Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

Part 12

Chapter 12 4,030 words Public domain Markdown

No paredão do sul, proximamente a três quintas-partes d'elle, a Àfrica foi rasgada por outra fenda gigantêsca perpendicular á primeira; fenda que primeiro se encurva a oeste, e vergando depois pêlo sul a leste, vai conduzindo em caprichôso ziguezague o rio, que ella la no fundo aperta em estreito abraço de rochêdos.

Na cataracta o grande paredão do norte onde o rio se despenha é em partes perfeitamente vertical, apresentando apenas as saliencias e escabrosidades das rochas.

Uma enorme convulsão vulcànica fendeu ali a terra, e produzio aquelle abismo enorme, em que se veio precipitar um dos maiores rios do mundo. De certo o trabalho potente da àgua ja modificou muito a superficie das rochas, mas não é difficil ao ôlho observador, o perceber bem, que aquellas escarpas profundas, distanciadas hôje, fôram despegadas umas das outras.

O Zambeze, encontrando no seu caminho aquella voragem, abìsma-se n'ella em três cataractas grandiosas, porque duas ilhas, que occupam dois grandes espaços no paredão do norte, o dividem em três ramos.

A primeira cataracta é formada por um braço que passa ao sul da primeira ilha, ilha que occupa no rectàngulo que desenha a forma superior da fenda, o extremo oeste.

Este braço precipita-se por isso no pequeno lado oeste do rectàngulo.

Tem sessenta metros de largo e oitenta de queda vertical, cahindo em uma bacia d'onde a àgua vai procurar o fundo do abismo e unir-se ás outras em ràpidos e cascatas quasi invisiveis pêla espêssa nuvem de vapôr que envolve tudo lá em baixo.

A ilha que separa aquelle braço do rio é coberta de vegetação frondosa, vegetação que se estende até ao ponto onde a àgua se despenha, produzindo uma paizagem sorprendente.

É esta a menor das quedas, mas é a mais bella, ou antes a ùnica que é bella, porque tudo mais em Mozi-oa-tunia é horrivel. Aquella voragem enorme, nêgra como é nêgro o basalto que a forma, escura como é escura a nuvem que a envolve, teria sido escolhida se fôsse conhecida nos tempos bìblicos, para imagem do inferno, inferno d'àgua e trevas, mais terrivel talvez que o inferno de fôgo e luz.

Para augmentar o sentimento de horror que se experimenta diante d'aquelle prodigio, até é preciso arriscar a vida para a poder ver. ¡Vel-a! impossivel; Mozi-oa-tunia nem se deixa ver.

Ás vezes, lá no fundo, por entre a bruma eterna, percebem-se formas confusas, semelhando ruinas medonhas.

Sam pontas de rochêdos de enorme altura, onde a àgua, que os açouta, partindo-se em glòbulos se torna nuvem, nuvem eterna, que constantemente alimentada tem de pairar sobre o rochêdo em que se formou, em quanto a àgua cahir e o rochêdo se erguer ali.

Em frente da ilha do jardim, no meio de um arco-iris, concèntrico a outro mais desvanecido, vi eu por vêzes, ao ondular da bruma, desenharem-se confusamente, uma serie de picos, semelhantes aos miranetes de uma cathedral phantàstica, que a um lado lançava aos ares uma frecha de enorme altura.

Continuando a examinar a cataracta, vemos o comêço do paredão N. logo em seguida á queda de oeste, ser occupado em uma extenção de duzentos metros por uma ilha, aquella de que ja falei, que separa o braço do rio que vai formar a primeira queda. Ali é o ùnico ponto em que se vê tôdo o paredão, porque n'aquella extensão de duzentos metros o vapor não chêga completamente a encobrir o fundo.

Foi n'esse ponto onde eu fiz as primeiras medições, e por meio de dois triàngulos, achei para largura superior do corte 100 metros, e 120 para altura vertical do paredão.

Esta altura vertical é superior mais a leste, porque o fundo do sulco desce até ao corte que encana o rio ao sul. N'esse ponto tambem obtive elementos para medir a altura.

Nas primeiras medições eu tinha por base o lado 100 metros, achado para largura superior do sulco, mas era preciso ver o pé do paredão, e tive de arriscar a vida para isso.

Tirei os pannos ao meu Augusto e ao meu muleque Catraio e amarrei-os. Estes pannos de zuarte pintado e ja muito usados, não me offereciam uma grande segurança, mas não tinha outro meio de me suspender no abismo. Passei o fragil amparo em volta do peito, para me ficarem as mãos livres, e tomando o sextante debrucei-me na voragem. Seguravam as extremidades o meu Augusto e um Macalaca da povoação das quedas. Elles tremiam com mêdo e faziam-me tremer, levando eu por isso muito tempo a medir o àngulo. Quando lhes disse que me puxassem, e me pude equilibrar sôbre as rochas, foi como se tivesse acordado de um pesadêlo horrivel.

Li no nonio 50° 10', e logo que registei a medida, comecei a horrorizar-me do que tinha feito. Um excesso de vaidade mal-cabida, o querer apresentar com a maior aproximação a altura da cataracta, acabava de me fazer commetter a maior imprudencia que commetti em tôda a viagem.

Medir e triangular ali é difficilimo, e começa por faltar terreno onde se possa medir uma base com algum rigor.

Eu apenas pude medir 75 metros, e isso com trabalho enorme.

Só posso suppor que os triàngulos feitos pêlo D^{or.} Livingstone da ilha do Jardim, fôram resolvidos só com os àngulos; porque lados não podia d'aquelle ponto medir nenhum. Pena é que não ficasse a fòrmula. A medição da altura com um cordél e uma pedra atada na ponta, acho-a tambem extraordinaria; porque as escabrosidades da rocha deveriam soster o prumo, e àlém d'isso, da ilha do Jardim apenas se vê, na voragem profunda, uma espêssa nuvem que tudo encobre, sendo impossivel divisar nada lá em baixo, ainda que o Doutor atasse á pedra tôda uma peça de algodão branco, em logar de um farrapo de 60 centìmetros, como elle diz que fez. Fôsse como fôsse, elle foi mais feliz e mais esperto do que eu, que pouco fiz, dispondo para isso de melhores instrumentos e mais recursos.

[Figura 124.--Mozioatunia. Maneira pouco còmmoda de medir àngulos.]

Em seguida á primeira ilha onde fiz as medições, vem a parte principal da cataracta, e é ella comprehendida entre essa ilha e a do Jardim. Ali é que a maior porção d'àgua se despenha n'uma compacta massa de quatrocentos metros de extensão, e ali é que o abismo atinge tôda a sua profundidade. Vem, em seguida, a ilha do Jardim, de quarenta metros de face sôbre a fenda; e depois a terceira queda, formada por dezenas de quedas, que occupam tôdo o espaço entre a ilha do Jardim e a extremidade leste do paredão. Esta terceira queda deve ser a mais importante no tempo das cheias, logo que as pedras que na estiagem lhe dividem as àguas fôrem cobertas, e não existir mais do que uma ùnica e enorme cataracta.

A àgua que cae das duas primeiras quedas e parte da terceira junto da ilha do Jardim, correm a leste, o resto da terceira a oeste, e encontrando-se, unem-se em choque immenso, e voltam ao sul n'um referver medonho, correndo ràpidas no fundo do abismo, em canal pedregôso, que as entala nos seus caprichosos ziguezagues.

No ponto onde as àguas, ja em um canal ùnico, se dirigem ao sul, fiz uma experiencia que narrarei em capìtulo separado d'este, e que me permittio obter uma altura muito aproximada da maior profundidade do abismo. Não me foi possivel fazer mais, e duvido mesmo que mais se possa fazer, a menos de se ir expressamente preparado para estudar a cataracta; e creio que para isso será possivel inventar algums meios apropriados para trabalhar ali, debaixo de uma chuva eterna, e no meio de um vapôr denso que nada deixa ver.

[Figura 125.--O Rio depois da Cataracta.]

Ilhas, bordas da cataracta, rochêdos mêsmos, tudo é coberto de uma vegetação esplèndida, mas de um verde-nêgro triste e monòtono, embora um ou outro grupo de palmeiras tente quebrar a melancolia do quadro, fazendo sobressahir as suas palmas elegantes ás copas dos arvorêdos que as cercam.

Uma chuva eterna molha sem cessar as proximidades do abismo, onde rola como que uma trovoada sem fim.

Mozia-oa-tunia não se pode desenhar, e excepto a sua extremidade oeste, tudo ali é nuvem de vapôr, que encobre uma paizagem medonha.

Não é dado visitar esta sobêrba maravilha sem que um sentimento de terror e de tristeza se aposse de nós.

¡Que differença entre a cataracta de Gonha e Mozi-oa-tunia!

Em Gonha tudo é risonho e bello; ali tudo é soturno e triste!

Ambas sam attrahentes, ambas sam verdadeiramente grandiosas; mas Gonha é attrahente e bella como a virgem formosa coroada das flores da innocencia, arrastando o alvo vestido nas ruas do jardim, embalsamadas pelas auras perfumadas da manhã de estio: Mozi-oa-tunia é grandiosa e imponente como o salteador requeimado pêlo sol de verão e pêlo gêlo do inverno, o trabuco na mão, o crime na idéa, entre os fraguêdos da serra, por noite escura e triste.

Gonha é bella como a manhã bonançosa da primavera; Mozi-oa-tunia é imponente como a noute tempestuosa do inverno.

Gonha é bella como o primeiro sorrir da criança nos braços da mãe; Mozi-oa-tunia é imponente como o ùltimo arquejar do ancião nos braços da morte.

Gonha é o bello na sua mais sublime expressão da formosura; Mozia-oa-tunia é o bello na sua mais expressiva revelação da grandeza e magestade.

Depois da contemplação da mais prodigiosa maravilha natural do continente Africano, voltei ao meu campo fortemente impressionado pêlo que acabava de ver. O tempo melhorara, mas conservava-se encoberto. N'essa noute fui assaltado por nuvem de mosquitos, que não me deixáram um momento de repouso.

Logo de manhã, parti para a cataracta, que visitei de nôvo, concluindo os trabalhos começados na vèspera, e que me entretivéram o dia tôdo. De volta ao campo, apparecêram ali uns Macalacas com massango, pedindo-me quatro jardas de fazenda por um prato d'elle, que não continha meio litro de grão.[6]

Ainda que muito necessitado de adquirir vìveres, não quiz abrir um tal exemplo, e recusei comprar.

Então o Macalaca disse-me, que a fazenda e a missanga não se comia, que eu teria fome, e então lhe daria tudo o que elle quizesse por um prato de comida.

Fui-lhe dando logo dois pontapés. Chegou o dia 22 de Novembro, dia que eu tinha fixado para o regresso, mas a minha posição era crìtica. Tìnhamos apenas comida para dois dias, e não lograriamos alcançar Deica antes de seis.

Era impossivel partir sem ter feito provisões de mantimentos.

Não esperando ja obter nada dos Macalacas, fui caçar apesar do mao tempo.

Pouco distante do acampamento, pude atirar a uma malanca, e voltava ás barracas para a mandar esquartejar e trazer ali; quando chegou o chefe das povoações das quedas, que pêla primeira vez eu via, e me vinha visitar.

Com elle vinham muitos prêtos, que fôram ajudar a conduzir a malanca que eu havia môrto. Uma tão importante peça de caça fez logo diminuir no mercado o prêço dos vìveres. O chefe foi á sua povoação d'onde trouxe quantidade de mantimentos e duas gallinhas, pedindo-me por tudo a pelle da malanca e o meu cobertor. Necessitado de partir, e não querendo fazer questões, aceitei o contracto, e elle retirou-se satisfeito.

Lá foi o meu cobertor! socio de tantas noutes mal dormidas n'aquelles sertões Africanos.

Pude enfim deixar Mozi-oa-tunia, e fui pernoitar nas mêsmas barracas que tinha construido na tarde do dia 18.

No dia immediato deixei o caminho que seguira até ali quando demandava a cataracta, e endireitei ao sul. Não me tinha sido difficil encontrar a grande cataracta do Zambeze que de longe se annuncia; mas encontrar um ponto que não existe nas cartas e cuja posição eu tinha calculado por informações vagas, não me era facil.

N'um paiz como aquelle, despovoado e virgem, eu poderia bem passar perto do kraal de Patamatenga sem o ver, nem dar d'elle conta. Contudo, pelos meus càlculos, Patamatenga devia-me ficar ao Sul verdadeiro, e eu endireitei para la, dispôsto a não alterar aquelle rumo por nenhum motivo que fôsse.

Depois de marcha de quatro horas, fui acampar junto de um còrrego em sitio medonho. Nem uma àrvore, nem uma herva. Só penedias nêgras formavam a paizagem, escurecida ainda por um ceo carregado de pesados nimbus.

Um silencio profundo reinava n'aquelle pequeno valle da tristeza.

No caminho d'êsse dia encontrei alguns leões, que evitei com cautela.

Vem a propòsito falar aqui de certa mania louca que ataca quasi sempre o explorador noviço. É tal o seu enthusiasmo por afrontar os perigos, que chêga a creal-os onde elles não existem.

A Àfrica offerece cada dia, a cada passo, taes estôrvos ao viajante, taes perigos ao caminheiro, que sam elles de sobra para fazer abortar a maior parte das expedições que tentam devassar os seus segrêdos.

A prudencia deve ser o guia de tôdas as acções do exploradôr; o que não quer dizer, que ella mesma não aconsêlhe, em outra dada circunstancia, um excesso de temeridade, quando essa temeridade fôr precisa á salvação commum.

Uma das maiores loucuras em Àfrica é caçar feras. A pòlvora vale no sertão tanto como o ouro, e o tiro dado em uma fera é um tiro desperdiçado, é o resultado de uma expedição arriscado, é ás vêzes a salvação de tôda uma caravana, que será perdida sem chefe, posta na balança do acaso, unicamente por satisfação de uma vaidade pessoal.

Em quasi tôda a minha viagem, obrigado a caçar para viver, tive muitas vêzes de affrontar as feras; o que não me teria acontecido se, dispondo de recursos sufficientes, me podesse ter dispensado da caça. Uma fera morta em defensa propria e em encontro fortuïto, é um obstàculo destruido; um leão procurado e môrto por o exploradôr geògrapho é um obstàculo creado, é uma imprudencia commettida, é e deve ser um remôrso na sua existencia.

Eu commetti algumas faltas d'essas, e sempre depois tive o arrependimento sincero.

Hôje se voltasse á Àfrica em viagem de exploração ou encarregado de outra qualquer missão importante, não arriscaria o fim principal, para me dar um prazer que é fumo, porque apenas vem um momento lisongear o amor-proprio.

Ja pensava assim, quando de volta da cataracta evitava os leões, que fugiam de mim como eu fugia d'elles.

Não havia lenha perto do sitio onde decidi ficar, e o meu Augusto foi procural-a longe. Trouxe alguns troncos de àrvores sêcos, que, ao partir, deixavam apparecer nas rachas escorpiões enormes. No caminho mesmo, e ainda ali, haviam innùmeros dos repugnantes articulados.

N'esse dia, uma violenta tempestade vinda do S.S.E. passou sôbre nós, e durante duas horas despejou copiosa chuva.

Durante a noute, soprou rijo o vento S.E., que muito nos incommodou, tendo por abrigos, como tìnhamos, apenas um ceo nebuloso. A 24 de Novembro, segui sempre ao Sul por caminho difficil.

As montanhas corriam a S.E. e por isso nós subìamos e decìamos continuamente, em terreno pedregoso, e àrido. Depois de cinco horas de fatigante caminhar, encontrei um pequeno charco, junto ao qual acampei.

Subindo a um outeiro que me ficava pròximo, avistei ao sul uma planicie enorme, onde não pude divisar os menores signaes de àgua, por mais que a perscrutei com o meu òculo potente.

Receei muito que me faltasse a àgua d'ali em diante. É verdade que n'aquelle paiz abunda o _Mucuri_, e onde elle existe não se morre á sêde. O _Mucuri_ é um grande auxilio do viajante nas florestas ressequidas da Àfrica Austral. É elle um arbusto de 60 a 80 centìmetros de altura, que produz na extremidade das suas radìculas, uns tubèrculos esponjosos, ensopados de um lìquido insìpido que sacia a sêde.

Não é facil porem encontrar os tubèrculos logo que se encontra a planta.

Crescem êlles nas pontas de pequenas radìculas que, irradiando das raizes principaes, vam muito longe do caule alimentar e desenvolver aquellas excrescencias extraordinarias. O melhor meio de os encontrar é o empregado pêlo gentio Africano, de se collocarem junto á planta e ir descrevendo cìrculos concèntricos a passos lentos, batendo o terreno com um pao. Onde a terra dá um som ôco e surdo ahi estam os tubèrculos, que t[~e]m de 10 a 20 centìmetros de diàmetro e affectam a forma pròximamente esphèrica. Fiz bôa provisão d'elles no dia immediato antes de deixar o sitio em que passei uma pèssima noute.

Sustentei marcha de sete horas, ja em planicie coberta de àrvorêdo e altas gramìneas. De àgua nem signaes.

Pêla tarde parámos extenuados de fadiga, e resolvia acampar, quando sôbre a minha cabêça, na àrvore a que estava encostado, ouvi o arrullar das rôlas Africanas.

A àgua devia estar perto, porque aquella era a hora das avezinhas bebêrem, e sem bebedouros pròximos as rôlas não estariam ali. A rôla em Àfrica é indicio de haver àgua perto do sitio onde se mostra de manhã e á tarde, porque aquella ave não passa sem beber duas vêzes ao dia.

Mandei logo Verissimo e Augusto explorar os arredores, e uma hora depois voltava Verissimo tendo encontrado uma pequena nascente um kilòmetro ao N.O.

Fui acampar ali ja por noute escura.

Pêlos mêus càlculos no dia immediato deverìamos chegar a Patamatenga.

Amanheceu o dia 26 de Novembro, e puz-me em marcha. Logo á sahida do ponto em que acampei, encontrei uma espêssa mata que me levou 20 minutos a transpôr.

Ao sahir d'ella, um ribeiro bastante volumoso corria em leito de pedra, e àlém d'elle um kraal magnìficamente construido, mostrou-me, por sôbre a sua forte palissada o tecto ponteagudo de muitas casas.

Eu tinha dôrmido junto a Patamatenga sem o saber, e tinha passado uma pèssima noute ao relento, quando poderia ter dormido em òptima cama e no conchêgo de uma bem construida casa.

Um Inglez, cujo nome ignorava, veio buscar-me ao rio e levou-me ao kraal, principiando logo, antes de mais conversa, a dar-me de comer. Ás onze horas ja eu tinha comido não sei quantas vêzes, e êlle veio annunciar-me que se estava fazendo um petisco. Tinha ali um òptimo cosinheiro Europêu. Não consentio que eu seguisse para Deica, sendo o seu argumento, que deveria passar o dia com elle, porque o devia passar.

Escrevi um bilhete a M^{r.} Coillard, a participar-lhe que estava de bôa saúde, e que chegaria a Deica no dia immediato.

O Inglez, logo que vio a minha resolução em ficar, mandou matar o seu melhor carneiro, e convidou-me a ir ver o seu quintal. Fomos, e elle começou a fazer barbaridades. Destruio um batatal nôvo, só para tirar umas seis batatas.

Apanhou quantos tomates, cebolas, e pimentos ali haviam.

Não pude impedir aquelle furor de destruição para me dar a comer de tudo quanto tinha, e até creio que tudo quanto tinha se eu me demorasse em sua casa. O quintal era magnìfico e muito bem tratado, mas n'aquella èpocha do anno pouco podia offerecer. Ainda assim o meu Inglez voltou triumphante com seis batatas, dezaseis tomates, alguns pimentos e muitas cebollinhas que foi entregar ao cozinheiro para o jantar. ¡Jantar!... Eu não sei que nome deverei dar áquella comida! Pelo nùmero devia ser muito mais do que ceia, pêla hora menos do que _lunch_!

Pude soster o furor do meu hospedeiro em dar-me de comer, e consegui ir com elle dar um passeio nos arredores do kraal.

Encontrámos no caminho cinco montìculos de pedras que marcam as sepulturas de cinco Europêos, adormecidos ali para sempre, e deitados ao lado uns dos outros á sombra do arvorêdo, n'essa mesma terra que lhes infiltrou no organismo, pêlo ar que deu a respirar, o veneno que lhes deveria cortar as existencias, com prematuro passamento.

¡Quantos tùmulos como aquelles não t[~e]m um logar incerto, no meio d'êsse continente enorme, e não escondem o segrêdo da sepultura de homens, que deixáram longe affeições e ternuras, que nem podem ter o amargo prazer de derramar uma làgrima sôbre a terra que occulta um ente estremecido!

Os cinco tùmulos de Patamatenga encerram os despojos de cinco homens cujos nômes vou citar, e se algum amigo ainda se lembrar d'elles, terá ao menos o conhecimento do canto da terra onde repousam para sempre.

O primeiro tùmulo encerra Jolly, môrto em 1875; o segundo Frank Cowley, o terceiro Robert Bairn, ambos mortos em 1875; o quarto Baldwin, e o quinto Walter Carre Lowe, mortos em 1876. Em Abril do anno de 1878, morreu tambem ali perto o Sueco Oswald Bagger, que está enterrado em Lexuma.

[Figura 126.--Os Tumulos em Patamatenga.]

Depois de visitar aquelle cemiterio improvisado no meio do sertão longìnquo, voltei ao kraal de Patamatenga, onde fui obrigado a comer vàrias ceias.

Na conversação com Gabriel Mayer, o meu hospedeiro, eu fugia de narrar qualquer episòdio passado da minha viagem em que figurasse a falta de vìveres, porque ao ouvir taes narrativas, o bom Inglez entrava em furor e mandava logo pôr a mêsa, mêsa que ja me mettia tanto mêdo como por vêzes me tinha mettido a fome.

No dia seguinte, depois de ter almoçado duas vêzes, antes das 7 horas da manhã, parti a essa hora, tendo de levar vàrios petiscos para o caminho, porque Gabriel Mayer não consentio que eu partisse sem essa condição.

Depois de cinco horas de marcha a leste, alcancei o acampamento de Deica, onde a familia Coillard me esperava, e onde fui recebido com as maiores demonstrações de simpathia.

D'aquelle lado não tinha chovido como em Mozi-oa-tunia, e ficámos em grande embaraço para partir, porque encontrariamos o deserto sêco, e impossivel nos seria atravessal-o antes de cahirem as chuvas necessarias para encher os charcos onde deverìamos encontrar a àgua precisa.

Nos dias 28 e 29 de Novembro, percebemos que haviam trovoadas muito ao longe ao Sul e S.S.E., e isso animou-nos a partir, esperando que ellas tivessem despejado alguma chuva no deserto.

No dia 28 improvisei, com anzóes que trazia, uns pequenos aparêlhos de pesca, e fui com as damas Coillard pescar a uma lagôa que nos ficava uns duzentos metros a oeste do campo. Conseguímos pescar muitos peixes miudos, e eu tive um verdadeiro prazer por ver o gôsto que gozavam aquellas senhoras n'um divertimento nôvo para ellas, quando sentiam a ligeira canna vergar ao pêso de um peixe que se estorcia na ponta da linha, prêso ao anzol que a sua imprudente voracidade lhe fizera morder.

No dia 30 resolvémos partir a 2 de Dezembro, ainda que corriamos o risco de não encontrar àgua logo nos primeiros dias de viagem, mas uma importante consideração nos levava a não differir a partida. Èramos quinze pessôas, e a provisão de mantimentos pequena. D'ali ao Bamanguato não poderìamos obter vìveres, e em Deica mêsmo nenhuns podìamos haver.

Era pois preciso caminhar sôbre Xoxom (_Shoshong_) o mais depressa possivel, para alcançar a cidade do rei Khama antes que viesse a fome.

Ficou por isso resolvido que partìssemos no dia dois, resolução que foi apoiada pêla chuva que cahio nos dias 30 do mez e 1 de Dezembro.

Antes de emprehender a narrativa d'essa aventurosa viagem atravez do deserto, preciso dizer duas palavras á cerca dos meus companheiros.

Que elles me perdôem pêlo que vou escrever, se a sua modestia for ferida pelas minhas palavras; mas é preciso que se saiba o nome e os feitos de alguns d'esses obscuros trabalhadores Africanos, que deixam a Europa e a vida civilizada, para irem longe da patria trabalhar tenazmente na grande obra da civilização do Continente Nêgro.

No paiz do Basuto, paiz que confina ao sul e leste com as colonias do Cabo e Natal, e ao norte e oeste com o estado livre de Orange, fôram, ha cincoenta annos, estabelecer-se alguns missionarios protestantes Francezes. Estes homens, cujo nùmero augmentava de anno para anno, conseguíram domar um pôvo bàrbaro de canibaes, e eleval-o a um estado de civilização e de instrucção a que ainda não chegou pôvo algum da Àfrica Austral.

Hôje as escolas Christãs do Basuto contam os discìpulos por milhares, e uma grande parte da população sendo Christã, abandonou a polygamia e os costumes bàrbaros dos seus antepassados.

Os missionarios acháram o campo ja pequeno para o seu nùmero, sentíram a necessidade de expansão, e fôram estabelecer os seus cathechistas para o norte do Transvaal junto ao Limpôpo.

Quizéram ir mais longe, e uma expedição foi organizada, tendo por chefe um joven missionario, com destino ao paiz do Baniais ou Machonas, situado entre o Matabele e as terras Natuas. Esta expedição foi infeliz. Entrando no Transvaal, soffreu insultos dos Boers, que a impossibilitáram de seguir ávante, chegando até a serem prêsos em Pretoria o missionario e seus homens de cathechese.