Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

Part 3

Chapter 33,971 wordsPublic domain

Lobossi tinha voltado de casa das amantes, e conversava com Gambela antes de se deitar. Apresentei-lhe o ferido e perguntei-lhe o que era aquillo. O rei mostrou um grande terror, vendo-me coberto de sangue do assassino, que eu nem tinha lavado; e um olhar trocado entre Gambela e o ferido, mostrou-me quem tinha sido a cabêça que enviara aquelle braço. Lobossi mandou logo retirar d'ali o prêto, e disse-me, que aquillo era um grande agouro, e que ja não durmiria aquella noute socegado.

Narrei o acontecido, e Gambela apoiou muito o que eu tinha feito, lastimando que eu não tivesse morto o prêto, e dizendo-me, que ia matar meio mundo.

O prêto era desconhecido em Lialui, e os da guarda de Lobosi disséram nunca o terem visto. Lobossi pedio-me, que guardasse sôbre o facto o maior segrêdo, assegurando-me, que não me acontecia outra em quanto estivesse nos seus estados.

Eu voltei ao campo mais desconfiado que nunca das amabilidades de Gambela.

Por noute fora, senti que alguem tentava penetrar na minha barraca, e puz-me a pe sem ruido, prompto a sorprender aquelle que julgava fazer-me sorpresa.

A pessôa era de certo conhecida, porque a minha cadella Traviata não ladrava, e fazia festas com a cauda para o ponto por onde alguem se introduzia de rastos.

Esperei um momento, e ao clarão da fogueira conheci a prêta Marianna, que, com meio côrpo dentro da barraca, me fazia signal para que entivesse calado.

Entrou, achegou-se a mim e disse-me: "Toma cautela. O Caiumbuca atraiçôa-te. Depois que voltou com-tigo de casa do rei, tornou a Lialui a falar com Gambela; e logo que chegou aqui, reunio com muito socêgo a gente de Silva Porto, e estêve a falar com elles na barraca d'elle. Eu fui escutar, e ouvi falar em te matarem. O Verissimo tambem la estava. Elles disséram, que como tu não entendias a lìngua do Lui, quando tu lhes dissesses uma cousa para dizer ao rei, elles diriam outra, e te dariam tambem a resposta trocada, que assim haviam de fazer com que o rei te matasse.

"Toma cautela, olha que elles sam muito maos."

Agradeci muito á pequena o aviso e dei-lhe o ùnico collar de missanga que me restava, e que eu reservava para uma das favoritas de Machauana.

A declaração da Marianna, veio ferir-me profundamente. Os homens em que eu confiava eram os primeiros a atraiçoar-me.

Mil pensamentos tristes, que não conseguíram alquebrar-me o espìrito, produzíram uma noite de insomnia. É verdade, que a prevenção de Marianna veio dar-me uma vantagem enorme sobre elles, que ignoravam que eu lhes conhecia a traição nos seus detalhes; e de manhã ao levantar-me, eu repetia a mim mesmo o rifão Portuguez, de que "um homem avisado vale por quatro."

Gambela foi visitar-me, e repetio-me mil protestos de amizade; mas eu presentia que o perigo pairava em tôrno de mim, e que a espada de Damocles estava suspensa sôbre a minha cabêça.

N'esse dia entreguei a Gambela as cartas para o governador de Benguella, e a comitiva do rei do Lui, commandada por três chefes Luinas e guiada pêlo velho Antonio de Pungo Andongo, seguio caminho da costa.

Com ella fôram os Bihenos que me haviam abandonado. Estava satisfeito com aquelle primeiro resultado obtido; e se os meus trabalhos se perdêssem e mais nada fizesse, o ter posto um pôvo tão poderôso em relações com a civilização Europea da costa, era ja um resultado importante da minha viagem.[2]

A revelação feita n'essa noute por Marianna trazia-me preoccupado, e eu só pensava no meio de parar o golpe que me feria, com a traição d'aquelles em que eu mais confiava.

Formei um plano que decidi pôr em pràtica n'esse mesmo dia.

A narrativa dos repetidos e graves acontecimentos que se déram comigo depois da minha chegada ao Lui, não me tem deixado falar dos povos Luinas e seus costumes.

Em logar de encontrar ali essa raça forte e vigorosa, creada por Chibitano, e que existio com o imperio Macololo, fui deparar com uma raça abastardada, misto de Calabares, Luinas, Ganguelas e Macalacas, que t[~e]m unido o seu sangue marcando cada cruzamento uma pègada de decadencia. O uso immoderado do bangue ou cangonha (_Cannabis Indica_), a embriaguez e a syphilis, t[~e]m lançado aquelle pôvo no mais abjecto embrutecimento moral, e enfraquecimento physico.

[Figura 97.--Cachimbos de fumar o Bangue.]

O primeiro d'aquelles três grandes inimigos da raça prêta chegou-lhe do sul e leste pêlo Zambeze; os dois outros fôram ali importados pêlos Bihenos, que lhe trouxéram ainda outro inimigo não menos terrivel, o tràfico da escravatura.

Poucos paizes Africanos leváram tão longe como os Luinas a pràtica da polygamia. ¡Gambela, á èpocha da minha estada no Barôze, tinha mais de setenta mulheres!

O Lui, ou Barôze propriamente dito, isto é, o paiz que fica ao norte da primeira região das cataractas, compõe-se, da enorme planicie onde corre o Zambeze, que tem de 180 a 200 milhas do N. a S., e por vêzes, de 30 a 35 O. a E., planicie elevada 1,012 metros ao mar; do paiz mais elevado a leste, onde assentam innùmeras povoações, que v[~e]m estabelecer as suas culturas na grande planicie; e ainda na enorme planura do Nhengo, onde corre o Ninda. A planura do Nhengo é separada do leito do Zambeze por uma nervura de terreno elevado de 20 metros, que corre parallela ao rio, e onde estam muitas povoações, livres das maiores cheias.

Durante o tempo das grandes chuvas, a planicie do Zambeze é inundada, e eu medi em algumas àrvores onde tinham ficado signaes do maior nivel das àguas três metros.

No parallelo 15^o tem ella uma largura de trinta milhas, e por isso, na èpocha das cheias, calculando uma corrente mìnima de 20 metros por minuto, devem passar ali 240 milhões de metros cùbicos d'àgua por hora. Isto dá uma medida do que sam as chuvas na Àfrica tropical, acrescentando-se, que regularmente a inundação atinge o seu màximo em oito dias.

O pôvo Luina, que em grande parte vive na planicie, retira para o paiz montanhoso durante as inundações.

Ao retirar das àguas, volvem a occupar as povoações abandonadas na invernía, e cobrem o campo com os seus rebanhos enormes, que, diga-se a verdade, não encontra ali um pasto viçoso em èpocha alguma do anno; porque os prados sam formados, pêla maior parte, de caniçal, onde abunda uma especie do _Calamagrostis arenaria_.

As culturas sam feitas mais na margem direita do que na esquerda do Zambeze, e sempre junto das encostas.

A inundação deixa na planicie um sem-nùmero de pequenas lagôas, que se atulham de vegetação aquàtica, e que sam outros tantos focos miasmàticos de infecção palustre. Ha èpochas no anno em que os proprios indìgenas sam fortemente atacados pelas febres endèmicas.

Nas lagôas abunda peixe e ha muitos batràchios.

É d'estas lagôas que se fornecem de àgua potavel os indìgenas, mas é preciso confessar, que elles só a bebem depois de transformada em Capata.

Os Luinas sam pouco agricultôres, e muito pastôres. Os seus rebanhos constituem a sua principal riqueza, e no leite das vacas encontram o seu principal alimento.

O haver do Luina consiste em algumas vaccas e algumas mulheres.

O leite frêsco e o leite azêdo (coalhado) sam, com a batata dôce, a base da sua alimentação. A farinha de milho é empregada para fazer a Capata, de mistura com a de massambala, principal cultura do paiz.

Os Luinas fabricam o ferro, e tôdas as suas armas e tôdos os seus utensilios, sam feitos no paiz. Não usam facas, e não podemos deixar de nos admirar das esculpturas que fazem em madeira, sabendo que não empregam facas, e mais ainda, logo que conheçamos o instrumento com que trabalham. No Lui, onde o machado termina a obra grossa de desbaste, começa a obra da azagaia. O ferro d'esta é instrumento para tudo. Os bancos onde se assentam, as escudellas em que comem as vasilhas do leite, e tôdos os seus utensilios de madeira, sam cortados com ella.

[Figura 98.--Vasilha para leite feita de Madeira.]

Entre elles ha um primorosamente trabalhado, em geral, e é a colhér. Vivendo de leite, o Luina não pode prescindir da colhér, e dispensa a faca. O seu systema de alimentação explica a falta d'esta e o muito uso d'aquella.

[Figura 99.--Objecto de Ferro forjado que serve de Lenço de assoar aos Luinas. Especie de Espàtula.]

[Figura 100.--Pratos e Escudellas para a comida.]

[Figura 101.--Colhér.]

[Figura 102.--Machado de cortar Madeira.]

A industria ceràmica limita-se no Barôze á fabricação de panellas para cozinha, para a capata, e grandes talhas de barro para guardar cereaes. Àlém d'isto, fornalhas para os cachimbos de fumar o _bangue_.

[Figura 103.--Artigos de Barro. 1. Panellas de cozinha. 2. Tálha de guardar cereaes. 3, 3. Fornalhas dos cachimbos.]

O Luina só fuma o _bangue_; o muito tabaco que cultivam é empregado exclusivamente para cheirar, e d'elle fazem grande uso homens e mulheres. É este o pôvo mais coberto que encontrei em Àfrica. É raro ver-se ali um homem ou mulhér despidos da cintura para cima. Os homens, como ja disse no capìtulo anterior, usam umas pelles passadas em um cinto, que pendem adiante e atraz, chegando até aos joêlhos. Um manto de pelle, que posto, assemelha as capas do tempo de Henrique 3^o, cobre-lhes o tronco e cahi-lhes até meia perna.

Um largo cinto de couro, independente do que lhes segura as pelles da cinta, muitas manilhas e muitos amulêtos, completam o seu trajar. As mulheres trajam um saio de pelles, que adiante chêga ao joêlho, e atraz desce até ao grôsso da perna. Sôbre o saio um largo cinto enfeitado de buzio (_caurim_). Um pequeno manto de pelles, muitas missangas ao pescôço e muitas manilhas nos braços e pernas, sam o vestuario do paiz. Vemos hôje muitas indìgenas substituindo as pelles por estôfos Europêus, os capotes por cobertores de algodão, e mesmo tôdo o trajar gentìlico, por o fato do homem civilizado; mas eu aqui não curo das excepções, falo no traje primitivo do paiz, e não nas innovações que o commercio ali tem levado. É preciso contudo revelar, que este pôvo tem uma tendencia manifesta para se vestir. De certo, antes da invasão dos Macololos, os Luinas deviam andar muito pouco cobertos. Os povos Chuculumbes, seus vizinhos de leste, andam completamente nús, homens e mulheres. A oeste os Ambuelas fôram tambem encontrados nús, pêlos primeiros sertanejos Portuguezes que ali se aventuráram,[3] e ainda hôje não se cobrem muito.

[Figura 104.--Homem Luina.]

O trajar dos Luinas que eu descrevi, é o mesmo usado outróra pêlos Macololos, e por isso é de crer que fôsse introduzido por elles.

Essa tendencia, que eu faço notar, d'este pôvo para se vestir, deve merecer a attenção do commercio, e é uma tendencia a explorar em beneficio d'elle, dos indìgenas e da civilização.

[Figura 105.--Mulhér Luina.]

As mulheres nobres, e em geral as ricas, untam o côrpo com manteiga de vacca misturada de talco em pó, que lhes dá á pelle um lustro avermelhado, e ao mesmo tempo um cheiro desagradabilissimo.

Entre os Luinas encontram-se muitas espingardas de fulminante, de fàbrica Ingleza, levadas ali pêlos sertanejos do sul, e outras de silex Belgas, vindas do commercio Portuguez de Benguella; mas os indìgenas, ao contrario do que acontece, com tôdos os povos da costa de Oeste até ao Zambeze, preferem as armas de fulminante, e alguns ha, que só querem ja carabinas raiadas. Não usam cartuxo como os Bihenos e povos circumvizinhos d'estes, e trazem a pòlvora sôlta em cornos, ou em cabaças. As armas do paiz sam azagaias, porrinhos, e machadinhas. Não usam frechas.

[Figura 106.--Azagaias Luinas.]

[Figura 107.--Machadinhas de guerra.]

[Figura 108.--Porrinho.]

T[~e]m por arma defensiva grandes escudos ogivaes, de couro de bôi armados em madeira. Cada homem traz, em geral, de cinco a seis azagaias de arremêço.

Os ferros d'estas azagaias, sem serem envenenados, não sam por isso menos terriveis; devido ás barbas desencontradas que lhes fazem, de modo que, na maior parte dos ferimentos, é preciso matar o ferido para lh'-as arrancar do côrpo.

O que eu vi usarem os Luinas, e mostrou a preferencia que t[~e]m, fôram as missangas chamadas no commercio de Benguella, missanga leite, azul celeste e Maria 2^a.

Os cassungos finos, branco, azul e encarnado, sam tambem estimados.

Fazendas tôdas sam bôas para o Lui, preferindo elles as melhores. O arame de latão, de três a quatro milìmetros de diàmetro, tem valor, e a roupa feita, cobertôres, armas de percussão, fulminantes, pòlvora, chumbo em barra, e artigos de caça, sam ali cotados em subido prêço.

Em tôdo o paiz o commercio é feito exclusivamente com o règulo, que faz d'elle monopolio; pertencendo-lhe tôdo o marfim que se caça nos seus estados, e tôdos os gados dos seus sùbditos, a quem elle os pede quando precisa. Das fazendas, armas e outros artigos que permuta, faz presentes aos seus caçadores, chefes de povoação, côrte, etc.

As mulheres gozam de bastante consideração, e entre a nobreza não fazem nada, passando a vida sentadas em esteiras, a beber capata e a cheirar tabaco. Possúem muitos escravos, pêla maior parte Macalacas, que as servem.

Os grandes rebanhos dos Luinas, sam de bôis de uma raça magnìfica, e mesmo as suas gallinhas e cães sam de melhores raças do que os que encontrei até ali.

O valle do Barôze está cercado por éste a sul da terrivel mosca zê-zê, o que os obriga a concentrarem os gados na planicie, e torna difficil a sahida d'elles, a não ser para oeste no caminho de Benguella, tôdo limpo do prejudicial diptéro.

Eis em curto resumo o que eu vi d'esse paiz, que primeiro, antes da invasão de Chibitano, foi visitado por um Portuguez (Silva Porto), que foi visto depois por David Livingstone, debaixo do imperio dos Macololos, e que eu encontrei em condições bem differentes, sôb a dinastia Luina, em 1878.

Retomando a narrativa das minhas tristes aventuras, no dia 5 de Setembro, dia seguinte ao da revelação de Marianna, resolvi fazer com que os traidôres fôssem trahidos por um dos seus, e lancei as minhas vistas sôbre Verissimo Gonçalvez.

Chamei-o á minha barraca, e mostrei-lhe antes de lhe falar, a copia de uma carta apòcrypha, escrita para Benguella, em que eu dizia ao governador, que, tendo desconfianças de Verissimo, lhe pedia que mandasse prender a mulhér, o filho, e a mãe d'elle, e se acaso acontecesse eu ser vìctima de alguma traição, as mandasse para Portugal, onde eu disse ao Verissimo que os meus parentes as fariam queimar vivas.

Depois d'este exordio, assegurei-lhe, que aquella carta fôra escrita como simples prevenção, porque eu confiava plenamente na sua dedicação por mim; mas que essa dedicação tinha de estar vigilante, porque eu desconfiava levemente do Caiumbuca, e se me acontecêsse alguma desgraça, eu não poderia evitar os horrores que estavam reservados aos entes que lhe eram caros. Disse-lhe sobre tudo, desconfiava que Caiumbuca não transmittia ao rei o que eu lhe dizia, assim como me dava transtornadas as respostas de Lobossi. Que elle deveria estar sempre presente nas minhas entrevistas com Lobossi, e dizer-me em Portuguez (Caiumbuca não falava Portuguez) o que elle dizia ao rei.

Verissimo, embaraçado, disse-me, que eu não me enganava, e contou-me tudo. Eu preveni-o, que não deixasse perceber nada a Caiumbuca, e que me tivesse ao corrente do que elle tramava.

N'essa tarde, Lobossi mandou-me dizer, que estava prompta a gente que me devia acompanhar, para eu seguir para a costa de Moçambique, e por isso podia partir quando eu quizesse.

Eu estava um pouco melhor, e desde a minha chegada ao Zambeze, ainda não tinha passado tão bem como n'esse dia.

O meu acampamento era muito grande, porque os Quimbares se haviam dividido pêlas barracas dos Quimbundos depois da sahida d'estes. O centro era um largo circular, de não menos de cem metros de diàmetro. A um lado, dentro da fila das barracas, ficava a minha barraca, cercada por uma sebe de canas, que fechava um recinto, onde só entravam os meus muleques de serviço.

Era a 6 de Setembro. O thermòmetro durante o dia tinha marcado com persistencia 33 graos centìgrados, e o calor reflectido pêla areia tinha sido incòmmodo.

A noute apresentou-se serena e frêsca, e eu, sentado á porta da minha tenda, pensava no meu Portugal, nos meus e nos amigos, no futuro da minha emprêsa, tão ameaçada ali, e ora alegre ora triste, não perdia a fé e esperava. O acontecimento da ante-vèspera vinha pairar como nuvem nêgra sôbre o ceo lìmpido da esperança.

Os meus Quimbares, recolhidos nas barracas, conversavam junto das fogueiras, só eu estava fora. De sùbito prendeu-me a attenção um sem-nùmero de pontos luminosos que vi atravessarem o espaço.

Sem saber ao principio explicar o que seria aquillo, tive um presentimento, e sahi do cercado de caniço que rodeava a barraca.

Logo que cheguei fora, tudo me foi revelado, e um grito pungente de angustia suprema escapou-se-me da garganta.

Alguns centos de indìgenas cercavam o acampamento, e lançavam achas ardentes sôbre as barracas cobertas de herva sêca.

Em um minuto o incendio, ateado por um vento forte de este, tomava incremento horrivel. Os Quimbares sahiam espavoridos das barracas incandescentes, e pareciam loucos.

Augusto e a gente de Benguella reuníram-se em tôrno de mim. Em presença de um perigo tão terrivel, aconteceu-me o que por mais de uma vez me tem acontecido em iguaes circunstancias. Fiquei sereno e tranquillo de espìrito, pensando só em lutar e vencer.

Gritei á minha gente, semi-louca de se ver apertada em um cìrculo de fôgo, e consegui reunil-a no meio do espaço interior do campo.

Á frente de Augusto e dos muleques de Benguella, entrei na minha barraca em chamas, e consegui tirar d'ali as malas dos instrumentos, os meus papéis e trabalhos, e a pòlvora. A esse tempo as barracas abrazavam tôdas, mas o fôgo não podia attingir-nos. Verissimo estava a meu lado, inclinei-me para elle e disse-lhe, "Eu defendo-me aqui por muito tempo, passa por onde poderes e como poderes, e vai a Lialui dizer a Lobossi que a sua gente me ataca, diz tambem a Machauana o perigo que côrro."

Verissimo correu ás barracas em chamas, e eu vi-o desapparecer por entre as labaredas. A esse tempo ja as azagaias ferviam em tôrno de nós, e ja haviam alguns ferimentos graves, entre elles um do prêto Jamba de Silva Porto, que tinha uma azagaia cravada no sobrolho direito. Ás azagaias respondiam os meus Quimbares com as balas das carabinas, mas o gentio avançava sempre, e ja entrava no acampamento, onde as barracas consumidas não offereciam barreira insuperavel. Em tôrno de mim, que desarmado segurava a bandeira da minha patria, estavam batendo-se como verdadeiros bravos os meus valentes Quimbares. ¿Estavam tôdos? Não. Faltava ali um homem, um homem que deveria estar ao meu lado e que ninguem tinha visto. Caiumbuca, o meu immediato, desapparecêra!

[Figura 109.--Ataque contra o acampamento no Lui.]

Ao amortecer do incendio, eu vi que o perigo era real e enorme. Eram cem contra um.

Parecia a imagem do inferno ver aquelles vultos nêgros, que com estridente grita pulavam ao clarão das chamas, avançando para nós cobertos com o alto escudo e brandindo as puidas azagaias. Foi um combater encarniçado em que as carabinas de carregar pêla culatra, pêlo seu fôgo sustentado, continham em respeito aquella horda selvagem.

Contudo eu calculava que o têrmo do combate não estava longe, porque as munições desappareciam ràpidamente; eu só tinha no comêço quatro mil tiros para as carabinas Snider, e vinte mil para as armas de carregar pêla bôca, mas não seriam essas as que me defenderiam; e logo que o fôgo abrandasse, por faltarem as armas de carregamento ràpido, serìamos esmagados pêlo gentio desvairado. O meu Augusto, que parecia um leão raivoso, chegou-se a mim com suprema angustia, mostrando-me a carabina, que acabava de rebentar. Disse ao meu muleque Pépéca, que lhe entregasse a minha carabina de elephante e a cartuxeira. Augusto correu para a frente, e fez fôgo para onde o grupo do gentio era mais compacto. Um momento depois, a grita infernal dos assaltantes tomou um tom differente, e virando costas, tomáram elles precipitada fuga.

Só no dia seguinte, pêlo rei Lobossi, eu devia saber o que produzira um tal reviramento. Fôram os tiros do meu Augusto.

Na cartuxeira de que elle lançou mão havia balas carregadas de nitro-glicerina.

O effeito d'estas, fazendo desapparecer em bocados, pêla explosão, as cabêças e os peitos em que acertavam, produzio o pànico no meio d'aquelle gentio ignaro, que vio n'uma coisa nova para elle, um feitiço irresistivel.

Foi a Providencia que me quiz valer.

Conheci que estava salvo. Meia hora depois, appareceu-me o Verissimo, com uma grande fôrça capitaneada por Machauana, que vinha em meu soccôrro, por ordem do rei Lobossi. Lobossi mandava dizer-me, que era estranho a tudo, e que, provavelmente, o seu pôvo, sabendo que eu fôra ali para os atacar de combinação com os Muzungos de leste, que estavam com Manuanino, fizéram aquillo por sua conta; mas que elle ia tomar as mais vigorosas providencias para eu não soffrer mais aggressões. Tudo aquillo, se não foi ordenado por elle, foi por Gambela.

Verissimo, vendo os desastres do combate, perguntou-me ¿o que haviamos de fazer? e eu respondi-lhe com as palavras de um dos maiores homens Portuguezes dos ùltimos sèculos:--"Enterrar os mortos, e tratar dos vivos."

No incendio soffrémos perdas graves, mas mais graves eram as pêrdas de vidas por tão insòlito ataque. A bandeira Portugueza estava furada das azagaias selvagens, e salpicada do sangue dos bravos; mas as manchas que tinha, só serviam para fazer realçar a sua pureza immaculada; e mais uma vez, longe da patria, e por terras ignotas, tinha-se sabido fazer respeitar, como sempre o soube, e como sempre o saberá.

Depuz as armas de soldado, para me improvisar em cirurgião cuidadoso, e o resto da noute foi passado a curar os feridos e a alentar os sãos, sempre apercebido e vigilante, apesar dos novos protestos do rei Lobossi.

Logo que amanheceu, fui procurar o rei, e falei-lhe àsperamente sôbre o acontecimento da noute. Tornei-o, diante do seu pôvo, responsavel pêlas desgraças d'aquella noute; e disse bem alto, que aquelles que tivessem a chorar a perda de parentes, só a elle deviam lançar culpas.

Disse-lhe, que queria seguir sem perda de tempo, e annunciei-lhe, que ia estabelecer o meu campo nas montanhas, onde podesse com vantagem resistir a um nôvo ataque.

Elle teimou muito comigo, para lhe dar ou ensinar o feitiço que eu tinha empregado na vèspera, fazendo com que os prêtos rebentassem por si. Era assim que elles explicavam o caso funesto das balas explosivas inconscientemente empregadas por o meu Augusto.

Apesar da muita vontade que eu tinha de deixar a planicie e ir para as montanhas, não pude realizar esse desejo senão a 9, por causa do estado dos feridos; e no dia 7 e 8, lutámos com a fome; porque ninguem nos quiz vender de comer, e o rei dizia, que nada tinha para me dar. Fôram as lagôas que fornecéram abundante pesca e alguns patos muito magros. Machauana mandou-me leite, e continuou a mostrar-me a maior dedicação. Foi, como disse, a 9 que deixei a planicie e alcancei as montanhas perto de Catongo, chegando tôdos, feridos e sãos, no maior estado de fraqueza.

O nôvo systema adoptado, de nos matarem pêla fome, preoccupou-me, e dava-me sèrios cuidados n'um paiz sem caça.

Tinha-mos, é verdade, a pesca das lagôas.

CAPÌTULO X.

A CARABINA D'EL-REI.

A traição--Perdido--A Carabina d'El-Rei--Miseria--Novas scenas com o rei Lobossi--Partida--No Zambeze--Caça--Moangana--O Itufa--As pirogas--Sioma--Cataracta de Gonha--Bellezas naturaes--O basalto--A região das cataractas superiores--Balle--Bombué--Na foz do rio Gôco--Cataracta de Nambue--Os ràpidos--Viagem vertiginosa--Catima Moriro--Quisseque--Eliazar--Carimuque--O rio Machila--Muita caça--Tragedia--Embarira.

Depois de marcha de 15 milhas, acampei na floresta que cobre os flancos das montanhas de Catongo. Marcava esta aldea a S.E. uma milha distante do sitio que escolhi para acampar.