Part 3
2.º--Que nem as inducções philologicas, nem os factos historicos, permittem que se dê ao povo portuguez uma origem germanica, e á aristocracia uma origem latina; que, pelo contrario, se algum dos elementos constitutivos da raça peninsular prodomina no povo, deve ser o elemento hispano-romano, e na aristocracia o elemento gothico.
3.º--Que teve o povo portuguez, durante a idade média, uma vigorosa existencia, manifestada politicamente pela robusta vida municipal, litterariamente pela sua collaboração nos vastos romanceiros peninsulares, e pelas chronicas de Fernão Lopes.
4.º--Que a litteratura aristocratica aceitou a influencia provençal, a influencia da França do norte, e a influencia italiana, como succedeu nos outros reinos da Peninsula.
5.º--Que no seculo XVI a reação latinista imperou aqui, da mesma fórma que em toda a Europa, mas que a originalidade do nosso povo se manifestou com o vigor admiravel na epopêa de Camões, no theatro de Gil Vicente, e nas chronicas dos descobrimentos.
6.º--Que a decadencia da nossa litteratura foi devida a tres causas deprimentes: o despotismo monarchico e centralisador, que imperou em todas as raças neo-latinas, o despotismo religioso que actuou com a mesma energia na Italia e principalmente na Hespanha, e a perda da nossa nacionalidade, que foi uma causa especial, devida a fataes circumstancias historicas.
Estas conclusões, como o leitor vê, entram, salvo leves differenças, no ponto de vista das considerações que apresentei, tanto combatendo o systema do snr. Theophilo Braga, como expondo e commentando o do snr. Oliveira Martins. Por isso não posso, sem me repetir escusadamente, insistir n'estes pontos. Concordo com o modo de vêr tão lucido e tão realmente portuguez, sem deixar nunca por isso de ser scientifico, do snr. Pinheiro Chagas; e folgo de me encontrar (pelo menos n'este sereno campo da historia litteraria, onde se descança, entre flôres ideaes, de tantas luctas que separam os homens de hoje) em communhão de vistas com um espirito tão gentil e cultivado.
Desejo, porém, dar relevo a um ponto, por onde a _These_ do snr. Pinheiro Chagas particularmente me impressionou. É o caracter eminentemente nacional e (vá a palavra, apesar de tão conspurcada pelos vendilhões de portuguezismo) _patriotico_ da sua critica.
A sciencia, essa grande potencia imparcial, essa patria commum de todos os espiritos _bem nascidos_, está certamente muito acima do patriotismo, que tantas illusões offuscam, que tantas miserias até encobre ás vezes debaixo da sua apparatosa _toga pretexta_. Mas essa preferencia e esse sacrificio do patriotismo á sciencia dá-se só onde o patriotismo estreito ou refalsado tenta oppôr-se á luminosa sciencia, franca e comprehensiva. Então, caia por terra, seja derrocado sem piedade o edificio ruinoso do orgulho d'um povo! Passe a luz da intelligencia através das ruinas, e purifique-as!--Mas não é isso o que se dá com a historia litteraria portugueza. Cá não existe essencialmente tal opposição. Um largo patriotismo é perfeitamente compativel com a imparcialidade da critica, no estudo dos nossos poetas, dos nossos escriptores, durante 600 annos, que não foram sem gloria nem originalidade.
Vou mais longe. Direi que esse largo e justo sentimento patriotico é até indispensavel para bem comprehender o que houve n'este povo, na sua vida agitada, dramatica, heroica, a sua alma, a sua realidade moral.
Sim, existimos! e existimos como homens, pensando, sentindo, querendo, obrando. Criámos, descobrimos, combatemos; e podemos dizer ao mundo: «Aqui está o que nós amámos! aqui está o que nós odiámos!»--E o que é isto senão _sentir-se_ portuguez e ser patriota? E como, sem isto, se poderá comprehender o que pensaram e escreveram portuguezes, e pensaram e escreveram como portuguezes?
A sciencia não contradiz isto. Parte, pelo contrario, d'este ponto de partida. E é em nome d'ella que o snr. Pinheiro Chagas diz com tanta verdade como energia: «os portuguezes não são os párias litterarios da Europa!»
Esta affirmação do passado é-nos necessaria para podermos, através do presente tão cheio de melancolia, crêr e confiar n'um futuro melhor--e preparal-o virilmente.
Que significa pois essa pseudo-escóla, que, em nome de não sei que sonhada decadencia das raças latinas, deprime systematicamente quanto teve ou tem o nome de portuguez, e nos aponta o ideal d'um messianico germanismo (que nem talvez saiba definir), de uma absurda supremacia das raças germanicas, como a unica salvação possivel?
Estranha salvação, com effeito, para a qual é necessario começarmos por deixar de ser quem somos! Aconselham-nos que imitemos pacientemente, sem critica e sem protesto, os exemplos dos nossos mestres e senhores, os allemães, unicos pensadores e sabios, ao que parece, sem verem que _imitação_ importa _abdicação_, e que um povo que abdica do seu pensamento é um povo que se suicida!
Como se não bastassem já as nossas miserias actuaes, juntam-lhes mais esta, e capital: a descrença da nossa propria capacidade e da nossa vida moral. É este exactamente aquelle maximo peccado, que a Igreja considerou sem remissão: _desesperação de se salvar_.
Não é assim, pelo desespero e abdicação, que nos salvaremos. Não é assim que quem está prostrado se levanta; esperando que alguem lhe dê a mão. Esse tal jazerá eternamente.
Sejamos nós mesmos. Tenhamos esse valor, e tudo se tornará possivel. Antes de tudo, convém crermos em nós mesmos, no passado como no presente. Crêr em si não é adorar-se. Podemos ter essa crença, sem santificarmos por isso os nossos vicios, sem nos illudirmos sobre as nossas miserias antigas e modernas, sem nos endurecermos na nossa ignorancia e confusão. Podemos crêr em nós, e confessarmos os nossos erros: quem se suicidou só por que uma vez se reconheceu peccador? Se errámos e peccámos (e peccámos e errámos bastante), reformemo-nos corajosamente, mas seguindo sempre uma inspiração propria, consultando a nossa alma, não a dos outros, a voz da nossa consciencia, não a da consciencia alheia.
Foi isto o que fez essa Allemanha, que nos impõem como modêlo os que talvez menos a conhecem, essa Allemanha, que eu admiro, a quem devo muito, mas a quem quero seguir livremente, com um plenissimo direito de critica, e consultando sempre os meus intimos instinctos de _latino_, que sou e não me envergonho de ser. A Allemanha, perdida, ensanguentada, esquartejada em 1808, que fez para não morrer de todo? que fez para voltar á vida, mais robusta e sadía do que nunca? Imitou a França vencedora? renegou do _genio germanico_? não: concentrou-se em si mesma; appellou para o seu _genio_ historico, e elle respondeu-lhe com inspirações salvadoras. Foi, mais que nunca, _allemã_.
Sejamos, pois, nós todos, francezes, hespanhoes, italianos, portuguezes, mais que nunca _latinos_.
Ha um _genio latino_, como ha um _genio germanico_. A historia o revela: e, quando a historia fosse muda, a nossa consciencia bradaria sempre, dando-lhe o seu nome.
É a Revolução.
É este o pensamento secular das raças latinas: a revolução moral, politica e social. Concentremo-nos n'elle. Só a elle peçamos inspirações. Com essa fé _abalaremos montanhas_. O momento actual é turvo, certamente; mas a revolução tem luz e calor bastante em si, não só para dissipar um nevoeiro momentaneo, mas para dar vida a um cahos.
Os germanicos, cuidando-se originaes, fazem imperios: nós, latinos, desfaçamol-os. Reformam velhas religiões: prescindamos nós d'ellas. Reconstituem, com os milhões do espolio, uma nova aristocracia: dêmos nós aos povos a igualdade social.
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Peço perdão ao snr. Pinheiro Chagas. Já não estamos tanto de accordo como ha pouco. Certamente que não quererá admittir todas as conclusões que eu tiro da sua _These_. Mas estão lá: estão no seu ponto de vista nacional e latino, que é o meu tambem.
O snr. Pinheiro Chagas tem muito espirito para não ser revolucionario, no grande e verdadeiro sentido da palavra. Se eu lhe disser que a sciencia é a Revolução, e que a Revolução não é mais do que a sciencia, toda a sciencia, applicada a todas as espheras da actividade humana, e feita vida--o snr. Pinheiro Chagas de certo me responde que, assim, tambem quer ser revolucionario.
Ora a Revolução não é outra cousa.
Estudemos, pois, todos.
_20 de junho de 1872._
FIM