Chapter 2
No entanto, na larga sala a noite passava-se espiritualmente. Macário não pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela assembleia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o _Madrigal a Lídia_: lia-o de pé, com uma luneta redonda aplicada sôbre o papel, a perna direita lançada para diante, a mão na abertura do colete branco de gola alta. E em redor, formando círculo, as damas, com vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas terminadas num fofo de rendas, mitenes de retroz preto cheias da scintilação dos aneis, tinham sorrisos ternos, cochichos, doces murmurações, risinhos, e um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas.--Muito bonito, diziam, muito bonito! E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava sorrindo--e via-se-lhe um dente pôdre.
Depois a preciosa D. Jerónima da Piedade e Sande, sentando-se com maneiras comovidas ao cravo, cantou com a sua voz roufenha a antiga ária de Sully:
Oh Ricardo, oh meu rei, O mundo te abandona
o que obrigou o terrível Gaudêncio, democrata de 20 e admirador de Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Macário:
--Reis!... víboras!
Depois, o cónego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada no tempo do senhor D. João VI: _lindas môças_, _lindas môças_. E a noite ia assim correndo, literária, pachorrenta, erudita, requintada e toda cheia de musas.
Oito dias depois, Macário era recebido em casa da Vilaça, num domingo. A mãe convidára-o, dizendo-lhe:
--Espero que o vizinho honre aquela choupana.
E até o desembargador apoplético, que estava ao lado, exclamou:
--Choupana?! diga alcáçar, formosa dama!
Estavam, nesta noite, o amigo do chapéu de palha, um vélho cavaleiro de Malta, trôpego, estúpido e surdo, um beneficiado da Sé, ilustre pela sua voz de tiple, e as manas Hilárias, a mais vélha das quais tendo assistido, como aia de uma senhora da casa da Mina, à tourada de Salvaterra, em que morreu o conde dos Arcos, nunca deixava de narrar os episódios pitorescos daquela tarde: a figura do conde dos Arcos de cara rapada e uma fita de setim escarlate no rabicho; o soneto que um magro poeta, parasita da casa de Vimioso, recitou quando o conde entrou, fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado à espanhola, com um xairel onde as suas armas estavam lavradas em prata: o tombo que nesse momento um frade de S. Francisco deu da trincheira alta, e a hilaridade da côrte, que até a snr.ª condessa de Pavolide apertava as mãos nas ilhargas: depois el-rei o senhor D. José I, vestido de veludo escarlate, recamado de ouro, todo encostado ao rebordo do seu palanque, e fazendo girar entre dois dedos a sua caixa de rapé cravejada, e por trás, imóveis, o físico Lourenço e o frade, seu confessor: depois o rico aspecto da praça cheia de gente de Salvaterra, maiorais, mendigos dos arredores, frades, lacaios, e o grito que houve, quando D. José I entrou--Viva el-rei, nosso senhor! E o povo ajoelhou, e el-rei tinha-se sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo, atrás dêle. Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e até el-rei todo debruçado, batendo com a mão no parapeito, gritando na confusão, e o capelão da casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção. Ela, Hilária, ficara estarrecida de pavor: sentia os urros dos bois, gritos agudos de mulheres, os ganidos dos flatos, e vira então um vélho, todo vestido de veludo preto, com a fina espada na mão, debater-se entre fidalgos e damas que o seguravam, e querer atirar-se à praça, bramindo de raiva! «É o pai do conde!» explicavam em volta. Ela então desmaiara nos braços de um padre da Congregação. Quando veio a si, achou-se junto da praça; a berlinda rial estava à porta, com os bolieiros emplumados, os machos cheios de guisos, e os batedores a cavalo, à frente: via-se lá dentro el-rei, escondido ao fundo, pálido, sorvendo febrilmente rapé, todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mãos apoiada à alta bengala, forte, espadaúdo, o aspecto carregado, o marquês de Pombal falava devagar e intimativamente, gesticulando com a luneta. Mas os batedores picaram, os estalos dos bolieiros retiniram, e a berlinda partiu a galope, emquanto o povo gritava: Viva el-rei, nosso senhor!--e o sino da capela do paço tocava a finados! Era uma honra que el-rei concedia à casa dos Arcos.
Quando D. Hilária acabou de contar, suspirando, estas desgraças passadas, começou-se a jogar. Era singular que Macário não se lembrava o que tinha jogado nessa noite radiosa. Só se recordava que tinha ficado ao lado da menina Vilaça (que se chamava Luísa), que reparara muito na sua fina pele rosada, tocada de luz, e na meiga e amorosa pequenez da sua mão com uma unha mais polida que o marfim de Dieppe. E lembrava-se tambêm de um acidente excêntrico, que determinara nele, desde êsse dia, uma grande hostilidade ao clero da Sé. Macário estava sentado à mesa, e ao pé dêle Luísa: Luísa estava toda voltada para êle com uma das mãos apoiando a sua fina cabeça loura e amorosa, e a outra esquecida no regaço. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os seus óculos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e as suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas do crânio como dois postigos abertos. Ora, como era necessário no fim do jôgo pagar uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado do beneficiado, Macário tirou da algibeira uma peça e quando o cavaleiro, todo curvado e com um ôlho pisco, fazia a sôma dos tentos nas costas dum az, Macário conversava com Luísa, e fazia girar sôbre o pano verde a sua peça de oiro, como um bilro ou um peão. Era uma peça nova que luzia, faiscava, rodando, e feria a vista como uma bola de névoa doirada. Luísa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Macário que todo o céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrêlas estavam naquele claro sorriso distraído, espiritual, arcangélico, com que ela seguia o giro fulgurante da peça de oiro nova. Mas de repente, a peça, correndo até à borda da mesa, caiu para o lado do regaço de Luísa, e desapareceu, sem se ouvir no soalho de tábuas o seu ruído metálico. O beneficiado abaixou-se logo cortêsmente: Macário afastou a cadeira, olhando para debaixo da mesa: a mãe Vilaça alumiou com um castiçal, e Luísa ergueu-se e sacudiu com pequenina pancada o seu vestido de cassa. A peça não apareceu.
--É celebre--disse o amigo de chapéu de palha--eu não ouvi tinir no chão.
--Nem eu, nem eu--disseram.
O beneficiado, curvado, buscava tenazmente, e a Hilária mais nova rosnava o responso de Santo António.
--Pois a casa não tem buracos--dizia a mãe Vilaça.
--Sumiço assim!--resmungava o beneficiado.
No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas:
--Pelo amor de Deus! Ora que tem! Àmanhã aparecerá! Tenham a bondade! Por quem são! Então, snr.ª D. Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada.
Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtracção--e atribuiu-a ao beneficiado. A peça rolara, de-certo, até junto dêle sem ruido; êle pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado; depois, no movimento brusco e curto que tivera, empolgára-a vilmente. E, quando saíram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camelão, dizia a Macário pela escada:
--¿Ora o sumiço da peça, hein? Que brincadeira!
--¿Acha, snr. beneficiado?!--disse Macário parando, pasmado da impudência.
--Ora essa! Se acho?! Se lhe parece! Uma peça de 7$000 réis! Só se o senhor as semeia... Safa! Eu dava em doido!
Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O beneficiado é que acrescentou:
--Àmanhã mande lá pela manhã, homem. Que diabo... Deus me perdôe! Que diabo! uma peça não se perde assim. Que bolada, hein!
E Macário tinha vontade de lhe bater.
Foi neste ponto que Macário me disse, com a sua voz singularmente sentida:
--Emfim, meu amigo, para encurtarmos razões, resolvi-me casar com ela.
--Mas a peça?
--Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi-me casar com ela!
II
Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas êsse caso, casto e simples, eu calo-o;--mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau preto, na saleta escura que abria para a escada... Um beijo fugitivo, superficial, efémero. Mas isso bastou ao seu espírito recto e severo para o obrigar a tomá-la como espôsa, a dar-lhe uma fé imutável e a posse da sua vida. Tais foram os seus esponsais. Aquela simpática sombra das janelas vizinhas tornara-se para êle um destino, o fim moral da sua vida e toda a idea dominante do seu trabalho. E esta história toma, desde logo, um alto carácter de santidade e de tristeza.
Macário falou-me muito do carácter e da figura do tio Francisco: a sua possante estatura, os seus óculos de oiro, a sua barba grisalha, em colar, por baixo do queixo, um tic nervoso que tinha numa asa do nariz, a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranqùilidade, os seus princípios antigos, autoritários e tirânicos, e a brevidade telegráfica das suas palavras.
Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almôço, abruptamente, sem transições emolientes: «Peço-lhe licença para casar» o tio Francisco, que deitava o açúcar no seu café, ficou calado, remexendo com a colher, devagar, majestoso e terrível: e quando acabou de sorver pelo pires, com grande ruído, tirou do pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca o seu palito, meteu-o na bôca e saíu: mas à porta da sala parou, e voltando-se para Macário, que estava de pé, junto da mesa, disse secamente:
--Não.
--Perdão, tio Francisco!
--Não.
--Mas oiça, tio Francisco...
--Não.
Macário sentiu uma grande cólera:
--Nesse caso, faço-o sem licença.
--Despedido da casa.
--Sairei. Não haja dúvida.
--Hoje.
--Hoje.
E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se:
--Olá!--disse êle a Macário, que estava exasperado, apoplético, raspando nos vidros da janela.
Macário voltou-se com uma esperança.
--Dê-me daí a caixa do rapé--disse o tio Francisco.
Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto, estava perturbado.
--Tio Francisco...--começou Macário.
--Basta. Estamos a 12. Receberá o seu mês por inteiro. Vá.
As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e idiota. Macário afirmou-me que era assim.
Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria na Praça da Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No entanto estava tranqùilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha relações e amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da família, o seu tacto comercial, o seu belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as portas dos escritórios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga relação comercial da sua casa.
--De muito boa vontade, meu amigo--disse-me êle.--Quem mo déra cá! Mas, se o recebo, fico de mal com seu tio, meu vélho amigo de vinte anos. Êle declarou-mo categóricamente. Bem vê. Fôrça maior. Eu sinto, mas...
E todos, a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas, receavam _ficar de mal com o seu tio, vélho amigo de vinte anos_.
E todos _sentiam_, _mas_...
Macário dirigiu-se então a negociantes novos, estranhos à sua casa e à sua família, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente livre da amizade de vinte anos do tio. Mas, para êsses, Macário era desconhecido, e desconhecidos por igual a sua dignidade e o seu hábil trabalho. Se tomavam informações, sabiam que êle fôra despedido da casa do tio repentinamente, por causa duma rapariga loura, vestida de cassa. Esta circunstância tirava as simpatias a Macário. O comércio evita o guarda-livros sentimental. De sorte que Macário começou a sentir-se num momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, o tempo passava, sorvendo, pinto a pinto, as suas seis peças.
Macário mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas, como fôra sempre de temperamento recolhido, não criara amigos. De modo que se encontrava desamparado e solitário--e a vida aparecia-lhe como um descampado.
As peças findaram. Macário entrou, pouco a pouco, na tradição antiga da miséria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: começou por empenhar--depois vendeu. Relógio, aneis, casaco azul, cadeia, paletot de alamares, tudo foi levando pouco e pouco, embrulhado debaixo do chale, uma vélha sêca e cheia de asma.
No entanto via Luísa de noite, na saleta escura que dava para o patamar: uma lamparina ardia em cima da mesa: era feliz ali naquela penumbra, todo sentado castamente, ao pé de Luísa, a um canto de um vélho canapé de palhinha. Não a via de dia, porque trazia já a roupa usada, as botas cambadas, e não queria mostrar à fresca Luísa, toda mimosa nas suas cambraias asseadas, a sua miséria remendada: ali, àquela luz ténue e esbatida, êle exalava a sua paixão crescente e escondia o seu fato decadente. Segundo me disse Macário--era muito singular o temperamento de Luísa. Tinha o carácter louro como o cabelo--se é certo que o louro é uma côr fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus brancos dentinhos, dizia a tudo _pois sim_: era muito simples, quási indiferente, cheia de transigências.
Amava de-certo Macário, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza débil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se queria: e às vezes, naqueles encontros noturnos, tinha sono.
Um dia, porêm, Macário encontrou-a excitada: estava com pressa, o chale traçado à tôa, olhando sempre para a porta interior.
--A mamã percebeu--disse ela.
E contou-lhe que a mãe desconfiava, ainda rabugenta e áspera, e que de-certo farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjuração.
--¿Porque não me vens pedir à mamã?
--Mas, filha, se eu não posso! Não tenho arranjo nenhum. Espera. É mais um mês talvez. Tenho agora aí um negócio em bom caminho. Morríamos de fome.
Luísa calou-se, torcendo a ponta do chale, com os olhos baixos.
--¿Mas ao menos--disse ela--emquanto eu te não fizer sinal da janela, não subas mais, sim?
Macário rompeu a chorar, os soluços saíam violentos e desesperados.
--Chut!--dizia-lhe Luísa.--Não chores alto!...
Macário contou-me a noite que passou, ao acaso pelas ruas, ruminando febrilmente a sua dor, e lutando, sob a friagem de janeiro, na sua quinzena curta. Não dormiu, e logo pela manhã, ao outro dia, entrou como uma rajada no quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente:
--É tudo o que tenho--e mostrava-lhe três pintos.--Roupa, estou sem ela. Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome.
O Tio Francisco, que fazia a barba à janela, com o lenço da Índia amarrado na cabeça, voltou-se e, pondo os óculos, fitou-o.
--A sua carteira lá está. Fique--e acrescentou, com um gesto decisivo--solteiro.
--Tio Francisco, ouça-me!...
--Solteiro, disse eu--continuou o tio Francisco, dando o fio à navalha numa tira de sola.
--Não posso.
--Então, rua!
Macário saíu, estonteado. Chegou a casa, deitou-se, chorou e adormeceu. Quando saiu, à noitinha, não tinha resolução, nem idea. Estava como uma esponja saturada. Deixava-se ir.
De repente, uma voz disse de dentro de uma loja:
--Eh! pst! olá!
Era o amigo do chapéu de palha: abriu grandes braços pasmados.
--Que diacho! desde manhã que te procuro
E contou-lhe que tinha chegado da província, tinha sabido a sua crise e trazia-lhe um desenlace.
--Queres?
--Tudo.
Uma casa comercial queria um homem hábil, resoluto e duro, para ir numa comissão difícil e de grande ganho a Cabo-Verde.
--Pronto!--disse Macário.--Pronto! Àmanhã.
E foi logo escrever a Luísa, pedindo-lhe uma despedida, um último encontro, aquele em que os braços desolados e veementes tanto custam a desenlaçar-se. Foi. Encontrou-a toda embrulhada no seu chale, tiritando de frio. Macário chorou. Ela, com a sua passiva e loura doçura, disse-lhe:
--Fazes bem. Talvez ganhes.
E ao outro dia Macário partiu.
Conheceu as viagens trabalhosas nos mares inimigos, o enjôo monótono num beliche abafado, os duros sóis das colónias, a brutalidade tirânica dos fazendeiros ricos, o pêso dos fardos humilhantes, as dilacerações da ausência, as viagens ao interior das terras negras e a melancolia das caravanas que costeiam por violentas noites, durante dias e dias, os rios tranqùilos, donde se exala a morte.
Voltou.
E logo nessa tarde a viu a ela, Luísa, clara, fresca, repousada, serena, encostada ao peitoril da janela, com a sua ventarola chinesa. E ao outro dia, sôfregamente, foi pedi-la à mãe. Macário tinha feito um ganho saliente--e a mãe Vilaça abriu-lhe uns grandes braços amigos, cheia de exclamações. O casamento decidiu-se para daí a um ano.
--Porquê?--disse eu a Macário.
E êle explicou-me que os lucros de Cabo-Verde não podiam constituir um capital definitivo: eram apenas um capital de habilitação. Trazia de Cabo-Verde elementos de poderosos negócios: trabalharia, durante um ano, heróicamente, e ao fim poderia, sossegadamente, criar uma família.
E trabalhou: pôs naquele trabalho a fôrça criadora da sua paixão. Erguia-se de madrugada, comia à pressa, mal falava. À tardinha ia visitar Luísa. Depois voltava sôfregamente para a fadiga, como um avaro para o seu cofre. Estava grosso, forte, duro, fero: servia-se com o mesmo ímpeto das ideas e dos músculos: vivia numa tempestade de cifras. Às vezes Luísa, de passagem, entrava no seu armazêm: aquele pousar de ave fugitiva dava-lhe alegria, fé, reconforto para todo um mês cheiamente trabalhado.
Por êsse tempo o amigo do chapéu de palha veio pedir a Macário que fôsse seu fiador por uma grande quantia que êle pedira para estabelecer uma loja de ferragens em grande. Macário, que estava no vigor do seu crédito, cedeu com alegria. O amigo do chapéu de palha é que lhe dera o negócio providencial de Cabo-Verde. Faltavam então dois meses para o casamento. Macário já sentia, por vezes, subirem-lhe ao rosto as febris vermelhidões da esperança. Já começara a tratar dos _banhos_. Mas um dia o amigo do chapéu de palha desapareceu com a mulher de um alferes. O seu estabelecimento estava em comêço. Era uma confusa aventura. Não se pôde nunca precisar nítidamente aquele _embróglio_ doloroso. O que era positivo é que Macário era fiador, Macário devia reembolsar. Quando o soube, empalideceu e disse simplesmente:
--Liquído e pago!
E quando liquidou, ficou outra vez pobre. Mas nesse mesmo dia, como o desastre tivera uma grande publicidade, e a sua honra estava santificada na opinião, a casa Peres & C.ª, que o mandara a Cabo-Verde, veio propor-lhe uma outra viagem e outros ganhos.
--Voltar a Cabo-Verde outra vez!
--Faz outra vez fortuna, homem. O senhor é o diabo!--disse o snr. Eleutério Peres.
Quando se viu assim, só e pobre, Macário desatou a chorar. Tudo estava perdido, findo, extinto; era necessário recomeçar pacientemente a vida, voltar às longas misérias de Cabo-Verde, tornar a tremer os passados desesperos, suar os antigos suores! E Luísa? Macário escreveu-lhe. Depois, rasgou a carta. Foi a casa dela: as janelas tinham luz: subiu até ao primeiro andar, mas aí tomou-o uma mágoa, uma covardia de revelar o desastre, o pavor trémulo de uma separação, o terror de ela se recusar, negar-se, hesitar! ¿E quereria ela esperar mais? Não se atreveu a falar, explicar, pedir; desceu, pé-ante-pé. Era noite. Andou ao acaso pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem saber: de repente ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a _xácara mourisca_. Lembrou-se do tempo em que conhecera Luísa, do bom sol claro que havia então, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Estava na rua onde eram os armazêns do tio. Foi caminhando. Pôs-se a olhar para a sua antiga casa. A janela do escritório estava fechada. Quantas vezes dali vira Luísa, e o brando movimento do seu leque chinês! Mas uma janela, no segundo andar, tinha luz; era o quarto do tio. Macário foi observar mais de longe: uma figura estava encostada, por dentro, à vidraça: era o tio Francisco. Veio-lhe uma saudade de todo o seu passado simples, retirado, plácido. Lembrava-lhe o seu quarto, e a vélha carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua mãe, que estava por cima da barra do leito; a sala de jantar e o seu vélho aparador de pau preto, e a grande caneca de água, cuja asa era uma serpente irritada. Decidiu-se, e impelido por um instinto, bateu à porta. Bateu outra vez. Sentiu abrir a vidraça, e a voz do tio perguntar:
--Quem é?
--Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.
A vidraça fechou-se, e daí a pouco a porta abriu-se, com um grande ruído de ferrolhos. O tio Francisco tinha um candieiro de azeite na mão. Macário achou-o magro, mais vélho. Beijou-lhe a mão.
--Suba--disse o tio.
Macário ia calado, cosido com o corrimão.
Quando chegou ao quarto, o tio Francisco poisou o candieiro sôbre uma larga mesa de pau-santo, e de pé, com as mãos nos bolsos, esperou.
Macário estava calado, anediando a barba.
--Que quer?--gritou-lhe o tio.
--Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo-Verde.
--Boa viagem.
E o tio Francisco, voltando-lhe as costas, foi rufar na vidraça.
Macário ficou imóvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair.
--¿Onde vai, seu estúpido?--gritou-lhe o tio.
--Vou-me.
--Sente-se ali!
E o tio Francisco continuou, com grandes passadas pelo quarto:
--O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é um homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo é um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo-Verde! Bem sei! Pagou tudo. Está claro! Tambêm sei! Àmanhã faz o favor de ir para a sua carteira, lá para baixo. Mandei pôr palhinha nova na cadeira. Faz favor de pôr na factura Macário & Sobrinho. E case. Case, e que lhe preste! Levante dinheiro. O senhor precisa de roupa branca e de mobília. Levante dinheiro. E meta na minha conta. A sua cama lá está feita.
Macário, estonteado, radioso, com as lágrimas nos olhos, queria abraçá-lo.
--Bem, bem. Adeus!
Macário ia sair.
--¿Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?
E, indo a um pequeno armário, trouxe geleia, um covilhete de doce, uma garrafa antiga do Pôrto e biscoitos.
--Côma!
E sentando-se ao pé dêle, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma lágrima a correr-lhe pelo engelhado da pele.
De sorte que o casamento foi decidido para dali a um mês. E Luísa começou a tratar do seu enxoval.
Macário estava então na plenitude do amor e da alegria.
Via o fim da sua vida preenchido, completo, feliz. Estava quási sempre em casa da noiva, e um dia andando a acompanhá-la, em compras, pela lojas, êle mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente. A mãe tinha ficado numa modista, num primeiro andar da rua do Ouro, e êles tinham descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo prédio, na loja.
O dia estava de inverno, claro, fino, frio, com um grande céu azul-ferrete, profundo, luminoso, consolador.
--Que bonito dia!--disse Macário.
E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.
--Está!--disse ela.--Mas podem reparar; nós sós...
--Deixa, está tam bom...
--Não, não.
E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.
Macário disse-lhe:
--Queria ver aneis.
--Com pedras--disse Luísa--e o mais bonito.
--Sim, com pedras--disse Macário.--Ametista, granada. Emfim, o melhor.
E, no entanto, Luísa ia examinando as _montres_ forradas de veludo azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares de camafeus, os aneis, as finas _alianças_ frágeis como o amor, e toda a scintilação da pesada ourivesaria.
--Vê, Luísa--disse Macário.