Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo
Part 20
A sêde do govêrno estava em Pretoria, a mais pequena das três cidades do Transvaal, mas aquella que melhor se acha collocada.
Os homens que tinham a direcção principal dos negocios pùblicos eram Hollandezes.
Esta era a posição da população heterogènea do Transvaal em principios d'Abril de 1876.
Vejamos agora ràpidamente, qual era a posição moral, verdadeira ou apparente, dos Böers.
Primeiro examinemos qual o juizo que fora d'Àfrica se fazia dos Franco-Hollandezes da rèpùblica Africana. Era elle de certo pèssimo.
O Böer era um selvagem branco, possuindo todos os maos instinctos do selvagem, àvido de rapina, devastando e incendiando as aldeas do indìgena, pobre martyr da brutalidade e rapacidade de tão extraordinario malvado.
Foi assim que elle nos foi apresentado por alguns missionarios, os ùnicos que na Europa nos davam noticias dos antigos emigrantes do Cabo.
Forte contra o fraco, o Böer era cobarde e fraco em presença do forte.
O que havia de verdade n'este juizo eu o direi ao diante.
Então estavam elles moralmente desconceituados para com aquelles que apenas os conheciam por informações; e tinham perdido um pouco o prestigio entre o gentio pêlo revez soffrido com Secúcúni. Falavam mesmo, e entre elles discutia-se a questão, de depor o presidente Burgers, elegendo para seu chefe um Böer, P. Kruger, que estava dispôsto a tirar a desforra do indìgena Secúcúni.
N'estas circunstancias a annexação era facil, e Sir T. Shepstone soube aproveital-a. As cidades que não tinham nada de Böers, eram por elle, e n'ellas se obtivéram facilmente petições, que, digamos a verdade, eram dirigidas por Inglezes.
Tambem se disse, que os prêtos queriam ser Inglezes; e então Sir T. Shepstone, por uma proclamação, de 12 de Abril de 1876, declarou que o Transvaal era uma provincia Ingleza. Sir Theophilus Shepstone quando fez a proclamação estava escoltado por 25 homens apenas, que estavam acampados em barracas no jardim da casa que elle habitava.
Assim, pois, a annexação do Transvaal foi pacìfica, e não interveio n'ella a fôrça armada, que elle mesmo não tinha, porque o regimento 80 de infanteria, que, debaixo do commando do Major Tyler, depois entrou no Transvaal, estava a esse tempo acampado na fronteira do Natal àlém do Drakensberg. A annexação foi pacìfica, mas os Böers so soubéram d'ella depois de annexados.
Sir Theophilus Shepstone, o homem que melhor conhece e melhor sabe viver com o indìgena d'aquellas paragens, soube o que fez.
Os Böers, espantados de se acharem Inglezes de um dia para outro, tivéram o seu movimento instinctivo e hereditario de emigrarem de nôvo.
Uma parte d'elles tomáram a vanguarda n'esse movimento que se devia effeituar em massa, e ja narrei no capìtulo anterior como fôram, pêla maior parte, destruidos pêla secura do Deserto.
Aquella immensa catàstrophe sustêve os que lhe deviam seguir os passos, e perfeitamente apertados n'um cìrculo de môsca zê-zê, que lhes era barreira insuperavel, tivéram que curvar a cabêça de nôvo ao jugo da Inglaterra.
¿Acabará aqui a historia do Transvaal como paiz autonòmico?
¿Quem o sabe?
É preciso ter vivido entre os Böers para se avaliar quão forte é n'elles o desejo da liberdade, quão profundo o odio que votam aos que chamam seus oppressôres.
Deixemos por aqui este ràpido golpe-de-vista lançado sôbre a curta historia do Transvaal, mas antes de reatar o fio da minha narrativa de viagem, quero ainda dizer duas palavras sôbre os Böers.
Vivi entre elles, perscrutei a sua vida ìntima, desci a exacerbar-lhes as paixões. Vi-os ao trabalho, cavalguei junto d'elles por brenhas e florestas, e apreciei a sua destreza como caçadores, a sua coragem em face do perigo.
Não me preoccupa a paixão; se recebi d'elles as mais affectuosas provas de amizade, ja por mais de uma vez n'este livro tenho patenteado a minha gratidão a favôres maiores recebidos de Inglezes.
Falo, pois, com a consciencia de que as minhas palavras sam a mais rigorosa expressão da verdade, sem que no meu espìrito haja ao dictal-as a menor influencia apaixonada.
Digo isto, porque mais uma vez tenho de falar dos missionarios, falando dos Böers, e não desejo que nem de leve se pense, que actua no meu ànimo um acinte formado contra tão uteis instituições, que eu sou o primeiro a proteger e a approvar; mas cujas chagas ulcerosas precisam do corte fundo do escalpêllo da crìtica, do cauterio ardente da censura verdadeira, para cicatrizarem de uma vez para sempre.
O Transvaal não é uma nação que se possa avaliar pêlas nações da Europa.
Ali ha uma só classe social--o Pôvo. Não ha distincções e tôdos sam iguaes em absoluto. Sem escolas, tôdos sam ignorantes; trabalhadôres, tôdos sam abastados; religiosos, e bebendo na Biblia, ùnico livro que conhecem, as leis da moral, tôdos sam honestos.
O principio que estabeleceu, na idade media, as distincções na Europa, a coragem pessoal, difficil é ter cabida entre os Böers, porque tôdos sam valorosos. Como entre tôdos os povos que vivem uma vida elementar, só toma ascendente sôbre os outros, aquelle que tem o dom da palavra.
A vida do Böer é regulada pêlos preceitos Bìblicos, e é verdadeiramente patriarchal. Entre os Böers não ha a mentira, o adulterio é desconhecido.
O Böer casa cêdo, e ou fica vivendo na casa de seus paes, ou dos paes de sua mulhér, ou unido a outro vai perto arrotear novos terrenos, e começar uma vida nova. A ùnica distincção entre os Böers é a da idade, e o mais nôvo escuta sempre o mais velho. A mulhér trabalha e ajuda o casal n'um labutar incessante. O Böer tem necessidades muito limitadas, e pode satisfazel-as.
Os emigrantes Francezes da revogação do Edito de Nantes eram, muitos d'elles, artìfices, e transmitíram até á gèração actual a arte de trabalhar a madeira e o ferro. Nas casas do Transvaal é facil ver a um canto um tôrno, e um Böer torneando os pés das suas mobilias singelas.
Fora, n'um alpendre, em atanaría rudimentar, curtem-se os coiros de que elles mesmos fazem o seu calçado.
As outras necessidades da vida sam facilmente satisfeitas por gentes que não t[~e]m outra ambição àlém da liberdade, e que ha um sèculo a buscam quasi em vão.
¿Como, pois, sendo os Böers taes como eu os descrevo, se diz d'elles tanto mal?
A explicação do facto está em pouco para quem viveu no Transvaal, entre elles, e isento da paixão de raça que pode perturbar o espìrito mais justo e sisudo. Quem tem desacreditado os Böers sam os missionarios. Digo-o e sustento-o. Depois que os Böers, occupando o Transvaal, e pacificando pêla fôrça as aguerridas tribus que lhes disputáram a posse, déram uma certa segurança ao paiz, dezenas de missionarios corréram a estabelecer-se ali.
D'estes uns eram bons, muitos maos. Preciso dizer aqui o que é o bom e o que o mao missionario.
Bons sam aquelles que, intelligentes e illustrados, possuindo as qualidades que se requerem nos ministros de Deos, caminham para o seu fim desassombradamente; edificando com paciencia, com paciencia soffrendo o revés de hôje na esperança do triumpho de àmanhã; ensinando a moral com o exemplo e com a palavra; indo de vagar sem a agitação da paixão que cega, possuidos da responsabilidade da sua missão augusta.
Bons sam aquelles que á intelligencia e illustração reunem aquellas _flôres d'alma_ de que falei.
Estes existem, mas infelizmente sam em pequeno nùmero.
Maos sam os missionarios que, pouco intelligentes e quasi ignaros, pensando que a sciencia da vida consiste em saber mal e interpretar peior algumas passagens dos Livros Santos, empregam tôdos os meios, mais ou menos dignos, para alcançar um fim ficticio; e corroïdos do veneno da vaidade, ou movidos pêlo interesse pessoal, querem apresentar ás sociedades que os enviam, resultados extraordinarios, alcançados por meios que não se avaliam na Europa, e que sam a causa principal da prolongação da luta travada em Àfrica entre a civilização e a barbària.
Para estes, o fim principal é insinuar-se no ànimo do indìgena, e na falta de qualidades que lhe ensinem o caminho a seguir, usam um meio facil para obter o seu fim, meio que lhes dá sempre bom resultado.
É elle o de prègar a revolta.
Para os ouvidos do indìgena é sempre mùsica harmoniosa a frase que o ensina a revoltar-se contra o branco.
Os missionarios que t[~e]m pouco saber e pouca intelligencia começam por gritar-lhe, a cada hora, a cada momento, no pùlpito sagrado, que so deve ouvir a linguagem da verdade; que elles sam iguaes ao branco, sam iguaes ao homem civilizado; quando so lhes deveriam dizer o contrario, quando so lhes deveriam dizer:--"Entre ti e o Europêo ha uma differença enorme, e eu venho ensinar-te a vencel-a."
"Regenèra-te, deixa os teus hàbitos de indolencia, e trabalha; deixa o crime, e pratica a virtude que eu te ensinar; aprende e deixa a ignorancia; e então, e so então, poderás alcançar um logar junto ao branco; poderás ser seu igual."
Esta é a verdade que lhe ensinam os missionarios bons, esta é a verdade que lhe não sabem dizer os maos.
Dizer ao selvagem ignaro, que elle é igual ao homem civilizado, é mentir, é commetter um crime, é faltar a tôdos os devêres que lhe impoz aquelle que o mandou á Àfrica, é atraiçoar a sua missão sagrada.
Dizer ao selvagem ignaro, que elle é igual ao homem civilizado, é abrir a jaula á fera diante do pôvo descuidôso que tranquillo está confiado em que a chave está em mão segura.
Não! o indìgena, tal como o missionario o encontra n'Àfrica, não é igual ao homem civilizado, está muito longe d'isso.
N'elle estam adormecidos os instinctos bons, para so se revelarem os maos.
N'elle ha a indolencia e o horror ao trabalho; n'elle ha a ignorancia absoluta: e bastam estas qualidades más, àlém de outras, para cavarem um abismo entre elle e o branco.
O systema seguido pêlos missionarios maos é o estabelecimento da desordem; é a maior barreira levantada ao progresso da Àfrica Austral.
Os Böers, tendo conquistado um paiz de ha pouco, em breve percebêram que, se alguns missionarios eram auxilio poderoso á sua dominação, outros lhe criavam conflictos e obstàculos.
Começáram, pois, a fazer guerra a estes, que procuráram logo desconceitual-os aos olhos da Europa.
D'ahi nasce o exàgero da ma fama dos Böers. Esta é uma verdade que eu tenho a coragem de dizer n'um livro d'estes, e que ninguem ainda disse antes de mim.
Vivi entre os Böers, ouvi a muitos exaltar as qualidades de tal ou tal missionario, e deprimir os actos de outros e outros. Vivi em Pretoria, e ali, n'um meio muito superior, ouvi a mesma cousa, de Hollandezes e Inglezes. Vivi com missionarios, e encontrei n'elles mesmos as verdades que affirmo.
Não t[~e]m d'isso culpa as bem-intencionadas sociedades que os subsidiam; não t[~e]m d'isso culpa as autoridades que os apoiam, e que sam d'elles muitas vêzes as primeiras vìctimas.
O missionario deve ser um dos primeiros elementos da futura civilização, e d'elles devemos esperar muito; mas, taes como muitos sam, so dam resultados contraproducentes.
O mao missionario prègou a revolta, e o Böer foi atacado. Houve guerra cruenta, e para a Europa fôram relatados os factos horrosos praticados pêlos Böers, contra os bons, innocentes, e pacìficos indìgenas!!
¡Não nos ceguemos, nos nossos bem intencionados sentimentos, a ponto de admitirmos absurdos, de sonharmos chimeras!
¡Eu ja li em alguma parte, que o Böer era muito inferior ao nêgro!!
¡Outra asserção que ja ouvi affirmar tambem, foi, que o Böer era refractario ao progresso!
¡Outro absurdo, outra aleivosia, sahida da mesma fonte!
Não é o missionario o homem que hade levar o adiantamento ao Böer, e a razão d'isso é o meu principal argumento contra a obra de muitas missões, contra o caminho errado que seguem em Àfrica.
Ja tive occasião de falar em missionarios bem intencionados, mas que erravam na sua missão querendo ensinar as abstracções da theologia aos prêtos. Esta verdade revela-se no nada que elles obt[~e]m junto aos Böers.
O Böer sabe tanta theologia como o missionario, se não sabe mais do que muitos, bebida na Biblia, ùnico livro que elle lê e estuda.
O missionario que julga o seu trabalho ser ensinar a Biblia, nada tem que ensinar ao Böer, e deixa-o no estado em que o encontrou.
¡Depois grita, que o Böer é refractario ao progresso!
Sim! elle não adiantou um passo, porque o não soubéram fazer avançar. A culpa não está no discìpulo, está no mestre.
Outra aleivosia levantada contra os fazendeiros do Transvaal, é o ferrête de cobardes que lhes querem imprimir na fronte altiva.
Eu tive occasião de avaliar a coragem dos Böers; mas, se a não tivesse, bastava-me a historia das guerras vencidas por elles contra Zulos, Cafres e Basutos, para os soppôr bravos.
Deos queira que elles não mostrem ainda o seu valor, de modo a fazer calar os aleivosos.
Hôje que escrêvo estas linhas, chegam á Europa rumôres de uma tentativa de sublevação Böer; será ella uma calamidade á Àfrica Austral, que tôda a Europa deve lastimar; será esmagada, como ninguem o pode duvidar; mas virá trazer um desmentido formal áquelles que chamam cobardes aos Böers.
[Figura 137.--O que restava da expedição.]
CAPÌTULO VII.
NO TRANSVAAL (_continuação_).
M^{r.} Swart--Difficuldades--D^{or.} Risseck--Eu gastrònomo!--Sir Bartle Frere e o Consul Portuguez M^{r.} Carvalho--O Secretario Colonial M^{r.} Osborn--Jantares e saraus--O missionario Rev. Gruneberger--M^{r.} Fred. Jeppe--O jantar do 80 de infanteria--Major Tyler e Capitão Saunders--Insubordinação--M^{r.} Selous--Monseigneur Jolivet--O que era Pretoria--Uma photographia de pretas--Episodio burlêsco da guerra tràgica dos Zulos.
Era em Pretoria, ja cidade Ingleza e capital da provincia Transvaaliana, que eu entrava na manhã de 12 de Fevereiro de 1879.
Encontrei logo o thesoureiro do Govêrno, M^{r.} Swart, que me fez os mais cordiaes offerecimentos, mas que me disse, não me convidar para seu hòspede, porque não tinha na pequena casa que habitava um quarto a offerecer-me.
Fomos aos hoteis. Nem um quarto, nem uma cama!
Voluntarios, que de tôdas as partes corriam a alistar-se nos corpos que se organizavam ali, attrahidos por uma paga de cinco xelins por dia, enchiam tudo, e criavam-me um embaraço enorme. Eu, que até ali tinha tido cama, desde Benguella, comecei, na primeira cidade civilizada que encontrava, a não ter onde me deitar!
Emfim, depois de muitas buscas e de me terem provado que as conveniencias sociaes (eu ja me tinha esquècido das conveniencias sociaes) me não permittiam dormir na praça pùblica, onde eu ficaria optimamente nas minhas pelles de leopardo, pude obter um canto, no Café Europêo, onde me metti, com a promessa de um quarto em poucos dias. Estava arrumado, mas começáram novas difficuldades para acommodar a minha gente.
Mandei chamar o Böer Low, que precisava de tratar a mão esmagada pêlo vagom, mas preveni Verissimo, que se deixasse ficar acampado fora da cidade até nova ordem.
O portador voltou com Low e Verissimo, que me veio dizer, que a minha gente tinha fome, e era preciso dinheiro para lhe dar de comer.
Fiquei espantado ao ouvir aquillo. Eu ja me havia esquècido de que o dinheiro era absolutamente necessario em paiz civilizado, e não tinha nenhum.
Contudo comprehendi que era preciso havel-o, e fui pedil-o ao meu hospedeiro M^{r.} Turner, que logo m'o prontificou. Mandei Low a um mèdico, e eu dirigi-me a casa de M^{r.} Swart, que me convidara a jantar.
M^{r.} Swart tinha feito convites e programma. Eu que sube isso, fiz tambem grande _toilet_. Os meus calções, que da fazenda primitiva ja pouco tinham, e onde os remendos deitados por mim (que nunca tive grande geito para alfaiate) se sobrepunham, fôram cuidadosamente escovados do pó e da lama de vinte differentes paizes. Achei um par de meias, que tinham sido repassadas com grande pericia por Madame Coillard, e que faziam vista. As minhas botas ferradas, essa obra prima de Tissier de Paris, fôram pêla primeira vez engraixadas, e não tinham má apparencia. O casaco dàva-me mais cuidados, porque tinha uns bolços de couro, que haviam sido outrora prêtos, mas que então haviam tomado uma côr exquisita. Lembrei-me do tinteiro de M^{r.} Turner, e com uma penna de gallinha procedi á pintura d'elles, que tomáram um prêto baço, talvez ainda peior do que a côr que tinham.
Depois de bem penteada a longa barba e os mais longos cabellos, fui para casa do Thesoureiro do Transvaal.
Ao passar os umbraes da porta do salão, fiquei deslumbrado.
As damas em toilet, os homens de casaca, os leques, as vistosas e brilhantes côres das sêdas, os tapêtes, os espêlhos, tudo aquillo que eu ja tinha esquècido em tantos mêzes de vida rude e selvagem, produzíram-me uma impressão que não pode ser avaliada.
[Figura 138.--Eu em Pretoria. (De uma photographia de Mr. Gross.)]
Deve sentir cousa semelhante o cego, a quem o bisturi ligeiro do mèdico levantou a cataracta que o tinha sepultado nas trevas, e que depois de muitos mêzes de escuridão vê a luz.
Eu estava perturbado, e sôbre tudo as mãos incommodàvam-me muito.
Não sabia que fazer d'ellas, e buscava de balde em que as occupar.
Faltàva-me o pêso da carabina, que eu procurava instinctivamente, em vão.
Fomos para a mêsa. Eu conduzi pêlo braço a dona da casa, e ao chegar os meus andrajos ás sêdas que a cobriam, comecei a perceber que estava muito mal vestido.
Á mêsa experimentei novas sorprêsas. Os cristaes, as porcelanas, os vinhos rutilando nas jarras lapidadas, confundiam-me, e sôbre tudo o _menu_ exquisito, escrito em elegantes cartões, intrigàva-me.
Commetti de certo desatinos, mas não posso bem avaliar tôda a extensão dos meus disparates, tão inconsciente estava.
Terminado o jantar, voltámos á sala, onde continuava a minha confusão, até que uma dama se sentou ao piano.
Os seus dêdos corrêram ligeiros sôbre as teclas, fazendo vibrar n'as cordas em harmoniôso concêrto, um dos Nocturnos de Chopin.
A impressão que me causou aquella mùsica, aquelle piano, cujos sons me penetravam na alma como uma sensação nova, acabáram de perturbar o meu espìrito, fraco para poder resistir a tantos abalos. Foi quasi em dilirio que voltei ao Café Europêo, onde n'um canto de uma sala me haviam improvisado um leito, leito que tinha colchões, travesseiros e lençoes.
Ia para me deitar como de costume, quando percebi que me deveria despir para isso.
Passei uma noute de insomnia, produzida pêlas impressões do dia e pêlos lençoes da cama.
Ao amanhecer eu estava a pé e vestido, porque na sala, em que podia ter dormido, começou um labutar de criadagem. Comecei a pensar no modo de accommodar a minha gente, o que não me parecia facil, e vi que sôbre tudo precisava de obter dinheiro.
Estava fazendo os meus planos, quando me chamáram para o almôço.
Fui para a mêsa. Um criado Indio, um d'esses _culis_ que ja chegáram até Pretoria, collocou diante de mim um prato de espigas de milho, cuidadosamente assadas, e um pires de manteiga. Ao encarar com o milho assado, lancei ao pobre criado um olhar tão feroz, que elle recuou espavorido.
¡Milho a mim! ¡a mim que so matava a fome com milho havia um anno! ¡Ah! que vontade que tive de empalar aquelle Indio, o cozinheiro e o dono da casa!
Fiz um gesto tão expressivo e enèrgico, que as espigas desapparecêram da mêsa, levadas pêlo veloz criado.
Pouco depois, chegava-se solìcito a mim M^{r.} Turner, a perguntar-me o que eu queria para almoçar.
¿O que eu queria para almoçar? Mas eu queria tudo, queria perdizes com trufas, queria _foie gras_, queria gelados, queria vinhos das melhores colheitas de Burgonha, queria, queria... nem eu sei o que queria.
O dono do Café Europêo julgou que lhe havia cahido em casa um d'esses gastrònomos famosos, que pensam sempre em elevar uma estàtua ao cèlebre Brillat-Savarin, e que se ainda a não erigíram foi por não acharem materia prima apropriada ao monumento, que fôsse, á semelhança da columna Vendome construida com os bronzes dos canhões conquistados, uma recordação permanente do homem que ensinou á humanidade que no mundo não se come so para viver. Effectivamente, pêla primeira vez na minha vida, eu era gastrònomo.
Pêla primeira vez na minha vida, comecei a pensar que o paladar era um sentido como os outros, e que se Mozart, Rossini, Meyerbeer, Verdi e Gounod, o chilrear das aves e sussurrar do arroio, fôram creados para nos deliciar o ouvido; se Raphael, Rubens, Van-Dyck, Velasquez e Murillo, as paisagens e as bellezas, nascêram para nos recrear a vista; se Atkinson, Rimmel, Lubin, Piesse, e as flôres existem para nos deleitar o olfato; tambem Brillat-Savarin, Vatel, as trufas e os cogumelos não viéram ao mundo sem uma missão especial.
Comecei a comprehender isto, tendo chegado a Pretoria depois de um anno de milho, massango, e carne assada sem sal. Creio que tôdos os paizes do orbe comprehenderám que eu devêsse ser gastrònomo ao chegar a Pretoria, excepto a Inglaterra, porque essa, infelizmente para ella, nunca comprehendeu nem comprehenderá Brillat-Savarin.
Felizmente para mim, eu estava n'uma terra Ingleza, mas Ingleza de frêsco, onde o _roast beef_ e o _plum pudding_ não haviam tomado um ascendente notavel sôbre a cozinha dos paizes meridionaes.
M^{r.} Turner não me deu um almôço como m'o daria o Matta, o Central, o Silva ou o Augusto em Lisboa, o Ledoyen ou o Café Riche em Paris; mas deu-me cousa muito soffrivel. Não quero dizer bôa, porque começava a ser muito difficil em gastronomia.
Depois do almôço, em uma larga conversa que tive com M^{r.} Turner, fiquei desenganado de que não tinha onde accommodar a minha gente na cidade.
Isto preoccupàva-me, porque não podia reter por muito tempo o vagom que elles habitavam.
Eu estava sendo uma especie de urso que tôdos queriam ver, e a curiosidade dos importunos começava a desgostar-me. Sôbre tudo uma cousa que aborrecia era ver os espantos que se faziam da minha pequena estatura e da minha apparencia debil.
Este facto repetio-se na Europa, e em Lisboa, Paris e Londres, ouvi por vêzes expressar aos que me viam a desillusão que experimentavam, por me julgarem um brutamontes, um Golias de talhe hippopotàmico.
Mas se, nas circunstancias em que eu estava em Pretoria, muitos eram importunos e me torturavam, muitos outros procuravam por tôdos os modos servir-me e obsequiar-me.
No nùmero dos ùltimos, contei n'esse dia quatro, que fôram o Major Tyler,[14] Capitão Saunders do 80, M^{r.} Fred. Jeppe e D^{or.} Risseck; e recebi dois convites, um para jantar, de M^{r.} Osborn, Secretario Colonial e Governador interino do Transvaal, e outro do D^{or.} Risseck para a um sarau; mas nada d'isto me adiantava sôbre a maneira de arrumar os meus prêtos.
Pegando na minha carteira para procurar um resto de bilhêtes de visita, encontrei n'ella uma carta de M^{r.} Coillard dirigida ao missionario Hollandez M^{r.} Gruneberger. Aproveitei o ensejo que me offerecia aquella carta para fugir aos massadores, e fui entregal-a.
Mandei aparelhar Fly e parti.
A casa de M^{r.} Gruneberger é em Pretoria, mas um pouco afastada do centro da cidade. Chegado que fui, encontrei o missionario, homem muito nôvo, que me recebeu muito bem. Apresentei-lhe a carta de M^{r.} Coillard, e logo que elle a leu, offereceu-me o seu prèstimo.
Falei-lhe no embaraço em que estava para accommodar a minha gente, e elle prontificou-se a resolvel-o, offerecendo-me o quintal da sua casa, e a sala da escola, para elles dormirem á noute.
Aceitei pressuroso, e voltei ao Café Europêo, para mandar ordem ao Verissimo de ir com o vagom a casa do missionario.
Aceitando o offerecimento do Rev. M^{r.} Gruneberger, fiz-lhe instantes recommendações sôbre o modo de tratar os meus prêtos, pedindo-lhe sôbre tudo, que os não trata-se de igual para igual; porque lhe fiz ver que elles eram um pouco selvagens, e isso poderia trazer consequencias graves. Elle rio-se muito das minhas recommendações, e disse-me modestamente, que o seu mistér era tratar com tal gente, e por isso sabia do seu officio.