Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo
Part 7
Elles parecêram convencer-se com o meu argumento. Passei uma noute horrivel no caniçal da ilha. Eram cobras que perseguiam ratos, e ratos a fugir de cobras, os companheiros que tive em tôrno de mim. A febre augmentou. Carimuque veio ver-me na manhã de 16, e trouxe-me um presente de massamballa e uma pequena porção de farinha de mandioca.
Declarou-me elle, que os marinheiros se recusavam a seguir sem serem pagos, e que por isso mandasse eu recado ao missionario para elle me mandar as fazendas, e esperasse ali os enviados.
Recusei terminantemente fazel-o, e declarei-lhe, que lhes não pagava se elles não seguissem no dia immediato. Depois de grandes debates, em que fiz prova de enorme paciencia, e em que Eliazar pleiteava por mim, repetindo cem vêzes, que seu amo, logo que me visse, pagaria tudo o que elles quizessem, ficou resolvido que no dia 17 nos porìamos de nôvo em viagem.
N'esse dia chegáram ali os enviados que Carimuque mandara ao Lui com a mensagem do missionario.
Como se sabe, e eu ja narrei no comêço d'este capìtulo, Matagja opposera-se formalmente ao ingresso do missionario no paiz do Lui. A resposta do rei Lobossi, dada por Gambela, vinha cheia de hypocrisia, e não era uma negativa formal.
Mandavam dizer-lhe, que muito estimariam que elle fôsse para ali; mas que, n'aquelle momento, as guerras e a falta de commodidade que poderiam offerecer-lhe em Lialui, cidade novamente construida, fazia com que elles lhe pedissem, que se fôsse embora, e voltasse no anno seguinte. Para Carimuque vinha uma ordem positiva para não lhe dar meios de elle seguir para o Norte. Eliazar, que ficou muito triste com a mensagem do rei Lobossi, continuou fazendo-me companhia, e falando-me sempre de seu amo a quem tecia verdadeiros panegyricos.
Nesse dia, ás 4 horas da tarde, desencadeou sôbre nós uma horrivel trovoada, que despejou copiosa chuva até ás 6 horas. Carimuque veio ver-me de nôvo, e trouxe-me duas gallinhas.
Parti ás 9 horas do dia 17, e depois de navegar por duas horas e meia, encontrei a foz do rio Machila. Naveguei a E.S.E.
O rio Machila tem ali quarenta metros de largo por seis de fundo, mas de certo influe n'esta altura a àgua do Zambeze que o represa.
Corre em uma planicie enorme, onde pastam milhares de bùfalos, zêbras e grande variedade de antìlopes. Vi ali muitos coroanes, e presenciei um effeito de miragem sorprendente, apresentando-me tôda aquella manada heterogènea, de patas para o ar.
Nunca vi tanta caça junta como ali, é ella muito esquiva, e não deixa approximar a menos de duzentos metros.
Pude matar uma zêbra, que nos forneceu òptima carne, muito melhor do que a de qualquér antìlope. Depois de duas horas de demora ali, segui viagem, e naveguei por duas horas e meia mais, parando, ás 5 da tarde, por vermos na margem uma àrvore velha trazida pêla corrente, onde fomos fazer provisão de lenha para a noute. Foi um verdadeiro beneficio aquella àrvore, sem a qual não teriamos lenha para cozinhar em campinas despidas de arvorêdo.
Quando ìamos a seguir, appareceu um prêto, gritando que os outros barcos tinham amarrado muito acima e acampado ali a gente. Tivémos que voltar a traz, por não termos provisões no meu barco, e ir a carne na barco da carga.
Só ás 6 e 30 minutos, ja noute, juntei a minha gente, e acampei com elles.
N'essa occasião ja iam tôdos embarcados, porque Carimuque tinha pôsto dois barcos grandes á minha disposição, e n'elles eu havia accommodado Augusto, as mulheres, os pequenos e a minha cabrinha.
Calungo, o papagaio, esse viajou sempre comigo.
Carimuque tinha-me feito um presente valioso, n'uma porção de farinha de mandioca, o melhor alimento que ali podia ter, para mim tão doente e tão debilitado.
N'essa noute quiz comer uma pouca de farinha, e fui encontrar o saquinho que a continha completamente vazio.
Entrando em averiguações do caso, sube que fôra o meu muleque Catraio que a furtara e comêra.
N'essa noute, um drama terrivel passou-se junto do meu campo, no meio das trevas.
Foi o combate cruento entre um bùfalo e um leão, que terminou pêla morte d'aquelle em arrancos de agonia, ao passo que o seu vencedor dava prolongados rugidos, acompanhados por um côro de hyenas. De manhã, a 100 metros do acampamento, fomos encontrar os despojos do bùfalo, cuja cabêça estava intacta, e do qual existiam apenas ossos e farrapos de carne deixados pêlas hyenas.
Segui viagem, e depois de cinco horas de navegação, entre ilhas divididas por canalêtes, formando um systema complicado, aportei sôbre um ràpido desnivelado de um metro, primeiro elo da cadea de cachoeiras que vai terminar pêla grande cataracta de Mozi-oa-tunia.
Com o basalto reapparece a floresta lindissima, onde, entre outras àrvores, sôbressahem já os baobabs, esses gigantes da flora Africana, que eu não via desde Quillengues.
Desembarquei, e fui deitar-me á sombra de um d'esses colossos vegetaes.
Tinha terminado a minha navegação no alto Zambeze, e d'ali até encontrar o missionario o meu caminhar era de nôvo a pé.
A povoação de Embarira distava seis milhas do ponto onde eu estava, e para lá partíram os marinheiros com as cargas.
Eu adormeci, e só acordei por noute escura. Só o Verissimo, Camutombo e Pépéca estavam junto de mim. Perguntei-lhes ¿porque estàvamos ainda ali? respondendo-me o Verissimo, que não tinha querido interromper o meu sono. Apesar do escuro da noute, ia pôr-me a caminho, quando reparei que não tìnhamos uma só arma. O Verissimo, que de vez em quando fazia asneira, deixara levar as minhas armas para Embarira. Não fiquei socegado, vendo-me sem armas no meio de uma floresta infestada de feras. Mandei-os logo juntar lenha para fazer uma fogueira, mas ás escuras elles nenhuma encontravam que servisse.
Pépéca lembrou-se então de ter visto perto de nós um barco velho, que effectivamente encontrámos, mas a dura madeira do Mucusse resistia ao corte da minha faca de mato.
Lembrei-me de o jogar como arìete contra o tronco do baobab, e logo nós três dando-lhe o movimento de vai-vem, o lançámos com a màxima fôrça. A canôa fez-se em rachas na parte que soffreu o choque. Esta operação, repetida algumas vêzes, forneceu lenha e com ella uma bôa fogueira.
Estàvamos dispondo-nos a dormir ali, quando sentímos gente, e logo appareceu o Augusto com alguns homens, que vinham procurar-me.
Parti com elles, e cheguei a Embarira pêla meia noute. O chefe da povoação tinha-me preparado uma casa, onde me recolhi cheio de febre e fadiga.
Estava em Embarira, na margem esquêrda do rio Cuando, cujas nascentes havia descoberto e determinado três mezes antes.
Estava pròximo a alcançar o missionario, de quem esperava auxilio para poder continuar a minha viagem, e estava em vèspera de novas aventuras, que não calculava ainda.
O estado da minha saude muito melindroso, a dùvida no futuro, as apprehensões do presente, e milhares de persovejos, que tinha a casa onde me recolhi, fizéram-me passar uma noute atribulada.
Depois, uma outra idéa, não me sahia da mente. Ao chegar ali, sube, que um branco (Macua), que não era nem missionario nem commerciante, estava acampado de fronte de mim, na outra margem do Cuando.
¿Quem seria o meu companheiro n'aquellas remotas paragens?
Ardia em curiosidade, e contava os instantes para o alvorecer do dia seguinte.
CAPÌTULO SUPPLEMENTAR.
A pàginas 184, em capìtulo anàlogo a este, tratei por modo succinto, dos paizes comprehendidos no meu caminho entre a costa de Oeste e o Bihé.
N'este capìtulo buscarei epitomar o que nos meus trabalhos escolhi de mais interessante, relativo ao vasto territorio que medea do Bihé ao curso superior do rio Zambeze, até onde termina a narrativa da minha viagem na pàgina antecedente.
Apresentando um resumo das minhas determinações astronòmicas, dos meus estudos meteorològicos, etc., sem pedantismo o faço, e creio apenas, n'isso cumprir um dever, tornando pùblicos um certo nùmero de estudos e trabalhos de que fui encarregado, e que, se não interessam a alguns leitores, podem merecer attenção de outros.
Sem querer alcunhar-me de sabio, declarar-me ignaro seria affectação.
Àlém da carta geral d'Àfrica tropical do sul, quiz eu apresentar algumas cartas parciaes dos paizes que mais merecéram a minha attenção no caminho que segui, por poder dar a estas um desenvolvimento de detalhes que a pequena escala d'aquella não comportaria.
Vou tratar d'esse enorme tracto de territorio, debaixo do ponto de vista geogràphico, com tanto mais interesse, quanto elle é desconhecido aos geògraphos; que nas suas cartas o t[~e]m preenchido até hoje com linhas mal seguras, traçadas pela mão trèmula da dùvida, colhida nas informações pouco idòneas e contradictorias de gente ignara.
Um Europeo, Silva Porto, atravessou aquella parte da planura Africana, antes de mim, e em grande parte muito mais ao sul do caminho que segui; mas Silva Porto nunca publicou as suas interessantissimas notas, que agora anda pondo em ordem; e é preciso dizer, que, se essas notas dam um valioso subsidio ao estudo da ethnographia Africana, pelo muito que a sua vista observadora perscrutou dos costumes e do viver dos nêgros, dam ellas um fraco auxilio ás sciencias geogràphicas, em que elle, por falta de elementos, não pôde fazer um trabalho sério.
Sam paizes completamente novos á geographia aquelles que apresentei nos antecedentes capìtulos, e de que vou tratar n'este.
As coordenadas geogràphicas dos principaes pontos do meu itinerario fôram calculadas dos elementos que adiante publíco.
Começarei por descrever o systema fluvial d'esta parte da planura Africana.
As ùltimas àguas que correm á costa de Oeste nascem em tôrno do Bihé, dentro de um V enorme formado por dois rios, o Cubango e o Cúito, que, depois de se unirem em Darico, vam correr a S.E. no Deserto do Calaari.
O systema fluvial da Costa Oeste, entre a foz do Cuanza e a do Cunene, termina quasi ali; recebendo ainda o Cuanza alguns affluentes de Leste, que vam buscar as suas àguas ao meridiano 18 E. Greenw.; taes sam: o rio Onda, que ainda nasce dentro do àngulo formado pelo Cubango e Cúito, e o Cuiba e o Cuime, que entrelaçam as suas nascentes com as do Cúito e as de outro rio, o Lungo-é-ungo, que pelo Zambeze vai lançar no mar Indico àguas bebidas nos charcos de Cangala, por 18 de longitude; e que percorrem a enorme distancia de mil quatrocentas e quarenta milhas, para atingirem a meta que a natureza lhes marcou. A latitude destas nascentes, que, em amigavel convivio, partilham as suas àguas para pontos da terra tão distantes, é pròximamente de 12° e 30', isto é, está n'essa faxa, comprehendida entre os parallelos 11 e 13, onde nascem os dois rios gigantes da Àfrica Austral, o Zaire e o Zambeze, e seus principaes affluentes.
Entre o Equador e o parallelo 20 austral, esses dois rios formam dois systemas d'àguas perfeitamente definidos, mas que t[~e]m um traço commum de união no parallelo 12 e na faxa que borda esse parallelo 60 milhas ao Sul e ao Norte, entrelaçando ali as suas origens muitos dos grandes affluentes dos dois colossos, e formando de per-si cada um d'elles um systema d'àguas que vai engrossar as duas artérias principaes.
Assim pois, entre os meridianos 18 e 35 a leste de Greenwich, e os parallelos 8 e 15 austraes, tôda a àgua que corre ao Norte vai entrar no Atlàntico por 6°, 8', com o nome de Zaire; tôda a que corre ao sul entra no Oceano Indico por 18°, 50', com o nome de Zambeze.
Caminhando a E.S.E. afastava-me da bem pronunciada linha divisoria das àguas dos dois grandes rios, e ao passo que os meus ex-companheiros se entregavam ao estudo de um d'esses systemas d'àguas filial do Zaire, eu seguia passo a passo outro filial do Zambeze; e á medida que avançava no interior do continente, esse systema ia-se apresentando firmemente definido e claro.
Os paizes de que falei nos anteriores capìtulos, os mesmos de que estou tratando aqui, sam a sede de um systema fluvial, que forma um dos principaes, se não o principal, affluentes do Zambeze.
O rio Cuando, artèria principal d'este systema, nasce, por 18°, 57' de longitude, 12°, 59' latitude, n'um pequeno charco apaülado, superior ao nivel do mar em 1362 metros.
A sua foz, na confluencia com o Zambeze, está collocada em 17°, 49' de latitude, 25°, 23' de longitude, na altura de 940 metros do nivel do mar. A extensão do seu curso é de 540 milhas geogràphicas, ou pròximamente mil kilòmetros. O seu desnivelamento da nascente á foz é de 422 metros, ou de um metro em cada 2369 metros de curso.
Os affluentes do rio Cuando, pela maior parte navegaveis, representam uma extensão de vias fluviaes não inferior a mil milhas geogràphicas, ou pròximamente mil e oitocentos kilòmetros, que com o curso d'aquelle rio perfaz um total superior a 1600 milhas, ou perto de tres mil kilòmetros. Estes algarismos enormes representam a importancia d'aquella parte do planalto Africano.
Forçando a minha marcha, entre mil difficuldades, pude seguir a linha das nascentes do grande rio e seus principaes affluentes, que ficáram perfeitamente determinados nos seus cursos superiores.
Aos traçados hypothèticos, a que a maior parte dos geògraphos preferiam deixar na carta d'aquella parte d'Africa um branco enorme, pude substituir um traçado firme e seguro do paiz ignoto.
O rio Queimbo, o Cubanguí, o Cuchibi e o Chicului, sam todos rios navegaveis, banhando fèrteis paizes e promettendo um futuro áquella parte do continente nêgro, livre do zê-zê, a môsca terrivel, que corta cerce o porvir de muitos outros terrenos Africanos.
Agora, que em breves traços apresentei o grande e principal systema d'aguas das terras comprehendidas entre o Bihé e o Zambeze, vou succintamente falar da sua orographia.
Para isso preciso antes dizer duas palavras da constituição geològica do solo, que facilmente explica os pequenos accidentes d'elle.
O solo Africano Austral é rocha das èpochas primitivas. Se junto ás costas, nos terrenos baixos observamos os depòsitos sedimentares, e o trabalho da àgua, elles acabam ali, para não deixar perceber mais do que a acção do fôgo.
Os calcàreos terminam nas escarpas oeste das montanhas que formam os primeiros degraos do planalto. Succede-lhes immediatamente o terreno plutònico, e encontramos até ao Bihé o granito primitivo, profusamente distribuido. Do Bihé para leste o granito vai desapparecendo, e àlém Cuanza é substituido pelos xistos argilosos, e micaxistos.
É sempre o terreno eruptivo, mas debaixo da acção do metamorphismo. Effectivamente, do Cuanza ao Zambeze o solo é metamòrphico.
Sam xistos e micaxistos, tornados de tal modo plàsticos, pela acção das grandes àguas, que do Bihé ao Zambeze, se algum viajante tencionar um dia ali atirar alguma pedrada, eu recommendo-lhe, que leve pedras do Bihé e d'onde termina a região granìtica, porque em todo o caminho que segui não encontra uma só.
A natureza do terreno explica por si mesma o seu pouco accidentado, e a falta de cataractas e ràpidos nos rios d'esta região Africana. Em tôdo o caminho que segui ha uma depressão constante no terreno até ao leito do Zambeze, formando uma inclinação suave. Esta depressão é de 292 metros, em 720 kilòmetros, que medeiam da margem do rio Cuanza á planicie do Nhengo.
A orographia d'aquella região é produzida pela acção da àgua, e perfeitamente marcada pelas depressões dos leitos dos rios.
30 a 40 metros acima do nivel das àguas correntes, se elevam systemas de montes de cumiadas arredondadas e uniformes, acompanhando sempre sem excepção o curso das àguas.
A flora que se nos apresenta no Bihé, e onde a planura attinge a sua maior elevação, mais pobre em àrvores, mas riquissima em arbustos e plantas herbàceas; na parte leste do paiz do Bihé, e sobre tudo àlém-Cuanza, já recupera, com a menor elevação do solo, tôda a sua riqueza tropical.
A caça, que escaceia desde o paiz do Huambo até pròximo da nascente do Cuando, reapparece abundante d'ali até ao Alto Zambeze. Seis raças perfeitamente distinctas, e que os sertanejos da costa confundem debaixo do nome genèrico de Ganguelas, assentam as suas povoações do Cuanza ao Nhengo.
O paiz a leste do Cuanza, na parte que é cortado pelos rios, Cuime, Onda e Varea, e seus pequenos affluentes, é habitado pelos Quimbandes.
Do Cuito á nascente do Cuando, assentam as suas povoações os Luchazes. Os affluentes de E. do Cuando, este mesmo rio, sam povoados de gentes de raça Ambuela.
Como disse na minha narrativa, o paiz dos Luchazes está sendo invadido por uma emigração enorme de Quiôcos ou Quibôcos, que tendem a estabelecer-se nas margens do rio Cuito. Entre este rio e o Cuando e muito para o sul, o paiz, sem povoações fixas, é com tudo occupado por uma grande população nòmada, os Mucassequeres.
A margem sul do rio Lungo-é-ungo e seus pequenos affluentes, sam habitados por os Lobares. Tres d'estas raças, os Quimbandes, Luchazes e Ambuelas, falam a mesma lìngua, o Ganguela, com pequenas modificações.
Os Quiôcos e Lobares falam dialectos differentes, e os Mucassequeres uma lìngua original, tão diversa das outras, que é impossivel serem comprehendidos de povos estranhos.
Os Quimbandes sam indolentes e pouco guerreiros, pouco agricultores e pobres em gados, occupando um paiz fertilissimo, em todas as condições de dar a riqueza aos seus possuidores.
Formando federação, não deixam de andar em questões continuadas com os vizinhos da mesma raça.
Não sam bravos, mas sam ladrões, e atacam sempre as comitivas do Bihé que vam negociar cêra mais ao interior, logo que essas comitivas sam fracas e elles conhecem que podem vencer.
É certo, logo que desfila uma comitiva no paiz, estarem elles embuscados a contar as espingardas que traz, e o nùmero de caixas de pòlvora, que se distinguem pelo seu invòlucro de pelle de leopardo, costume adoptado pelos sertanejos Bihenos.
Se alguem entrar no paiz dos Quimbandes com 50 espingardas e seis ou oito caixas de cartuxos, pode dormir descançado, que só terá d'elles amizade e respeito.
Os Luchazes, um pouco mais agricultores do que os Quimbandes, não possuem já rebanhos bovinos, e apenas ha aqui e àlém algum gado caprino de inferior especie.
Já cuidam de colher cêra, e sam um pouco mais industriosos do que os seus vizinhos de oeste.
Em quanto a valor e honestidade, orçam pelo mesmo. Constituidos em federação como aquelles, cada povoação tem um chefe independente, um pequeno senhor, que não se dá ares de tyranno com o seu pôvo.
Os Ambuelas, de muito melhor ìndole, não sam nada guerreiros. Sam talvez a melhor gente indìgena d'Àfrica Austral.
Grandes cultivadores, não trabalham menos na colheita da cêra. Sam pobres, podendo ser riquissimos se tivessem gados.
Formam federação como os outros, mas os chefes conservam um pouco mais de independencia.
Em geral, vi n'Àfrica, que mais felizes e livres sam os povos governados por pequenos senhores. Não se praticam ali as scenas de horror tão vulgares nos grandes imperios regidos por autòcratas.
Se o roubo é vulgar, é desconhecido ali o assassinio, ao passo que entre os grandes potentados o roubo vem depois do homicidio.
Sem pertenções a propheta, quero crer, que, um dia, será entre aquelles povos que se estabelecerám os mais seguros elementos de civilisação Europea n'Àfrica.
É minha opinião, que nos paizes occupados pelas confederações Africanas, regidos por pequenos règulos, de ìndole menos guerreira, por se reconhecerem mais fracos, é que deve entrar a civilisação com mão forte, debaixo da forma do commercio, do missionario e do explorador.
Divirjo, por tanto, da opinião do mais ousado dos exploradores, do mais enèrgico trabalhador Africano, do mais dedicado apòstolo da civilisação do continente nêgro, do meu amigo H. M. Stanley.
Diz elle, que devem os missionarios atacar a Àfrica pelos grandes potentados.
Não penso assim, e o estudo dos factos demonstra-me o contrario.
O Matebelle desde 25 annos que possue missionarios Inglezes, e não ha ali um só Christão! Se o chefe é catechizado, o seu pôvo obedece e finge seguir a lei de Christo.
É como a estàtua de Nabuchodonosor, tem pes de barro aquella civilisação.
Môrra o chefe, venha outro que não queira trocar o harém onde ceva a brutal lascivia, pelo thàlamo nupcial onde uma só espôsa lhe acompanhe os passos na carreira da vida, e cahio o monumento, a civilisação desfez-se, e não ha àmanhã um só christão na igreja que hoje regorgitava de pôvo.
O commercio é bem recebido pelo grande potentado, porque representa interesses immediatos materiaes de que elle colhe o fruto.
No Matebelle, onde os missionarios Inglezes não t[~e]m podido fazer escutar a doutrina de Christo, os negociantes Inglezes t[~e]m introduzido com o vestuario e com outras necessidades que t[~e]m sabido crear, uma civilisação relativa.
Podem apontar-me o exemplo do Bamanguato, mas eu respondo com o que já disse. Môrra o rei Khama, e vá ao poder um sova que não queira ser Christão, e tôdos os cathequizados se esvaïrám como fumo. Os negociantes continuarám o seu tràfico, mas o missionario terá de repetir com elle as orações do Domingo, ás pessôas de familia que o rodeam.
Digo-o sem receio de errar.
No Transvaal, entre pequenos règulos, vemos muitos indìgenas que seguem a lei do Evangelho. No Basuto ha Christãos convictos, independente da influencia d'alguns chefes que o não sam.
Se os exemplos sam estes, aquelles que vêem no missionario o primeiro mensageiro da civilisação Africana, que ataquem os pontos fracos do reducto, e não vam perecer ingloriamente onde o cruzamento dos fogos é mais activo.
Eu sou apologista do missionario, merecem-me a maior consideração não só as missões, em si mesmo, mas os seus membros espalhados no meio dos povos bàrbaros do continente nêgro. Tenho visto em quasi todos os que conhêço a tendencia para seguirem um caminho differente d'aquelle que aponto.
Tôdos querem um grande nùmero de adeptos para a catechese, sem olharem ao terreno em que semeam.
Uma vez que incidentalmente falei dos missionarios Africanos, vou ràpidamente dizer duas palavras mais sôbre o assumpto, que me proponho a ratar um dia largamente em obra adequada.
Eu francamente não creio o cèrebro do prêto á altura de comprehender um certo nùmero de questões, comezinhas entre povos de raças evidentemente superiores.
As questões abstractas sam sublimes e incomprehensiveis a tão inferiores organizações.
Explicar theologia a um prêto equivale a expor as sublimidades do càlculo differencial a uma assemblea de camponios.
Mas, se o prêto não está á altura de poder jàmais comprehender as verdades da religião de Christo, têm sem dùvida o sentimento do bem e do mal, e está nas condições de comprehender os principios de moral commum.
Marchem para entre os povos ignaros d'Àfrica Central os missionarios, sigam sem trepidar o caminho que lhes impõe a sua missão evangèlica, mas desvendem os olhos.
Tomem para si o que ha de abstracto na sciencia de Deus, e não queiram ensinar aos nêgros o que ha de sublime n'ella para cèrebros mais bem organizados. Ensinem moral e só moral, com o exemplo e com a palavra; criem necessidades aos que a ignorancia faz prescindir de tudo; criem-lhes necessidades, que ellas farám nascer o trabalho, e só por elle se regenera um pôvo.
Quero missionarios, mas quero missionarios do christianismo e da civilisação, homens que compenetrados dos seus devêres para com Deos e para com a sociedade, saibam firmar o edificio social em sòlidas bases; ensinando o bem e o trabalho, e tudo o que o prêto possa comprehender; esperando a occasião que o tempo, a civilisação, não deixará de trazer, se elle bem trabalhar, para ir pouco a pouco incutindo nos ànimos as verdades da theologia e da moral.
Busque primeiro fazer do prêto um homem, que tempo terá de fazer do homem um Christão. Seguir o caminho contrario é edificar na areia.
No correr d'esta obra terei ainda de falar nas missões Africanas, e falarei desassombradamente com a consciencia de que presto um verdadeiro serviço á causa das missões e á causa da humanidade, apontando erros de que ellas estam eivadas.