Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

Part 5

Chapter 53,872 wordsPublic domain

Em Cassange, como em Tete, outras duas portas da Àfrica central, ha Portuguezes dignos e nobres, que t[~e]m feito um grande serviço á humanidade no commercio lìcito com o interior; esse commercio, que é o mais seguro mensageiro da civilização na terra dos nêgros.

Não confundamos pois; não confundamos, e será pouco nobre ir buscar a autoridade do explorador, para lançar, apontando factos verdadeiros, mas nada producentes, um labéo sôbre um pôvo nobre, o primeiro que deu mão forte á Inglaterra contra o tràfico infame; sôbre um pôvo que sacrificou os seus interesses Africanos legislando a abolição da escravatura; contra um pôvo, o mais livre do mundo, que estendeu a sua liberdade até á Àfrica, mandando para lá as leis que o regem na Metròpoli; chegando ao excesso de abolir ali a pena de morte, e de lhes mandar um còdigo que por libèrrimo é impossivel entre gente mais que semibàrbara.

Não precisa Portugal justificação; que o defendem os factos, as leis e a energia que emprega na grande obra da civilização Africana; mas, falando do tràfico da escravatura de que por vêzes ia sendo vìctima, não me pude eximir a pôr a questão nos seus verdadeiros têrmos.

José Alves, Coimbras e outros, esses nem ao menos sam Portuguezes de nascença; não se parecem com Portuguezes na côr, sam indìgenas, sem instrucção, verdadeiros selvagens de calças e chapéos.

Affirmo tambem, que é mais difficil viajar em Àfrica por terras onde elles t[~e]m andado, do que nas regiões bàrbaras dos canibaes, que nunca víram um estranho. Aqui fazem a guerra ao explorador, quando a fazem, de armas na mão frente a frente; ali é a traição e a covardia que o esperam. Aqui é explorar na brenha espinhosa onde o leão occulta o seu antro; ali é caminhar n'um prado relvoso, entre venenosas serpentes.

Outra cousa inconveniente ao explorador é ir ás sedes dos grandes potentados. Veja-se o que tem acontecido no Muatayanvo; veja-se o que aconteceu a Monteiro e Gamito no Muata-Casembe; veja-se o que me tem acontecido a mim com Lobossi, no Lui.

O sertanejo Biheno, na cubiça de obter o marfim, dá tudo ao règulo; chêga a dar-lhe a roupa que leva vestida, e volta ao Bihé de tanga de pelles, como os seus carregadores.

No Lui, quando era muito frequentado por sertanejos Bihenos, havia o costume, de elles entregarem tudo ao règulo, e esperarem que elle lhes desse pêla factura que levavam, o que entendesse sufficiente.

O explorador que hôje chêgue ali e não faça o mesmo, está perdido.

Àlém d'esta, outra razão deve aconselhar o explorador a evitar os grandes potentados; é ella o caso de uma aggressão, sempre de recear.

Com os pequenos senhores que povôam a maior parte da Àfrica austral, poderá, em tal caso, levar a melhor; em quanto nos grandes imperios será forçosamente esmagado.

Isto pensava eu voltando ao meu campo nas montanhas de Catongo, a 17 de Setembro, depois de ter comido leite coalhado e batatas em casa de Machauana.

Cheguei a Catongo ja noute, e sube que o meu Augusto tinha morto uma gazella, o que nos fazia òptimo arranjo.

As armadilhas improvisadas continuavam a dar patos e francolins.

Nos dias seguintes, os trabalhos tomáram-me tôdo o tempo; podendo obter uma longitude muito approximada, e fazendo uma rigorosa determinação da declinação da agulha, estudos meteorològicos, etc.

No dia 19, ainda não tinha recebido mais novas do rei Lobossi, e decidí mandar lá o Verissimo, a saber se a offerta das canôas era ou não comedia. N'esse dia apparecêram ali uns prêtos, que pêlo typo conheci logo não serem do paiz. Diziam elles serem da Luêna, e querendo indagar onde ficava essa terra, elles mostravam-me o N.E., e por meio de nòs dados em uma correia fina, faziam-me comprehender que tinham andado vinte e seis dias para chegar ali. Vinham em nome do seu chefe comprimentar o rei Lobossi, e sabendo que estava um branco no paiz, viéram ver-me, por ser animal nôvo para elles.

Para falarmos, servia-me de intèrprete o velho chefe da aldeola, que falava a lìngua dos Machachas, lìngua em que elles se exprimiam bem, dizendo, ainda assim, ser muito differente da sua. Disséram-me, haver no seu paiz muitos elephantes, e serem caçadores; empregando para isso a azagaia, ùnica arma de que usam. Sam franzinos de côrpo e de pequena estatura, com feições bastante regulares. Uns vinte que eu vi, traziam, quasi tôdos, na cabêça uns penachos feitos de sêdas de elephante, demonstrando cada penacho um elephante môrto pêlo que o traz. Vestem pelles como os do Cuchibi, e trazem pannos de _liconde_ para se cobrirem.

Traziam manilhas de ferro e de cobre fabricadas por elles. A difficuldade que havia de nos entendermos não me permitio levar muito longe as averiguações ácerca do paiz d'elles e dos terrenos que atravessáram para chegar ali.

No dia 21, Verissimo voltou de Lialui, dizendo, que as canôas estavam promptas, e que Lobossi me mandava pedir para ir ficar na cidade no dia immediato. Enviei logo um homem ao rei, dizendo-lhe que só iria em dois dias, por estar doente; sendo o verdadeiro motivo d'essa demora, o ter de fazer observações e completar estudos meteorològicos no dia 22. Por esse mesmo enviado mandei dizer a Gambela, que me apromptasse aposento em sua casa, porque iria ser seu hòspede. Eu queria fazer do ladrão fiél.

A 23 de Setembro, deixei Catongo, e caminhei para Lialui, onde cheguei ás duas horas e meia da tarde. Gambela esperava-me com pompa, e foi conduzir-me ao alojamento que me tinha preparado. A marcha por um sol abrasador prostrou-me de fadiga, e só á noute pude ir visitar Lobossi. Elle recebeu-me muito bem, dizendo-me, que estava convencido de que fôra illudido por Caiumbuca e pêlos muleques do Silva Porto; que acreditava ser eu um enviado do governo do Mueneputo, e que me queria dar todas as satisfacções pêlos transtornos que eu tinha soffrido nos seus estados, de que elle dizia não ter tido a menor culpa.

Aproveitei tão bôas disposições, para renovar o meu pedido de gente e auxilio, para seguir pêlo paiz do Chuculumbe até Caiuco, e descer depois o Loengue embarcado, e ir ao Zumbo pêlo Zambeze. Respondeu-me, que isso não podia ser, porque esse projecto encontrava uma grande opposição nos velhos do seu conselho. Que o Munari (Livingstone), no tempo de Chicreto, ja tinha feito aquella viagem com gente do Lui, e que nenhum dos que com elle fôram para leste voltara mais ao paiz.

Os velhos falando elle n'isso, disséram-lhe, que me perguntasse o que era feito dos seus irmãos Mbia, Caniata e Scuêbu, e muitos outros que fôram e não voltáram. Diziam elles, que, ao partir, Livingstone prometteu, que os tornaria a trazer ali; e ainda hôje as mulheres e os filhos esperam por maridos e pêlos pais.

Affirmou-me, que se podesse, me daria gente, mas a resistencia do pôvo era grande, e não lhe convinha ir contra ella. Os três barcos estavam ás minhas ordens para descer o Zambeze, e nada mais podia fazer por mim.

A 24 de Setembro, logo de manhã recebi a visita de Lobossi, que se vinha despedir de mim, e apresentar-me os seus escravos que deviam tripular as canôas até umas povoações do Zambeze, onde o chefe me deveria dar novos barcos e novas tripulações. Deu-me uma pequena ponta de marfim, para eu offerecer ao chefe das povoações onde arranjaria os barcos, e trazia tambem um bôi para a matalotagem. Agradeci-lhe muito, e separámo-nos nos melhores termos de amizade. Segui a S.O., e depois de uma hora de caminho, encontrava o braço do rio a que chamam pequeno Liambai, e pouco depois, três pequenas canôas largavam a margem, levando a minha bagagem, a mim, a Verissimo, Camutombo e Pépéca.

O Augusto, Moero e Catraio, com as duas mulheres, seguíram por terra, acompanhados do caçador Jasse e do chefe Mutiquetéra, mandados por Lobossi, para seguirem comigo, e irem dando as suas ordens aos chefes, a fim de ter o caminho livre.

Mais dois entes, de que me tenho descurado de falar, dois entes que representavam duas dedicações inquebraveis, aquelles que desde a minha sahida não me haviam dado um ùnico dissabor, estavam ali comigo, sempre promptos a seguir quando eu marchava, a pararem quando acampava, a dispensarem-me mil caricias quando me viam triste, a divertirem-me quando alegre estava. Eram Córa e Calungo, a minha cabrinha e o meu papagaio.

A viagem do rio ia separar-me tôdos os dias de Córa, que não podia ir sempre embarcada pêla exiguidade de espaço nas canôas, mas Calungo voando sem mêdo para o meu hombro, seguio embarcado.

Depois de termos navegado ao sul por um quarto de milha, deixámos o pequeno Liambai, e mettemos a S.O. por um canalête, por onde o braço oeste do rio deita um pequeno veio de àgua, de lagôa em lagôa para o braço leste.

No intervallo entre as lagôas, ás vêzes de mais de cem metros, o navegar é difficil, porque é difficil navegar onde não ha àgua. Foi preciso muitas vêzes descarregar os barcos e arrastal-os sôbre um fundo de lôdo. Nas lagôas o caniçal espêsso embaraçava tambem a navegação.

Depois de um trabalho violento e aturado, parámos ás seis horas na margem de uma lagôa, em planicie recentemente queimada, onde não havia com que construir o mais pequeno abrigo.

Tinha havido o cuidado de levar lenha, e com ella podémos assar carne, que eu comi com appetite voraz, por não ter ainda n'esse dia tomado alimento. Estendi depois a minha cama de pelles sôbre a terra hùmida e deitei-me ao relento.

Os remadores estivéram tôda a noute assando carne e comendo; fazendo assim desapparecer a maior parte do bôi dado por Lobossi, e mostrando que a capacidade estomàchica dos sùbditos do rei do Lui é verdadeiramente incommensuravel.

Depois de uma pèssima noute, parti ao alvorecer do dia 25, e naveguei em uma lagôa por meia hora, entrando em seguida no braço principal do Liambai. Apparecia nas margens uma tal quantidade de caça, que fiz parar a flotilha, e entrar em serviço a Carabina d'El-Rei; que, na sua estrea, me forneceu logo vìveres que calculei chegariam para dois dias, apesar da voracidade dos Luinas.

O Liambai tinha ali uns 200 metros, e muito fundo. A corrente era pequena, e essa mesma não aproveitada pêlos remadores, que receando os hippopòtamos, que sem cessar vinham resfolgar no pego, iam sempre encostados ás margens, onde a àgua pouco funda não permitia o accesso aos enormes pachidermes. Tìnhamos de parar de instante a instante, para tirarmos àgua das canôas velhas e fendidas.

Parei junto a Nariere, para calafetar o meu barco, e em quanto os prêtos faziam trabalho com hervas e barro, medi a velocidade da corrente, que achei ser de 24 metros por minuto. O meu rumo medio era S.E., mas o rio dá ali voltas curtas em grande zig-zag; tendo eu em uma d'ellas navegado por 20 minutos a N.O. Acampei na margem esquêrda, pêlas cinco da tarde, nas mesmas condições da vèspera, sem abrigo e ao relento.

Muitas vêzes, n'aquelle dia, quando fugiamos aos hippopòtamos de um lado, appareciam elles no outro, e corrémos perigo grave.

Eu não lhes quiz atirar, para não gastar as munições. Só quem se vê no centro d'Àfrica com pouca pòlvora sabe o valor de um tiro.

Os barqueiros, que eram escravos do rei Lobossi, quizéram ser insolentes comigo; mas eu metti-os na ordem a pao, segundo instrucções recebidas do proprio Lobossi, que prevenira o caso.

O Verissimo, que desde Quillengues resistira á febre, cahio com um violento accesso, e eu mesmo não estava sem ella.

No dia immediato naveguei apenas por espaço de uma hora, parando junto á povoação de Nalólo, governada por uma mulhér, irmã de Lobossi. Mandei pedir-lhe desculpa de a não ir visitar, allegando a minha doença e a febre do meu intèrprete Verissimo. Ella aceitou a desculpa, e enviou-me um pequeno presente de massamballa. Apesar de doente, fui caçar, para fazer nova provisão de vìveres, e consegui matar dois antìlopes (Pallahs). As pelles, como as da ante-vèspera, fôram sêcas com cuidado e guardadas.

Pude trocar uma perna de carne de Pallah por um pequeno cesto de feijão fradinho.

Verissimo peiorou muito n'esse dia, e eu á noute ardia em febre tambem, tendo, apesar d'isso, de dormir ao relento n'um terreno hùmido. Acordei completamente encharcado do orvalho, e muito doente. Segui viagem, e depois de seis horas uteis de navegação, com o rumo medio de S.S.E., acampei, sempre na margem esquêrda.

Apesar de outra noute pèssima, a febre ia cedendo a fortes doses de quinino, e no dia 28, naveguei por hora e meia para alcançar a povoação de Moangana, cujo chefe me devia fornecer um barco por ordem de Lobossi.

O velho Moangana era um Luina de cabellos grisalhos, muito respeitoso, que me recebeu muito bem, dizendo-me, que no dia immediato me levaria elle mesmo á povoação da Itufa, onde eu devia pernoitar, um barco e algum presente que me podesse arranjar.

O vento era fortissimo de leste, e encrespava as àguas do rio, que não tinha menos de uma milha de largo. Havia perigo para canôas tão pequenas como as nossas, mas, apesar d'isso, seguímos, e em hora e meia chegámos a Itufa, grande aldea, na margem esquêrda.

Mais de uma vez estivémos em grande risco de soçobrar, e declaro que é triste perspectiva a de cahir a um rio coalhado de crocodilos.

O Verissimo ia um pouco melhor e eu mesmo, apesar da febre quasi constante que me minava, sentia-me com mais fôrças.

Ja me esperavam na aldea, prevenidos pêlos meus muleques que jornadeáram por terra, e que, com o caçador Jasse, e com o chefe, haviam chegado n'essa manhã.

O chefe recebeu-me bem, dando-me logo uma casa, e offerecendo-me uma panella de leite coalhado e uma cêsta de farinha de milho; mas começou por dizer-me, que tinham enganado Lobossi, e que elle não tinha barco.

Comi um pouco de leite e farinha, e os meus muleques n'um momento fizéram desapparecer o resto do presente do chefe, declarando-me que tinham fome, depois de terem comido tudo. Instei com o chefe para me obter alguns vìveres mais; mas elle respondeu-me, que só a trôco de fazendas m'os dariam, e como eu não as tinha, nada se poderia fazer.

Dei aos muleques as pelles dos antìlopes que tinha môrto, e a trôco d'ellas sempre arranjáram farinha, ginguba e tabaco.

Á noute, quando me fui deitar, vi que estava rodeado de aranhas enormes, muito chatas e nêgras, que desciam das parêdes em vagaroso caminhar; e fugi da casa, indo deitar-me no pàteo ao relento. Estava escrito, que durante a minha viagem no Zambeze, nem uma só noute um tecto abrigaria o meu sono.

No dia 29, logo de manhã, chegou o velho Moangana com o promettido barco.

Veio renovar os seus protestos de amizade, e retirou-se; dizendo-me, que tinha cumprido as ordens do seu rei Lobossi, e esperava que eu estivesse satisfeito, porque elle queria a amizade dos brancos.

Na Itufa continuavam as difficuldades para a outra canôa; o chefe só fazia repetir-me, que a não tinha, e lastimar que houvessem enganado Lobossi e a mim.

Os Luinas e Macalacas t[~e]m por hàbito esconder as canôas em lagôas interiores cobertas de caniçal, que communicam com o rio por pequenos canalêtes disfarçados pêla vegetação e só d'elles conhecidos. Quando não querem que as vejam, difficil é encontral-as.

O caçador Jasse e o chefe Mutequetera, conhecedores das manhas dos Luinas, tanto buscáram entre os caniçaes das lagôas, que encontráram uma canôa; fazendo o chefe da Itufa mil protestos, de que ignorava que ella estivesse ali.

As casas da Itufa sam, como tôdas as dos Luinas, de três formas differentes, e taes como ja descrevi falando das povoações de Canhete e da Tapa; mas aquellas que t[~e]m a forma tronco-cònica sam de muito grandes dimensões. A que me foi offerecida pêlo chefe, a casa das aranhas, media, no quarto interior, 6 metros de diàmetro, e no exterior 10.

[Figura 110.--Casa na Itufa.]

N'estas dimensões, não podem como as outras ser construidas só de caniços, e umas fortes estacas verticaes sustentam o tecto, cuja armação é de longas varas de madeira.

Ha ainda na Itufa outro typo de casas, que é original d'ali.

Sam compostas estas de uma casa ogival, a que addicionam uma semi-cilìndrica deitada no sentido do eixo, formando assim dois compartimentos distinctos. Estas casas sam grosseiramente construidas, ao passo que a casa tronco-cònica, verdadeiro typo da casa Luina, é edificada com cuidado, e muito resguardada.

Pêla primeira vez, depois de ter deixado o Bihé, vi gatos em Àfrica, que os ha em abundancia na povoação da Itufa. Ha tambem ali muitos cães de bôa raça, que empregam com vantagem na caça dos antìlopes.

Continuava a difficuldade de obter vìveres, mas a carabina suppria a falta de fazendas para permutações, e sempre ìamos obtendo alguma farinha de massambala a trôco de carne e pelles.

As tripulações estavam promptas, e os dois barcos em acção de seguir, quando uma nova difficultade veio retardar a viagem.

Os remadores declaráram, que não embarcavam, em quanto eu não deposesse nas sepulturas das mulheres dos antigos chefes da Itufa, alguns massos de missanga branca.

Sem ser cumprido esse preceito, afirmavam elles estarmos sujeitos a innùmeros perigos durante a viagem; porque as almas das mulheres dos chefes, desassocegadas e irritadas, nos perseguiriam sem trègua. Eu, que não tinha missanga, nem branca nem prêta, chamei o chefe e mostrei-lhe a absoluta impossibilidade de socegar as almas das fidalgas da Itufa. Elle a muito custo pôde resolver as tripulações a seguir, mas foi só no primeiro de Outubro que largámos d'ali.

O meu nôvo barco era uma piroga, cavada em um comprido tronco de Mucusse, e media 10 metros de longo, por 44 centìmetros de bôca, e 40 centìmetros de pontal.

As duas àrvores empregadas no alto Zambeze para a fabricação das almadias, sam o _Cuchibi_ e o _M'ucussi_, enormes leguminosas das florestas, da região das cataractas. A madeira d'estas àrvores gigantes, é de extrema dureza, e de maior densidade do que a àgua.

A minha piroga era tripulada por quatro homens, um á proa e três a ré.

Eu ia sentado na frente, a um têrço do comprimento do barco, sôbre a minha mala pequena, que continha os meus trabalhos. O duplicado do meu diario, observações iniciaes, etc., levava eu amarrados ao côrpo com uma cinta de lã. As minhas armas iam ao meu lado, e as pelles do meu leito completavam a carga.

Na outra canôa, Verissimo, Camutombo e Pépéca, as malas da roupa e instrumentos, e a caça que ia matando. Os remadores remam sempre de pe, para equilibrarem as canôas, que se voltariam sem isso. O remar em taes barcos é verdadeiro exercicio acrobàtico.

[Figura 111.--O meu Barco. Remos.]

Uma piroga do alto Zambeze é como um patim gigantesco, em que o remador tem de fazer tôdos os prodigios de equilibrio do patinador sôbre o gêlo, para sustentar a posição estavel. Foi em taes condições que eu, no dia 1 de Outubro, deixei a Itufa, e me aventurei sôbre o rio gigante, cujas ondas levantadas por um forte vendaval de leste, ameaçavam a cada momento submergir as estreitas almadias.

Depois de quatro horas de viagem, parei na margem esquêrda, em uma pequena enseada, onde a gente que vinha por terra tinha dado ponto de reunião aos barqueiros. As minhas novas tripulações eram mais comedidas do que os muleques do rei que me trouxéram a Itufa, mas começavam ja com pedidos e exigencias.

Não encontrei caça no mato, mas, tendo chegado alguns bandos de patos a uma lagôa pròxima, fui ao barco buscar a espingarda de caça miüda, de que só tinha 25 cartuxos, e consegui matar 17 patos, de 6 tiros.

O ponto onde eu estava, era o extremo sul da grande planicie do Lui. As duas nervuras de montanhas, que no parallelo 15 estam distanciadas de 30 milhas, convergem ali; só parando para dar um leito de dois kilòmetros ao Zambeze. Á planicie monòtona e nua succede o paiz accidentado e coberto de luxuosa vegetação. Ás margens de arêa branca e finissima, uma arêa que, comprimida sôb os passos do homem, solta vagidos como os de uma criança, produzindo uma impressão inexplicavel, porque, estando muito sêca, imita um fraco grito humano. A essas margens de arêa tão extraordinaria, succede, em transição ràpida, o terreno vulcànico; e sam blocos de basalto que marginam o rio.

Foi com o maior sentimento de prazer que os meus olhos se fixáram sôbre esses penêdos denegridos, vomitados em ondas de fôgo nas èpochas primitivas do mundo. Desde o Bihé, que não via uma pedra, e com satisfação olhava para aquellas que via ali.

Quando o meu cozinheiro Camutombo tratava de acender fôgo para cozinhar os patos, o lume communicou-se á herva alta e sêca que cobria o solo, e logo, assoprado por um vento forte, voou por sôbre a terra em ondas de chamas.

O atear do incendio foi tão ràpido, que por um momento estivémos envolvidos n'elle; tendo de nos precipitar nas canôas para lhe escapar.

No dia immediato parti, sempre a S.S.E., e depois de quatro horas de navegação, comecei a encontrar grandes filões basàlticos, atravessando o rio no sentido E.O. Alguns v[~e]m tanto á flôr d'àgua, que tornam difficil a navegação, e ainda que a corrente é inapreciavel, foi preciso diminuir a velocidade dos barcos para evitar choques perigosos, n'aquelles paredões naturaes.

O rio começa, na região basàltica, a ser povoado de ilhas cobertas de vegetação pomposa. Pêla tarde, avistámos um bando de ongiris (_Strepsiceros kudu_) que pastavam na margem direita.

Desembarquei um pouco a montante, e consegui matar um dos soberbos antìlopes.

Mandei seguir o barco, e eu caminhei por terra por espaço de uma hora.

Levantei bandos de francolins, codornizes, e pintadas (_Numida meleagris_), que nunca tantos vi em Àfrica. A terrivel môsca zê-zê tambem é abundantissima ali, incommodou-me muito na floresta com as suas picadas dolorosas, mas inoffensivas para o homem; e tantas havia e tanto me perseguíram, que até depois de estar no barco ainda por muito tempo estive coberto d'ellas.

Fui acampar n'uma ilha muito extensa de um aspecto lindissimo, depois de seis horas uteis de navegação a rumo de S.S.E.

O Verissimo estava completamente restabelecido, mas eu era devorado por uma febre lenta e contìnua, que me minava a existencia.

No dia 3 de Outubro, segui viagem, sempre por entre ilhas formosissimas, cobertas de vegetação luxuriante. Navegámos, havia duas horas, quando vimos dois leões que na margem direita bebiam àgua do rio. Apesar de eu ter estabelecido como regra não me entremetter com feras, sem a isso ser forçado, e apesar ainda do valor que então tinham para mim os cartuxos, os instinctos do caçador vencêram a razão, e mandei abicar a canôa á margem, direita aos bichos.

Os leões, percebendo-nos, deixáram o rio, e fôram postar-se em uma eminencia a duzentos metros. Saltei em terra e caminhei para elles.

Deixáram-me approximar a uns cem metros, e depois poséram-se lentamente a caminho para montante do rio, parando de nôvo depois de curto espaço. D'essa vez acerquei-me a cincoenta metros, mas elles caminháram de nôvo e embrenháram-se em um pequeno massiço de arbustos. Eram dois leões machos de grandeza desigual, tendo um quasi o dôbro da corpolencia do outro.