# Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

## Part 11

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Madame Coillard multiplicava-se em cuidados extremosos, e pêlo fim do jantar eu comecei a provar uma sensação estranha. Aquellas damas, o jantar, o serviço, o chá, o assucar, o pão, tudo enfim se me baralhava na mente com traços mal definidos. Cheguei a não poder formular uma só idéa, e a recear, que a cabêça enfraquecida não podesse supportar as impressões d'aquelle momento.

Não tenho a consciencia de ter terminado aquelle jantar, sei apenas que me achei só na barraca. Então um abalo violento sacudio tôdo o meu côrpo; um soluço tolheu-me o ar na garganta, e as làgrimas saltáram ardentes dos meus olhos desvairados, banhando-me as faces que queimavam de febre. Chorei e chorei muito, não me envergonho de o dizer, e creio que aquellas làgrimas fôram a minha salvação.

Se eu não tivesse chorado, teria talvez enlouquecido.

Que se riam aquelles que acharem ridìculas as làgrimas n'um homem; pouco me importa o seu motejar estòlido. Infeliz de quem não encontra nos sentimentos do coração o pranto que vem marejar nos olhos, e o soluço que estrangula a fala, mais verdadeiras provas da gratidão sentida, do que as frases mais eloquentes em protestos fervorosos.

Eu, por mim, não me envergonho de ter chorado, e feliz serei se podér ainda chorar em iguaes trances.

Quanto tempo estive n'aquelle estado de excitação não o sei eu; mas, muito tempo depois, entravam as damas na barraca e preparavam-me uma cama com cuidados extremos.

A apparição das duas carinhosas senhoras veio trazer nova perturbação ao meu espìrito. Eu não sabia que dizer-lhes, e creio que só lhes dizia disparates.

Foi mesmo sem consciencia do que fazia que eu lhes narrei um boato ouvido de manhã em Embarira, que apregoava ter havido um grande incendio no Quisseque, nas casas do chefe Carimuque, e terem sido ali prêsa das chamas as bagagens do missionario.

Deitei-me e creio que dormi.

Ao alvorecer da manhã seguinte, as scenas da vèspera desenhavam-se confusamente na minha imaginação enfraquecida.

Parecia-me sonho tudo o que se passava n'aquelle sertão longìnquo.

Levantei-me, e ao ver que era realidade o que me cercava, o meu espìrito volveu de nôvo a um deploravel estado de perturbação.

Machinalmente, sem a menor consciencia dos meus actos, por um poder filho do hàbito, dei corda e comparei os chronòmetros, fiz as observações meteorològicas, e registei tudo no meu diario.

Pouco depois, Mademoiselle Elisa, com a sua touca e avental branco, entrava risonha na barraca, e vinha cuidar dos aprestes da mêsa para o almôço.

Madame Coillard continuou envolvendo-me dos maiores desvelos.

Não posso ainda hôje explicar porque produziam em mim, espìrito forte, uma tal impressão aquellas damas; mas é certo que a sua apparição produzia-me logo uma especie de delirio.

Passáram dois dias que eu não sei como fôram passados; no fim d'elles succumbí. A febre apossou-se de mim com violencia assustadôra, e com ella veio o delirio. O meu estado era grave, mas dois anjos velavam á minha cabeceira.

A 30 de Outubro, o delirio deixou-me um momento de lucidez. Conheci que a vida estava apenas prêsa por um fio a um côrpo despedaçado pêlas fadigas e fomes da jornada, e pensei que não me levantaria mais.

N'esse dia entreguei a Madame Coillard os meus papéis, pedindo-lhe que os fizesse chegar com segurança ás mãos do Governo de Portugal.

O D^{or.} Bradshaw fizera-me repetidas visitas durante os dias antecedentes, e empregara tôda a sua sciencia mèdica para me salvar.

Contudo a febre não cedia, e o estòmago não supportava medicamento algum. Decidi eu mesmo tentar um ùltimo esfôrço, e comecei a dar repetidas injecções hypodèrmicas com fortes doses de quinino.

A 31 fiquei espantado de ainda estar vivo, e redobrei a dose do quinino pêla absorpção hypodèrmica. O D^{or.} Bradshaw aconselhou-me e fêz-me tomar uma forte dose de laudanum. A 1 de Novembro, começáram a manifestar-se as primeiras melhoras.

Nunca estive cercado de tão extremosos cuidados como ali.

As melhoras continuáram ràpidas no dia seguinte, em que ja me pude levantar um pouco. Pareceu-me perceber que não sobejavam muito os vìveres, e isso tirou-me um pouco o sono durante a noute. Na madrugada seguinte, quando ainda tudo dormia no campo, levantei-me cauto e fui chamar os meus prêtos.

Sahi com elles cambaleando ainda nas pernas debilitadas, e internei-me na floresta, sem que alguem desse fé da minha escàpula. Pêla tarde voltei com os meus homens curvados ao pêso da caça que tinha môrto. Madame Coillard estava afflicta, pensando que eu havia abandonado o campo para sempre, e fui recebido com a maternal censura de quem ralha em familia.

Como em todas as minhas doenças graves, não tive convalescença, e a minha forte organização fêz-me passar do estado valetudinario ao perfeito estado de saude, em transição ràpida.

Com a robustez do côrpo veio o socêgo do espìrito, e só então pude encarar reflectidamente a posição em que o destino me collocara. Pêla conversação repetida com Madame Coillard, pude perceber que não sobejavam recursos ao missionario. O meu marfim, bem pago, mas pago em fazendas a que os agentes da casa Westbeech and Phillips déram subido e exageradissimo valor, pouco produzio. Madame Coillard só via um meio de sahirmos do apuro em que estàvamos, e êsse era, o de nos não separarmos, por não ser possivel dividirem comigo os poucos recursos que tinham.

Contudo, esperàvamos a volta do missionario, do Quisseque, para tomar uma resolução definitiva.

A idéa de ficar com elles aterrava-me.

Havia ali uma formosa criança, que impressionava a cada momento a minha imaginação ardente de Portuguez.

¿Ser-me-hia possivel, n'um viver tão ìntimo, n'um isolamento tão grande, impedir que uma fala escapada n'um momento de loucura, um olhar vibrado n'um lampejo de delirio, fôssem offender a casta menina, descuidosa na sua innocencia càndida?

Tremia por mim e por ella.

Decidi, pois, fazer um estudo de mim mesmo até á volta do missionario, e calcular bem até que ponto eu seria capaz de ser honrado.

Passei três dias atribulados no estudo que fazia do meu espìrito. ¿Poderia eu namorar-me d'aquella meiga criança? De certo não; e a lembrança sempre viva de uma espôsa idolatrada, era segura garantia aos meus sentimentos.

Mas, se o coração estava defendido, não o estava a imaginação fèrvida, e podia, n'um momento de desvario, com uma phrase imprudente, cometter uma infamia--porque infamia seria fazer subir o pejo ao rôsto d'aquella em cuja casa eu tinha sido recebido com a intimidade de um filho.

Àlém d'isso, o meu devêr era ainda maior. Era preciso evitar a tôdo o custo, que a fama das proêsas que os meus de mim apregoavam; que a posição, um pouco romàntica, em que eu me achava entre aquella familia; não fôssem impressionar a novél imaginação dos desoito annos de uma mulhér.

¿Poderia eu sustentar durante mezes o papél de uma reserva absoluta, na grande intimidade da vida que ia levar?

Um dia pensei que era capaz de o fazer, e desde êsse dia tracei a minha conduta futura, de que não arredei um só passo.

Muitos mezes depois eu tinha sido comprehendido por uma mulhér, que soube ler no meu ìntimo com essa fina perspicacia que só ellas possuem para ler nos arcanos da alma os mais recònditos sentimentos; e não hesito em dizer, que fui comprehendido por Madame Coillard, porque, na vèspera da nossa separação, ella escreveu no meu diario um versìculo do Psalmo 37, que me revelou o seu pensamento.

Estava resolvido a ficar com elles, quando más novas chegáram do Quisseque.

M^{r.} Coillard confirmava, em uma longa carta escrita a sua espôsa, o boato do incendio a que ja me referi.

Tudo quanto elle tinha em casa do chefe Carimuque fôra prêsa das chamas, e isso vinha ainda complicar a situação, diminuindo o seu haver.

Àlém d'esta, outra noticia veio consternar mais a bondosa espôsa do missionario. Dizia elle que Eliazar, o homem que estava em Quisseque e de quem ja falei, fôra atacado de um accesso de febre de mao caracter, e estava em perigo.

Madame Coillard muito affeiçoada áquelle Catechista, que fôra outrora seu servidor, ficou desde êsse momento em cuidados extremos.

Dois dias depois, a 6 de Novembro, uma nova carta do missionario veio augmentar a tristeza que reinava no acampamento de _Leshuma_. Eliazar estava peior e receiava-se que não podesse salvar-se.

No dia 7, eu tinha ficado levantado até tarde da noute, por ter a fazer observações astronòmicas; ficando comigo as duas senhoras, em conversa cujo assumpto era o missionario e a doença de Eliazar.

Madame Coillard disse-me, que tinha um forte presentimento de que seu marido chegaria n'aquella noute. Propuz-lhe irmos ao seu encontro, e tendo sido aceite o alvitre pelas duas corajosas damas, pozémos-nos a caminho de Embarira.

A um kilòmetro do acampamento, eu que caminhava adiante d'ellas, preveni-as de que sentia rumor de gente na floresta; mas julgáram ser engano, porque ainda um kilòmetro àlém ninguem encontrámos. Contudo, eu sabia não me enganar, porque mais de uma vez um rumor mal definido e só perceptivel a ouvidos de sertanejo, tinha chegado até mim. Sem isso não teria animado aquellas damas a esperar n'uma floresta povoada de feras, e onde me sentia pouco á vontade pêla responsabilidade que tomava.

Pelas onze e meia, o rumor que por vêzes percebi tornou-se distincto para os meus ouvidos, e não duvidei affirmar que gente calçada caminhava no trilho que seguìamos. Pouco depois alguns vultos aparecêram na sombra, e o missionario, acompanhado de dois ou três prêtos, estava diante de nós.

Madame Coillard procurava em vão alguem junto de seu marido. Esse alguem faltava. Mais uma sepultura tinha sido cavada no alto Zambeze, mais uma lição estava dada aos imprudentes que se arriscam n'aquelle paiz da morte.

Voltámos tristes e silenciosos ao campo de Lexuma.

No dia immediato tive uma larga conversa com M^{r.} Coillard. O que eu previa ja era realidade. O missionario, falto de recursos, não me podia dar o sufficiente para eu fazer a viagem até ao Zumbo.

Discutímos largamente todos os alvitres, e a ùnica possibilidade de èxito era não nos separarmos e seguirmos juntos até ao Bamanguato, onde eu poderia obter meios de seguir avante. Elle tinha pressa de partir, porque àlém de não sêrem fartos os meios para uma espera qualquér, Lexuma era-lhes fatal. Duas sepulturas de dois dos seus mais fiéis servidôres tinham sido abertas ali.

Contudo, eu queria ir visitar a grande cataracta do Zambeze, e ficou combinado que elle me esperaria até ao regresso, o que importava uma demora de 12 a 15 dias.

Ficou decidido que eu partisse para Mozioatunia no dia 11, e Madame Coillard, com maternal sollicitude, começou logo a tratar dos meus aprestes de viagem.

No dia 10, uma forte tempestade cahio sobre nós, e sobreveio-me um accesso de febre. Verissimo tambem adoeceu com febre. Este estado de tempo e de doença continuou no dia 11, impedindo-me de realisar o projecto de seguir n'esse dia para as cataractas.

No dia 12 eu estava melhor, mas o Verissimo tinha peiorado, sendo necessario renunciar á partida ainda n'esse dia.

Então o missionario propoz-me seguirmos todos a 13 para o kraal de Guejuma, e d'ali seguir eu ao destino projectado.

Effectivamente, ás 10^{h.} e 20^{m.} da noute de 13, deixámos o campo de _Leshuma_. Era difficil o jornadear por entre a floresta com os pesados _wagons_. A cada passo um tronco de àrvore ou um penêdo travava as rodas, e era preciso cortar o tronco ou remover a pedra. O meu Augusto, usando da sua força athlètica, fazia verdadeiros prodìgios.

Só ás 6 horas da tarde do dia 15 podémos alcançar o kraal de Guejuma, tendo jornadeado noute e dia apenas com pequenos descanços, para os bois pastarem e nós repousarmos. Não ha àgua entre estes dous pontos, e ainda que tìnhamos uma escaça provisão para nós, os pobres bôis passáram três dias sem beber. Por isso, logo que chegámos a Guejuma, êlles faziam esforços inauditos para se libertarem dos jugos e correrem ás lagôas de pèssima agua, que abastecem aquelle kraal, estabelecido pêlos sertanejos Inglezes para repousar e têrem os gados, que não podem guardar em _Leshuma_ por haver ali a terrivel môsca zê-zê.

O nosso caminho fôi por uma planicie arenosa e hùmida, onde os _wagons_ se enterravam dando grande canceira aos bôis.

Apesar do mao estado da minha saúde, determinei seguir no dia immediato para as cataractas, e Madame Coillard não deixou um momento de se occupar das minhas provisões de viagem.

Não me foi possivel encontrar um guia, mas apesar d'isso, não vacillei um instante em partir.

CAPÌTULO II.

MOZIOATUNIA.

Viagem ás cataractas--Tempestades--A grande cataracta do Zambeze--Abusos dos Macalacas--Regresso--Patamatenga--M^{r.} Gabriel Mayer--Tùmulos de Europêos--Chêgo a Deica--A familia Coillard.

Logo na manhã do dia 16 fiz os meus preparativos de viagem, e bem pouco trabalho tive, porque Madame Coillard ja tinha preparado a parte mais importante d'elles, a dispensa; tendo eu mesmo de entrevir, para mostrar a impossibilidade de levar tudo o que ella queria que eu levasse, pois que não tinha como carregadores mais do que dois homens, Augusto e Camutombo.

Comigo deveria partir toda a minha gente que eu não quiz deixar em Guejuma, receioso de que algum fizesse disparte na minha ausencia. Ficáram apenas as minhas bagagens, a minha cabrinha Córa e o meu papagaio Calungo.

Para a Àfrica não serve muito o rifão Europêu que diz, "quem tem bôca vai a Roma;" mas sim outro se pode inventar para ali, e é elle, que "quem tem bùssola vai a toda a parte."

Monsieur e Madame Coillard estavam verdadeiramente afflictos por me verem partir sem guia e a pe. Mal sabiam elles quanto me era socia a floresta Africana e como eu sabia andar n'ella.

Outro motivo de afflicção para elles era, a dùvida em que estavam de que me não viesse a faltar àgua no caminho, por eu não ter meio de conduzir nenhuma, e ser o paiz em extremo sêco. Tranquillisei-os como pude, assegurando-lhes, que não contava morrer de sêde.

Como eu devêsse demorar-me de 12 a 15 dias n'aquella excursão, ficou combinado, que elles partiriam para o kraal de Deica, onde eu deveria ir encontral-os.

Finalmente, depois de mil demonstrações da mais afectuosa amizade, parti ás 10 horas, sendo acompanhado durante um kilòmetro por M^{r.} e Madame Coillard, que então se despedíram de mim, e voltáram ao kraal.

Segui sempre ao Norte na planicie, e uma hora depois encontrei uma emmaranhada floresta, em que me embrenhei, para não alterar o meu rumo. Depois de caminhar por quarenta minutos na mata, deparei com uma pequena lagôa de àgua cristalina, e parei junto d'ella para deixar passar as horas de maior calor. A esse tempo uma trovoada longinqua fuzilava ao norte, deixando mal ouvir o rebombar dos trovões.

Deixei aquelle ponto ás 2 horas, a tempo que se formavam em tôdas as direcções trovoadas ameaçadoras. Ás 4 horas, encontrei um trilho de caça muito seguido de frêsco, e indo por elle á descoberta, fui dar a um grande charco lodôso, habitual bebedouro de feras. Acampei ali, e tratámos de construir abrigos contra a chuva que ameaçava cahir em abundancia.

Os pedòmetros annunciavam a marcha de nove milhas geogràphicas.

Na manhã seguinte, parti ás 6 horas, e sustentei marcha de 4 horas, interrompida apenas por uma pequena demora, proveniente de um forte chuveiro que cahio pelas sete horas e meia. Parei para comer junto de uma lagôa que dá nascensa a um riacho correndo a E.S.E.

Ao meio-dia, segui a N.N.E., mas tive que sustar a marcha ás 3 horas, porque os meus ja não podiam dar um passo, tendo os pés despedaçados, pêla pedra miúda e sôlta que encontràvamos desde a 1 hora, no terreno ja bastante accidentado.

Eu mêsmo, doente e fraco, ja não podia soportar as grandes marchas que antes fazia.

Durante a ùltima parte da marcha atravessei três pequenos riachos, que correm a S.E. em leitos basàlticos.

As montanhas pedregosas, mas cobertas de vegetação arbòrea, correm tambem a S.E., e não apresentam elevações, acima dos valles, maiores do que 50 metros.

Acampei junto a um pequeno depòsito de àguas pluviaes.

Na manhã seguinte continuei a jornada, sempre em terreno pedregôso e accidentado. Atravessei florestas muito espêssas, mas onde se não encontram os gigantes vegetaes peculiares á flora intertropical.

Ainda n'essa manhã passei dois còrregos correndo a S.E.

Desde a vèspera caminhava eu em terreno de formação vulcànica. Passou por ali uma revolução enorme, que deixou profundamente assignalada a sua passagem com traços indeleveis, em gigantêscas obras de basalto.

No leito dos ribeiros e na escarpa das montanhas, o sol dardejando os seus raios sôbre a pedra côr de fôgo, faz parecer, que ainda ali correm ondas de lava.

Eu achava-me em bôa saúde, mas os meus difficilmente podiam caminhar descalços, por sôbre a pedra cortante. Fiz apenas marcha de quatro horas, e fui acampar junto de um ribeiro; tratando logo de construir abrigos para nos acolhermos de uma tempestade imminente.

O sitio do meu acampamento era lindissimo. Um ribeiro d'àgua cristalina correndo ao N., ficàva-me por oeste. Um còmoro coberto de frondoso arvorêdo embelezava a leste a paizagem.

No limitado valle, àrvores enormes de muito differentes proporções das que até ali encontrara, cobriam o meu campo formado de quatro pequenas barracas.

Do norte, muito ao longe, o vento trazia um ruido semelhante ao ribombo de mil longinquos trovões. Era Mozioatunia no seu bramir eterno.

Sahi a caçar e encontrei profusão de francolins, de que fiz bôa provisão.

Matei tambem uma lebre, muito differente das da Europa nas côres do pello, menor em tamanho, mas igual em fórmas. Tornàva-se muito distincta, por ter o dôrso e as orêlhas quasi prêtas, e o ventre e cabêça de um amarello d'óchre muito carregado, e pintado de manchas nêgras.

De volta da caça, observei no meu campo um caso muito singular.

Vi milhares de termites trabalhando ao ar livre, e sem o menor cuidado de cobrirem o seu caminho, ja nas àrvores ja na terra. Passei uma òptima noute, depois de um bom jantar de perdizes.

No dia immediato, logo á sahida, passei um pequeno ribeiro que corre a N.O., e depois de se juntar áquelle em cuja margem acampei, corre como elle ao N. Segui sempre o curso d'esse ribeiro n'um valle pedregoso e àrido, e depois de três horas de marcha parei, para descançar e comer o resto das perdizes mortas na vèspera. Segui ao meio-dia, mas, uma hora depois, tive de parar.

Muitas trovoadas, que desde manhã fusilavam perto do horizonte em todas as direcções, subíram aos ares e viéram estacionar sôbre mim. Uma chuva torrencial cahia, ou antes batia, sobre nós, tocada por um vento rijo de N.N.E. Os nimbus espêssos e nêgros, pairavam perto da terra e despediam das suas entranhas carregadas de electricidade, torrentes d'àgua e torrentes de fôgo.

[Mappa de Mozioatunia]

Como eu disse, o sitio em que caminhava era um valle profundo despovoado de àrvores. Montìculos de rocha terminados por vèrtices ponteagudos, atrahiam o raio que os abrasava com o seu fôgo potente. Uma faísca veio esmigalhar um penêdo a pouca distancia de mim.

Era um espectàculo tremendo e horroroso. Vi ali pêla primeira vez o raio dividir-se. Uma faízca separou-se pròxima da terra em cinco, que partíram quasi horizontalmente a ferir cinco pontos differentes; algumas vi separarem-se em quatro, em duas, e três, quasi tôdas.

Ziguezagues de fôgo cruzavam os ares em todas as direcções, e abrasavam a atmosphera. É preciso ter-se assistido a uma trovoada nos sertões da Àfrica Austral, para bem se fazer idéa do que seja uma tempestade medonha.

A minha gente prostrada por terra, horrorizada e escorrendo em àgua, estava tranzida de frio e mêdo. Eu gracejava com elles e procurava animal-os, mostrando uma tranquillidade que estava mui longe de ser verdadeira.

Uma hora depois a tormenta, como que fatigada do seu pelejar insano, foi diminuindo de intensidade, e eu pude pôr-me a caminho ás 2 horas e meia.

Ás três horas tive de parar, obrigado por uma forte chuva que não se demorou muito em passar.

Pelas 5 horas passava em frente da grande cataracta e acampava a montante d'ella, aproveitando umas barracas que ali encontrei e reconstruí.

Durante a noute uma nova tormenta cahio sôbre o meu campo, e muitas àrvores fôram derrubadas pêlo raio. A chuva torrencial inundou as barracas, apagou os fogos e molhou tudo e a todos. Durou esta tempestade até ás 4 horas da manhã, hora a que cessou quasi de repente.

Foi aquella uma noute cruél. Ali ja ao estampido dos trovões se juntava o bramir da cataracta, e era qual produziria sons mais roucos e medonhos.

O dia amanheceu chuvoso, e até ás 9 horas foi impossivel sahir das barracas.

A essa hora rasgou-se o ceo nublado, e o sol veio illuminar a esplèndida paizagem. Contudo era difficil caminhar n'um terreno encharcadissimo e lodôso.

Uma forte apprehensão me perturbava o espìrito. A chuva da noute estragava o pão e mais provisões dadas por Madame Coillard. Os mantimentos chegariam ainda para dois dias, mas não podiam ir mais àlém. Eu tinha contado com dois recursos, a caça e os Macalacas da outra margem, que me venderiam massango.

Era porem impossivel caçar por tal tempo, e os Macalacas que passáram o rio pediam taes exorbitancias por pequenos pratos de massango, que me não era dado adquiril-os.

Ao meio-dia cheguei á extremidade oeste da grande cataracta. O Zambeze duas milhas a montante da queda corre a E.N.E., e vai encurvando a E., direcção que leva no momento de encontrar o abismo em que se precipita.

¿_Mozi-oa-tunia_, ou _Mezi-oa-tuna_? Não sei, e ninguem o sabe. No paiz uns dizem um nome, outros o outro.

Antes que os Macololos tivessem invadido o paiz ao norte do Zambeze, os Macalacas chamavam _Chongue_ á grande cataracta.

Viéram os Macololos e pozéram-lhe um nome da lìngua Sesuto que elles falavam.

Os Macololos desapparecêram e o nome ficou, como ficou aos povos conquistados a lìngua dos invasores.

Um pouco corrompido, é verdade, mas sempre subsistindo, o Sesuto é a lìngua official do Alto Zambeze.

_Mezi-oa-tuna_ quer dizer em Sesuto "a àgua enorme," e ainda que a phrase parêça um pouco disparatada, esta composição é vulgar entre as linguas bàrbaras da Àfrica Austral, para exprimir uma idéa, que a pobrêza das lìnguas só poderia exprimir por uma longa phrase. Assim pois, pode bem ser que seja _Mezi-oa-tuna_, o nome posto pelos Macololos á grande cataracta.

[Figura 123.--Mozioatunia. A queda de oeste.]

Eu contudo inclino-me á opinião de Madame Coillard, que conhece a fundo a lìngua Sesuto, de que seja _Mozi-oa-tunia_, o nome dado outróra pelos guerreiros de Chebitano á maravilha do Zambeze.

Effectivamente, _Mezi-oa-tuna_ era uma phrase nova, uma composição de palavras feita expressamente, ao passo que _Mozi-oa-tunia_ é uma phrase ja feita, quotidiana, vulgar na lìngua dos Basutos. Quando o marido volta a casa e pergunta á mulhér se a comida está ao fôgo, ella responde-lhe "mozi-oa-tunia," "o fumo se levanta." Assim pois é mais de supor que fôsse este ùltimo o nome dado pelos estrangeiros á cataracta, por ser phrase vulgar entre elles, e ser bem apropriada á idéa.

Mozi-oa-tunia não é mais do que uma longa cova, um sulco gigantêsco, aquillo para que se inventou a palavra abismo, mas abismo profundo e immenso, onde Zambeze se precipita n'uma extensão de mil e oitocentos metros.

O corte das rochas basàlticas que formam o paredão norte do abismo, é perfeitamente traçado na direcção E.O., e tem uma extensão de mil e oitocentos metros.

Parallelo a elle, outro enorme paredão basàltico distanciado na parte superior, ao mesmo nivel, de cem metros, forma o outro muro do abismo. Os pes d'estas moles enormes de basalto nêgro, formam um canal por onde o rio corre depois de se despenhar, canal que é de certo muito mais estreito do que a abertura superior, mas cuja largura é impossivel medir.

