Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

Part 16

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O Capitão Paterson sahira de Pretoria encarregado de uma missão official junto de varios règulos Africanos; missão de que involuntariamente tive conhecimento por um d'estes com quem elle tratou, e sôbre a qual guardo a maior reserva, pêlo respeito que me merecem todas as missões particulares dos governos. Acompanhava-o M^{r.} Sergeant e alguns serviçaes, e no Matebeli reunìra-se M^{r.} Thomas, joven Inglez, filho de um missionario ha muito residente no Matebeli, e elle mesmo nascido ali. O Capitão Paterson, depois de tratar o que tinha a tratar com Lo-Bengula, decidio ir ver a maravilha Africana, a cataracta de Mozioatunia.

O joven Thomas pedio licença ao règulo para acompanhar aquella expedição, licença que lhe foi concedida.

Na vèspera da partida porem, um dos favoritos do règulo foi procurar o môço Inglez, e disse-lhe em nome do seu chefe, que não acompanhasse o Capitão Paterson.

M^{r.} Thomas foi procurar Lo-Bengula, e perguntar-lhe porque lhe negava a permissão antes concedida.

Lo-Bengula respondeu-lhe, que elle tinha sido criado pelos Matebelis, e por isso era querido como um filho da tribu.

Que tinha um presentimento de que alguma desgraça poderia acontecer áquelles Inglezes, e por isso o aconselhava a ficar ali e a deixal-os seguir sós.

M^{r.} Thomas disse-lhe, que não se importava com os presentimentos, e foi.

Não devia voltar como os outros dous Inglezes. ¿O que se passou? ¿Quem o saberá? Só o terrivel Lo-Bengula.

Uns, diziam, que fôram envenenados, outros mortos a tiro; mas eu, que conheço o systema dos grandes potentados Africanos, duvido de que alguma cousa certa se possa saber nunca; porque elles matam logo os executôres das suas sinistras ordens, e fêcham o segrêdo dos seus crimes em novas sepulturas.

Tudo quanto se dizia para provar uma ou outra opinião eram razões, talvez plausiveis, para quem não conhecesse a Àfrica, mas para mim não.

Diziam, por ex., que os Macalacas que, por ordem de Lo-Bengula, os tinham acompanhado, apparecêram depois com galões e outros objectos furtados aos Inglezes, o que provava que houvera assassinio e roubo.

Isto não provava nada; porque, se êlles tivessem morrido de morte natural, as suas bagagens seriam logo saqueadas.

Diziam outros, que, faltando a àgua, o chefe da caravana Matebeli fôra explorar terreno sòzinho, e voltando muito tempo depois, indicara um pequeno charco pouco distante, e que o Capitão Paterson ao beber d'aquella àgua dissera, "_estou envenenado_." ¿Quem veio contar isto, se ninguem da gente d'elles escapou?

Noticias de origem Matebeli diziam, que elles tinham bebido àgua de uma lagôa naturalmente envenenada, e por isso tinham morrido tôdos. Isto é outro absurdo.

Tôda a àgua das lagôas Africanas é veneno, mas não é veneno que mate n'um dia como o arsènico e os saes de mercurio, ou como muitos alcaloides vegetaes.

O veneno d'aquellas àguas infiltra-se no organismo, deteriora-o lentamente, pode matar com o tempo, porque é o miasma palustre e não outra cousa; mas não destroe a vida algumas horas depois de absorvido, e caso produzisse esse effeito em uma organização especial, não o produzia de certo em tanta gente.

Assim, pois, é tambem inverosimil a versão do envenenamento natural.

Outros affirmavam, que elles fôram traiçoeiramente fusilados; alguns diziam, que fôram mortos a azagaias. ¿Quem trouxe a nova?

Parece que houve crime, porque não é possivel que a febre matasse n'um dia tanta gente, e entre ella, gente aclimada no paiz, como o joven Thomas e os indìgenas; parece que houve crime, mas se o houve o segrêdo ficará entre Deos e Lo-Bengula.

Um dos viajantes Africanos que me merece mais crèdito, M^{r.} François Coillard, que ainda se demorou muito em _Shoshong_ depois da minha partida d'ali, assegurou-me na Europa, muito tempo depois, que o rei Cama conhecia o segrêdo da morte d'aquelles infelizes, e deixou-me perceber, que um crime horroroso fôra praticado por ordem do malvado Zulo.[10]

A 11 de Janeiro, havia na casa derrocada que habitàvamos um labutar incessante. Eram Madame e Mademoiselle Coillard a preparar-me provisões para a viagem. Faziam biscoutos com pròdiga largueza.

¿Como poderei eu jàmais agradecer tantos favôres? N'aquelle dia tambem recebi presentes de Madame Taylor. Um grande açafate de _cakes_ e um cestinho de ovos, cousa bastante rara em _Shoshong_.

No dia immediato estava prompto a partir, mas decidí seguir viagem no dia 14, não querendo deixar _Shoshong_ a 13.

Eu não tenho preconceitos, nem antipathias com nùmeros, mas d'essa vez o embirrar com o 13 foi desculpa dada a mim mesmo, para me demorar mais um dia com essa bôa familia a quem tanto devia.

Pude ali alcançar alguns cobertôres de pelles, d'aquelles que os Bamanguatos fazem para seu uso, e que sam cosidos com nêrvos de antìlopes.

Pêlas minhas observações achei uma differença enorme na posição de _Shoshong_, marcada em uma carta de Marenski que possuia M^{r.} Coillard.

No dia 13 fiz as minhas despedidas aos negociantes Inglezes, exceptuando M^{r.} Taylor, que estava ausente a seis milhas de Shoshong, no seu pôsto de gado.

Apesar d'o meu caminho ser ao sul, e o pôsto de gado de M^{r.} Taylor ao norte, decidi ir la no dia 14 fazer as despedidas a quem tanto me obrigara.

Effectivamente, n'êsse dia de manhã, segui para la. As damas Coillard e Madame Clark partíram adiante em uma carriola puxada por dois cavallos.

Eu sahi muito depois, em companhia do règulo Cama e de M^{r.} Coillard.

Eu, n'esse dia, tinha de fazer a primeira jornada no caminho de Pretoria, e essa jornada era de dôze milhas, para poder alcançar àgua potavel, o que, com outras dôze que eu ia andar de manhã, perfazia um total de 24, o que é um pouco forçado n'aquelle clima.

Seguímos pois acompanhados de dôze cavalleiros Bamanguatos.

Logo que deixámos as ruas da cidade, o chefe Cama deu de esporas ao cavallo e partio, mão baixa. Depois de uma corrida vertiginosa de meia hora, passou elle ao galope. Perguntei-lhe ¿para que era aquella pressa? e elle respondeu-me, que era assim que se andava no Manguato, e que os cavallos descançavam bem no galope, para darem outra corrida. Disse-lhe, que tinha razão, mas que o meu cavallo tendo de fazer uma grande marcha n'esse dia, talvez não entendêsse isso como elle. Que não queria ir de encontro aos hàbitos dos cavalleiros Bamanguatos, mas que me desse elle um dos seus cavallos, e mandasse o meu para _Shoshong_, onde eu o encontraria frêsco para a jornada d'esse dia.

Mandou Cama logo apear um dos seus que voltou á cidade com o meu _Fly_, em quanto eu montava uma êgua magnìfica que elle deixava.

Seguímos a toda a brida, e d'ahi a pouco estàvamos no pôsto de M^{r.} Taylor.

¡Tìnhamos gasto cincoenta e cinco minutos! Madame Taylor fez-nos servir um magnìfico lunch, e depois das mais cordiaes despedidas voltámos a _Shoshong_.

O systema da volta foi o mesmo da ida, brida e descançar no galope!

Os Bamanguatos não usam freios nos cavallos, e apenas os dirigem com um bridão Inglez. Dizem elles que os freios e as barbellas não deixam correr os cavallos.

Chegámos em um momento a _Shoshong_.

Stanley estava prompto a partir, e só esperava o meu signal. Dei-lhe esse signal, e elle fez estalar o longo chicote por sôbre as cabêças dos bôis, que se poséram lentamente a caminho, arrastando o pesado vagom. Com elle fôram os meus prêtos, á excepção de Augusto e Pépéca, que ficáram comigo. Passei ainda algumas horas com as damas Coillard, mas era forçôso deixal-as, e fazendo soberanos esforços para occultar a minha commoção, disse-lhes um ùltimo adeos, saltei sôbre o cavallo e parti.

Tive a coragem de não me voltar em quanto as podia ver!

O sol desapparecia ja no horizonte quando deixei _Shoshong_.

Segui o caminho que me foi indicado, e três horas depois, entendi que estava no ponto onde devia pernoitar, mas o vagom não apparecia. Era tarde da noite, e noite de trevas profundas.

Chamei, gritei, e ninguem respondeu. Poucos momentos depois, apparecêram-me dois indìgenas. Eram vedêtas de Cama, que receioso de um ataque nocturno dos Matebelles, guarda a sua cidade com uma linha contìnua de sentinellas a muitas milhas de distancia. Estam estas atalaias tão bem dispostas, que podem soccorrer-se, e fazer um momento face ao inimigo, em quanto alguns homens correm á cidade nos ligeiros cavallos a dar o alarme.

Os dois homens que me apparecêram acabavam de rondar os postos do sul, e afiançáram-me, que, havia muitos dias, nem um só vagom tinha tomado aquelle caminho; asseverando, que eu devia ter passado pêlo meu antes de chegar ali.

Estava muito habituado á vida das florestas para que passasse, mesmo nas trevas, pêlo vagom sem o ver, e se me escapasse a mim, não escaparia ao meu Pépéca, que tem olhos de lince.

Os dois Bamanguatos proposéram-me o acompanhar-me a buscar o vagom e partíram comigo.

Depois de explorarmos uma grande parte do valle sem encontrarmos vestigios da carroça, cahimos de nôvo em _Shoshong_, desesperados, acabrunhados de fadiga, e sem poder explicar o caso.

Eram altas horas, ¿e que fazer? Resolvi ir bater á porta de M^{r.} Coillard, e esperar o dia.

M^{r.} e M^{me.} Coillard levantáram-se logo, e em quanto eu narrava o acontecido ao missionario, Madame Coillard só pensava em me dar de comer e em me preparar bôa cama.

Eu até ali, como depois, dormia sôbre a terra em umas pelles, a despeito dos esforços de Madame Coillard em me querer dar uma cama; como as minhas pelles tinham partido no vagom, ella n'essa noite aproveitou o ensejo de se vingar da minha reluctancia, e fêz-me uma cama Europea.

Não podémos decifrar o enigma, e reservámos para o dia seguinte o desvendar o misterio do desapparecimento do meu Stanley.

Eu, quebrado de fadiga, fui dar bôa ração ao cavallo, e cahi extenuado no leito.

Apesar do cançaço, não pude conciliar o sono, porque uma anciedade horrivel me confrangia o coração.

Como ja disse, encontrei uma grande differença na posição de _Shoshong_ em longitude, e tôdas as minhas observações eram chronomètricas e referidas á ùltima observação que fiz do eclipse do primeiro satèlite de Jùpiter. Essa posição nova só me podia ser confirmada, por uma nova cotisação dos chronòmetros em longitude determinada, e esses chronòmetros, que eu não sabia onde estavam por ignorar onde estava o vagom, iam parar no dia seguinte por falta de corda.

A poucos será dado comprehender o que eu soffri com esta idéa.

CAPÌTULO V.

DE SHOSHONG A PRETORIA.

Catraio--Apparece o vagom--Despedida de M^{r.} Coillard--Tempestades--O vagom tombado--Trabalhos de nôvo gènero--Chuvas--O Limpôpo--Fly--Caçadas--No Ntuani--Um Stanley que não presta--Augusto furioso--Adicul--Os leões--Stanley desanima--Os Böers nomadas--Nôvo vagom--Peripècias--Doenças graves--Um Christophe de mil diabos--Madame Gonin--O ùltimo tùmulo--Magalies-berg--Pretoria.

Mal se adivinhava o alvorecer da manhã, e ja eu estava a pe e vestido.

Os chronòmetros não se me tiravam da idéa, e a preoccupação era grande e motivada.

M^{r.} Coillard participava do meu sobresalto, e não me quiz deixar partir sòzinho. Mandou pedir um cavallo ao rei Cama, e seguio comigo no rasto do vagom.

Tive de fazer novas despedidas ás damas Coillard, e novamente senti os desgôstos d'aquella separação.

Em breve eu e M^{r.} Coillard deixàvamos _Shoshong_, e nos internàvamos no esteval que cobre os campos ao sul da cidade.

Seguìamos o rasto do pesado carro, quando mui pròximo divisámos um nêgro sentado junto ao caminho. Ao acercar-nos d'elle eu conheci-o. Era o meu muleque Catraio. Caminhou para mim, trazendo nas mãos um objecto volumoso, e ao abeirar-me, disse-me, "_Sinhô_, dê cá as chaves para tirar os relogios da mala, que sam horas de dar corda."

Exultei ao ver a mala dos instrumentos onde estavam os chronòmetros, e sem pedir ao muleque explicações do desapparecimento do vagom, saltei do cavallo, e entreguei-me ás minhas observações matinaes quotidianas. Estava escrito que durante a minha longa jornada os meus chronòmetros não teriam nunca de parar!

Catraio, sempre vigilante por aquella obrigação, velava por elles.

O missionario ficou sorprendido com o cuidado do prêto.

Ali, como em Embarira, Catraio tinha impedido os chronòmetros de pararem, como durante as minhas mais graves doenças o tinha feito.

Catraio fôra educado por um Portuguez, que desde pequeno lhe conheceu a bossa da velhacaria, e que têve o cuidado de lh'-a desenvolver á pancada.

O muleque, perdida a vergonha, que talvez nunca têve, em breve perdeu o mêdo ao castigo, e fêz-se bêbado e ladrão.

Seu amo, a quem elle chegou a fazer um roubo importante com arrombamento de um cofre, isto aos dôze annos, decidio desfazer-se d'elle para sempre, e mandou-o deitar á margem em Nôvo-Redondo.

Quando em Benguella eu procurava um muleque intelligente e ladino para o meu serviço particular, mais de uma pessôa me falou em Catraio, que a fama das tratantadas tornara conhecido.

Dirigi-me ao que fôra seu amo, e consegui que elle o mandasse buscar a Nôvo-Redondo. Ao ver a physionomia expressiva e intelligente do prêto, fiquei satisfeito com o passo que dera chamando-o a mim. Catraio até ali tinha sido levado á pancada, eu resolvi tratal-o por bons modos, nunca lhe falei na sua vida passada, nunca lhe fiz uma recriminação.

Sendo elle o prêto mais intelligente de todos aquelles que me cercavam, eu incumbi-o de me ajudar nos meus trabalhos scientìficos. Catraio, que não sabia ler ou escrever, conheceu em poucos tempos todos os meus instrumentos e todos os meus livros. Quando, separado dos meus companheiros, me vi sòzinho em Àfrica, tive uma grande apprehensão, lembràndo-me que, durante uma doença, os meus chronòmetros poderiam parar. Chamei o Catraio e fiz-lhe o seguinte discurso edificante:

"Fica sabendo que de hôje em diante, tôdos os dias, logo de madrugada, tu tens de te apresentar diante de mim com os chronòmetros, thermòmetros, baròmetro e caderno diario, isto esteja eu são ou muito doente, longe ou perto, ficando tu na intelligencia, de que não tens desculpa nas circunstancias mais extraordinarias, se o não fizeres. Agora escuta-me bem. Nunca te bati como nunca te ralhei, mas, se os chronòmetros pararem por falta de corda, eu espèto-te n'um enorme espêto de pao, e asso-te vivo nas brazas de uma enorme fogueira."

Catraio, que não acreditava muito que um branco fôsse bom, e que desconfiava mais da brandura do meu trato do que das pancadas habituaes, julgou ter descoberto a minha maneira de castigar uma falta, e o espêto de pao e a fogueira aterráram-n-o.

Começou a trazer tôdas as manhãs os instrumentos, a coisa foi passando a hàbito, e eis a razão porque, ainda nas minhas mais graves doenças, os chronòmetros tivéram corda e fôram comparados; eis a razão porque em Embarira Catraio, com risco de vida, os foi empalmar aos Macalacas; eis a razão porque ainda n'aquelle dia fôram salvos de parar, porque elle, vendo que eu não chegara na vèspera, mesmo de noute se pôz a caminho e me veio encontrar á hora propria.

Livre da apprehensão que me torturava, tratei de interrogar o muleque sôbre o facto do desapparecimento do vagom, e soube que o Inglez se tinha enganado, e tinha tomado um caminho transversal pêlo bom caminho, mas que, logo ao alvorecer, partiria, e iria esperar-me no logar ajustado para o encontro na vèspera.

Eu e M^{r.} Coillard seguímos no bom caminho, e ás 9 horas encontrámos o vagom.

Mandei fazer o almôço, e ao meio-dia separei-me d'êsse homem a quem devia tanta gratidão, e cujos favôres sam d'aquelles que não se podem retribuir nunca, porque tudo que por elle eu fizesse pesaria, em uma balança justa, muito menos do que tudo o que recebi d'elle.

Parti immediatamente, e fui acampar ás quatro horas, em sitio sem àgua.

N'essa noute, quando ia a deitar-me, senti o galope de um cavallo, que me chamou a attenção. O meu Fly rinchava, e os cães ladravam e arremettiam para o lado de _Shoshong_.

Pouco depois, chegava ao meu campo um cavalleiro Bamanguato, e entregava-me uma carta e um embrulho.

A carta dizia, que fôra encontrada em casa a minha espingarda Devisme, e M^{r.} Coillard apressava-se em mandar-m'a.

Escrevi-lhe algumas palavras de agradecimento, e remunerei o portador, que voltou logo a tôda a brida.

No dia immediato, 16 de Janeiro, parti á uma hora da madrugada, alcançando ás três horas uma lagôa, ùnica àgua permanente que existe entre o Limpôpo e _Shoshong_.

N'esse dia ainda fiz duas jornadas, uma de três outra de quatro horas, acampando pelas cinco da tarde. Das quatro ás dez da noute a chuva cahio torrencial, inundou-me o vagom, cuja cobertura velha e esburacada nada abrigava, e causou-me perdas sensiveis, sendo a maior, tôdo o pão e biscoutos preparados por Madame Coillard, que ensopados n'àgua se tornáram em massa não aproveitavel.

Na marcha ùltima d'esse dia tive de alterar o meu rumo que era Sul, e meti a S.E., para evitar os accidentes do terreno, que tornavam difficilimo o rodar do vagom, e ameaçavam despedaçal-o a cada momento. O vagom de Stanley era uma velha carriola, meio apodrecida e desconjuntada, e que a cada passo parecia querer desfazer-se.

[Figura 129.--No Deserto.]

Só ás 8 horas do dia seguinte, depois de uma jornada de três horas, entrei no meu rumo, entrando no caminho abandonado na vèspera. O terreno continuava accidentado, mas era preciso seguir n'elle.

Ao descer uma eminencia, as rodas de um lado do vagom entráram n'um sulco profundo, e o vagom tombou, ficando encostado a duas àrvores que lhe amparáram a queda. Eu ja desconfiava que o meu Stanley não prestava para nada, mas tive a convicção d'isso no primeiro embaraço que encontrámos. O homem, ao ver o vagom tombado, sentou-se, fechou as mãos na cabêça e julgou-se perdido.

Mandei dejungir os bôis, e fui estudar a maneira de levantar o carro sem o despedaçar. Augusto, Verissimo e Camutombo fôram cortar três fortes e compridas estacas, que amarrei ao vagom e por meio de cordas dadas ás àrvores do outro lado, consegui sustental-o na sua posição natural, empregando para isso apenas uma junta de bôis.

Em seguida, enchi o sulco com paos e folhagem, para que as rodas d'aquelle lado podessem descançar ao mesmo nivel das do outro lado. Este trabalho durou mais de quatro horas, e quando consegui pôr o vagom em estado de rodar e mandei jungir os bôis, ao primeiro esfôrço que elles fizéram, a corrente tirante partio-se em bocados.

Nova demora, nôvo trabalho a ligar os elos da corrente partida com tiras de couro de girafa, isto debaixo de uma chuva torrencial, e o meu Stanley sempre pasmado e sem saber o que havia de fazer.

Consegui partir ás três horas e meia, mas tive que parar logo depois, porque o temporal recresceu, e o terreno argiloso encharcado não permittia o rodar do vagom, que, muito abalado pêla queda, se desfazia em pedaços. A tempestade foi horrivel até ás 10 horas da noute, e durante duas horas, os raios cahiam muito pròximos, lascando as àrvores da floresta. O terreno, sempre accidentado, é coberto de mata espêssa, que vegeta n'um solo de argila muito plàstica.

[Figura 130.--Fly, o meu Cavallo do deserto. (De uma photo. feita em Pretoria.)]

No dia 18, parti ás seis da manhã, e meia hora depois entrava n'uma planicie completamente encharcada, e onde as rodas do carro se enterravam na argila até aos cubos. Fazia-se um kilòmetro por hora n'aquelle terreno difficil.

Ás 10 horas pude alcançar uma pequena eminencia, mais enxuta, onde parei.

Estava junto á margem esquêrda do Limpôpo, conhecido ali pêlo nome de rio dos crocodilos.

Fui logo ao rio, que tem ali 50 metros de largo, com uma corrente de 30 metros por minuto. Não tinha meio de lhe avaliar a profundidade.

O tempo tinha melhorado, e eu, ao deixar o rio, segui parallelamente á margem, deixando Fly ir a passo, as rèdeas largas e pendentes.

De repente, o meu fino cavallo fitou as orêlhas, rinchou e precipitou-se de um salto no meio do esteval, começando em uma carreira desenfreada. Sem saber explicar o caso, sobresaltei-me e tentei sostel-o, mas elle não queria obedecer ao freio.

Nada tranquillo e pensando que o nobre animal fugia por evitar um perigo, estava perplexo, quando percebi diante de mim um rumorejar nas estêvas, e vi os cornos retrocidos de alguns _ongiris_.

Percebi tudo; eu não fugia, perseguia. Desde esse momento comecei a ajudar o cavallo, que ganhava terreno sôbre os ligeiros antìlopes.

Quanto tempo durou aquella corrida vertiginosa não sei. Passei matas, onde ficáram os restos dos meus andrajos, com alguma pelle do meu côrpo, passei clareiras e planicies, onde os antìlopes e cavallo se atascavam em lôdo. O cavallo ganhava terreno, mas lentamente, só tarde me acerquei dos ongiris e pude atirar-lhes. Um cahio, e os outros seguíram mais ligeiros ainda, instigados pêlo mêdo que lhes causou o estampido do tiro.

Fly parou, e foi cheirar o animal, que se estorcía nas vascas da morte, com o mesmo prazer com que o faria um cão de caça.

¿Onde estava eu? ¿Onde me ficava o vagom? Não o sabia; porque não sabia a que rumos tinha andado.

Isso preoccupava-me um pouco, mas eu lembrei-me de caminhar a leste até encontrar o Limpôpo.

A esse tempo, um enorme temporal cahio sobre mim. Era-me impossivel carregar o antìlope sôbre o cavallo, porque não tinha fôrça para isso. Decidi abril-o, e tirar-lhe os intestinos, a ver se então o poderia elevar do solo.

Bastante pràtico no serviço de magarefe, em breve concluí aquelle trabalho.

A minha esperança não foi perdida, e pude, ainda que a custo, guindar o animal sôbre o arção, onde o amarrei.

[Figura 131.--Fly perseguindo os Ongiris.]

Puz-me a caminho para leste, mas Fly embirrou em querer caminhar ao norte, e comecei a pensar que talvez o cavallo tivesse mais razão do que eu, e deixei-o tomar aquelle rumo. Uma hora depois, avistava o vagom, onde a minha gente não estava sem receios, pêla demorada ausencia que tive.

Era ja tarde, e estava extenuado de fadiga; por isso decidi ficar n'aquelle ponto. Ao anoutecer, apparecêram ali uns prêtos do règulo _Sesheli_ que iam a _Shoshong_, e por elles escrevi ao missionario Coillard, a prevenil-o do mao estado dos caminhos, e a dizer-lhe, que não seguisse o meu rumo.

Durante a noute cahio uma horrorosa tempestade, e de nôvo ficámos encharcados. Apesar d'isso, a fadiga do dia trouxe o sono e dormi profundamente, para acordar com uma dôr horrivel no sangradouro do braço direito. Levantei a manga da camisa, e fiquei trèmulo ao ver um enorme escorpião nêgro que me picara o braço n'aquelle ponto mesmo, sôbre a artèria brachial. Era impossivel sarjar sem ferir a artèria, empregando para isso a mão esquêrda, com a qual sou pouco geitoso, e o receio de aggravar a situação fazendo algum disparate, levou-me a decidir não fazer nada. Em poucos minutos a inchação era enorme e as dôres violentissimas.

No maior desespêro, tomei três grammas de hydrato de chloral e cahi em modôrra.

Era alto dia quando sahi d'aquelle sono, provocado pêlo poderoso anesthèsico.

As dôres tinham abrandado, e só existia uma inflammação local, com um tumor do tamanho de uma ervilha no sìtio do ferimento, tumor que só desappareceu mêzes depois.

O engorgitamento dos tecidos era grande, e tolhia-me os movimentos.

Apesar d'isso, ainda fui caçar n'êsse dia, e tanta caça encontrei que resolvi ficar ali. Matei dois leopardos.

A noute foi de tempestade, e os insectos torturáram-me.

Alguns leões rondáram o campo, e fizéram-nos estremecer com os seus rugidos estridentes.

Seguímos ás 8 horas do dia 20, mas o terreno argiloso, encharcado da chuva, pegava-se ás rodas do vagom, e formava blocos que as impediam de girar, sendo a câda momento preciso tirar-lh'-os a machado.

Foi um fadigante labutar, e ás 10 horas parei, porque estàvamos todos extenuados de fadiga. A chuva cahia forte, e só podémos de nôvo por a caminho o vagom ás 2 horas, parando ás 4 e meia junto do rio Ntuani.