Chapter 12
D. Rui abalou, com um fundo suspiro; e, no seu quarto, pôs devotamente ante a imagem da Virgem as flores que não oferecera, na igreja, ao seu altar. Toda a sua vida se tornou então um longo queixume por sentir tam fria e desumana aquela mulher, única entre as mulheres, que prendera e tornara sério o seu coração ligeiro e errante. Numa esperança, a que antevia bem o desengano, começou a rondar os muros altos do jardim--ou embuçado numa capa, com o ombro contra uma esquina, lentas horas se quedava contemplando as grades das gelosias, negras e grossas como as dum cárcere. Os muros não se fendiam, das grades não saía sequer um rasto de luz prometedora. Todo o solar era como um jazigo onde jazia uma insensível, e por trás das frias pedras havia ainda um frio peito. Para se desafogar compôs, com piedoso cuidado, em noites veladas sôbre o pergaminho, trovas gementes que o não desafogavam. Diante do altar da Senhora do Pilar, sôbre as mesmas lages onde a vira ajoelhada, pousava êle os joelhos, e ficava, sem palavras de oração, num scismar amargo e doce, esperando que o seu coração serenasse e se consolasse, sob a influência de Aquela que tudo consola e serena. Mas sempre se erguia mais desditoso e tendo apenas a sensação de quanto eram frias e rígidas as pedras sôbre que ajoelhara. O mundo todo só lhe parecia conter rigidez e frieza.
Outras claras manhãs de domingo encontrou D. Leonor: e sempre os olhos dela permaneciam descuidados e como esquecidos, ou quando se cruzavam com os seus era tam singelamente, tam limpos de toda a emoção, que D. Rui os preferiria ofendidos e faiscando de ira, ou soberbamente desviados com soberbo desdêm. De-certo D. Leonor já o conhecia:--mas, assim, conhecia tambêm a ramalheteira mourisca agachada diante do seu cêsto à beira da fonte; ou os pobres que se catavam ao sol diante do portal da Senhora. Nem D. Rui já podia pensar que ela fôsse desumana e fria. Era apenas soberanamente remota, como uma estrêla que nas alturas gira e refulge, sem saber que, em baixo, num mundo que ela não distingue, olhos que ela não suspeita a contemplam, a adoram e lhe entregam o govêrno da sua ventura e sorte.
Então D. Rui pensou:
--Ela não quer, eu não posso: foi um sonho que findou, e Nossa Senhora a ambos nos tenha na sua graça!
E como era cavaleiro muito discreto, desde que a reconheceu assim inabalável na sua indiferença, não a procurou, nem sequer ergueu mais os olhos para as grades das suas janelas, e até nem penetrava na igreja de Nossa Senhora quando casualmente, do portal, a avistava ajoelhada, com a sua cabeça tam cheia de graça e de oiro, pendida sôbre o Livro de Horas.
II
A vélha aia, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, não tardara em contar ao senhor de Lara que um môço audaz, de gentil parecer, novo morador nas vélhas casas do arcediago, constantemente se atravessava no adro, se postava diante da igreja para atirar o coração pelos olhos à senhora D. Leonor. Bem amargamente o sabia já o ciumento fidalgo, porque quando da sua janela espreitava, como um falcão, a airosa senhora a caminho da igreja, observara os giros, as esperas, os olhares dardejados daquele môço galante--e puxara as barbas de furor. Desde então, na verdade, a sua mais intensa ocupação era odiar D. Rui, o impudente sobrinho do cónego, que ousava erguer o seu baixo desejo até à alta senhora de Lara. Constantemente agora o trazia vigiado por um serviçal--e conhecia todos os seus passos e pousos, e os amigos com quem caçava ou folgava, e até quem lhe talhava os gibões, e até quem lhe polia a espada, e cada hora do seu viver. E mais ansiosamente ainda vigiava D. Leonor--cada um dos seus movimentos, os mais fugitivos modos, os silêncios e o conversar com as aias, as distracções sôbre o bordado, o geito de scismar sob as árvores do jardim, e o ar e a côr com que recolhia da igreja... Mas tam inalteradamente serena no seu sossêgo de coração se mostrava a senhora D. Leonor que nem o ciume mais imaginador de culpas poderia achar manchas naquela pura neve. Redobradamente áspero então se voltava o rancor de D. Alonso contra o sobrinho do cónego por ter apetecido aquela pureza, e aqueles cabelos côr de sol claro, e aquele colo de garça rial, que eram só seus, para esplêndido gôsto da sua vida. E quando passeava na sombria galeria do solar, sonora e toda de abóbada, embrulhado na sua samarra orlada de peles, com o bico da barba grisalha espetado para diante, a grenha crespa erriçada para trás e os punhos cerrados, era sempre remoendo o mesmo fel:
--Tentou contra a virtude dela, tentou contra a minha honra... É culpado por duas culpas e merece duas mortes!
Mas ao seu furor quási se misturou um terror, quando soube que D. Rui já não esperava no adro a senhora D. Leonor, nem rondava amorosamente os muros do palacete, nem penetrava na igreja quando ela lá rezava, aos domingos; e que tam inteiramente se alheava dela que uma manhã, estando rente da arcada, e sentindo bem ranger e abrir a porta por onde a senhora ia aparecer, permanecera de costas voltadas, sem se mover, rindo com um cavaleiro gordo que lhe lia um pergaminho. Tam bem afectada indiferença só servia de-certo (pensou D. Alonso) a esconder alguma bem danada tenção! ¿Que tramava êle, o destro enganador? Tudo no desabrido fidalgo se exacerbou--ciume, rancor, vigilância, pesar da sua idade grisalha e feia. No sossêgo de D. Leonor suspeitou manha e fingimento;--e imediatamente lhe vedou as visitas à Senhora do Pilar.
Nas manhãs costumadas corria êle à igreja para rezar o rosário, a levar as desculpas de D. Leonor--«_que no puede venir_ (murmurava curvado diante do altar) _por lo que sabeis, virgem purissima!_» Cuidadosamente visitou e reforçou todos os negros ferrolhos das portas do seu solar.
De noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado.
À cabeceira do vasto leito, junto da mesa onde ficava a lâmpada, um relicário e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe retemperar as fôrças--luzia sempre uma grande espada nua. Mas, com tantas seguranças, mal dormia--e a cada instante se solevava em sobressalto de entre as fundas almofadas, agarrando a senhora D. Leonor com mão bruta e sôfrega, que lhe pisava o colo, para rugir muito baixo, numa ânsia: «Dize que me queres só a mim!...» Depois, com a alvorada, lá se empoleirava, a espreitar, como um falcão, as janelas de D. Rui. Nunca o avistava, agora, nem à porta da igreja às horas de missa, nem recolhendo do campo, a cavalo, ao toque de Ave-Marias.
E por o sentir assim sumido dos sítios e giros costumados--é que mais o suspeitava dentro do coração de D. Leonor.
Emfim, uma noite, depois de muito trilhar o lagedo da galeria, remoendo surdamente desconfianças e ódios, gritou pelo intendente e ordenou que se preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de madrugada, partiria, com a senhora D. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas léguas de Segóvia! A partida não foi de madrugada, como uma fuga de avarento que vai esconder longe o seu tesoiro:--mas, realizada com aparato e demora, ficando a liteira diante da arcada, a esperar longas horas, de cortinas abertas, emquanto um cavalariço passeava pelo adro a mula branca do fidalgo, enxairelada à mourisca, e do lado do jardim a récua de machos, carregados de baús, presos às argolas, sob o sol e a mosca, aturdiam a viela com o tilintar dos guizos. Assim D. Rui soube a jornada do senhor de Lara:--e assim a soube toda a cidade.
Fôra um grande contentamento para D. Leonor, que gostava de Cabril, dos seus viçosos pomares, dos jardins, para onde abriam, rasgadamente e sem grades, as janelas dos seus aposentos claros: aí ao menos tinha largo ar, pleno sol, e alegretes a regar, um viveiro de pássaros, e tam compridas ruas de loureiro ou teixo, que eram quási a liberdade. E depois esperava que no campo se aligeirassem aqueles cuidados que traziam, nos derradeiros tempos, tam enrugado e taciturno seu marido e senhor. Mas não logrou esta esperança, porque ao cabo de uma semana ainda se não desanuviara a face de D. Alonso--nem de-certo havia frescura de arvoredos, sussurros de águas correntes, ou aromas esparsos nos rosais em flor, que calmassem agitação tam amarga e funda. Como em Segóvia, na galeria sonora de grande abobada, sem descanso passeava, enterrado na sua samarra, com o bico da barba espetado para diante, a grenha basta erriçada para trás, um geito de arreganhar silenciosamente o beiço, como se meditasse maldades a que gozava de antemão o sabor acre. E todo o interêsse da sua vida se concentrara num serviçal, que constantemente galopava entre Segóvia e Cabril, e que êle por vezes esperava no comêço da aldeia, junto ao Cruzeiro, ficando a escutar o homem que desmontava, ofegante, e logo lhe dava novas apressadas.
Uma noite em que D. Leonor, no seu quarto, rezava o terço com as aias, à luz duma tocha de cera, o senhor de Lara entrou muito vagarosamente, trazendo na mão uma fôlha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu tinteiro de osso. Com um rude acêno despediu as aias, que o temiam como a um lôbo. E, empurrando um escabelo para junto da mesa, volvendo para D. Leonor a face a que impusera tranqùilidade e agrado, como se apenas viesse por cousas naturais e fáceis:
--Senhora--disse--quero que me escrevais aqui uma carta que muito convêm escrever...
Tam costumada era nela a submissão, que, sem outro reparo ou curiosidade, indo apenas pendurar na barra do leito o rosário em que rezara, se acomodou sôbre o escabelo, e os seus dedos finos, com muita aplicação, para que a letra fôsse esmerada e clara, traçaram a primeira linha curta que o Senhor de Lara ditara e era: _Meu cavaleiro_...» Mas quando êle ditou a outra, mais longa, e dum modo amargo, D. Leonor arrojou a pena como se a pena a escaldasse, e, recuando da mesa, gritou, numa aflição:
--¿Senhor, para que convêm que eu escreva tais cousas e tam falsas?...
Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe agitou junto à face, rugindo surdamente:
--Ou escreveis o que vos mando e que a mim me convêm, ou por Deus, que vos varo o coração!...
Mais branca que a cera da tocha que os alumiava, com a carne arrepiada ante aquele ferro que luzia, num terror supremo e que tudo aceitava, D. Leonor murmurou:
--Pela Virgem Maria, não me façais mal!... Nem vos agasteis, senhor, que eu vivo para vos obedecer e servir... Agora, mandai, que eu escreverei.
Então, com os punhos cerrados nas bordas da mesa, onde pousara o punhal, esmagando a frágil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava, o senhor de Lara ditou, atirou roucamente, aos pedaços, aos repelões, uma carta que dizia, quando finda e traçada em letra bem incerta e trémula:--«Meu cavaleiro: Muito mal haveis compreendido, ou muito mal pagais o amor que vos tenho, e que não vos pude nunca, em Segóvia, mostrar claramente... Agora aqui estou em Cabril, ardendo por vos ver; e se o vosso desejo corresponde ao meu, bem fàcilmente o podeis realizar, pois que meu marido se acha ausente noutra herdade, e esta de Cabril é toda fácil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela porta do jardim, do lado da azinhaga, passando o tanque, até ao terraço. Aí avistareis uma escada encostada a uma janela da casa, que é a janela do meu quarto, onde sereis bem docemente agasalhado por quem ansiosamente vos espera...»
--Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nome, que isso sobretudo convêm!
D. Leonor traçou vagarosamente o seu nome, tam vermelha como se a despissem diante de uma multidão.
--E agora--ordenou o marido mais surdamente, através dos dentes cerrados--endereçai a D. Rui de Cardenas!
Ela ousou erguer os olhos, na surprêsa daquele nome desconhecido.
--Andai!... A D. Rui de Cardenas!--gritou o homem sombrio.
E ela endereçou a sua desonesta carta a D. Rui de Cardenas.
D. Alonso meteu o pergaminho no cinto, junto ao punhal que embainhara, e saíu em silêncio com a barba espetada, abafando o rumor dos passos nas lages do corredor
Ela ficara sôbre o escabelo, as mãos cansadas e caídas no regaço, num infinito espanto, o olhar perdido na escuridão da noite silente. Menos escura lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia envolvida e levada! ¿Quem era êsse D. Rui de Cardenas, de quem nunca ouvira falar, que nunca atravessara a sua vida, tam quieta, tam pouco povoada de memórias e de homens? E êle de-certo a conhecia, a encontrara, a seguira, ao menos com os olhos, pois que era cousa natural e bem ligada receber dela carta de tanta paixão e promessa...
¿Assim, um homem, e môço de-certo bem nascido, talvez gentil, penetrava no seu destino bruscamente, trazido pela mão de seu marido? Tam íntimamente mesmo se entranhara êsse homem na sua vida, sem que ela se apercebesse, que já para êle se abria de noite a porta do seu jardim, e contra a sua janela, para êle subir, se arrumava de noite uma escada!... E era seu marido que muito secretamente escancarava a porta, e muito secretamente levantava a escada... Para que?
Então, num relance, D. Leonor compreendeu a verdade, a vergonhosa verdade, que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado. Era uma cilada! O senhor de Lara atraía a Cabril êsse D. Rui com uma promessa magnífica, para dêle se apoderar, e de-certo o matar, indefeso e solitário! E ela, o seu amor, o seu corpo, eram as promessas que se faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do môço desventuroso. Assim seu marido usava a sua beleza, o seu leito, como a rêde de oiro em que devia caír aquela prêsa estouvada! ¿Onde haveria maior ofensa? E tambêm quanta imprudência! Bem poderia esse D. Rui de Cardenas desconfiar, não aceder a convite tam abertamente amoroso, e depois mostrar por toda a Segóvia, rindo e triunfando, aquela carta em que lhe fazia oferta do seu leito e do seu corpo a mulher de Alonso de Lara! Mas não! o desventurado correria a Cabril--e para morrer, miserávelmente morrer no negro silêncio da noite, sem padre, nem sacramentos, com a alma encharcada em pecado de amor! Para morrer, de-certo--porque nunca o senhor de Lara permitiria que vivesse o homem que recebera tal carta. Assim, aquele môço morria por amor dela, e por um amor que, sem lhe valer nunca um gôsto, lhe valia logo a morte! De-certo por amor dela--pois que tal ódio do senhor de Lara, ódio que com tanta deslealdade e vilania se cevava, só podia nascer de ciumes, que lhe escureciam todo o dever de cavaleiro e de cristão. Sem dúvida êle surpreendera olhares, passos, tenções dêste senhor D. Rui, mal acautelado por bem namorado.
Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um moço que um domingo a cruzara no adro, a esperara ao portal da igreja, com um molho de cravos na mão... Seria êsse? Era de nobre parecer, muito pálido, com grandes olhos negros e quentes. Ela passara--indiferente... Os cravos que segurava na mão eram vermelhos e amarelos... A quem os levava?... Ah! se o pudesse avisar, bem cedo, de madrugada!
¿Como, se não havia em Cabril serviçal ou aia de quem se fiasse? Mas deixar que uma bruta espada varasse traiçoeiramente aquele coração, que vinha cheio dela, palpitando por ela, todo na esperança dela!...
Oh! a desabrida e ardente correria de D. Rui, desde Segóvia a Cabril, com a promessa do encantador jardim aberto, da escada posta contra a janela, sob a nudez e protecção da noite! ¿Mandaria realmente o senhor de Lara encostar uma escada à janela? De-certo, para com mais facilidade o poderem matar, ao pobre, e doce, e inocente môço, quando êle subisse, mal seguro sôbre um frágil degrau, as mãos embaraçadas, a espada a dormir na bainha... E assim, na outra noite, em face ao seu leito, a sua janela estaria aberta, e uma escada estaria erguida contra a sua janela à espera de um homem! Emboscado na sombra do quarto, seu marido seguramente mataria êsse homem...
¿Mas se o senhor de Lara esperasse fóra dos muros da quinta, assaltasse brutalmente, nalguma azinhaga, aquele D. Rui de Cardenas, e ou por menos destro, ou por menos forte, num terçar de armas, caísse êle traspassado, sem que o outro conhecesse a quem matara? E ela, ali, no seu quarto, sem saber, e todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele homem assomando à janela na sombra macia da noite tépida, e o marido que a devia defender morto no fundo duma azinhaga... ¿Que faria ela, Virgem Mãe? Oh! de-certo repeliria, soberbarmente, o môço temerário. Mas o espanto dêle e a cólera do seu desejo enganado! «Por Vós é que eu vim chamado, senhora! E ali trazia, sôbre o coração, a carta dela, com seu nome, que a sua mão traçara. ¿Como lhe poderia contar a emboscada e o dolo? Era tam longo de contar, naquele silêncio e solidão da noite, emquanto os olhos dêle, húmidos e negros, a estivessem suplicando e traspassando... Desgraçada dela se o senhor de Lara morresse, a deixasse solitária, sem defesa, naquela vasta casa aberta! Mas quanto desgraçada tambêm se aquele môço, chamado por ela, e que a amava, e que por êsse amor vinha correndo deslumbrante, encontrasse a morte no sítio da sua esperança, que era o sítio do seu pecado, e, morto em pleno pecado, rolasse para a eterna desesperança... Vinte e cinco anos, êle--se era o mesmo de quem se lembrava, pálido, e tam airoso, com um gibão de veludo roxo e um ramo de cravos na mão, à porta da igreja, em Segóvia...
Duas lágrimas saltaram dos cansados olhos de D. Leonor. E dobrando os joelhos, levantando a alma toda para o céu, onde a lua se começava a levantar, murmurou, numa infinita mágoa e fé:
--Oh! Santa Virgem do Pilar, Senhora minha, vela por nós ambos, vela por todos nós!...
III
D. Rui entrava, pela hora da calma, no fresco pátio da sua casa, quando de um banco de pedra, na sombra, se ergueu um môço do campo, que tirou de dentro do surrão uma carta, lha entregou, murmurando:
--Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me mandou...
D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com êle contra o peito, como para o enterrar no coração...
O moço do campo insistia, inquieto:
--Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um sinal de vos ter vindo o recado...
Muito pálido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz, que o môço enrolou e sumiu no surrão. E já abalava na ponta das alpercatas leves, quando, com um acêno, D. Rui ainda o deteve:
--Escuta. ¿Que caminho tomas tu para Cabril?
--O mais certo e sòzinho para gente afoita, que é pelo Cêrro dos Enforcados.
--Bem.
D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que D. Leonor o chamava de noite ao seu quarto, à posse inteira do seu ser. E não o maravilhava esta oferta--depois de uma tam constante, imperturbada indiferença. Antes nela logo percebeu um amor muito astuto, por ser muito forte, que com grande paciência se esconde ante os estorvos e os perigos, e mudamente prepara a sua hora de contentamento, melhor e mais deliciosa por tam preparada. Sempre ela o amara, pois, desde a manhã bemdita em que os seus olhos se tinham cruzado no portal de Nossa Senhora. E emquanto êle rondava aqueles muros do jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos frios muros, já ela lhe dera a sua alma, e cheia de constância, com amorosa sagacidade, recalcando o menor suspiro, adormecendo desconfianças, preparava a noite radiante em que lhe daria tambêm o seu corpo.
Tanta firmeza, tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam mais bela e mais apetecida!
Com que impaciência olhava então o sol, tam desapressado nessa tarde em descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias cerradas para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava amorosamente para a triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas, um gibão de veludo negro e as essências perfumadas. Duas vezes desceu à cavalariça a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado. Sôbre o soalho, vergou e revergou, para a experimentar, a folha da espada que levaria à cinta... Mas o seu maior cuidado era o caminho para Cabril, a-pesar de bem o conhecer, e a aldeia apinhada em tôrno ao mosteiro franciscano, e a vélha ponte romana com o seu Calvário, e a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara. Ainda nesse inverno por lá passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e avistara a torre dos de Lara, e pensara:--«Eis a torre da minha ingrata!» Como se enganava! As noites agora eram de lua, e êle saíria de Segóvia caladamente, pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no Cêrro dos Enforcados... Bem o conhecia tambêm, êsse sítio de tristeza e pavor, com os seus quatro pilares de pedra, onde se enforcavam os criminosos, e onde os seus corpos ficavam, balouçados da ventania, ressequidos do sol, até que as cordas apodrecessem e as ossadas caíssem, brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por trás do Cêrro era a lagôa das Donas. A derradeira vez que por lá andara, fôra em dia do apóstolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e paz, em procissão, iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão negro, esbrugadas pelas aves. Daí o caminho, depois, corria liso e direito a Cabril.
Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, emquanto a tarde ia caíndo. Mas, quando escureceu, e em tôrno às tôrres da igreja começaram a girar os morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das Almas, o valente môço sentiu um medo estranho, o medo daquela felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural. ¿Era, pois, certo que essa mulher de divina formosura, famosa em Castela, e mais inacessível que um astro, seria sua, toda sua, no silêncio e segurança duma alcova, dentro em breves instantes, quando ainda se não tivessem apagado diante dos retábulos das Almas aqueles lumes devotos? ¿E o que fizera êle para lograr tam grande bem? Pisara as lages de um adro, esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois olhos, que não se erguiam, indiferentes ou desatentos. Então, sem dor, abandonara a sua esperança... E eis que de repente aqueles olhos distraídos o procuram, e aqueles braços fechados se lhe abrem, largos e nus, e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita:--«Oh! mal avisado, que não me entendeste! Vem! Quem te desanimou já te pertence!» ¿Houvera jàmais igual ventura? Tam alta, tam rara era, que de-certo atrás dela, se não erra a lei humana, já devia caminhar a desventura! Já na verdade caminhava;--pois quanta desventura em saber que depois de tal ventura, quando de madrugada, saíndo dos divinos braços, êle recolhesse a Segóvia, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, tam inesperadamente adquirido por um instante, recaíria logo sob o poder de outro amo!