# Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

## Part 2

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"Aquillo, meu amigo, foi cousa que um _papá_, ou uma _máma_, sempre impertinentes em taes casos, te não deixou entregar, ao sahir do theatro ou de um baile, á tua Dulcinea d'aquella noute, ou que a tua timidez dos desoito annos fêz recolher ao bôlso. Imagino, meu amigo, que te deves ter rido, sabendo que aquelle bilhête esquècido, depois de atravessar os mares, atravessou aquelles inhòspitos paizes, e andou em companhia de um prêto no alto Zambeze. É verdade, que, para te consolares, sabes que esse prêto era filho de rei."

N'esta aventura, eu fui o ùnico tôlo, em ter tido pensamentos tristes, á vista do bilhête encontrado no bôlso da farda de um alferes de cavallaria, porque logo devia suppor, que tal bilhête só podia ser um bilhête d'amôres.

Um alferes de cavallaria, em Portugal, como em tôdos os paizes, é sempre um fogacho onde as maripôsas v[~e]m queimar as azas douradas.

Pensando na proposição que acabo de formular, deitei-me cheio de tristeza, lembrando-me que ja era major.

No dia immediato, recresceu a febre a ponto de eu não poder andar. Lobossi foi visitar-me, e levou com-sigo o seu mèdico de confiança.

Era um velho, pequeno e magro, de barba e cabello branco.

Principiou elle por tirar do pescôço um cordão onde tinha enfiado oito metades de caroços de uma fruta qualquér que eu não conhecia. Começou, com grande recolhimento, a pronunciar umas palavras màgicas, e atirou com os caroços ao chão. D'estes, uns ficáram com a parte interna voltada para a terra, outros com a externa. Elle leu n'aquella disposição, concluindo da leitura, que os meus parentes mortos se tinham apossado de mim, e que era preciso dar-lhes alguma cousa para elles me deixarem. Eu aturei tudo com a maior paciencia, fingindo acreditar o que elle me dizia, e dei-lhe um pequeno presente de pòlvora.

N'aquelle dia o Gambela deu-me um presente de dez cargas de milho e massambala.

Estando concluido o meu acampamento, mudei para elle.

No dia 29 de Agosto, a febre cedeu um pouco ás fortes doses de quinino que tomei, e senti bastantes melhoras. O meu estado moral é que peiorava de instante a instante.

Tinha alguns momentos de desalento inexplicaveis. A minha energia cedia ante a fraqueza moral que se apossava de mim.

Estava sôb o pêso esmagador de um terrivel ataque de nostalgia.

O rei mostrava muitos cuidados pêlo meu estado, mas cada portador que vinha encarregado de saber da minha saude, era emissario de um pedido cada vez mais impertinente.

N'aquelle dia mandou elle os seus mùsicos tocarem e cantarem para me enterter, mas mandou em seguida pedir-me dois cartuxos de pòlvora por cada mùsico.

N'essa tarde ouvi grandes toques de tambores na cidade, e o rei mandou-me pedir, que mandasse dar alguns tiros na grande praça, desejo que eu satisfiz mandando doze homens dar fôgo.

Sube depois que aquillo era uma convocação á guerra, e antes de falar nos motivos d'ella, direi em poucas palavras a historia do Lui, desde o ponto em que ficou narrada pêlo D^{or.} Livingstone, isto é, desde a morte de Chicrêto.

O imperio, poderosamente sustentado pêla mão de ferro, sabia prudencia e fina polìtica de Chibitano, marcou-se com uma profunda pègada de decadencia no reinado de seu filho Chicrêto. David Livingstone, muito grato aos favôres de Chicrêto, que lhe deu os meios de ir a Loanda e a Moçambique, é talves bastante suspeito nos elogios que dispensa a este rei; e mesmo na narrativa da viagem que ali fez depois com seu irmão Carlos e o Doutor Kirk, não pôde deixar de narrar a desordem e profunda decadencia em que encontrou o imperio Macololo.

Das gentes vindas do sul com Chibitano, isto é Macololos, poucos existiam ja, tendo sido decimados pêlas febres do paiz, que nem os naturaes poupam. A embriaguez e o uso do bangue, de mistura com os desregramentos dos chefes, tinham feito perder tôda a autoridade aos invasores. Môrto Chicrêto, succedeu-lhe seu sobrinho Omborolo, que devia reinar durante a minoridade de Pepe, irmão muito mais nôvo de Chicrêto, e filho ainda do Grande Chibitano.

Os Luinas conspiravam, e um dia Pepe foi assassinado. Omborolo não tardou a ter a mesma sorte, e tendo sido ordenada uma _Saint Barthélemi_ por os Luinas, os restos d'esse forte exèrcito invasor foi assassinado, escapando apenas poucos, sôb o commando de Siroque, irmão da mãe de Chicrêto, que fugio para Oeste, passando o Zambeze em Nariere.

Os Luinas, depois d'essa carnificina traiçoeira, acclamáram seu chefe Chipópa, homem de tino, que não deixou desmembrar o paiz, e procurou conservar o imperio, poderoso como em tempo de Chibitano.

Chipópa reinou muitos annos, mas as ambições apparecêram e, em 1876, um tal Gambela fel-o assassinar, e acclamar seu sobrinho Manuanino, criança de 17 annos.

O primeiro acto do poder de Manuanino foi mandar cortar a cabêça a Gambela, que o tinha feito rei, e desprezando tôdos os parentes e amigos do pai que o eleváram ao poder, chamou para junto de si só os parentes maternos. Aquelles conspiráram, fizéram uma revolução, e tentáram assassinal-o, em Março de 1878; mas Manuanino, tendo alguns fiéis, pôde escapar-se, e fugio para o Cuando, onde assaltou e devastou a povoação de Mutambanja.

Lobossi, acclamado rei, enviou contra elle um exèrcito, e Manuanino têve de retirar d'ali, e repassando o Zambeze em Quisséque, internou-se no paiz do Choculumbe, atravessou este paiz, e foi juntar-se a uns brancos, caçadores de elephantes, que estavam na margem do Cafuqúe. Lobossi entendeu, que a sua segurança dependia da morte de Manuanino, e mandou contra elle um nôvo exèrcito. Foi do resultado d'aquella expedição que n'esse dia chegáram noticias.

Chegados perto do logar onde estava o ex-soberano com os brancos, que elles chamam _Mozungos_, intimáram estes a que lhes entregassem Manuanino para o matarem, e como houvesse recusa, elles os atacáram, mas, com tanta infelicidade, que fôram completamente batidos pêlos brancos; escapando muito poucos, que n'essa tarde chegáram a Lialui a narrar o seu desastre.

Eis aqui o motivo porque os tambores tocavam convocando á guerra; e porque o rei Lobossi me pedio que mandasse dar tiros na grande praça da cidade.

Ja que falei na historia do Lui, não dêvo proseguir sem narrar um dos seus episodios mais interessantes, porque se refere a um typo verdadeiramente sympàthico.

É Siroque, aquelle Macololo, que, na occasião da Saint Barthélemi dos Macololos, conseguio escapar com um grupo de gente, passando o Zambeze.

Siroque, intrèpido e audaz, caminhou a oeste até encontrar o Cubango, onde se estabeleceu, vivendo da caça dos elephantes.

Depois subio o rio até ao Bihé, e fixou-se ali por muito tempo, chegando por vêzes a ir a Benguella em comitivas sertanejas. Um dia porem, tendo umas questões em que bateu os que o atacáram, retirou por prudencia para o interior; indo acampar no rio Cuando abaixo do Cuchibi, onde continuou a vida de caçador.

Siroque era intelligente e bravo, e de uma familia que tinha reinado, não podia deixar de ser ambiciôso.

Sonhou com o restabelecimento da monarchia Macolola no Lui, e foi-se approximando d'ali pêlo Cuando.

Um pombeiro do Bihé, seu amigo e que lhe tinha fornecido pòlvora, denunciou-o, e Manuanino, então acclamado de pouco, fel-o assassinar junto da povoação de Mutambanja, pêla mais cobarde traição.

Tôdos os seus fôram vìctimas, e a azagaia do assassino de Siroque abrio o tùmulo ao ùltimo dos Macololos.

Aquelle dia amanhecido tão bonançoso para o adolescente monarcha, que só via sorrir-lhe a vida, tornara-se de repente sombrio e carregado, envolvido em nuvens de tempestade.

As noticias más succedem-se, e corria o boato, de que Lo Bengula, o poderoso rei do Matebeli, projectava um ataque contra o Lui.

Andavam tôdos desorientados, tôdos emittiam alvitres, todos pensavam loucuras; só dois homens se conservavam serenos no meio d'aquelle pôvo semi-louco. Eram Machauana e Gambela--Gambela o ministro da Guerra, Machauana o General em chefe.[1]

Ordens acertadas e ràpidas eram dadas por elles a emissarios fiéis, que partiam para povoações distantes.

¿O que seria de mim no meio dos novos acontecimentos que agitavam o paiz?

Diziam e repetiam, que fôram os _Muzungos_ que matáram os sicarios de Lobossi, enviados contra Manuanino, e se ali se soubesse que eu era _Muzungo_, estava irremediavelmente perdido. Estes povos felizmente ignoram isso, e pensam que os Portuguezes de leste sam de outra raça differente dos Portuguezes de oeste.

No Lui, os Portuguezes das colonias de oeste sam chamados _Chiudéres_, nome que lhes dam os Bihenos; os das colonias de leste, _Muzungos_; e os Inglezes do sul, _Macúas_. A tôdo e qualquér prêto que vem das colonias Portuguezas chamam _Mambares_, de certo corrupção da palavra _Quimbares_, com que sam designados os prêtos semi-civilizados de Benguella. D'ahi proveio o erro do Doutor Livingstone, arranjando a oeste das serras de Tala Mugongo uma raça de _Mambares_.

Os _Quimbares_ sam prêtos de qualquér procedencia, geralmente escravos ou libertos, que ja sam meio-civilizados. Sam, finalmente, a gente das senzalas de Benguella e as escravaturas dos brancos da costa.

Em Benguella chamam _Quimbundos_ ao gentio selvagem do interior, designando com esse nome mais particularmente os Bihenos.

No dia 30, logo de manhã, Lobossi mandou dar-me parte de que se ia fazer a guerra, e dos motivos que a isso o obrigavam.

O emissario foi o proprio Gambela, que me disse logo, que, sendo o Chuculumbe o theatro da guerra, era impossivel a minha viagem por ali; e por isso, que tudo o que havìamos combinado estava prejudicado.

Aquelles acontecimentos tornavam muito crìtica a minha posição.

N'essa tarde, estando eu com um nôvo e violento accesso de febre, viéram prevenir-me, de que os pombeiros Bihenos me queriam falar.

Levantei-me a custo e fui ouvil-os.

Depois de variados preàmbulos, disséram-me, que me iam deixar, porque viam o mao caminho que as cousas tomavam no Lui, e só desejavam voltar ao Bihé.

Cobardes! Abandonavam-me no momento em que eu mais precisava d'elles!

Miguel, o caçador de elephantes, o pombeiro Chaquiçongo, e dois carregadores, Catiba e um carregador, e o Doutor Chacaiombe, viéram protestar-me a sua amizade, e declarar-me que ficavam comigo. Tôdos os _Quimbares_ me viéram fazer igual declaração.

Aquella resolução inesperada dos Bihenos fêz-me recobrar o sangue frio que ja não tinha ha dias. Augmentavam as difficuldades, era preciso lutar, e eu sacudi o entorpecimento moral que se ia apossando de mim.

Immediatamente despedi os Bihenos, que puz fora do acampamento, entregando-os ao prêto Antonio, o velho Antonio que eu tinha designado a Lobossi para ser chefe e guia da comitiva que elle ia mandar a Benguella.

Fiz em seguida a conta á minha gente, e achei-me com 58 homens.

No dia immediato, Lobossi veio a minha casa, e fêz-me repetidas exigencias de cousas que eu não possuia, e elle queria por fôrça que eu tivesse e lhe desse. Estava cada vez mais importuno. Era uma criança, mas criança impertinentissima. Precisava de uma paciencia sem limites para o aturar.

Lobossi mandou-me chamar n'essa noute. Fui la, e elle disse-me, que a minha viagem pêlo Chuculumbe era impossivel, mas que me daria guias e alguma gente para eu tornear pêlo sul e ir ao Zumbo.

Disse-me, que o boato a respeito dos Matebeles não tinha fundamento, que d'aquelle lado havia paz e elle terminaria facilmente com Manuanino. Queixou-se muito amargamente de eu lhe dar poucas cousas, dizendo, que se eu nada mais tinha, lhe desse tôdas as armas e a pòlvora que possuia, porque, seguindo para o Zumbo com gente d'elle, seria defendido por ella, e não precisava levar tanta gente armada.

Offereci-lhe as armas dos Bihenos que me tinham deixado n'esse dia, e que tive o cuidado de lhes tirar, e sete barris de pòlvora, mas neguei-me formalmente a dar-lhe uma só que fôsse das outras, dos homens que me ficáram, ou das minhas particulares.

Retirei-me pouco satisfeito d'aquella entrevista.

No primeiro de Setembro, levantei-me muito doente, e depois de ter feito as observações da manhã, tornei a deitar-me; quando o Verissimo entrou espavorido na barraca, e me diz, que Lobossi mandara chamar tôda a minha gente, e lhe exposera, que eu tinha vindo ali de propòsito para me ir juntar aos _Muzungos_ que estavam no Cafuque com o Manuanino, e fazer-lhe guerra a elle. Isso estava demonstrado pêla minha insistencia em querer ir ao Chuculumbe. N'essa noute fôra elle prevenido dos projectos que eu meditava, e por tanto, me ia obrigar a sahir dos seus estados, e só me deixaria livre o caminho do Bihé.

Encarregara elle o Verissimo de me vir fazer a intimação; cousa que em nada me desconcertou o espìrito, porque, desde a vèspera á noute, eu esperava novidade grande.

Mandei chamar o Gambela, mas elle têve o cuidado de fazer com que o não encontrassem em tôdo o dia.

Um recado que fiz chegar a Lobossi, mostrando-lhe a inconveniencia do passo que dava, porque eu lhe podia fazer muito mal impedindo os sertanejos do Bihé de virem ali, têve por ùnica resposta nôvo mandado de despejo, e só livre o caminho do Bihé.

Á tarde, nova prevenção, de que as forças que estavam reunidas para a guerra, não sahiriam sem eu ter deixado o paiz do Lui em caminho de Benguella.

Respondi ao enviado, que dissesse ao rei Lobossi, que dormisse sôbre o caso, porque a noute era bôa conselheira, e que esperava ainda a sua ùltima decisão no dia immediato.

A 2 de Setembro, logo de manhã, recebi a visita de Gambela, que vinha da parte do rei, ordenar-me que sahisse do seu reino immediatamente, e que o ùnico caminho livre era o do Bihé. Não pode passar nem por ali, nem por ali, nem por ali, me disse elle, apontando para o N., E. e S.

Contra tôdos os usos do paiz, o Gambela, em quanto estêve em minha casa, conservou as armas na mão, e eu entretive-me brincando com um magnìfico revólver Adams-Colt.

Fingi que meditei a minha resposta, e disse-lhe, "Amigo Gambela, vá dizer a Lobossi, ou tome o recado para si, que eu não arredo um passo d'aqui para seguir o caminho de Benguella. Tem ahi um numeroso exèrcito, que me venha atacar; eu saberei defender-me, e se morrer, o Mueneputo lhe tomará contas d'isso. Vocês estam indispostos com os Matebeles, ameaçados pêla guerra civil levantada por Manuanino, indisponham-se tambem com o Mueneputo, e estam perdidos. Outra vez lhe repito, que não sahirei d'aqui senão para seguir o meu caminho."

Gambela sahio da minha barraca furioso.

N'essa noute Machauana veio furtivamente visitar-me. Previnio-me elle de que Gambela aconselhara ao rei para me mandar matar, e que Lobossi se negara a isso terminantemente. O caso foi passado em conselho, a que assistia Machauana, que me fez mil prevenções para estar de sôbre-aviso.

A larga conversação que tive com o antigo companheiro de Livingstone, mostrou-me que entre elle e Gambela havia reixa velha. O antigo guerreiro de Chibitano, depois muito afeiçoado ao rei Chipopa, só pensava em ver occupar o trôno do Lui ao filho d'este, seu pupillo e seu protegido, o joven Munutumueno, o meu alferes de cavallaria ligeira.

Tendo podido ler no coração do velho aquelle odio e aquella affeição, considerei-me salvo. O seu poder era grande, porque elle tinha influencia n'uma enorme parte das tribus do Lui; e por isso as azagaias, que tanto ferem ali nas revoluções, o tinham poupado. Fiz-lhe muitos protestos de gratidão, e pedi-lhe, que me prevenisse logo que o rei Lobossi determinasse matar-me. Elle prometeu, e retirou-se.

Eu fui deitar-me, levando a referver na mente, um plano singelo, que me abstive de communicar a Machauana, para lhe evitar idéas cubiçosas, que elle não tinha n'aquelle momento.

Resolvi, se acaso Lobossi decretasse a minha morte, chamar cinco dos meus homens mais decididos, uma especie de cães que eu tinha comigo, como eram Augusto, Camutombo e outros, e ir com elles logo á audiencia do rei, onde tôdos estam desarmados, fazel-os, a um signal meu, saltarem sôbre Lobossi, Gambela, Matagja e os outros dois conselheiros ìntimos, e eu de um pulo acercar-me de Machauana o general em chefe, o homem que tinha ali acampados dez mil guerreiros, e gritar-lhe bem alto "¡Viva Munutumueno, rei do Lui, viva o filho de Chipopa!"

Uma revolução feita n'estes termos não podia deixar de dar bom resultado n'um paiz que ama as revoluções, e onde se faria a primeira em que não houvesse uma gôta de sangue derramado.

Acalentando este pensamento salvador, adormeci profundamente, para acordar, no dia 3, ao chamamento do meu muleque Catraio, que me vinha prevenir, de que Lobossi estava ali, e me queria falar.

Levantei-me e fui receber o rei. Elle vinha participar-me, que tinha mudado de parecer, e que tôdos os caminhos estavam livres para mim.

Que me daria guias até ao Quisséque, mas que, em vista das cousas que se estavam passando nos seus estados, não podia dar-me fôrça para me seguir, nem se responsabilizava por qualquér desastre que me podesse acontecer, indo eu com 58 homens apenas.

Agradeci-lhe aquella decisão, e declarei-lhe, que tinha por costume, só eu mesmo me responsabilizar pêla minha vida, e não tornar ninguem responsavel d'ella.

Antes de se retirar, fêz-me muitos pedidos, que ficáram sem satisfação, por não ter nada do que elle queria. Um dos pedidos que me fazia tôdos os dias, era o de seis cavallos. Tendo-me visto chegar a pe, e sabendo que eu não tinha cavallos, era impertinencia tal desejo.

Sube depois, que a nova decisão tomada por Lobossi fôra filha de reïteradas instancias do Machauana, que lhe mostrou a inconveniencia do passo que dava, fazendo-me sahir dos seus estados a pesar meu.

No dia 4, de manhã, estando um pouco melhor da febre, fui assistir a uma audiencia do rei, que se mostrou em extremo amavel para comigo. Logo ao nascer do sol, Lobossi sahi dos seus aposentos, e ao som de marimbas e tambores, dirige-se á grande praça, onde vai sentar-se junto a uma alta sebe semi-circular, cujo centro é occupado pêla cadeira real.

Por de traz d'elle senta-se a gente que compõe a côrte, e á sua direita Gambela e os outros conselheiros, se estam presentes.

Na frente do règulo, a 20 passos, a mùsica em linha, e aos lados, em muitas fileiras, o pôvo.

Ali tratam-se um certo nùmero de negocios, que não precisam ser tratados em conselho privado. Aquella audiencia é tambem judicial. N'aquelle dia tratava-se de um crime de furto. O queixoso chamou o accusado, que veio sentar-se em frente d'elle, e fez a accusação. O acusado negou o crime, e logo de entre o pôvo sahio um homem que veio advogar em favor do réo. Ali qualquér amigo ou parente pode defender o amigo ou parente.

Gambela tomou a palavra, e o accusado veio ajoelhar em frente d'elle; fêz-lhe varias perguntasse mandou-o embora.

Continuou o debate, comparecendo testemunhas de accusação e defesa. O crime foi provado, e o accusador pedio, que lhe entregassem a mulhér do ladrão; ficando indemnizado da perda de uns fios de missanga, objecto do roubo, pêla posse da mulhér.

Terminado este debate, apparaceu outro homem accusando a mulhér de lhe não obedecer. Esta accusação foi seguida de muitas outras semelhantes, e mais de vinte sùbditos de Lobossi fizéram amargas queixas contra as espôsas; demonstrando-me, que as mulheres em Lialui estavam em completa revolta domèstica. Depois de alguma discussão, foi resolvido, que tôda a mulhér que não obedecesse cega e absolutamente ao marido, fôsse amarrada e mettida na lagôa, onde passaria uma noute só com a cabêça de fora.

Aprovada esta nova lei, Gambela ordenou a alguns chefes, que a promulgassem nas povoações.

Uma cousa muito curiosa n'aquellas audiencias é o modo porque Gambela conferenceia com o rei em segrêdo, diante de tôdos. A um signal de Gambela, começa a mùsica a tocar, e os oito batuques fazem uma bulha de tal modo infernal, que é impossivel perceber uma palavra das que trocam o rei e o ministro.

Em seguida á audiencia, o rei vai para um aposento proprio para se embebedarem.

V[~e]m panellas e panellas de capata, e elle e os seus prestam um verdadeiro culto ao deos Baccho. D'ali vai para a cama, e á tarde, depois de novas libações, dá nova audiencia. Logo que, ao anoutecer, termina a audiencia, vai comer, e segue para o serralho, d'onde raramente sahi antes da uma hora, e recolhendo a casa para dormir, vahi deitar-se ao som ruidoso dos tambores.

O cessar dos batuques annuncía que o règulo está recolhido, e então a guarda, composta de uns quarenta homens, começa a tocar uma mùsica, que, apesar de monòtona, é agradavel; e tôda a noute cantam um côro suave e harmonioso a meia voz. Esta mùsica que no Barôze acalenta o sono do soberano, serve para mostrar que a guarda vela em tôrno do seu aposento. N'estes poucos traços dou uma idéa resumida do viver monòtono do autòcrata Africano, viver repartido entre a lascivia tôrpe e a embriaguez brutal.

N'aquelle dia, 4 de Setembro, sube, que devia a vida a Machauana, que, em conselho privado, se opôz formalmente a que me mandassem assassinar; dizendo, que elle tinha estado em Loanda com Livingstone, e ali tinha sido muito bem tratado pêlos brancos, assim como os Luinas que o acompanhavam; e por isso não podia consentir que fizessem mal a um branco da mesma raça.

Chegou mesmo a ameaçar os poderes constituidos, o que era caso grave para elles; porque no Lui os ministros morrem sempre na queda dos ministerios; precaução tomada pêlos novos conselheiros, que com alguns golpes de azagaia cortam pela raiz as opposições.

Cá na Europa, algumas vêzes, procura-se denegrir a reputação dos antecessores, buscando desdoural-os aos olhos do pôvo, para lhes diminuir a fôrça moral como opposição. Eu acho mais nobre, mais digno e mais seguro o systema polìtico dos Luinas, o que não quer dizer que o recommende.

O conselho, em vista da attitude e das razões de Machauana, decidio, que eu não morrêsse; mas, parece que algum dos conselheiros por conta propria decidio o contrario; porque, n'essa noute, estando afastado do acampamento, preparando-me para tomar alturas da lua, uma azagaia de arremesso passou tão perto de mim que a aste vergastou-me o braço esquêrdo. Olhei para o lado d'onde partira a arma, e vi um prêto a vinte passos, empunhando outra. Tirar o revólver e fazer fôgo sôbre elle, foi acto mais instinctivo do que pensado. Ao estampido do tiro, o assassino virou costas e correu em direcção a Lialui. Corri sôbre elle. Sentindo-me no encalço, o prêto deitou-se por terra. Receei uma cilada, e foi a passos medidos que me approximei d'elle, prompto a fazer fôgo.

Vi que o membrudo indìgena estava de bruços com as azagaias cahidas ao lado.

Peguei-lhe n'um braço, e ao tempo que senti as carnes estremecerem ao contacto da minha mão, senti um lìquido quente correr-me por entre os dêdos. O homem estava ferido. Fil-o erguer, e elle disse-me, tranzido de mêdo, umas palavras que eu não entendi. Apontando-lhe o revólver, obriguei-o a acompanhar-me ao acampamento.

Ali não fizera sensação o tiro de revólver, porque tôdas as noutes se ouvem mais ou menos tiros. Chamei dous muleques de confiança, e entreguei-lhe o meu prisioneiro, cuja ferida examinei. A bala entrara junto á cabêça superior do hùmero direito, perto da clavìcula, e não tendo sahido, suppuz estar fixa na omoplata. Não lhe apparecendo sangue nas vias respiratorias, calculei que o pulmão não tinha sido offendido, assim como o fio de sangue que corria da ferida, pêla sua tenuidade me mostrava que nenhum dos vasos importantes da circulação tinha sido cortado. N'estas condições a ferida não apresentava gravidade, pêlo menos de momento.

Depois de lhe fazer um ligeiro curativo, mandei chamar o Caiumbuca, e ordenei-lhe que me acompanhasse a casa do rei, fazendo com que os muleques conduzissem para ali o ferido.

