável saúde de pinheiro bravo, crescido nas dunas; uma luz da inteligência, própria a tudo alumiar, firme e clara sem tremor ou morrão; quarenta magníficos contos de renda; todas as simpatias duma cidade chasqueadora e scéptica; uma vida varrida de sombras, mais liberta e lisa do que um céu de verão... E todavia bocejava constantemente, palpava na face, com os dedos finos, a palidez e as rugas. Aos trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! E pela morosidade desconsolada de toda a sua acção parecia ligado, desde os dedos até à vontade, pelas malhas apertadas duma rêde que se não via e que o travava. Era doloroso testemunhar o fastio com que êle, para apontar um enderêço, tomava o seu lápis pneumático, a sua pena eléctrica--ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo telefónico!... Neste mover lento do braço magro, nos vincos que lhe arrepanhavam o nariz, mesmo nos seus silêncios, longos e derreados, se sentia o brado constante que lhe ia na alma;--_Que massada! Que massada!_ Claramente a vida era para Jacinto um cansaço--ou por laboriosa e difícil, ou por desinteressante e ôca... Por isso o meu pobre amigo procurava constantemente juntar à sua vida novos interêsses, novas facilidades. Dois inventores, homens de muito zêlo e pesquiza estavam encarregados, um em Inglaterra, outro na América, de lhe noticiar e de lhe fornecer todas as invenções, as mais miudas, que concorressem a aperfeiçoar a confortabilidade do _Jasmineiro_. De resto, êle proprio se correspondia com Edison. E, pelo lado do pensamento, Jacinto não cessava tambêm de buscar interêsses e emoções que o reconciliassem com a vida--penetrando à cata dessas emoções e dêsses interêsses pelas veredas mais desviadas do saber, a ponto de devorar, desde janeiro a março, setenta e sete volumes sôbre a _evolução das ideas morais entre as raças negróides_. Ah! nunca homem dêste século batalhou mais esforçadamente contra a _séca de viver_! Debalde! Mesmo de explorações tam cativantes como essa, através da moral dos negróides, Jacinto regressava mais murcho, com bocejos mais cavos!
E era então que êle se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer e do _Eclesiastes_. Porque? Sem dúvida porque ambos êsses pessimistas o confirmavam nas conclusões que êle tirava de uma experiência paciente e rigorosa: «que tudo é vaidade ou dor, que quanto mais se sabe, mais se péna, e que ter sido rei de Jerusalêm e obtido os gózos todos na vida só leva a maior amargura...» ¿Mas porque rolara assim a tam escura desilusão--o saùdável, rico, sereno e intelectual Jacinto? O vélho escudeiro Grilo pretendia que «S. Ex.ª sofria de fartura!»
III
Ora justamente depois dêsse inverno, em que êle se embrenhara na moral dos negróides e instalara a luz eléctrica entre os arvoredos do jardim, sucedeu que Jacinto teve a necessidade moral iniludível de partir para o Norte, para o seu vélho solar de Torges. Jacinto não conhecia Torges, e foi com desusado tédio que êle se preparou, durante sete semanas, para essa jornada agreste. A quinta fica nas serras--e a rude casa solarenga, onde ainda resta uma tôrre do século XV, estava ocupada, havia trinta anos, pelos caseiros, boa gente de trabalho, que comia o seu caldo entre a fumaraça da lareira, e estendia o trigo a secar nas salas senhoriais.
Jacinto, logo nos começos de março, escrevera cuidadosamente ao seu procurador Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que compuzesse os telhados, caiasse os muros, envidraçasse as janelas. Depois mandou expedir, por combóios rápidos, em caixotes que transpunham a custo os portões do _Jasmineiro_, todos os confortos necessários a duas semanas de montanha--camas de penas, poltronas, divãs, lâmpadas de Carcel, banheiras de níquel, tubos acústicos para chamar os escudeiros, tapetes persas para amaciar os soalhos. Um dos cocheiros partiu com um copé, uma vitória, um breque, mulas e guizos.
Depois foi o cozinheiro, com a bateria, a garrafeira, a geleira, bocais de trufas, caixas profundas de águas mineráis. Desde o amanhecer, nos pátios largos do palacete, se pregava, se martelava, como na construção de uma cidade. E as bagagens, desfilando, lembravam uma página de Heródoto ao narrar a invasão persa. Jacinto emmagrecera com os cuidados daquele Êxodo. Por fim, largamos numa manhã de junho, com o Grilo, e trinta e sete malas.
Eu acompanhava Jacinto, no meu caminho para Guiães, onde vive minha tia, a uma légua farta de Torges: e íamos num vagom reservado, entre vastas almofadas, com perdizes e Champanhe num cêsto. A meio da jornada devíamos mudar de combóio--nessa estação, que tem um nome sonoro em _ola_ e um tam suave e cândido jardim de roseiras brancas. Era domingo de imensa poeira e sol--e encontrámos aí, enchendo a plata-forma estreita, todo um povaréu festivo que vinha da romaria de S. Gregório da Serra.