Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

Part 6

Chapter 64,023 wordsPublic domain

Cheguei junto do matagal, e perscrutando a brenha, vi a cabêça de um dos magestosos animaes, por entre os arbustos, a vinte metros de mim. Preparei a carabina, e ao apontar, senti um tremor convulso percorrendo tôdos os membros. Lembrei-me de que estava fraco e debilitado pêla febre, e receei que o pulso tremêsse ao dar ao gatilho. Tive uma sensação singular que até então não havia experimentado, e que provavelmente era a do susto. Por um esfôrço de vontade o tremor parou, a carabina tomou firme a direcção que eu lentamente lhe dava, e como ao atirar a um alvo, quasi fui sorprendido pêlo meu proprio tiro. Passou ràpida a nuvem de fumo, e nada vi no sitio onde segundos antes se mostrava a cabêça da soberba fera. Carreguei novamente o cano vazio, e com dois tiros promptos, dei volta ao massiço. Para o lado do Norte seguiam as pégadas de um leão, mas de um só. O outro estava ainda ali. Aventurei-me no cerrado de arbustos, e entre um tufo d'hervas vi o corpo inerte do rei das florestas Africanas. A bala _express_ esmigalhando-lhe o cràneo, cortara-lhe de golpe a vida. Chamei gente, e n'um momento a pelle e garras fôram-lhe arrancadas.

Na massa encephàlica foi encontrada a bala que produzio a morte.[5]

Ao largar a margem, principiámos a sentir, mal distincto, um ruido longinquo, semelhante ao do mar revolto quebrando nas rochas das praias. Devia ser uma cataracta, e essa idéa, que logo me occorreu, foi confirmada pêlos remadores. Pouco depois, os filões basàlticos multiplicavam-se, formando paredões naturaes, sempre no sentido E.O.; mas, ao contrario do que tinha acontecido até ali, o rio ja levava uma corrente ràpida que tornava perigosissimo o navegar.

Um bando de Malancas que vimos na margem direita, obrigou-me de nôvo a parar, e conseguindo eu matar uma, proseguindo na viagem depois de nova interrupção de uma hora.

[Figura 112.--Acampamento na Sioma.]

Pêla tarde, fomos acampar junto das aldeas da Sioma, estabelecendo o meu campo sôb uma gigante Figueira-Sycòmoro, perto do rio.

A viagem d'esse dia foi de cinco horas e meia, sempre a rumo S.S.E.

N'essa noute o meu sono foi acalentado pêlo ruido da cataracta de Gonha, que, a jusante dos ràpidos da Situmba, interrompe a navegação do Zambeze.

No dia 4, logo de manhã, depois de ter comido um prato enorme de ginguba, presente do chefe das povoações, tomei um guia e dirigi-me para as cataractas. O braço do Liambai cuja margem esquerda eu descia, correndo a principio a S.E., vai vergando para O., até que chega a correr perfeitamente E.O.; e n'essa posição recebe dois outros braços do rio, que formam três ilhas cobertas de vegetação esplèndida. No sitio onde o rio começa a curvar para O., ha um desnivelamento de três metros em 120, formando os ràpidos da Situmba. Depois da juncção dos três braços do Zambeze, toma elle uma largura de seiscentos metros apenas, e logo ali deita um pequeno braço a S.O., pouco fundo e obstruido. O resto das àguas encontram um corte transversal de basalto, com um desnivelamento ràpido de 13 metros, e n'elle se precipitam com fragôr immenso.

O corte é N.N.O., e forma três grandes quedas, duas aos lados, e uma no meio. Por entre as rochas que separam as três grandes massas de àgua, cahem um sem-nùmero de cascatas de maravilhoso effeito. Ao Norte, um terceiro braço do rio continúa a correr no mesmo nivel superior da cataracta, e despenha-se no ramo principal em cinco cascatas lindissimas, a ùltima das quaes fica quatrocentos metros a jusante da grande queda. Ahi o rio encurva de nôvo a S.S.E., estreia a 45 metros, e conserva uma corrente de 150 metros por minuto.

Os diversos pontos-de-vista que se gozam da borda sôbre tôdo o espaço das quedas, sam sorprendentes, e nunca vi em paiz algum dos que tenho visitado, paizagem mais bella.

Gonha não tem a imponencia das grandes cataractas. Ali a paizagem é suave, variada e atrahente. A mistura da floresta pomposa, com a rocha e com a àgua, estam harmonizadas, como por mão de artista habil em tela primorosa.

[Figura 113.--Cataracta de Gonha.]

Mêsmo o despenhar da àgua no abismo, não causa ruido pavoroso, e é de certo amortecido pêla vegetação enorme que a rodea.

[Mappa: Alto Zambeze -- Cataractas de Gonha]

Ali não se elevam vapôres, que convertidos em chuva alaguem as visinhanças; ali o accesso é livre a tôda a parte, parecendo que a natureza se comprazeu a tornar facil a visita á sua bella obra. Gonha é como a casquilha que se mostra, que se deixa contemplar, para que a admirem.

Depois de levantar a planta da grandiosa cataracta, demorei-me ali até á noute, não cançando os olhos de ver tão esplèndido quadro, em que a cada momento descobria uma nova belleza.

Voltei ao meu campo, saudoso pêla lembrança de que não veria mais em minha vida, o espectàculo sublime que deixava para sempre.

No dia 5, fui ver o caminho por onde deveriam passar os barcos para jusante da cataracta, e era elle por floresta espêssa, e não inferior em extensão a cinco kilòmetros, porque em tôda essa extensão o Zambeze, apertado em margens de rocha apenas distanciadas de 40 a 50 metros, conserva uma velocidade de 150 metros por minuto, e é tal o referver das àguas, que impossivel é navegar nelle.

Este espaço estreito a jusante da cataracta de Gonha, chama-se o Nanguari, e termina por uma pequena queda do mesmo nome.

O ponto onde recomeça a ser navegavel chama-se o Mamungo.

A passagem dos barcos por terra foi feita por gente das povoações da Sioma, povoações de Calacas ou escravos, governados por un chefe Luina, mandados, estabelecer ali pêlo governo do Lui expressamente para o serviço de carregarem os barcos por terra; serviço a que sam obrigados sem terem direito a retribuição alguma.

Foi fatigante aquelle trabalho, e eu fiquei verdadeiramente penalizado de não ter nada que desse áquelles desgraçados, que tão humildemente se prestam a trabalho tão rude.

O Zambeze em Mamungo alarga a duzentos metros, mas continúa apertado em cinta de rocha, onde estam marcadas as cheias por traços horizontaes provenientes dos depòsitos das àguas lodosas. Por esses traços vi que as àguas se elevam ali a 10 metros, nas màximas cheias, acima do nivel de então, que deveria ser o mìnimo proximamente.

Logo que sôbre as rochas basàlticas começa a haver terra vegetal, principia uma vegetação frondosa. O aspecto do Zambeze n'aquelle ponto assemêlha o do Douro no seu têrço medio, com a differença apenas, de que n'aquelle o granito é substituido por basalto.

Depois de ter navegado por espaço de hora e meia, encontrei a foz do rio Lumbé, onde parei. Este rio vem do N., e tem, pròximo da embocadura, 20 metros de largo, por um e meio de fundo. Cem metros antes de entrar no Liambai, é-lhe superior de trinta metros, e por isso despenha-se em cascatas, que seriam talvez lindissimas se ali perto não ficasse Gonha.

Segui, depois de ter visitado a foz do Lumbé, mas n'esse dia apenas naveguei por mais duas horas; porque, tendo visto uns ongris, acampei, e fui caçar. Consegui matar dois antìlopes, que nos demorámos a preparar; decidindo não navegar mais n'aquelle dia.

No dia 7, deixei o acampamento, e tendo navegado uma hora, encontrei a cataracta Cale.

[Figura 114.--Passagem dos barcos em Gonha.]

Ali o rio corre a S.E., e toma uma largura de novecentos metros. Três ilhas o dividem em quatro ramos. O segundo, de oeste, é o que contém maior volume d'àguas, mas é tambem aquelle em que o desnivelamento é mais ràpido.

Nos outros braços o desnivelamento, que é de três metros, produz-se em cem de extensão, enquanto n'este não se estende a mais de quarenta. Tôdos os canaes sam obstruidos com rochêdos desencontrados, onde as àguas resaltam com fragor immenso.

Descarregámos os barcos, que fôram arrastados por um canalête junto á margem direita, e logo a jusante da queda reembarcámos e seguímos viagem. Meia hora depois, passàvamos uns ràpidos, onde só pequenos canaes sam praticaveis, e por onde os remadores governáram as pirogas com prodigiosa destreza.

[Figura 115.--Cataracta de Cale.]

Pouco depois, outros ràpidos fôram passados com igual felicidade; sendo o resto da navegação d'esse dia por entre pontas de rochas açoutadas por violenta corrente d'àgua, sem que outros desnivelamentos ràpidos apparecêssem.

Ao acampar, eu sentia-me gravemente doente. A febre havia recrescido, e a falta de alimentação vegetal era sensivel. O dormir sempre ao relento, e o nenhum resguardo que era forçado a ter, tendo de sustentar a minha gente pela carabina, faziam peiorar o meu padecer constante. N'essa noute, rebentou sôbre nós uma violenta trovoada, e com ella cahíram as primeiras gôtas d'àgua d'aquella nova èpocha das chuvas.

O dia 8 de Outubro veio encontrar-me mais doente, mais abatido de côrpo, mas não mais fraco de espìrito. Segui viagem, e meia hora depois, encontrava os grandes ràpidos de Bombue.

O rio forma um grande ràpido central, onde o desnivelamento é de 2 metros. Do lado de Este três canalêtes obstruidos por innùmeras rochas, e de Oeste um canal mais largo, onde o desnivelamento é mais ràpido.

A montante dos primeiros desnivelamentos, uma ilha coberta de vegetação divide o rio em dois braços iguaes. Bombue tem mais dois desnivelamentos, sendo o segundo trezentos metros a jusante do primeiro, e o terceiro duzentos metros a jusante d'este. Tôdos estes ràpidos sam cheios de pontas de rochas desencontradas, tornando impossivel a navegação.

Os barcos descarregados fôram lascados junto a terra, operação fadigosa, que levou muito tempo.

[Figura 116.--Rapidos de Bombue.]

Pozémos os barcos a caminho, encontrando um ràpido que sem querer passámos embarcados com inaudita felicidade; e depois de 4 horas de viagem, parámos junto á confluencia do rio Jôco. Viajei n'esse dia por entre ilhas de uma belleza admiravel, que apresentavam os panoramas mais pintorescos á minha vista, fatigada da monotonia do planalto Africano.

N'essa tarde, estando a repousar, fui acordado em sobresalto por os nêgros, que tinham visto perto alguns elephantes. Apesar do meu mao estado de saude, tomei a carabina e segui-os.

Na margem do Jôco avistei eu os enormes pachidermes, que se enlodavam n'um paúl.

Tomei-lhe o vento e approximei-me cauteloso. Eram sete soberbos animaes.

A floresta espêssa que descia até junto ao paúl, permittio-me approximar-me sem ser visto.

Por um momento contemplei aquelles gigantes da fauna Africana, e não posso occultar que tinha remorsos prematuros de lhes fazer mal. A necessidade venceu o escrúpulo, e atirei ao mais pròximo, dirigindo-lhe a bala ao frontal. O colosso oscillou um momento, sem mover as patas, e dobrando os joêlhos, foi cahindo de vagar sôbre elles--posição que conservou um momento, tombando depois para o lado, e fazendo tremer a terra com o baque enorme.

Os outros seis atravessáram o rio Jôco em apressado trotar, e desapparecêram na floresta.

Acerquei-me do inoffensivo quadrùpede, e ao contemplar a minha obra de destruição, não pude deixar de olhar para mim, depois de olhar para elle, e de me achar bem pequeno. O meu estado era tão melindroso, que ja não pude voltar por meu pé, e tive de ser amparado pêlos nêgros para chegar ao acampamento.

No dia immediato estava peior, e sobreveio-me uma grande inflammação do fìgado. Deitei causticos, que pulverizei de quinino depois de cortados.

A doença não me permittia partir n'aquelle dia, e resolvi ficar ali até experimentar melhoras. N'esse dia aconteceu ao meu Augusto a mais extraordinaria aventura de que tenho tido conhecimento. Atirou a um bùfalo que ferio, e que correu ràpido sobre elle. Augusto tirou o machado, e no momento em que a fera baixava a cabêça para lhe marrar, atirou-lhe um golpe á fronte, com a sua força hercùlea.

Homem e bùfalo roláram por terra. A gente que estava perto do meu valente nêgro, julgára este morto, quando víra o feróz ruminante levantar-se e fugir. Augusto levantou-se, e àlém do abalo do choque, não tinha soffrido nada.

Os nêgros acercáram-se d'elle, quando o meu muleque se abaixou, e depois de apanhar o machado, apanhou, tão admirado como os que o viam, um côrno do animal, cortado cerce pêlo golpe vigoroso.

Nas matas da região das cataractas, ha o Cuchibi, o Mapole, o Opumbulume e a Lorcha, frutos que mais ou menos se encontram no planalto, e àlém d'esses, dois frutos privativos d'ali, a Mocha-mocha, e o Muchenche. Este ùltimo é muito sacharino, e d'elle fiz eu um refresco muito agradavel.

Os causticos pulverizados de quinino, e três grammas d'elle que introduzi no organismo, em três injecções hypodèrmicas a curtos intervallos, acalmáram o meu estado febril, e no dia 10 levantei-me com sensiveis melhoras. A primeira noticia que me déram foi que o meu Augusto desapparecera desde a vèspera, e não tinha sido encontrado por alguns homens que o fôram procurar ao mato.

Esta noticia deu-me grande cuidado, porque o Augusto é de um atrevimento louco, e fêz-me recear uma desgraça. Mandei gente em tôdas as direcções a buscal-o, e eu mesmo fui com alguns homens, apesar do meu estado, e do muito que me faziam soffrer os causticos. Fôram infructuosas as nossas pesquizas, e da excursão apenas trouxémos dois seb-seb (_Rubalis lunatus_) que eu matei, e muitas varas de madeira, que os Luinas colhêram proprias para astes de azagaias, e que sam do mesmo pao de que fazem os remos. Chamam-lhe Minana.

De volta ao campo, secámos ao fôgo muita carne dos antìlopes.

Esta região, a que chamam o paiz de Mutema, é abundantissima de caça da floresta, e desde o elephante até á codorniz, ha milhares de animaes de tôdas as familias, gèneros e especies do planalto Africano. No Zambeze, ao contrario, escaceia a caça d'àgua, abundantissima na região das planicies.

Pêla tarde appareceu o meu Augusto, dizendo que se tinha perdido na floresta, e que encontrara uma povoação de Calacas, onde lhe tinham furtado tudo o que elle trazia, excepto a espingarda.

Os Luinas, ouvindo isto, declaráram que iam desforçar o Augusto, e por mais esforços que empreguei não consegui contel-os.

Alta noute voltáram os marinheiros, carregados com os despojos do saque, e entre elles vinha o casaco do meu muleque.

É costume d'elles, logo que encontram povoações de Calacas na região das cataractas, saqueal-as e destruil-as. N'essa noute o meu estado de saude aggravou-se bastante, mas apesar de me sentir gravemente doente, dei ordem de partir no dia immediato.

Uma hora depois de ter deixado a foz do rio Jôco, encontrei os grandes ràpidos de Lusso.

Desembarquei e segui por terra, fazendo três kilòmetros em três horas.

O rio em Lusso toma uma grande largura e divide-se em muitos ramos, formando ilhas cobertas de vegetação esplèndida.

Depois do bello panorama de Gonha, nada vi mais bello do que os ràpidos de Lusso.

Embarquei de nôvo por baixo dos ràpidos, e tendo navegado por duas horas, parei a montante da cataracta de Nambue.

As ilhas, com a sua vegetação pomposa, continuavam a apresentar os mais atrahentes aspectos.

Decidi passar a cataracta n'esse dia, e houve grande trabalho, com a pouca gente de que dispunha, para arrastar os barcos por terra. Levou quatro horas aquelle fadigoso lidar, mas consegui dormir a jusante da queda.

A cataracta de Nambue tem quatro desnivelamentos: o primeiro é de meio metro, o segundo, 150 metros a jusante, é de dois metros, e perfeitamente vertical, o terceiro, 60 metros abaixo, é de um metro, e o ùltimo, tambem de 1 metro, fica a 100 metros d'este.

Occupam por isso as quedas uma extensão de 310 metros. O Zambeze corre ali N.S., mas logo abaixo verga a S.O. para tornar a tomar o seu curso regular a S.S.E.

Durante a noute estive á morte. A febre intensa devorava-me, e nunca pensei chegar a ver nascer o dia 12 de Outubro, dia sempre festivo para mim, por ser o anniversario de minha mulhér. As repetidas injecções hypodèrmicas de sulphato de quinino em alta dose, conseguíram dominar a febre. Eu chamei o Verissimo e Augusto, e entreguei-lhes os meus trabalhos, recommendando-lhes, que, se eu morrêsse, proseguissem na viagem até encontrar o missionario, e lh'os entregassem.

Fiz-lhes ver, que o Mueneputo os recompensaria bem se elles salvassem aquelles papéis, e os entregassem em mão segura, que os fizesse chegar a Portugal.

Ás 6 horas da manhã do dia 12, senti um grande allivio e decidi seguir viagem.

Parti ás 6 e meia, e ás 7 e 15 minutos, passei uns pequenos ràpidos, e logo abaixo outros, mais desnivelados, extensos e perigosos. Entestámos ao ùnico canal praticavel, e logo que o barco se achou envolvido na corrente, um hippopòtamo veio resfolgar a jusante. Estàvamos entre Scylla e Charybdis, ou a fera ou o abismo. Tornámos a entestar com a corrente e subindo o rio, por uma habil manobra, pozémo-nos a coberto do perigo junto a um rochêdo quasi em sêco.

[Figura 117.--Nos ràpidos.]

O barco da carga, receando o cavallo-marinho, desviou-se do canal, e foi impellido com velocidade enorme de encontro ás rochas de um canalête obstruido. Nunca pensámos que se salvasse, mas elle derivou por entre as fragas e passou o perigo, tendo recebido apenas um golpe de àgua que quasi o encheu.

Ás 7.50, outros ràpidos, e ás 8, uns muito desnivelados e extensos. Quizémos sahir em terra, porque sentiamos a jusante um ruido enorme, semelhante ao rebombar dos trovões pêlos alcantiz das serras, que nos fez recear grandes ràpidos, ou uma cataracta impossivel de transpor. Foi baldado esfôrço. A margem mais pròxima, a esquêrda, ficava-nos a 600 metros, e a corrente ràpida, quebrando-se entre os cabêços basàlticos, e resaltando em ondas de espuma, tornava impossivel o abeirar á margem. Sam momentos indescriptiveis estes.

Levado por uma corrente vertiginosa, tendo diante de si o desconhecido, presentindo o perigo imminente a cada desnivelamento do rio que se lhe mostra, arrastado de voragem em voragem pêlos turbilhões da àgua revôlta, o homem experimenta a cada momento sensações novas, e cem vêzes soffre a agonia da morte, para sentir outras tantas o prazer da vida. Das 8 horas e 5 minutos ás 8 e 40, passámos seis ràpidos de pequeno desnivelamento; mas a essa hora, uma queda desnivelada de um metro se nos apresentou na frente. Semelhante ao homem que, em corrida, estaca por um movimento instinctivo, ao ver o abismo aberto sôb o seu caminho, o meu barco, como se fôsse animado, parou, por um impulso dos remos; machinal e inconsciente nos tripulantes. Esse momento de hesitação produzio o desgovêrno, e a comprida piroga atravessou na corrente, e saltou ao abismo, na corôa de espuma de uma onda enorme. Foi um segundo, mas foi o peior momento da minha vida. Era a Providencia que nos salvava. Se o barco tivesse atestado de prôa com a voragem, seria submergido, e estariamos perdidos. O desgoverno d'elle foi-nos a salvação. Logo abaixo d'estes, outros ràpidos menores; e então fizémos fôrça de remos para uns rochêdos, que a meio rio estavam collocados em ponto onde a corrente era mais fraca. Abeirámos a elles, e estivémos a tirar àgua e a arrumar as cargas, desarranjadas pêlo abalo dos ràpidos. Segui ás 8 e 55 minutos, e logo, ás 9 e 15, encontrámos novas cachoeiras. Ás 9 e 25, os grandes ràpidos da Manhicanga. Ás 9 e 30, outros; e d'ahi aos grandes ràpidos da Lucanda, que passámos ás 11 e 8 minutos, saltámos em sete cachoeiras mais. Depois de passarmos um pequeno ràpido, encontrámos a cataracta de Catima-moriro (_apaga o fôgo_) ao meio-dia.

É Catima-moriro o ùltimo desnivelamento da região superior das cataractas do alto Zambeze. D'ali até á nova região de ràpidos, que precede a grande cataracta de Mozi-oa-tunia, o rio é perfeitamente navegavel.

O espìrito tambem se fatiga como o côrpo, e foi verdadeiramente fatigado de espìrito, que eu cheguei ao têrmo d'essa perigosa jornada do dia 12, jornada que não posso relembrar sem terror. As commoções d'aquelle dia tinham sárado o côrpo, e achava-me sem febre, mas muito fraco. Appareceu muita caça, mas a minha fraqueza e as dôres que me produziam os causticos ainda abertos, não me permittíram caçar.

O curso do rio foi sempre a S.S.E.

D'ahi em diante, o rio torna a ter o mesmo aspecto do Barôze, planicies enormes, fundo de areia, e nem mais um rochêdo. As margens sam formadas por camadas sobrepostas de argila esverdeada. O vento leste era de nôvo fortissimo, e encrespava a superficie das àguas, levantando ondas bastante grandes. Apesar d'isso, segui a 13, e fui acampar junto da povoação de Catongo. De nôvo tinha peorado, e era prostrado pêla febre que me mettia no barco para seguir.

Ali em Catongo encontrei a minha gente, que tinha deixado na foz do Jôco, e que chegou n'essa noute.

Sube, que na vèspera tinham corrido um eminente perigo, sendo atacados por um bando de leões. Subindo para cima de àrvores podéram escapar-lhe, mas estivéram muito tempo cercados por elles. A minha cabrinha Córa foi içada por um pano que lhe atáram aos cornos, e estêve amarrada a um tronco junto de Augusto. O Augusto matou um dos leões, atirando-lhe de cima da àrvore, e trocou em Catongo a pelle d'elle por uma grande porção de tabaco.

No dia 14, naveguei a leste, direcção que toma o Zambeze, e fui acampar, pêla tarde, ja perto da povoação do Quisseque.

O rio continúa a dividir-se, formando grandes ilhas, mas não como as da região das cataractas. Sam canaviaes monòtonos, que cançam a vista.

Tivémos n'esse dia pescadores, que nos fornêceram abundante peixe. Fôram os Uanhis, como lhes chamam os Luinas, e que não sam mais do que _pygargos_ gigantêscos que povoam as margens do rio. Fôram perseguidos alguns, que abandonáram o peixe que levavam.

Uma d'essas Àguias aquàticas, tinha nas garras poderosas um peixe mais corpulento do que uma pescada, e levou-o fugindo dos meus remadores, sem que mostrasse esfôrço ao voar.

Todavía, a maior parte abandonavam a prêsa, para fugir mais ràpidamente.

Estes pygargos do Zambeze, que não vi acima da região das cataractas, t[~e]m a cabêça, o peito e a cauda completamente brancos, e as azas e costas de um nêgro de èbano.

Sam exactamente como a especie Americana descripta com o nome de _pygargo de cabeça branca_, mas menos corpulenta do que a ave que serve de emblema ao pavilhão dos Estados-Unidos.

No dia 15 de Outubro, cheguei de manhã ao Quisseque, tendo navegado por uma hora a leste.

Não quiz ir para a povoação, ja desconfiado do gentio, e fui acampar no meio do caniçal de uma ilha fronteira. Mandei prevenir o chefe de que estava ali, e deitei-me abrasado em febre, que de nôvo reapparecera intensa.

Pouco depois da minha chegada, appareceu na ilha um homem trajando á Européa, que, pêla côr de café com leite da pelle, eu reconheci ser um filho das margens do Orange.

Disse-me, por intermedio do Verissimo, usando da lìngua Sesuto, que era criado do missionario, e estava ali esperando a resposta do rei Lobossi a respeito de seu amo. Por elle sube, que o missionario era Francez, o que sôbre modo me fez admirar. Este homem, que se chamava Eliazar, vendo-me muito doente, mostrou por mim carinhos que nunca vi em nêgro.

Dizendo-lhe eu, que vinha de propòsito procurar seu amo, elle manifestou-me o seu contentamento, e assegurou-me, que o missionario era o melhor homem do mundo.

Eu não sei explicar porque tive um prazer enorme sabendo que o meu homem era Francez, mas é facto que o tive.

Estava eu conversando com Eliazar, quando chegou o chefe, cujo nome é Carimuque, mas que tambem é conhecido pêlo de Moranziani, nome de guerra dos chefes do Quisseque.

Disse-lhe, que queria seguir viagem no dia immediato, porque estava muito doente, e precisava encontrar o missionario, para elle me dar remedios.

Preveni-o de que não tinha vìveres, nem com que os comprar, e elle prometteu-me mandar n'esse dia mesmo comida para mim e para os meus.

N'essa tarde os meus remadores começáram a gritar que não deixariam o Quisseque sem serem pagos. Eu chamei-os e fiz-lhe ver, que não tinha nada que lhes dar. Que o marfim só poderia ser convertido em fazendas logo que eu chegasse ao missionario que as deveria ter, e por isso para serem pagos era preciso seguir ávante.