Comedia do Campo volume III (Scenas do Minho)

Part 8

Chapter 83,735 wordsPublic domain

—Fazes tu muito bem—incitavam fortemente as companheiras. A gente, quando o seu home é bô, deve-lhe sempre andar ao geito.

* * * * *

Uma das amigas da mulher do Chibante foi procurar o Coruja para vir arranjar o habito ao defunto, por que a viuva, attendendo a que sempre era uma cousa benzida, n’esse particular mantinha os seus escrupulos... O coveiro chegou resmungando, e disse palavras desgostosas e insolentes, quando viu o morto quasi prompto. Depois, assobiando canto-chão, e bebendo de uma infuza de vinho, acabou de o arranjar ageitando-o dentro do esquife cuidadosamente, com esmero, compondo-lhe o lençol _rebicado_, e endireitando-lhe a cabeça n’uma posição natural. Logo que isto foi concluido, Isabel e as suas amigas, principiaram a gritar mais alto, com um chôro ganido e espantado, andando em volta do esquife!... O vesgo e cambado Coruja, com os seus arremessos grutescos e irregulares, depois de se ter rido ás gargalhadas, disse de um modo brusco e malcreado, fazendo carantonhas, com a lingua de fóra:

—Por um olho azeite, por outro vinagre, minha corja de mandrongas!... Quem vos não conhecer que vos compre!

E, referindo-se especialmente a Isabel, acrescentou:

—Já trazes outro de olho?...

As mulheres, offendidas, responderam indignadamente:

—Cala-te, bebedo!...

—Olhem o grandissimo borracho!—acrescentou com accento desprezivel a beata Lindoria.

Depois, como o chôro de Isabel se continuava de um modo intenso, e, as suas amigas, pelo que tinham visto das outras vezes, sabiam que lhe fazia mal, produzindo-lhe ataques em que parecia possuida do demonio, uma d’ellas principiou a amesquinhar-lhe o acontecimento, a apresentar-lh’o como um successo natural e simples...

—Olha que não ficamos cá. Cuidas que alguma de nós fica n’este valle-de-lagrimas?!... Estás muito enganada. Tu has de morrer, eu hei de morrer... todas nós havemos de morrer... Um dia toca o sino para esta... outro dia para aquella... é o mundo!

E Lindoria, com um aspecto vulgar e pouco sensibilisador, para mudar de conversa, opinou chegando-se para o esquife, a sorrir:

—Mas o que elle te vae é muito lindo! Pódes ter essa gavança, mulher! Faz gosto olhar para elle. Ninguem ahi põe um defunto na igreja, tão bem arranjado, como tu.

Isabel respondeu:

—Lá isso, hei de fazer sempre assim, emquanto Deus me der vida e saude...

Passado certo tempo, quando todas as idéas tristes pareciam distantes, á Lindoria, que tinha confiança na casa, veio-lhe a lembrança sensatissima, de que Isabel precisaria de comer... Por isso lembrou-lhe:

—Tu has de estar por força fraca e esse chorar faz-te mal... póde-te caír no coração.

A viuva recusou-se teimosamente, dizendo que não lhe entraria nem uma bucha de pão na boca... parecia-lhe que tinha comido o seu ultimo bocado... e, fallando em morrer, o seu desespero era enorme e as palavras afflictivas!...

Porém, Lindoria, muito prudente, dizia reprehensiva e com auctoridade:

—Estás tola, rapariga! Não querer comer!!... São lá cousas que se digam! Olha que até offendes ao Senhor, que te creou!... A gente deve fazer bem ao seu corpo, para poder louvar a Deus, e engrandecer a Sua Infinita Misericordia...

E acrescentou, depois de se assoar com estrondo:

—... Ouvi estas verdades da bôca d’aquelle santo missionario que ali esteve em Refuinho, e que teve artes de levar para o reino da gloria a Rosaria do Thomaz do Monte... Sabeis que _ella_ já vos faz tantos milagres que, aos domingos, é uma romaria n’aquella igreja?!..

Com esta auctoridade e saber, sem mesmo consultar a viuva, Lindoria combinou com as outras mulheres, para arranjarem _alguma cousa_ que Isabel podesse comer—alguma cousa que chegasse para ellas tambem, porque se sentiam com bastante fraqueira. Como era no tempo da matança dos porcos, uma, que morava mais visinha da viuva, foi-lhe arranjar uns rojões e trouxe-os, acompanhados de uma boa infuza de vinho... N’uma voz convidativa e discreta, pronunciou estas bôas palavras, logo ao entrar da porta:

—Vamos a elles, emquanto estão quentes e não vem por ahi alguem á agua benta...

—Tens rasão, tens—confirmou a prudente Lindoria, com aspecto guloso.

Isabel, nos primeiros momentos, absteve-se, dizendo com a mão apertada na garganta:

—Esta (a morte do Chibante) não me passa d’aqui. Agora é que fico para toda a vida... O que eu tenho passado em sete annos!...

Era o tempo que lhe tinham durado os tres maridos.

Uma das mulheres, prudentes e sensatas, que a cercavam, disse-lhe:

—É isso verdade rapariga. Rasão tens tu. Mas se é vontade de Deus, que lhe has de fazer?!...—interrogou de cara alta. Sem comer é que não somos nada n’este mundo, e, como te disse aquella (referia-se a Lindoria), até offendes a Deus com essas palavras desagradecidas!...

A _beata_, confirmou mais uma vez, esta sua opinião, repetindo:

—Ah! isso offendes e muito! Eu que t’o digo é porque o sei. Mas—rematou—vamos aos rojões, antes que arrefeçam. Frios não prestam.

E para incitarem a viuva do Chibante, para lhe quebrarem os ultimos melindres, principiaram ellas a comer com a mão, e a beber todas pela mesma infuza.

* * * * *

O morto estava deitado no esquife, vestido com o seu habito de _terceiro_. A côr escura do seu rosto e o pardo da mortalha sobresaía... destacava-se da brancura do lençol de panno engommado, que tinha nas ourelas recortes vistosos. As pernas do defunto estavam alinhadas, e as mãos, sobre o peito, agarravam um ramo de oliveira; e no rosto, pallido e soffredor, a dolorosa expressão dos que têem sentido dolorosamente fugir-lhe o ultimo alento de vida!... Á cabeceira do esquife, sobre uma velha caixa de pinho coberta por uma toalha, estava um crucifixo, com duas vélas dos lados; aos pés, a caldeira da agua benta, esperava os amigos do finado, que tinham de vir espargil-o com o tosco hyssope, depois de lhe terem resado pela alma, que n’aquelle momento já devia pairar nas regiões incomprehensiveis!... N’aquelle cadaver livido, todo podridão e um proximo repasto de vermes insaciaveis, havia a suprema serenidade da morte—impassivel, austera e absorvente!...

Isabel, depois dos reiterados convites das suas amigas, principiou a comer com moderação e, ao parecer, com pouco appetite.

—Isto é para vos fazer a vontade; porque não me passa d’aqui—dizia, indicando a parte superior do esophago.

Lindoria, com um bom humor descrente, incitava-a:

—Entra-lhe mulher, anda-lhe... Tu não te has de deixar ir assim para a cova... _como elle_. Se Deus, na sua infinita misericordia t’o roubou, não é rasão para que vás pelo mesmo caminho. Por isso, come-lhe e bebe-lhe que é o melhor que tens a fazer.

E, olhando sagazmente para os lados do caminho, acrescentou com voz familiar e sem imposturas desnecessarias:

—Por ora não vem ninguem... Pódes engulir o teu bocado sem medo.

Mas, pouco depois, quando mastigavam, silenciosas, resignadas e com vontade, sentiram passos de alguem que se aproximava!... Todas deglutiram rapidamente o que tinham na bôca!... Uma d’ellas, com mais sangue frio, metteu no forno, com precipitação, o prato dos rojões, mas deixou, imprevidentemente, a porta aberta. Lindoria, por seu lado, escondeu com sagacidade, a infuza do vinho debaixo de um banco, sentando-se logo por cima d’ella, para a ter melhor escondida com as saias espalhadas. Por fim, como se tivesse havido qualquer convenio anterior, compozeram os semblantes n’uma expressão de tristeza, tomaram attitudes chorosas, e, fingindo a continuação de uma conversa, fallavam com lagrimas no caso presente, lamentando as amigas de Isabel, esta perda do _seu homme_, procurando dar-lhe as melhores consolações que em taes momentos se podem desejar!...

Os passos que se tinham sentido, eram os do velho Agrella, que vinha resar pelo morto. O alfaiate entrou com face respeitosa e compungida! Resou cordatamente, com sinceridade, e, em seguida, entrou no circulo das creaturas que ensinavam Isabel a resignar-se, trazendo-lhe, elle tambem, as suas palavras de coragem...

A mulher do José Chibante ouvia tudo n’um recolhimento sensato, com intermittencias de sentimentalidade:—umas vezes chorava alto lamentando-se do só que ficava, achando-se enormemente infeliz e desgraçada; outras, entrava socegadamente em detalhes, em referencias, em particularidades do modo como vivera com José, rememorando as circumstancias em que lhe fizera, a ella, as vontades mais exigentes e caprichosas... Era doloroso e sympathico ouvil-a exprimir-se d’este modo, ácerca do terceiro marido que lhe morria!...

* * * * *

No entretanto, um gato preto da visinhança, entrava pela porta dentro sem ser persentido e principiou a observar minuciosamente toda a casa, revolvendo com lentidão os seus olhos redondos e luminosos. Parecia attraído por algum motivo; porque, n’aquella serenidade do seu olhar sagacissimo, conhecia-se-lhe um proposito, um fim... Primeiro attendeu minuciosamente para o esquife, andando duas vezes em volta para se certificar. Depois, aproximou-se das mulheres que choravam, aproveitou do chão uns restos de comida e sentou-se para lamber socegadamente um osso despresado. Por fim, sempre devagar e cauteloso, dirigiu-se, com a imperceptibilidade de uma sombra, para junto do forno... Levantou com mansidão a cabeça e averiguou olfativamente. Sem duvida que foi depois de ter chegado a uma conclusão do seu demorado raciocinio, que o gato se firmou nas patas trazeiras, arqueou o corpo, estendeu-o, retesou-se, e, fazendo um salto, entrou pela porta aberta do forno... onde tinha sido escondido o prato da comida. Pouco depois voltou, saltou para o chão, trazendo um rojão que pousou socegadamente junto do esquife e ali principiou a comel-o, com o sofrego appetite de um golutão...

O Agrella começou por observar este facto com serenidade. O gato preto, logo que acabava de comer um rojão, levantava-se lambendo os beiços, e, sorrateiramente, ía buscar mais, que vinha mastigar junto da caldeira da agua benta. O alfaiate, por este signal, percebeu immediatamente tudo quanto se teria passado, antes da sua chegada desagradavel e inconveniente!... A infuza que depois lobrigou debaixo do banco, apesar de Lindoria procurar escondel-a á sua sagacidade, espalhando as saias, completou-lhe o quadro. Porém, o seu rosto foi impenetravel, e, como se nada tivesse visto, continuou a seguir a linha das lamentações, fallando das qualidades excellentes do homem de Isabel, recordando casos que com elle lhe tinham succedido, avivando memorias de tempos passados... E de tal modo e com tal compuncção o fazia, que a propria Lindoria—a raposa sagaz da aldeia—sentiu-se dominada pelo tom plangente do Agrella...

A velha beata, compungida e lacrimosa, era quem mais salientemente reclamava as boas palavras, os elegios e as lagrimas para a memoria do defunto, que ali estava, serenamente deitado n’aquelle esquife. Ao mesmo tempo que lamentava os incalculaveis estragos da morte, ía reparando... percebendo... apopletica de raiva, que o malvado do gato preto entrava no forno repetidas vezes, trazendo sempre rojões, que vinha comer, impunemente, mesmo junto do esquife. N’um momento, já impaciente e nervosa, não lhe soffrendo o animo consentir que o animal vivesse momentos tão felizes n’uma impunidade odiosa, lançando olhares furtivos ao _ladrão_, pronunciou com voz lamentosa uma d’essas phrases equivocas da linguagem popular, por meio da qual desejava denunciar ás companheiras imprevidentes, aquelle roubo inqualificavel:

—_Ah! morte negra, morte negra! que assim os vaes levando um e um!_

Queria decerto que o Agrella entendesse que se referia aos homens fallecidos; porém o velho, alfaiate, ouvindo isto, levantou-se sereno e talvez indignado!... Baixou-se sobre o banco, pegou na infuza de vinho escondida, e estendendo-a a Lindoria, disse-lhe n’uma voz compungida e de um comico ardente:

—Pega lá mulher... _Aquelles defuntos_ do que precisam é d’esta agua benta. Benze-os com esta agua benta, ó Lindoria!...

E dirigindo-se para a porta, disse do limiar com um desdem rancoroso:

—Corja de bebedas! Boa tranca, por essas costas!

E saíu socegado para o caminho. Lindoria veio até á soleira, com o fim de o amansar, de o adquirir para o convivio das suas amigas. Por isso chamou-o com uma voz convidativa, attraente e cheia de confiança, piscando-lhe um olho:

—Ó Agrella!... Agrella!... Anda cá pedaço de tratante... Andá cá maroto... comer alguma cousa...

E, como o velho alfaiate se voltou para lhe responder, ella, julgando-o dominado, repetiu, mostrando-lhe a infuza:

—Olha que é do da tenda. Boa pinga, verás...

Porém elle, ao riso conciliador e ás boas palavras de Lindoria, respondeu simplesmente com _um gesto_ dizendo:

—Olha...

E distanciou-se com passo natural.

O ENTERRO DE UM CÃO

A MACEDO PAPANÇA

O ENTERRO DE UM CÃO

I

O velho Coruja, o coveiro, _o bom amigo dos mortos_, tinha pelo seu pequeno cão, uma affeição pura e desinteressada.

O _Coisa_ acompanhava-o em toda a parte, com uma fidelidade insistente: nos enterros apparecia cansado, reflexivo e de cabeça baixa; no palheiro, onde ambos dormiam, deitava-se junto d’elle, corpo a corpo, como um companheiro familiar; nas diversas cosinhas das casas ricas da visinhança, onde o coveiro apparecia ao meio dia, sempre se mostrou submisso, quieto, esperando pacientemente que lhe dessem a sua brôa e as rapaduras do pote do caldo de farinha.

O Coruja olhava para elle com ternura, dava-lhe do seu comer, interrogava-o com naturalidade, affagava-o dizendo-lhe palavras boas, repassadas de carinho e de benevolencia...; porque partia da hypothese sensata, de ser comprehendido. O Coisa, pequeno, magro, de pello faminto, com as barbas de guloso sempre sujas, escutava-o attenciosamente, sem pestanejar e deitando-lhe a cabeça nos quartos, ficava como adormecido muito tempo.

O Coveiro comprehendia estas finas delicadezas do seu companheiro... Por isso fallava-lhe com polidez, com cuidado, escolhendo as palavras, estudando um timbre de voz meigo e delicado. Que dois corações unisonos e isochronos! As unicas desavenças que se tinham dado entre elles, eram por causa das creanças pobres... O cão perseguia-as insistentemente, se as encontrava agglomeradas, a pedir esmola, junto dos portaes ricos! N’este ponto era formalmente desobediente á palavra austera de seu amo!... O Coruja que, quando tinha vontade d’isso, sabia ser iracundo, figurava então uma voz aspera, severa e reprehensiva, ameaçando-o arrogantemente:

—Pedaço de bregeiro! Tenho-te dito muitas vezes que me deixes os rapazes. Fizeram-te algum mal? Diz lá: fizeram? Não entendes isto, maroto?!...

E se depois o cão se lhe ía enroscar aos pés, humilde e submisso, concluia com energia:

—... Pois devias entender. Elles são como nós ambos e como os outros desgraçados—andam na sua vida... Se são pobres, quem lhes ha de dar o pão, se não forem os ricos?! Vel-os acolá?—indicava incautamente os rapasitos. Andam ás esmolas, como tu e como eu!...

O Coisa olhava fixamente para o seu amigo, escutando-o sem pestanejar, e como vira que as ultimas palavras haviam sido acompanhadas de um gesto em que eram apontados os pequenos pedintes, que, amedrontados, tinham fugido para longe, interpetrando-as mal, arremettia de novo contra as creanças, perseguindo-as com mais raiva pelos caminhos.

O Coveiro mostrava-se estupido e confundido... Não comprehendia!... ficava scismando, para ver se encontrava o motivo que o animal teria, para odiar com tão afincado accinte, as creanças pobres, que via encostadas aos portaes ricos!... Não o podia perceber, elle que ignorava inteiramente a biographia do Coisa...

* * * * *

Encontrára-o n’uma tarde de chuva, perto de um ribeiro, onde, no dia seguinte, appareceu afogado um velho pedinte, de longa barba esqualida. O pobre animal tiritava de frio, recolhido humildemente dentro do tronco carcomido de uma cerdeira desfolhada. O Coruja, vendo-o assim, teve um ar compacido e lastimou-o com um sorriso triste. Lembrou-se que levava n’um bolso restos de pão do jantar, e, com um ar de bondade, atirou-lhe um pedaço, dizendo:

—Talvez tenhas fome... Pega lá, come.

O cão, saindo do esconderijo, abocou com rapidez e mastigou sofregamente, auxiliando a deglutição com movimentos rapidos e impulsivos de cabeça. O coveiro observando este facto, disse sorrindo:

—Home... tinhas larica. Toma lá mais um naco!...

E, tirando mais brôa do bolso das calças, deu-lh’a. O animal, enguliu com rapidez o pão e aproximou-se do coveiro com obediencia—arqueava a espinha dorsal arrastando a barriga na terra, tinha movimentos lateraes e cadenciados de cauda, levantava a cabeça para lhe cheirar a mão benefica e ouviram-se-lhe latidos de agradecimento. O Coruja, olhou reflexivo para elle e, cofiando-lhe a cabeça, observou com sorriso:

—Diabo! sempre és muito feio, ladrão!

Depois atirou para o hombro a enxada de abrir as covas e foi pelo caminho adiante... Ia para um atterro.

O cão ficou quieto, humilde, a olhar para o seu bemfeitor. O coveiro, olhando para traz, viu-o n’esta posição quasi supplicante e gritou-lhe de longe:

—Tó Coisa.

O animal veio para elle depressa, contente, feliz, dando pulos de alegria, movendo festivamente a cauda, lambendo os pés do Coruja, que o affagava. E para mostrar logo, áquelle seu amigo fortuito, um bom fundo de cão agradecido, arrastava o ventre pela terra, gania amoravelmente, roçava-se-lhe pelas pernas, e por fim, conservou-se alguns momentos n’um aspecto captivante, deitado no chão, olhando para o coveiro, com a cabeça firme, a mostrar os dentes e a piscar os olhos...

Foi assim que se tomaram por companheiros inseparaveis!... O coveiro não indagou quem era o Coisa, mas eu que o sei, posso dizer que era o cão do pedinte, que no dia seguinte appareceu morto na levada do ribeiro! Tinha sido amestrado para ladrar ás creanças, para escorraçar os pequenos, magros e sujos, que podesse encontrar pedindo esmola junto dos portaes ricos. Os perseguidos fugiam assustados e chorosos, gritando muito, apertando na mão os saquinhos vasios... e ficavam de longe, a ver quando o pobre da barba esqualida saíria de ali com o maldito cão, para elles voltarem a implorar a esmola, com as suas vozes finas e plangentes.

Porém, o velho pedinte era experimentado e sceptico. Se alguem, casualmente, observava a perseguição injusta que o animal fazia aos rapazitos, elle, que fingia de aleijado, chamava-o com modos de homem irritado, ralhava-lhe muito, chegava mesmo a bater-lhe. Com este procedimento conseguia, muitas vezes, captar a benevolencia de quem o observava e obtinha alguma esmola que agradecia, dizendo:

—... Pelas bemditas almas... Por mais que me mate, não posso ensinar este ladrão. Um dia como-lhe os figados. Apesar do amor que lhe tenho, sou home p’ra isso!

E, com o fim de se mostrar digno de admiração, erguia para o companheiro o pau da justiça, tremente de cóleras! O bemfeitor, compadecido, entrevinha caridosamente a favor do animal, aconselhando:

—Deixa lá. São brutos, não sabem o que fazem. Se elles não têem alma!...

—É tamem do que me tenho lembrado, meu rico pae da caridade! Se elle tivesse uma alma, eu era capaz de lh’a metter n’um inferno, só pelo que elle é de mau para as creancinhas... coitadas!

Mas o animal não era responsavel. Tendo sido educado, por seu amo, no proposito de perseguir os concorrentes ás esmolas, obedecia-lhe. Mesmo quando o velho pedinte lhe ralhava, apontando as creanças que fugiam espavoridas e elle continuava a preseguil-as, é porque sabia ser este um signal para as escorraçar com mais impeto! Tinham-lhe ensinado que, todas as admoestações lhe impunham dever de ladrar com maior energia e vivacidade, por isso assim procedia!...

O pobre da barba, depois de obtida a esmola, premio da reprehensão infligida ao maleficente, dizia vagamente, de modo a ser ouvido pelo bemfeitor que se distanciava:

—Diabo do cão é tolo! Não sei que mal lhe fizeram os rapazinhos!...

E voltando-se para elle, outra vez, com o pau no ar, concluia:

—És mesmo ruim, como as cobras!

Mas, logo que ficavam sós, cofiava amoravelmente a barriga do rafeiro, chamando-lhe seu rico cachorrinho, ganindo como elle para o reconciliar comsigo, e dando-lhe fartamente brôa da sacola, com o fim de o excitar ao crime. Incomprehensivel preversidade!...

* * * * *

Eis aqui estão os motivos, em virtude dos quaes, o coveiro, nunca poderia fazer comprehender ao Coisa, que a sua benevolencia era sincera e não mentirosa, como a do velho pedinte, que primeiro o educára. O modo compassivo como o Coruja entendia deverem ser olhadas as creanças pobres, que aos sabbados encontrava junto dos portaes ricos, o cão não o podia comprehender facilmente e até o interpretava ao inverso, princialmente quando lhe apontavam os rapazitos que se conservavam agrupados e cheios de susto a olharem de longe.

Mas, apesar d’esta divergencia, viveram muitos annos em concordante familiaridade, dormindo promiscuamente nos mesmos palheiros e comendo da mesma ração. Como o Coruja era um bebedo declarado, entendeu que devia habituar o Coisa a gostar de vinho, exactamente como elle, e dava-lh’o. O cão principiou pelo provar, com evidente repugnancia. Nos dias de fome, que o seu antigo amo lhe fizera passar, quando as esmolas não corriam para o sacco, tomára habitos de sobriedade. Vinho! Tal guloseima nunca provára! O pedinte de barba esqualida era extremamente egoista... emborrachava-se só. Mas, passado algum tempo, depois de ter sido preciso abrirem-lhe a bôca á força para lhe emburcar o liquido nas guelas, o Coisa gostou, e por fim já escorripichava a tijella, por onde o coveiro bebia a meia canada habitual... Tão fino bebado se mostrou depois, que andava sempre lambendo, com cuidado e esmero, até as deixar enxutas, não só a tigella do amo, mas todas as cuncas da sopa de bestas que encontrava ás portas das estalagens e tendas minhotas. Então dizia-lhe o seu amigo, rindo abertamente, com effusão, piscando os olhos, já muito _torto_:

—Anda grandissimo borrachão, que me pareces um padre!

Esta phrase usual, sincera e inoffensiva, que tantas vezes dissera impune, preferiu-a incautamente, uma vez, diante de um ecclesiastico que, julgando-se offendido, o reprehendeu severamente, levantando a bengala com uma intenção aggressiva! O coveiro que, pelo habito de viver entre batinas, não as respeitava, e, considerando mesmo que os padres eram homens como os outros e igualmente peccadores, lembrando-se até de que elle já tinha enterrado um bom par d’elles, respondeu com desdem e indignado:

—Olhe, talvez o seu coração não seja tão bô como o d’elle!...

O padre ficou auctoritario e colerico, e o coveiro retirou-se cheio de justiça, por ter pugnado pelo seu camarada.

* * * * *

Ás vezes, nos dias de muita chuva, o Coruja não podia saír do palheiro onde dormia, por causa das malditas dôres que lhe vinham á perna doente. O Coisa, n’essas occasiões, parecendo-lhe que devia prover as necessidades communs, saía a procurar comida. N’esses dias não respeitava nenhuma casa, fosse ella de quem fosse! Previdente e sagaz, obedecendo á sua primeira educação na vida mendicante, ía por ahi fóra... Porta que encontrasse aberta e d’onde saísse bom cheiro, entrava com ousadia e abocava desceremoniosamente qualquer posta de bacalhau ou qualquer salpicão que encontrasse. Mas, em vez de comer o producto da ladroagem, como faria qualquer cão vulgar e sem sentimentos, vinha depositar a comida intacta nas mãos do seu companheiro, para elle a repartir. O coveiro, no proposito de se dar seriedade, reprehendia-o com brandura, sorrindo com os seus olhos vesgos:

—Ah! grande ladrão! Home, isso não se faz!... Ir roubar o que não é da gente!... Muito mal feito, seu patife!... Come tu, anda, que eu não tenho grande fome.

No entanto, para não ser descortez e mal agradecido, acceitava o alimento que repartia com rectidão e igualdade, dando muitas vezes ao Coisa, qualquer bocado, que julgava mais appetitoso.

II