Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo
Part 23
Olhou para mim e eu olhei para elle. O seu olhar parecia dizer-me, "Tenha dó d'esta dama, cêda-lhe o sofá."
O meu respondia-lhe: "Sou homem muito ordinario para ter d'essas delicadezas."
Resignados, chegáram as cadeiras uma para junto da outra e poséram-se a conversar. Eu que pouco me importava de ouvir arrulhos de pombos, fechei os olhos e dormi como um justo até as 3 horas, hora a que me viéram chamar para partir.
Ás 6 chegàvamos a Colenso, onde passàvamos o rio Tuguela em um magnìfico fluctuador, e ás 3 da tarde paràvamos na bonita aldea de Howick, onde uma demora de duas horas me permittio ir ver a formosa cataracta que a torna cèlebre.
Effectivamente, é uma das mais bellas paizagens que tenho contemplado, aquella.
Partímos, e pouco depois eu fazia parar a diligencia, para falar á minha gente, que encontrei nos vagons em que tinham sahido de Pretoria, e que rodavam pesadamente no caminho de Durban.
Informado de que estavam tôdos bons e que sobejavam os vìveres, segui, dando-lhe um ponto de reunião em Maritzburg.
Eram dez da noute quando chegava á capital da Natalia e me ia estabelecer no _Royal Hotel_, o melhor da terra, em um soffrivel quarto.
No dia seguinte, passáram os vagons com as minhas bagagens e os meus prêtos, com quem falei e a quem prometti esperar em Durban.
Depois d'isto, fui procurar Madame Saunders, a espôsa do meu amigo Capitão Saunders, para quem era portadôr de cartas de seu marido.
Em casa d'ella fiquei encantado com uma criança, a filha de Saunders, em que elle muitas vêzes me tinha falado e que era encantadôra.
Quando sahi de casa d'ella ja èramos amigos, e eu promettia á pequena Didi de voltar a Maritzburg, se não encontrasse logo um transporte para a Europa em Durban.
No dia 19 de Março, depois de ter feito uma jornada de 23 milhas em um ligeiro dog-cart, tomava a ferrovia, e corria sôbre os rails puidos em direcção a Durban.
¡Que impressão profunda me não causou o ouvir o sibilar da locomotiva!
Os postes telegràphicos, armados de pára-raios, como o sam ali casas e construcções quaesquer, faziam-me outra vez lembrar da civilização da Europa, do progresso do nosso sèculo, da grande evolução da humanidade, e mil idéas confusas se me baralhavam no cèrebro, quando ás 6 horas chegava a Durban.
Corri sem parar até onde podesse ver o mar, e foi com làgrimas a marejar nos olhos, que fiquei extàtico diante d'essa mole immensa de àguas azuladas que se confundiam ao longe, para este, com o azul dos ceos.
N'êsse momento não pude deixar de dizer a mim mesmo, com certo orgulho: "Atravessei a Àfrica, este é o mar Ìndico."
Voltei á realidade depois de alguns minutos de abstracção, e percebi que devia ir procurar um hotel.
Eu ja sabia, que em tôdas as cidades da Àfrica Ingleza ha sempre um _Royal Hotel_, e pedi que m'o indicassem.
Depois de vàrias consultas entre o estalejadeiro e sua espôsa, foi decidido que me dariam um quarto no fundo de um pàteo. Tomei posse d'elle, e quando estava a fazer o meu _toilette_ para o jantar, viéram dizer-me, que me procurava o General.
Eu ja por vêzes tinha ouvido falar no general, quando o meu hospedeiro combinava com a mulhér sôbre que quarto me daria, e percebi então, que o general occupava uma grande parte do Hotel, e que era preciso não o incommodar.
Recebi o general, que era um homem ainda nôvo e sympàthico, e me disse, que tendo sabido da minha chegada, me vinha convidar a jantar.
Era elle o General Strickland, commissario em chefe do exèrcito Inglez.
Fui jantar á sua sala particular, onde conheci á mêsa um exército de _reporters_, enviados por os jornaes Inglezes, Francezes e Americanos, para darem noticias da guerra. Foi ali que conheci alguns d'esses homens, que, simples correspondentes de jornaes, t[~e]m sabido fazer conhecer o seu nome no mundo inteiro; foi ali que conheci os S^{nrs.} Forbes, Francis-Francis e outros, que se t[~e]m immortalizado como o seu collega Stanley, que, antes de ser o primeiro dos exploradores Africanos, foi o primeiro dos _reporters_ Americanos.
O general Strickland dispensou-me as maiores attenções e finezas, e fui seu conviva em quanto estive em Durban.
No dia seguinte, fui procurar o Consul Portuguez, M^{r.} Snell, que têve para comigo muitas attenções, arranjando-me logo local, em sua propria casa, onde eu podesse accommodar os meus prêtos e as minhas bagagens.
Contudo, de casa do Consul Portuguez sahi muito triste, por uma noticia que elle me deu.
O paquête para a Europa tinha partido n'esse dia!
Era um mez! era um mez que eu tinha de esperar n'aquella terra, onde nada me prendia; era um mez que eu tinha a esperar mais para poder abraçar os meus, para poder ver o meu Portugal.
Resignei-me, e no dia immediato pude assistir á chegada dos meus prêtos, das minhas bagagens, do meu papagaio e da minha cabrinha.
Installei-os em casa do Consul Portuguez, M^{r.} Snell, que continuou a dispensar-me os maiores favôres.
Depois d'isto comecei a esperar que passasse um mez!
Os meus trabalhos, sempre em dia, não me deixavam ao menos o recurso de trabalhar.
Nos primeiros dias encontrei em que passar as manhãs sem sahir de casa.
A casa de banho do Royal Hotel era do outro lado da rua, e os hòspedes tinham de fazer uma caminhada para irem a ella. O Hotel estava cheio de officiaes, que chegavam tôdos os dias de Inglaterra. Logo de manhã começava uma procissão, entre a casa de banho e o hotel, de homens de tôdas as idades e feitios, em trages muito ligeiros, levando cada um uma toalha e uma esponja enorme. Divertio-me aquella scena burlêsca por dois dias, mas aquillo durava apenas uma hora de manhã, e eu não sabia que fazer no resto do dia.
Comecei a aborrecer-me muito, e acirrado pêla contrariedade que me causava a demora, comecei a soffrer.
Sentia em mim um vazio enorme. Habituado a um trabalho de ferro, a uma vida tão activa, a uma tensão de espìrito constante, á idéa de alcançar um fim, tinha chegado á meta, e sentia uma falta que não podia superar.
Adoeci, e pêla primeira vez na minha vida tive mêdo de morrer.
A guerra preoccupava tôdos os espìritos, e no meio d'aquelle mundo em que vivia não tinha uma so affeição.
Um dia, no leito onde me tinha prostrado a doença, e onde nem uma amizade me vinha trazer uma palavra de confôrto, tinha so na idéa a saudade de uma espôsa adorada e de uma filha estremecida, quando me veio á lembrança essa criança que eu tinha visto em Maritzburg e que tanta impressão me tinha feito--a filha do Capitão Allan Saunders.
Em miseravel estado de saude, sahi de casa, tomei o caminho de ferro, e segui para a capital da Natalia.
Logo que me estabeleci no Royal Hotel, parti para casa de Madame Saunders.
Fui recebido com a maior affabilidade por aquella dama, e com muitos beijos pêla pequena Didi, que eu levei a jantar comigo ao hotel.
Eu ja tinha dinheiro meu, que me tinha sido emprestado sôbre a minha assignatura particular, e ja comprara um vestuario decente.
Uma boneca e uma caixa de amèndoas fizéram de Didi minha amiga ìntima, e sôbre tudo uma tartaruga enorme que me déram no hotel e que eu lhe dei, tornara aquella amizade em verdadeira paixão.
Outro motivo não era de certo estranho ao amor d'aquella criança.
Madama Saunders, para me ser agradavel, deixàva-me a sua filha ja em sua casa, ja na minha, e Didi encontrava n'esta liberdade o meio de nunca ir á mestra. Esta consideração devia pesar tanto como a tartaruga e a boneca, na sua affeição por mim.
Ao mesmo tempo, M^{r.} e Madama Furze, o Coronel Mitchell, o Coronel Baker, o Capitão Whalley e outros, faziam-me encontrar n'elles verdadeiros amigos, que me enchiam de favôres; mas Didi, aquella linda criança de nove annos, preenchia um vàcuo na minha existencia de então, com as suas meiguices, e ás vêzes com os seus amuos e perrices.
Sem esta criança, eu teria talvez succumbido ao tèdio que me ganhou e que me prostou ao comêço em perigosa doença.
Pietermaritzburg é uma bonita cidade, tem magnìficas casas e sobêrbos templos, em um dos quaes ouvi por vêzes a palavra eloquente, arrebatada e cheia de fôgo, do sabio Bispo Colenso.
Ha ali formosos jardins e mimosissimas flôres, sendo as damas de Natal muito dadas á floricultura, e concorrendo muitas vêzes a certames nas exposições locaes. Tem um magnìfico parque, onde á tarde circulam muitas e brilhantes equipagens.
No tempo que ali passei, apresentava a cidade um aspecto desusado e um movimento consideravel, consequencias da guerra dos Zulos. Os hotéis estavam cheios de militares, os quartéis regorgitavam de soldados, e muitos acampavam fora d'elles. No _Royal Hotel_, que diziam ser o melhor, o serviço era mao, devido isso talvez ao excesso de hòspedes que ali havia. Havia tambem, em geral, um grande abuso nos prêços de tudo, e isso era consequencia de o govêrno pagar sem regatear.
O estabelecimento Cathòlico de Maritzburg é muito importante, e tido com a maior ordem, goza de grande crèdito na colonia.
O Consul Portuguez, M^{r.} Snell, escreveu-me, que tinha chegado o paquête 'Danúbio', da _Union Steamship Company_, que devia seguir para Moçambique e Zanzibar no dia 19 de Abril.
Parti, por isso, de Pietermaritzburg a 14, depois de ter feito saudosas despedidas aos amigos que ali deixava.
Dirigi-me ao _Royal Hotel_, e não pude obter um quarto. Então M^{r.} Snell tratou de me arranjar alojamento, e pôde obter um quarto de banho no Club de Durban, onde me fizéram uma cama no chão.
Os officiaes que chegavam, cada dia, não tendo onde se metter, armavam barracas de campanha nos pàteos e nas ruas em volta dos hotéis e do Club.
Por o mesmo paquête em que eu devia partir para o Norte tinha chegado o infeliz prìncipe Napoleão, que tão caro devia pagar a sua ousadia e coragem. Conheci-o, e não pude deixar de me afeiçoar, no curto convìvio que tivémos, a esse joven sympàthico, intelligente e illustrado, a quem uma morte ingloria e estùpida cortou tão prematuramente uma existencia brilhante.
Quantas vêzes eu lhe repeti o meu principio fundamental da vida Africana, "de desconfiar em Àfrica de tôdos e de tudo, até que provas irrefutaveis não nos fizessem confiar em alguem ou em alguma cousa."
A sua natureza ardente, a inexperiencia dos seus poucos annos, a sua coragem leonina, e esse descuido peculiar á juventude cheia de illusões e crenças, causáram a sua perda. Só quem o não conheceu o não lastimará; que n'elle havia o germem de um grande homem, havia uma attracção indefinivel para captar tôdos os corações.
Estranho á polìtica da França, n'estas poucas linhas lavro um testemunho de saudade ao mancêbo desterrado que foi meu amigo, e não ao prìncipe que representava um principio, e faço-o tanto mais desassombradamente, que vi os seus proprios adversarios lastimarem aquella grande catàstrophe.
Nas vèsperas da partida, travei relações com M^{r.} e Madame Du Val, e recebi d'elles muitos favôres, e finalmente, a 19 de Abril, embarcava com os meus prêtos e as minhas bagagens n'um pequeno vapor que me devia conduzir ao _Danubio_, ancorado fora, porque em Durban ha apenas uma pequena enseada, fundeando os grandes vapôres na costa limpa.
O mar estava um pouco picado e custou a atracar ao _Danubio_.
M^{r.} e Madame Du Val iam comigo, porque M^{r.} Du Val, chefe da Companhia Hollandeza em Àfrica Oriental, ia passar em revista as feitorias de Moçambique.
A passagem das bagagens do pequeno vapor para o _Danubio_ foi difficil, pêlo mao estado do mar, e uma das minhas caixas cahio, sendo esmagada e desfeita entre os dois vapôres.
Caixa e conteúdo fôram ao mar, mas o Commandante Draper fez arrear logo um escalér, e pôde conseguir salvar algumas das cousas que ella continha e que fluctuavam, outras afundáram e estavam irremediavelmente perdidas.
Deixámos Durban, e não foi sem uma sensação de infinito prazer que eu senti o espadanar das àguas em tôrno do èlice poderoso, que a cada rotação me impellia no caminho da Patria.
Em Lourenço Marques foi pouco o tempo para receber favôres, e a maior parte d'elle foi passada com o meu velho amigo Augusto de Castilho, e com os meus amigos Machado, Maia e Fonceca.
A bordo, o Commandante Draper não cessava de me obsequiar.
Cheguei finalmente a Moçambique, onde fui encontrar tôdas as autoridades na cama. O Governador Cunha, o seu secretario e os seus ajudantes, estavam abrasados em febre.
Fui logo visitar o Governador, ao seu quarto de cama, e apesar do seu melindroso estado de saude e do cuidado que lhe dava o estado de sua espôsa, prostrada pêla febre tambem, Sua Excellencia deu as mais terminantes ordens para facilitar o meu regresso á Patria com a gente que me acompanhava, fazendo-me os mais subidos favôres.
Fui d'ali procurar um velho amigo da guerra da Zambezia, o Coronel Torrezão, em cuja casa me hospedei, com os meus amigos Du Val.
Dois dias depois, partia para Zanzibar, onde esperava encontrar Stanley, mas com o qual me desencontrei, tendo partido na vèspera da minha chegada.
O D^{or.} Kirk, Consul Inglez em Zanzibar, deu-me um jantar, e subidos fôram os favôres que recebi d'elle e de sua espôsa.
Tôdos os Europêos porfiavam em me obsequiar, distinguindo-se os officiaes da guarnição do _London_.
O Commandante Draper, logo que soube que o vapor de Aden só partiria dentro de oito dias, não consentio que eu fôsse para terra, dizendo-me (com razão) que as hospedarias ali eram pèssimas, e por isso fiquei vivendo a bôrdo, sempre com um escalér ás minhas ordens.
Travei ali relações com um joven Suisso, T. Widmar, que devia ser meu companheiro de viagem para a Europa.
Depois de uma semana de demora, em que cada dia foi assignalado por novos favôres de M^{r.} Du Val e do Commandante Draper, deixei Zanzibar n'um pequeno vapôr, do _British India_, onde recebi muitos favôres do seu Commandante Allen.
Em Aden, como a carreira do _British India_ tivesse uma demora de oito dias, eu e Widmar tomámos passagem a bôrdo de um vapor da Lloyd Austriaca que nos conduzio a Suez, seguindo d'ali no primeiro trem para o Cairo.
Eu tinha adoecido gravemente, e foi Widmar o meu enfermeiro, tendo por mim cuidados de um velho amigo.
Ainda convalescente, fui ás piràmides com elle. Eu tinha visto o Zaire e o Zambeze; não queria voltar á Europa, sem saudar a velho Nilo; e do alto do sarcòphago do rei Cheops, d'esse monstruoso monumento levantado ha quatro mil annos pêlo orgulho dos Pharaós, eu vi-o correr plàcido e sereno, banhando as ruinas da outrora sobêrba Memphis.
Pouco depois, deixava o Cairo, sobêrba e ardente, cidade de ouro e de miseria, e ia em Alexandria fazer novos amigos e receber novos favôres.
O Conde e a Condêssa de Caprara acima de tôdos, fizéram-me taes obsèquios, que mais pareciam amigos de annos do que conhecidos de dias.
O Consul geral de Portugal, o Conde de Zogueb, tambem me fez offerecimentos na vèspera da minha partida, quando soube que o _Crédit Lyonnais_ de Paris me tinha aberto um crèdito no Egypto, com dinheiro meu, mandado de Lisboa pêlo meu amigo Luciano Cordeiro.
Esquècia-me dizer, que por um mal-entendido das ordens do govêrno de Portugal, eu estive no Egypto sem dinheiro, gastando da bôlça de Widmar e da do Conde de Caprara, e podendo gastar de outras muitas estranhas que se me offereciam, e que não pensavam que eu fôsse um cavalheiro de industria; porque não ignoravam que Portugal tivesse enviado á Àfrica a expedição de 1877, e que d'essa expedição o Major Serpa Pinto voltava á Europa pêlo mar Ìndico.
Segui de Alexandria para Nàpoles, e d'ali por terra para Bordeos, onde fui altamente obsequiado pêlo nosso Consul, o Barão de Mendonça.
A 5 de Junho, deixava Pauillac, e a 9, em Lisboa, pisava a terra de Portugal, no meio dos amigos mais dilectos que eu tantas vêzes pensei não mais ver.
Na vèspera haviam chegado os meus prêtos, e o meu papagaio.
Estavam pois a salvo os trabalhos, e os restos de um dos ramos _da expedição Portugueza ao interior da Àfrica Austral, em 1877_.
CONCLUSÃO.
Vou concluir o meu trabalho apresentando as minhas ùltimas observações astronòmicas e meteorològicas, e ajuntando a ellas um vocabulario de lìnguas Africanas, limitarme-hei a dizer poucas palavras mais.
O resultado das observações astronòmicas, calculadas por mim em Àfrica durante a viagem, fôram recalculadas em Londres por M^{r.} S. S. Sugden, e apresentando, como apresento, as observações iniciaes, podem ser ainda reverificadas.
Em tôdos os pontos onde me demorei mais de um dia, tive o cuidado de estudar as marchas dos chronòmetros, que, àlém d'isso, me eram reveladas pelas comparações diàrias, e pelas observações dos eclipses e dos reaparecimentos do primeiro satèlite de Jùpiter.
N'esta parte de minha viagem, tive uma sorprêsa que me tirou algumas noutes de sono. Foi ella a da grande differença que encontrei na posição de Shoshong (_Xoxom_) em longitude, e mesmo em latitude.
Homens distinctos e sôbre todos Ed. Mohr, passáram ali e determináram aquella posição. Fiquei pois sorprendido, vendo que a minha determinação importava uma differença de mais de 60 milhas!
Durante a minha estada em Shoshong, estudei cuidadosamente as marchas dos chronòmetros, e conheci que se conservavam sem a menor alteração. Continuando a viagem, o meu ùnico cuidado era chegar a ponto onde podesse reverificar os chronòmetros por uma longitude conhecida.
Assim fiz, e as segundas observações que apresento no quadro fôram calculadas dos estados dos chronòmetros, encontrados em Soul's Port e Heidelberg.
O ùltimo reapparecimento que observei do 1^o satèlite de Jùpiter, na noute de 13 de Decembro, e a verificação feita em Heidelberg, não me deixam dùvida de que a minha posição deve ser muito pròxima da verdadeira, em quanto á longitude; e em quanto á latitude, não tenho a menor dùvida em a garantir a 30" de approximação.
Aqui, como ja fiz antecedentemente, apresento as observações iniciaes hypsomètricas para a determinação do relêvo do meu caminho.
Empreguei no càlculo d'ellas a temperatura constante de 23 graos para o nivel do mar, por ser ella a mèdia das temperaturas sôb a pressão de 760 milimetros n'aquellas latitudes.
É minha opinião, que ali, não havendo occasião de fazèrem-se observações simultàneas, deve ser aquella a temperatura empregada nos càlculos.
A fòrmula que empreguei para calcular as altitudes foi a seguinte, que é perfeitamente empìrica:
A = (100 - H)(284.95 + 3.1 {A/1000}).
Esta fòrmula não é mais do que a antiga fòrmula de Laplace, em que se não leva em conta a constante 18,382 = 18,336 (1 + {1/400}) que diz respeito á diminuição do mercurio na vertical produzida pêlo pêso, uma vez que nos hypsòmetros se não dá essa circunstancia.
Assim, pois, as tabuas que empreguei, sam construidas da formula:
A = 18,382 log {760/B} + {1/6,366,200} (18,382 log {760/B})^2,
e cujos nùmeros obtidos sam reduzidos de 1/400, e da tàbua das tenções do vapor construida por M^{r.} Regnault.
Quem dér uma certa attenção ás observações meteorològicas que publico, verá que as alterações atmosphèricas n'esta parte de Àfrica, influem pouco ou nada na pressão, que se conserva a mesma no meio das mudanças e variações mais sùbitas.
Assim, pois, os resultados das observações hypsomètricas apresentam uma certa garantia de approximação.
As localidades a que se referem as observações meteorològicas não estam designadas, mas facil é encontral-as, porque, pêlo diario e pêlo quadro das observações astronòmicas, sàbe-se onde eu estava nos dias designados.
Quiz juntar a este trabalho uma collecção de têrmos das lìnguas Hambundo e Ganguela, faladas de Benguella ao Zambeze, e fui á obra de Gamito buscar os termos correspondentes em uma outra lìngua falada nas mesmas latitudes na costa de Este, para que se podesse fazer uma comparação entre ellas, e effectivamente encontramos ali muitos termos communs.
Esta parte da minha viagem do Zambeze ao Transvaal, não apresenta aos geògraphos o mêsmo interesse da parte de Benguella ao Zambeze, porque àlém do caminho de Deica a Shoshong, é ella mais ou menos conhecida. Assim, pois, não me deterei aqui a acrescentar ao que ja disse nada mais, àlém de duas palavras a respeito d'êsse traço de Deica a Shoshong, e sôbre tudo da região dos lagos salgados; e isto porque ja vi a asserção de um explorador eminente, de que o Grande Macaricari derivava àguas para a costa de Este pêlo Xua (_Shua_) e Nata.
Não posso, nem dêvo, admittir tal hypòthese.
A poucas milhas de distancia, o Xua e Nata apresentam um desnivelamento de 24 metros, e bastava que a àgua subisse no Macaricari metade d'esta altura para alagar o deserto tôdo.
Àlém d'isso, verifiquei, que o terreno se eleva muito para leste do Macaricari, e que tôdos os rios que descem ao lago apresentam desnivelamento grande.
A primeira àgua que encontrei correndo a este foi a que nasce na altura de Linocanin, cujas vertentes oeste deitam àgua a oeste no Deserto.
Assim, pois, instrumentos na mão, e càlculos á vista, rejeito a idéa de que, do Grande Macaricari transbordem àguas para o mar Ìndico; e que me perdôe o meu illustre colega se o contradigo, e se não posso deixar de sustentar a minha opinião estribada em observações e càlculos que não falham. Perdoe-me, e se ha n'isto a menor teimosia, é ella da matemàtica, que tem ás vêzes as suas brutalidades.
Lembrei-me de juntar ao livro três facsìmiles, de pàginas do meu diario, dos meus livros de càlculos, e do meu albo de cartas, para mostrar os originaes dos meus trabalhos Africanos, e com isto concluo a relação d'êsses trabalhos, que eu devia ao meu paiz e ao pùblico em geral.
[Três Facsìmiles, de pàginas do Diario, dos Livros de Càlculos, e do Albo de Cartas]
*Observações Astronòmicas feitas da Confluencia do rio Cuando ao Transvaal*.