Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

Part 13

Chapter 134,037 wordsPublic domain

Foi então que M^{r.} François Coillard, director da Missão de Leribé, foi encarregado de dirigir a expedição que falhara. Partio de Leribé, ponto situado perto do rio Caledon, affluente do Orange e a oeste do Mont-aux-sources, e com sua espôsa e sua sobrinha e seus cathechistas, caminhou ao Norte, e por entre innùmeras difficuldades, que só uma vontade tenaz pode vencer, conseguio alcançar o paiz a que se destinava.

Muito bem recebido pelos Machonas, deu comêço aos seus trabalhos, quando foi atacado por uma fôrça de Matebeles, que o fizéram prisioneiro e o conduzíram com tôda a expedição perante o seu chefe, Lo-Bengula.

O que o missionario e aquellas pobres damas soffreram durante o tempo que estivéram em poder do terrivel chefe dos Matebeles é uma historia triste e compungente.

O chefe, que pretende ter direitos sôbre o paiz dos Machonas, exprobou-lhes o terem ido ali sem a sua prèvia licença, e não lhes permitio voltar lá.

Retrogradou pois até Xoxon, capital do Manguato, e não querendo deixar sem resultado tão dispendiosa e fadigosa jornada, deliberou fazer uma tentativa sôbre o Barôze. Tinha a vantagem de falar a lingua do paiz, bem como os seus cathechistas, que, Basutos de origem, podiam trabalhar facilmente em um paiz onde se falava a sua propria lìngua.

Não foi feliz no Barôze, e ainda que bem recebido e cheio de promessas do astuto Gambela, não lhe consentíram o accesso àlém de Quisseque.

Fôram estes, que exponho muito resumidamente, os motivos que leváram a familia Coillard ao Alto Zambeze, e que occasionáram o nosso encontro n'aquellas remotas paragens.

M^{r.} Coillard e sua espôsa, á èpocha do nosso encontro, estavam em Àfrica havia ja vinte annos!

M^{r.} Coillard é homem de quarenta annos, sua espôsa tem a idade que tem tôdas as damas casadas logo que passam dos vinte e cinco, não tem idade.

O missionario nutre uma grande paixão pelos indìgenas, á civilização dos quaes votou a sua vida.

Sempre tranquillo em gesto e palavra, não se altera nunca, e só tem na bôca o perdão para todas as faltas que vê commetter.

François Coillard é o melhor e o mais bondoso dos homens que eu tenho conhecido.

A uma intelligencia superior reune uma vontade inquebrantavel, e a teimosia precisa para levar a cabo qualquer emprehendimento difficil.

Muito instruido, o missionario Francez tem uma alma moldada para comprehender os mais sublimes sentimentos, e é mesmo poéta.

Procurando e glorificando-se de encontrar qualidades bôas nos indìgenas Africanos, não vê ou não quer ver as más.

É um grande defeito êsse, mas tem elle ampla escusa na sublimidade dos sentimentos que o dictam.

Madame Coillard, como seu marido, é de uma bondade extrema.

Não se chêga a ella o necessitado sem ir satisfeito, o triste sem ir consolado.

Para elles tudo sam irmãos, e tanto estendem a mão ao indìgena como ao Europêu, ao pobre como ao rico, logo que indìgena, Europêu, pobre e rico precisam d'elles.

Eu, por mim, não lhes poderei nunca agradecer os serviços que me fizéram, serviços que me obrigáram tanto mais, quanto maior foi a delicadeza com que fôram feitos.

O correr da narrativa mostrará quem sam estas gentes de quem falo agora muito lacònicamente, e que deviam ser meus socios na longa viagem que ìamos emprehender a traves de um deserto desconhecido, porque, deixando o caminho das caravanas, ìamos traçar uma nova estrada.

CAPÌTULO III.

TRINTA DIAS NO DESERTO.

O Deserto--Florestas--Planicies--Os Macaricaris--Os Massaruas--O grande Macaricari--Os rios no deserto--Morte da Córa--Falta de àgua--O ùltimo chá de Madame Coillard--Xoxom (_Shoshong_).

A 2 de Dezembro, começáram logo de manhã os preparativos de partida.

Um vagom de viagem em Àfrica do Sul é uma pesada construcção de madeira e ferro, de 6 a 7 metros de comprido por 1,8 a 2 de largo, assente sobre 4 fortes rodas de madeira, e tirado por 24 a 30 bôis, junguidos a fortes cangas, prêsas a uma corrente longa e grossa, fixa á ponta do cabeçalho no carro.

Esta especie de casa ambulante, é carregada com as bagagens e fazendas do viajante, e disposta de modo a offerecer-lhe tôdas as comodidades caseiras.

O vagom de M^{r.} Coillard era uma verdadeira maravilha.

Construido expressamente para aquella viagem sôb as suas vistas e com a sua experiencia de viajeiro, tinha commodidades que nunca vi em outro.

A minha bagagem foi arrumada com a da familia Coillard no fundo do vagom, ficando apenas á mão aquillo de que eu poderia precisar a miúdo.

Elles faziam prodigios para darem logar a todos os meus volumes de carga, como, durante a viagem, se encolhiam para me dar logar a mim mêsmo.

Uma partida depois de 15 dias de descanço é sempre muito demorada.

Ha muita cousa que arrumar, e no momento de partir descobre-se sempre, que ha uma canga quebrada, que faltam as pitas aos chicotes, que os cubos das rodas precisam ser untados, mil cousas emfim que fazem retardar de algumas horas o momento prefixo.

Depois de essas precauções tomadas por M^{r.} Coillard, e dictadas por uma longa experiencia de tal modo de viajar, conseguímos deixar Deica pelas 2 horas da tarde, e endireitámos ao sul.

O nosso comboio compunha-se de quatro vagons, dous pertencentes a M^{r.} Coillard, e dous outros de M^{r.} Frederick Phillips, de quem falarei mais tarde.

Depois de uma jornada de três horas e meia, encontrámos àgua em uma pequena lagôa, recentemente cheia pêla chuva dos dias anteriores, e pernoitámos junto d'ella.

No dia immediato seguímos a S.S.E., e depois de duas horas de viagem parámos hora e meia, para dar descanço aos bôis.

Foi de três horas a segunda parte da jornada, e ainda fizémos uma terceira tirada das 7 ás 9 da noute.

Sendo explorados os arredores do sitio em que acampámos, encontrou-se àgua um kilòmetro a E.N.E.

No dia 4 só podémos partir ás 4 e meia horas da tarde, para darmos tempo aos bôis de bebêrem durante tôda a manhã: e n'esse dia a nossa jornada foi apenas de duas horas e meia, porque, encontrando uma lagôa de òptima àgua, acampámos junto d'ella, ainda que os prêtos de M^{r.} Phillips diziam haver ali a terrivel môsca zê-zê, o que me parece precisa confirmação.

Contudo, por prudencia, no seguinte dia partímos logo de madrugada, e viajámos por sete horas e meia, em três andadas, a ùltima das quaes findou ás 9 da noute. Junto do ponto onde pernoitámos não appareceu àgua. A viagem d'êsse dia foi difficil, por entre emmaranhada floresta, onde os vagons corréram grande perigo de partir as rodas de encontro aos troncos de àrvores colossaes.

A 6, de manhã, jornadeámos por duas horas a S.E., encontrando no fim d'ellas uma lagôa de àgua permanente, a ùnica àgua que no tempo sêco se encontra de Deica até ali. Chama-se Tamazêze.

Descansámos por sete horas, e seguímos ás 3 da tarde; indo acampar, ás 6, junto de outra bella lagôa tambem permanente, a que os Massaruas chamam Tamafupa.

A jornada d'aquêlle dia foi por entre florestas lindissimas, onde abundam espinheiros brancos. O solo é coberto por uma espêssa camada de arêa. Junto á lagôa um formôso tapête de relva cobre o terreno, levemente accidentado.

Mas no meio d'aquella relva viçosa cresce uma planta herbàcea de que os bôis sam àvidos, e da qual é preciso desvial-os com cuidado, porque é mortal peçonha para êlles.

Estive n'essa noute até tarde levantado, para fazer observações astronòmicas, e talvez ahi tivesse origem o violento accesso de febre que me atacou no dia immediato.

Por algumas horas o delirio tirou-me a consciencia, e só ao recuperar a razão pude dar tino dos cuidadosos desvelos que me eram dispensados pêla familia Coillard.

O dia seguinte foi ainda passado no mais angustiôso soffrimento, e só ao terceiro dia nos pozémos em viagem, indo eu em deploravel estado. Foi-me arranjada uma cama no vagom de M^{r.} Coillard, e rodeado da familia, que redobrava em affectuosos cuidados, cercando-me de tôdas as commodidades que a si tiravam, fiz uma jornada que pouca consciencia tenho de ter feito. Sei que a 10 de Dezembro estàvamos acampados em um logar que uns chamam Muacha e outros Nguja.

Ali, com o caminho seguido pêlos negociantes Inglezes, devìamos deixar um d'elles, que, como ja disse, era nosso companheiro de viagem desde Deica.

M^{r.} Frederick Phillips, o companheiro de viagem que ìamos deixar, é um _Inglez de Inglaterra_. Homem de fina educação, affecta uns modos grosseiros e semi-selvagens, que não podem encubrir as suas bôas maneiras originaes.

É este um dos seus fracos.

O outro elle mesmo o define em algumas palavras que lhe ouvi. "Quizera, me disse elle, que tudo o que existe no mundo, que tudo o que cobre a terra, fôsse marfim, e eu só senhor d'elle."

Se eu não tivesse a certeza de que M^{r.} Phillips era Inglez, pêla fòrmula do desejo julgàra-o nascido em Tarbes.

M^{r.} Phillips, de elevada estatura e robusto em proporção, tem um rôsto enèrgico e sympàthico, que dizem ter feito uma profunda impressão na irmã do terrivel Lo-Bengula, o rei do Matabelle, que tem feito as mais altas diligencias para o desposar. É no Matabelle que êlle tem a sua principal residencia Africana, e se eu o encontrei no Zambeze, foi porque a ausencia ali de M^{r.} Westbeech seu socio, o obrigou áquella viagem por interesses commerciaes.

M^{r.} Phillips, que encontrei em Lexuma, fêz-me offerecimentos, pondo á minha disposição um dos seus vagons, para eu continuar a minha viagem para o sul, e se os não devi aceitar, não deixo por isso de lhe tributar muita gratidão.

Depois de nos despedirmos de M^{r.} Phillips em Nguja, partímos ao Sul, e jornadeámos por três horas e meia, indo acampar, ás 7 e meia, em sìtio onde não havia àgua.

No dia seguinte, depois de duas horas e meia de caminho, parámos em um logar chamado em lìngua Massarua Motlamagjanane, palavra que quer dizer, muitas cousas que se succedem umas ás outras, e isto por se dar êsse caso com uma sèrie de pequenas lagôas que encontrámos estanques.

A floresta toma ali um nôvo aspecto, e ás àrvores meãs succedem ja verdadeiros colossos vegetaes, assombrando com as elevadas copas um mato denso de emaranhados arbustos, difficìlimo de transpôr.

Seguímos ás 4 horas, e duas horas depois, atravessàvamos a mais sobêrba e bella floresta virgem que encontrei em Àfrica.

Logo ao anoutecer, tivémos de parar, porque era impossivel proseguir em tão densa floresta sem arriscar os vagons a um accidente sèrio.

N'essa noute eu começava a achar-me completamente restabelecido, e a febre tinha cedido a doses diàrias de quatro grammas de quinino.

Meia hora depois de partir, no dia immediato, atingìamos a orla da floresta, e encontràvamos àgua n'um pequeno charco lodôso. Diante de nós estava a planicie descoberta, àrida e sêca; essa planicie, que foi pêla primeira vez atravessada dois graos a Oeste por Livingstone, ainda um a oeste do meu ponto por Baines, e um grao e mais leste por Baldwin, Chapman, Ed. Mohr e outros; essa planicie arenosa e inhòspita, o Saara do sul, o Calaari emfim.

Ainda jornadeámos por espaço de duas horas, indo dar descanço aos bôis ás 11 e meia, junto a uns rachìticos e pequenos espinheiros, que com a sua vegetação mesquinha faziam sentir mais a nudêz do deserto.

Algumas trovoadas formávam-se pelo Norte, e ás duas horas aproximávam-se de nós, deixando cahir de nêgros nimbos grossas gôtas de chuva tèpida.

Desde o Zambeze até ali o terreno é arenôso, sendo o sub-solo formado por uma camada argilosa muito plàstica de côr castanho-escura. A espessura da camada de arêa branca e fina que forma o solo varia entre 10 e 50 centìmetros.

Àgua apenas aparece aqui e àlém na estação das chuvas, nas depressões de terreno. Algumas vêzes, como n'aquelle dia ao sahir da floresta, era ella uma lama espêssa e fètida. Tôdo o paiz até ao ponto em que o deixámos n'aquella manhã, é coberto por uma floresta, que vai progressivamente augmentando em espessura e no pompôso da vegetação, ao passo que se afasta do Norte.

O que mais se vê sam ainda leguminosas, e uma immensa variedade de acacia cobre o solo. Flôres do mais variado e brilhante colorido, das formas mais mimosas e delicadas, ao passo que encantam a vista, embalsamam o ar com os seus suaves perfumes. Viajar ali é difficilimo.

Abrir caminho para o carro, de machado em punho; ás vêzes, durante 10 e mais kilòmetros, haver um solo de cincoenta centimetros de area, onde as rodas dos vagons se enterram profundamente; fazer uma milha em quarenta minutos, tal é o viajar n'aquellas brenhas, quando se viaja bem.

A esse enorme terreno, comprehendido entre o Zambeze e o Calaari, chamei eu nas minhas cartas o Deserto de Baines.

Foi uma homenagem ao trabalhador infatigavel, o primeiro que devassou aquellas paragens inhòspitas, e cuja vida foi tão deserta de gôsos e de glòrias, como aquêlle paiz é deserto de gentes.

Do ponto em que parámos de manhã, seguímos ás 4 horas da tarde, logo que a tormenta passou, e jornadeámos até ás 8 da noute, parando n'um matagal de espinheiros baixos, onde foi difficil acampar no meio das hervas e entre os abrolhos.

Durante a noute, chacaes e hyenas déram-nos um concêrto infernal, vindo vocalizar um côro orpheònico, em tôrno do sitio onde chegava a claridade dos fogos do campo.

De manhã choveu, e nós seguímos ás 5 horas e meia, sahindo logo dos espinheiros, que poderìamos ter evitado sem umas trevas profundas que na vèspera nos tinham impossibilitado de escolher outro caminho.

Sustentámos uma caminhada de cinco horas, apenas com um pequeno descanço, encontrando uns charcos produzidos pêla chuva da manhã, que de nenhum proveito nos fôram a nós, por serem de àgua salgada, mas que, ainda assim, servíram aos bôis sedentos, que os esgotáram em pouco tempo.

Era preciso encontrar àgua, e seguímos ainda por quatro horas, parando no fim d'ellas sem termos logrado o nosso intento. Pude fazer n'essa noute uma bôa observação do reapparecimento do primeiro satèlite de Jùpiter.

Logo ao alvorecer, caminhámos por hora e meia no deserto arenoso e àrido, onde as rodas dos vagons se enterravam profundamente.

No fim d'este tempo de jornada, encontrámos o leito sêco de um rio cuja margem direita seguímos por uma hora, passando-o no momento em que elle encurvava a S.O., e por isso nos desviava do rumo a seguir. As escarpas do sulco arenôso eram de três metros e muito inclinadas. Foi medonho o precipitar dos vagons n'aquelle fôsso, e compungente o trabalho dos bôis para desenterrarem aquellas enormes màchinas de transporte, e fazèrem-n-as subir nas contra-escarpas.

Acampámos logo.

No leito arenôso do rio algumas lagôas deixavam ver pequenas massas d'àgua lìmpida e cristallina, que alegrava os olhos cançados da aridez e secura do deserto. Corrémos pressurosos a ellas, mas aos primeiros tragos bebidos a alegria converteu-se em angustia cruciante. Aquella àgua era tão salgada como a do mar.

Contudo, alguns poços cavados muito fundo, longe das lagôas, déram uma àgua quasi potavel. Era preciso tiral-a a baldes para a dar aos pobres bôis ja sedentos e cançados. Aquelle rio, ou antes aquelle leito sêco, era o do Nata, que no seu curso inferior, quando corre, toma o nome de Xua (_Shua_).

Foi decidido que ficàssemos ali dois dias, por ser o immediato ao da nossa chegada um domingo, e a familia Coillard não gostar de fazer viagem em tal dia. Preparou-se para isso um melhor acampamento, podendo obter-se ramos de àrvores nas margens do rio, ja povoadas da vegetação que o paiz carece ao Norte.

Pêlo meio-dia estava prompto um kiosque, e estabelecido o campo.

As damas Coillard andavam n'uma labutação activa. Faziam o pão e preparavam tudo o que os poucos elementos de que dispunham lhes permittiam, para a festa do Domingo.

Depois da minha ùltima febre, e dos mil cuidados e carinhos de que eu tinha sido alvo, o contacto ìntimo com aquellas damas a que a doença me tinha obrigado, modificou profundamente o meu espìrito, e senti em mim uma alteração profunda.

Até ao momento de as encontrar, eu havia esquècido, no meio dos selvagens com quem só vivia, o que fôssem carinhos e afagos.

O viver entre aquellas damas veio trazer-me á memoria que no mundo ha anjos, rosas perfumadas que embalsamam o caminho espinhôso da vida, frêscos oasis em que o caminheiro repousa das fadigas do deserto àrido.

A lembrança de uma espôsa estremecida, e de uma filha adorada, veio estar sempre presente ao meu pensamento, avivada pêla vista constante d'aquellas duas senhôras, instrumentos innocentes e inconscientes de um soffrimento atroz que me causavam.

Quantas vêzes, fatigado e doente, eu me sentava ao pé d'ellas, e por um momento era feliz, não pensando que eram para mim dois entes estranhos, lançados no meu caminho por o mais extraordinario dos acasos!

Quantas vêzes inconsciente não ia curvando a cabêça aturdida, em busca de um regaço de mulhér adorada, e cahia em mim, e levantava-me e fugia!

Ah! como eu as odiava então!!

Este soffrimento constante, sempre alimentado pêla vista d'ellas, e exacerbado pêlos seus carinhos, traduzio-se n'um mao humor que me não deixava um momento.

Perdi tôdas as formas sociaes de delicadêza, e transformei-me na imagem da mais brutal grosseria.

Bastava Madame Coillard dizer uma palavra, para ser logo grosseiramente contrariada. Um dia em que eu tinha subido para o vagom bastante fatigado, ellas priváram-se de quantas almofadas tinham para se encostarem e amortecer os choques violentos de um carro sem molas, para me fazêrem um leito commodissimo.

Achei-me tão bem que adormeci em caminho, velando ellas pêlo meu sono, e não cessando de arranjarem uma ou outra almofada desaconchegada pelos solavancos do carro.

Madame Coillard estava contente com a sua obra. Tinha de certo tido uma viagem tormentosa, mas eu tinha estado bem, tinha dormido.

Era tal a sua satisfação que não pôde deixar de me perguntar se eu havia estado còmmodamente, certa de que eu só lhe poderia responder com um agradecimento expressivo. Pois não foi assim. Disse-lhe, que o seu vagom era um vagom infernal, que eu nem mesmo havia podido dormir um momento, e que tinha passado o dia incommodadissimo.

Depois d'esta brutalidade insòlita, encarei com ella, e vi làgrimas a querer marejar-lhe nos olhos. Fiquei tão furiôso que fugi para longe.

Casos idènticos repetiam-se a miüdo, e no correr da narrativa apparecerám ainda.

Hôje custa-me a comprehender como no meu espìrito se pôde fazer uma tal alteração, e como eu cheguei a commetter taes barbaridades.

Os dois dias passados na margem do Nata não fôram dos peiores para mim.

Tinha observações a fazer, trabalhos atrazados a completar, e um paiz curiôso a estudar; e isso era agradavel diversão ao meu viver monòtono do deserto.

Creio que n'êsses dois dias não fui tão grosseiro como de costume.

O Deserto do Calaari, nas partes em que tem àgua, é frequentado por uma população nòmada. Sam os Massaruas, a que os Inglezes dam o nome genèrico de _Bushmen_. Os Massaruas sam selvagens, mas muito menos do que os Mucassequeres, que encontrei junto aos confluentes do Cuando, por 15 de latitude Sul e 19 de longitude E. Greenw. Os Massaruas sam muito prêtos, t[~e]m os ossos molares muito salientes, olhos pequenos e vivos, e cabêllo pouco.

Viéram alguns ver-nos, e eu dei-lhes tabaco e pòlvora. O seu contentamento foi grande. Voltáram de tarde, a offerecer-me um cabaz de peixe frêsco, que tinham ido pescar nas lagôas para mim.

No dia seguinte, em uma excursão que fiz, visitei o seu acampamento.

Vi que tinham panellas em que cozinhavam, e outros, ainda que poucos, indicios de uma civilização rudimentar.

Vi uma vasta provisão de tartarugas terrestres, que elles muito apreciam como manjar. As mulheres cubriam a sua nudez com algumas pelles, e enfeitavam-se de missangas, bem como os pequenos.

T[~e]m por armas azagaias e pequenos escudos ogivaes. Usam ao pescôço um sem-nùmero de amulêtos, e trazem nos braços e pernas manilhas de couro.

Rapam o cabêllo junto das orêlhas, deixando no alto um cìrculo que vem tangente á testa. Falam uma lìngua bàrbara muito notavel pêlo modo porque nos fere o ouvido, dividindo as palavras com um estalo dado com a lìngua, a que chamam _cliques_.

A 16 de Dezembro partímos, seguindo a margem esquêrda do rio, e parámos junto d'ella, depois de cinco horas de jornada.

Os Massaruas, que chamavam Nata ao rio no ponto em que passámos o Domingo, ja lhe chamam Xua (_Shua_) ali onde acampámos, a cinco horas de caminho.

Andámos sempre na margem d'êlle com os rumos de S.O., S.E., S.S.E., S.S.O. e S., o que deu um rumo medio de sul, e não resta a menor dùvida, que o Nata e o Xua sam um e o mesmo rio, que, como quasi todos os rios de Àfrica, tem diversos nomes em diversos trôços do seu curso.

Esta parte do deserto é coberta de uma herva curta e rachìtica, e só aqui e àlém se vê uma ou outra àrvore solitaria.

Com tudo, nas bordas do rio ha alguma vegetação, e de espaço a espaço não deixa de ser amena esta ou aquella païsagem que se nos apresenta á vista.

A àgua dos poços cavados no leito do rio nem sempre é potavel, e a das lagôas é completamente saturada de saes.

O terreno do deserto apresenta pequenas clareiras onde nada vegeta, e onde o solo é coberto por uma espêssa camada de saes, depòsitos de àguas evaporadas.

As informações dos Massaruas a respeito de falta de àgua eram assustadoras, e nós resolvemos não avançar mais n'aquêlle dia, para aproveitarmos o mais tempo possivel alguma bôa que ali se encontrou em poços cavados profundamente.

Desde que percorrìamos aquelle bôrdo do Calaari, notava eu que um fortissimo vento de leste soprava rijo nas primeiras horas da manhã; sendo que do meio dia para a tarde uma brisa suave de oeste durava algumas horas.

Eu atribuo aquêlle phenòmeno constante, á influencia na atmosphera do enorme deserto arenôso que nos ficava a oeste.

A arêa reflectindo o calor solar, deveria produzir uma dilatação atmosphèrica, que determinaria durante o calor a corrente branda para leste; ao passo que êsse ar lentamente dilatado de dia, seria ràpidamente retrahido pêlo frio intenso da noute, e produziria um desiquilìbrio, que originara a fortissima corrente nas primeiras horas do dia.

M^{r.} Coillard achou prudente partir só na tarde do dia immediato, para saciar bem os bôis, antes de ir procurar àguas muito problemàticas; mas eu decidi seguir só com o meu Pépéca, e combinámos encontrar-nos nas margens do Simoane.

O meu fim era sôbre tudo visitar os lagos a que os Massaruas chamam os _Macaricáris_.

Depois de atravessar sete milhas de Macaricáris, entrei n'uma floresta, que percorri n'uma extensão de três milhas até encontrar um leito de rio, com alguma àgua encharcada, que eu suppuz devia ser o Simoane.

Desci por elle até ao Grande Macaricari. Depois de um longo passeio nas cercanias, fui procurar um sitio onde calculei que os vagons deveriam passar e esperei.

Só ás nove da noute, e noute de trevas profundas, o meu ouvido exercitado pôde perceber ao longe a bulha dos vagons, e caminhando para ali fui sahir-lhes ao encontro. Madame Coillard estava em cuidados, por me ver ausente tôdo o dia só com uma criança, e a primeira cousa que fez, ao parar dos vagons, foi preparar-me chá, bebida de que ella sabia eu ser àvido, e n'essa noute diz o meu diario que tomei a seguir seis grandes chàvenas d'êlle.

Effectivamente, o gasto que eu fazia na provisão de chá de Madame Coillard era enorme.

O ribeiro Simoane, que então era apenas uma serie de pequenas lagôas de três metros de largo, corre a Oeste no tempo das grandes chuvas, e vai entrar directamente no Grande Macaricari.

Tôdo aquelle paiz, e sôbre tudo a floresta entre a qual corre o Simoane, apresentava indicios de ter chovido muito ali, e por isso as lagôas do Simoane tinham àgua, e esta era quasi bôa.

No tempo sêco ellas secam, e em alguma que conserva pouca àgua, é esta tão saturada de saes que não se pode aproveitar.

Desde que chegámos ás margens do Nata, em tôdos os pontos onde paràvamos, appareciam os Massaruas sempre a pedir alguma cousa.

O que valia era fugirem se nos zangàvamos com êlles.