Comedia do Campo volume III (Scenas do Minho)

Part 5

Chapter 53,781 wordsPublic domain

O Fogueira ía a pé, de vestia ao hombro, com a larga facha vermelha apertada sobre o estomago, e armado com o seu pau argolado, proprio de homem de feiras!... Acompanhava a cavalgadura, a largas passadas de arrieíro, examinando frequentemente a cilha, para que a moça lhe não fosse dar um trambolhão... E, com a expansibilidade natural do seu temperamento sanguineo e da sua cabeça estouvada, ía fallando á egua, para a familiarisar com a sua voz, e dava-lhe fortes palmadas na anca, que a faziam estremecer e levantar a cabeça de um modo inquieto, continuando depois com passadas mais ligeiras e, ás vezes, com chouto, do que Marianna se queixava, por se lhe remexerem as tripas todas lá por dentro...

Como estava um dia de grande calor, logo na primeira taberna, fizeram uma paragem para provar do rascante. A Ripa, apesar de desembaraçada e resolvida, tinha medo da egua, e por isso não se arriscou a descer, sem a ajuda do Fogueira, que para a pôr no chão, a agarrou valentemente e com vaidade, apanhando-a por baixo dos quadriz:

—Ó diabo! És uma franga. Não pesas nada! Tudo saias. São tudo saias.

E deu duas reviravoltas com ella suspensa, mostrando-lhe que era muito leve. Marianna ria-se mostrando os seus dentes brancos, fortes e iguaes. O Fogueira, depois de a pôr no chão, ficou mudo, rangendo os dentes, a sorrir para ella, n’uma sensualidade bruta, motivada pelo calor das saias, pela excitação animal que lhe produzira o proximo contacto da carne da Marianna!... Por isso, n’uma incontinencia inconsiderada, correu atrás d’ella pela taberna dentro, perseguindo-a até ao fim da loja, onde a agarrou, a teve por momentos na sua posse, dando-lhe palmadas nos hombros roliços, roçando-lhe a sua forte barba pelo pescoço, pela cara, por onde podia... Depois, impellindo-a de si, com a soberania orgulhosa de um possuidor, rematou n’uma respiração desafogada:

—Diabo de moça! É o vivo demonio! Ó tia Zefa, deite lá um de meia canada.

Beberam de vagar, sentados n’um banco de pedra, á porta da venda, abrigados pela fresca sombra de um antigo carvalho. Em seguida, tendo descançado sufficientemente, a Marianna tornou a montar ajudada pelo Fogueira e continuaram o caminho.

* * * * *

A estrada nova, ainda não estava concluida. As diligencias não podiam ir até Vianna. Dizia-se «que para a outra Senhora da Agonia talvez já fossem». Logo adiante da venda, onde tinham parado para beber, andava muita gente nos trabalhos. Uma longa fita de cascalho, bem espalhado, apresentava uma superficie aspera e eriçada, sobre a qual rolava pesadamente um enorme cylindro de pedra. Duas juntas de possantes bois barrosãos, vagarosos, firmes e iguaes, puchavam o cylindro. Adiante dos bois, á soga, com o corpo muito inclinado, ía um rapaz pequeno, de carapuça, com a aguilhada ao hombro, fallando distraídamente ao seu gado. Logo depois, um homem novo, cara de militar da reserva, tendo uma ponta de cigarro meticulosamente escondida detrás da orelha, arrastando com perguiça os tamancos, assobiava distraído, dizendo imperiosamente ao da soga:

—É diabo, rapaz, não durmas, falla-me a esse gado.

Por isso o rapasito, aguilhou com mais força os bois, que estenderam para diante as suas pesadas cabeças, contraindo fortemente os musculos, puchando com mais força.

Logo em seguida, um pouco ao lado do leito da estrada, viam-se os britadores, quebrando o seixo a martelladas repetidas, para fazerem o cascalho. N’este officio rude, que exige um exagerado esforço dos braços e de todos os musculos do tronco, empregavam-se alguns homens aleijados das pernas. Porém, alem d’estes, havia mulheres que tinham um aspecto grosseiro e masculino, fortes seios entumecidos, e que trabalhando por empreitada, podiam ir dar de mamar aos seus filhos, que choravam deitados em canastras, á sombra benefica e fresca dos salgueiros, que marginavam a estrada antiga.

Tanto estas mulheres como os homens aleijados, trabalhavam sentados no chão, cobertos com chapéus de palha baratos, que tinham comprado aos presos na cadeia da villa. O sol peninsular de agosto abrasava-os, obrigando-os a beber frequentemente tigelas de agua, que iam buscar a um ribeiro proximo. As suas conversas grosseiras, eram tocadas de palavras obscenas e sem pudor. Tinham um modo insolente de se exprimir, porque se julgavam mais livres do que os outros, que trabalhavam a jornal. O seu aspecto, pela continuação de se conservarem durante horas sentados no chão, com movimentos esforçados dos musculos dos braços e do tronco, era carecteristico e singular:—no peito havia uma forte depressão correspondente ao abaúlamento da columna vertebral; as linhas faciaes tinham uma contracção permanente de soffrimento, originada nos esforços potentosos; as narinas eram dilatadas em virtude dos movimentos respiratorios entrecortados e pelas largas expirações de compensação; o tronco e os braços tinham um desenvolvimento desharmonico em relação ás pernas; o semblante, pelo habito de olharem continuadamente para o chão, era triste e carregado, como deve ser o dos _casseurs de pierre_ de Courbet.

Mais para diante, a estrada, era incompletamente aberta—andava-se n’um desaterro. As raparigas que transportavam terra aos cestos para o rio, íam e vinham formando um cordão movediço, como o das formigas no caminho de celleiro. As suas canções, umas vezes mundanas e que haviam aprendido com os cegos que passavam, outras vezes religiosas, ao Santissimo e ao Coração de Maria, que tinham aprendido com os missionarios, íam morrer n’uma toada monotona e ondeante nas quebradas da encosta fronteira. Quasi todas estas raparigas novas tinham, mais ou menos, um aspecto esfomeado e miseravel, a pelle grossa e avermelhada dos tempos diversos e inclementes que supportavam, os seus pés e os calcanhares gretados, as pernas estavam sujas de nodoas de terra, o olhar de algumas era tibio e doente, a côr de outras citrina e amenerrhoica, as mucosas dos beiços esfoliados e sem lhes transparecer a viva côr do sangue! Havia, porém, um certo numero d’ellas mais lavadas, que trabalhavam com mais alegria—eram as que passavam por namoros do senhor Alberto—o _apontador_, aquelle que as vigiava que as podia despedir, que exercia sobre todas ellas um absolutismo tyrannico! Era um rapaz forte, de uma boa corpulencia, a pelle tostada, as mãos plebeias, um farto bigode presumpçoso, uma cabelleira de terror, os dentes negros e os dedos queimados do fumo. Tinha andado a estudar em Braga muitos annos, com o fim de ser padre. Depois assentou praça no regimento de infanteria oito, para chegar a alferes. D’ali fugiu com a sobrinha de um marchante, com quem desejava casar, o que não concluiu, porque a perfida o abandonou para se amancebar com um clerigo. Por fim, Alberto, vendo-se desilludido e infeliz, ludibriado no seu amor, sem dinheiro, appareceu uma noite em casa de seu tio cirurgião, pedindo, como o filho prodigo da lenda, o esquecimento para os seus desregramentos desgraçados!... O tio cirurgião estava a cear a posta do bacalhau empurrada pelo cangeirão do berde. Era um homem sanguineo, e tomou-se de uma colera subita vendo o sobrinho, com quem gastara em Braga mais de cem moedas, de chapéu desabado e casaco roto, n’uma apparencia de malandro maltrapilho! Quil-o desancar com o estadulho das suas valentias que tinha ao canto da cosinha, onde ceava, e só depois da intervenção da Clementina, sua creada e amante de quarenta annos, a qual tambem ralhou muito com Alberto, é que o tio se tranquillisou, mandando-lhe dar uma posta de bacalhau. Mas, antes d’esta pacificação, levantando-se da lareira bebado, chegou-se ao pé de Alberto e berrou-lhe sobre o nariz, com voz temerosa e avinhada:

—Seu burro e seu ladrão! Eu aqui a ganhal-o, a apanhar molhadellas de lobo por esses montes, e você nas pandegas de Braga! Pr’o Brazil é que ha de ir. Arre, _bá_ ganhal-o que eu tambem faço o mesmo. Mal aprendi a ler, e para arranjar esses campitos que tenho e que te hei de deixar a ti Clementina, puchei muito por este toutiço! Vá ganhal-o seu jumento, que eu ando ha quarenta annos a puchar pela cachimonia, se quero!

E bateu formidavelmente na testa, significando que só d’ali tinham saído todas as idéas, com que medicamentava os conterraneos. Affirmava ter muita gabança em não haver estudado, nem no Porto, nem em Coimbra, como _os collegas_ que estavam na villa.

Porém, passada esta colera do primeiro momento em que viu o sobrinho, veio a pensar mais rasoavelmente, e determinou conserval-o antes por ali. Como era influente eleitoral, arranjou-lhe facilmente aquelle logar na estrada «que sempre deixava um crusado por dia, sem fazer nada!» Ficou, portanto, Alberto, na situação de indicar ao director das obras, um nigligente e aborrecido que passava os dias a jogar as damas n’um botequim da villa, os homens e as raparigas que deviam ser admittidos ou despedidos dos trabalhos na estrada! Isto dava-lhe um incontestavel predominio, e por isso eram apontadas com uma intenção reservada _as moças_, de que elle mais parecia gostar. Alem d’isto, Alberto, adquiria diante dos seus sobordinados que estava incumbido vigiar, a attitude de um personagem saliente. Os aborrecimentos da aldeia, tornavam-n’o triste e fatal! A sua existencia estava vasia da convivencia dos amigos, que adquirira nas batotas de Braga! Passeava a largas pernadas meditativas e não fallava aos rapazes lavradores, que tinham andado com elle no mestre de primeiras letras! Em vez de se suicidar, atirando-se ao fundo de um poço, lançou-se na leitura perigosa de romances de sensação, que os mais celebres fabulistas nacionaes e estrangeiros tinham escripto, expressamente para lhe fecundar a imaginação irrequieta e sorumbatica! Assim vivia n’um mundo incomprehensivel de emboscadas, loucuras, amores de redempção, paixões nobres e lagrimijantes, homens que se recolhiam ao desespero do sacerdocio, mulheres que fugiam aos maridos para seguirem acorbatas, santos eremitas que tinham sido famosos salteadores!... Esta illustração inoculou-lhe certas vaidades litterarias, que elle revelou no _Bracarense_, timidamente, sobre a epigraphe de _Inspirações do Lima_!... N’essas paginas, aquellas verdes e ramorosas paisagens minhotas, eram apresentadas cheias de cavernas onde se escondiam donzellas vestidas de branco, fugidas dos castellos de seus paes nobres, com amantes desconhecidos e mysteriosos. Porém, como nem tudo n’esta vida póde ser ideal, Alberto saía por vezes de entre os frescos salgueiros, onde se recolhia hostilmente a ler os seus romances, e n’uma excitação aphrodisiaca, ía espreguiçar-se entre as raparigas que trabalhavam, apalpando impudicamente os braços carnudos e os seios volumosos d’aquellas de quem gostava mais!... Os trabalhadores, que observavam de longe estes desfastios do senhor Alberto, disseram uns para os outros, descançando encostados ás enchadas, applaudindo-o, cheios de inveja.

—Isso, é levado de seiscentos diabos p’ras moças!

* * * * *

Foi ao chegar ao pé dos homens que faziam esta observação, que a egua do Fogueira, na qual ía montada a Marianna Ripa, parou subitamente, de um modo inesperado, n’uma posição desconfiada—a cabeça alta, as orelhas tezas e o olhar fixo! Depois estendeu o pescoço, inclinou para diante os pavilhões auriculares para reunir proveitosamente todos os ruidos e, dilatando-se-lhe demasiadamente as pupilas, conservou-se alguns segundos olhando firmemente para uma bandeirola que fluctuava... Todas as pessoas que presenciaram esta paragem repentina se tomaram mais ou menos de uma certa irresolução!...—os jornaleiros conservaram attitudes indicisas e indagadoras parando de trabalhar; as raparigas, que acarretavam cestos de terra, ficaram a distancia um tanto receosas; o Fogueira recuou dois passos e berrou «diabo de burra!»; Marianna, apesar de rapariga corajosa, lembrou-se que lhe tinham dito que a egua era amalucada e deu instinctivamente um grito!... O amante da Ripa, temendo que o animal lhe tomasse alguma manha, dirigiu-se-lhe de mão aberta com o fim de _lhe fallar_, mais familiarmente... Porém, n’este momento se não lhe furta instinctivamente o corpo, ía apanhando, sobre o ventre, uma valente parelha de couces!

A esta parelha seguiram-se muitas outras em todas as direcções, dadas com desembaraço vertiginoso. A Marianna, agarrava-se tenazmente ao albardão para não caír. Os trabalhadores, com o fim louvavel de suster a egua, levantaram as enchadas e as picaretas, pondo-se diante d’ella, fazendo algazarra. Porém, este procedimento deu em resultado o multiplicarem-se prodigiosamente os pinotes e os couces. A Marianna Ripa caíu do albardão, de bruços sobre a terra, com as pernas á mostra, e a egua, de cada vez mais doida, tomou-se de uma raiva aggressiva contra os que estavam diante d’ella, e arremetteu com ousadia para elles, que lhe abriram condescendentemente caminho! E, enfurecida, enthusiasta, com o dorso arqueado, a barriga baixa, o pescoço estendido, as ancas salientes, as pernas abertas, principiou a fugir pelos campos fóra, para os lados do rio! O Fogueira permaneceu livido, pasmado, sem desembaraço, a olhar, vendo-a saltar paredes, saltar vallados, sebes e barrancos! A sua amante já se tinha levantado promptamente, toda vermelha, com medo que os homens lhe tivessem visto as pernas! Não se tinha maguado, pois caíra sobre a terra molle! Todas as pessoas que presencearam este facto, surprehendidas pela rapidez com que elle se passara, estavam sómente interessadas no galopar da egua, que viam correr, dando upas vistosas, com a cabeça alta e o rabo espalhado ao vento!...

Antes d’ella desapparecer, calculou um jornaleiro com modo reflectivo:

—Aquillo foi o dianho da mosca!...

Os que ouviram esta opinião admittiram-n’a em silencio, continuando a olhar para a egua que fugia resolutamente, sem hesitações, sem duvidas, dominada por uma idéa infernal!...

Lá no fim dos campos, estava o rio, a grande profundidade, revolvendo-se as suas aguas, com um fervor de corrente que se precipita por entre penedos! Tinha chovido muito nos dias precedentes e, por isso, o rio levava uma bravura excepcional!...

A egua corria sempre, perdida, com os olhos esgazeados, as crinas ao vento, o corpo arqueado e foi precipitar-se do alto muro, caíndo estrondosamente na agua e fez _cachap_, levantando enorme poeira de espuma na amplitude do ar!

Um lavrador, que andava na outra margem trabalhando pacificamente no seu campo, vendo isto, exclamou surprehendido:

—Oh! com mil diabos, que lá se _spapou_!

E logo que o Fogueira chegou esbaforido disse-lhe este individuo, gritando:

—Ó hominho. Essa burra que caíu ao rio era sua? Ella era maluca por força!

O Antonio Fogueira respondeu-lhe de um modo abstracto, com uma navalha aberta na mão:

—É o demonio que a leve!... Se a pilhasse, abria-lhe a barriga de cima a baixo, com esta!

Depois, lançando um olhar indagador para os dois lados do rio, perguntou:

—Mas vocemecê viu-a? Onde diabo caíu ella?

—Olhe!...—apontou para os rochedos que estavam mais abaixo.

O Fogueira aproximou-se vagarosamente do logar designado. Uns lavradores e umas raparigas, que, ali perto, andavam no trabalho, perguntaram-lhe igualmente:

—Você é dono da burra que ahi caíu?

E à affirmativa do troquilha esclareceram:

—Pois o diabo, parecia que trazia o demo no corpo. Atirou-se sobre esses penedos como um raio! Depois, o rio levou-a para baixo.

Um dos trabalhadores acrescentou:

—Aquillo era maluca, por força!

O Fogueira repetiu, com rancor, mostrando novamente a navalha.

—Tres mil demonios a arrastem pr’as profundas dos infernos! Se se não tivesse _spapado_, punha-lhe as tripas ao sol.

Outro dos jornaleiros ainda esclareceu, apontando com a foicinha:

—Isso é ahi um pôço que nem seiscentas pipas! Você faz lá idéa!...

Um terceiro acrescentou:

—Nunca ninguem lhe viu o fundo. Muita gente antiga, diz que o não tem; mas isso parece-me mentira.

Um rapaz esclareceu:

—Ha ahi cobras que é um inferno! O tio Domingos Briteira viu uma de mais de vinte varas. Vinte varas! que digo eu! De mais de quarenta. Ora! Se ella tinha o rabo de lá do rio e a cabeça de cá, quando elle a viu. Talvez essa cobra se enrodilhasse ás pernas da burra!

O Antonio Fogueira despediu-se de um modo triste:

—Com bem passem! Deixal-a ir. Deus os ajude.

E na volta, quando chegou ao pé da Marianna Ripa, que o esperava, disse:

—Então que tal?! O Rio Tinto prega-me uma burra maluca!

A rapariga defendeu o primo:

—Ora! Talvez elle não soubesse!...

—Não sabia o diabo que o leve! Elle m’as pagará!

VI

Em Vianna, o Fogueira e o Rio Tinto, encontraram-se hospedados na mesma estalagem. Por causa do negocio da _burra_, invectivaram-se reciprocamente com injurias e, se não fosse o Fanfarra e a Marianna Ripa, que se interposeram, elles chegariam de certo ás do cabo! Por fim, o Rio Tinto, com uma viva colera no olhar, tirou da sua sacca de linho os soberanos que tinha ganho ao Fogueira e, atirando-os com despreso sobre a mesa, disse com altivez:

—Ahi tens e não tornes a dizer que te roubei. _Bê_ lá como fallas p’rá outra _bês_. Põe n’esse raio de cara dois _carbões_ accesos, para saberes o que compras!...

E ficaram, sem se fallar, olhando-se como dois homens que se odeiam! Á noite tiveram occasião de se encontrar, um em frente do outro, a uma mesa de _monte_, arranjada ao fundo da taberna, atraz de um tabique, por dois braguezes de longas barbas suspeitas e chapéus desabados... Estes homens, para attraírem os feirantes que por ali estavam, tinham-se abancado de um modo natural e simples, principiando a jogar entre si o _trinta e um_. Batiam insolentemente o dinheiro nas mesas, com o fim de se tornarem vistos, fallando alto e grosseiramente. Um almocreve, contractador de peixe para Traz-os-Montes, estava ali perto, e foi naturalmente attraído! Como ceára e se sentia na amplitude beatifica de um homem bem avinhado, foi-se aproximando, sorrateiramente, com certo desdem!... Carregando o chapéu para os olhos, sentou-se junto dos jogadores, tomando _n’aquillo_ um interesse puramente mental!... A este curioso, juntaram-se outros, attraídos por iguaes motivos, chegando-se todos á formiga, n’um desleixo simulado, sem apparencia de proposito difinido, com as mãos nos bolsos e o cigarro ao canto da bôca... E, quando a roda era já bastante compacta, um dos jogadores, sem dizer palavra e fundando-se de certo n’uma convenção anterior, atravessou o baralho no meio da mesa e, tirando mais dinheiro do bolso, contou nove corôas em prata! Depois, com outras cartas que tinha n’um bolso interno da sua jaqueta de alamares, principiou a baralhar demoradamente, lançando em volta um olhar firme e carregado! O companheiro, sem lhe dizer palavra, abriu um cinto que trazia afivelado sobre o estomago, mostrando-o cheio de libras, e tirou tres, que ajuntou ao dinheiro já contado, e disse com um modo esbanjador, n’uma voz imperiosa e rouca:

—São quatro _sovranos_ de monte!

Os indiferentes, ao verem isto, sentaram-se logo nos bancos de pau, acotovelaram-se contra a mesa, olhando avidamente para as cartas e para o dinheiro! Ao longo de todos elles passou o calefrio das sensações poderosas e commoventes! O jogador, que se preparava para fazer as pagas, collocou sobre o baralho, atravessado na mesa, as tres libras em ouro, espalhou a prata diante de si, misturando-a com certo despreso e, carregando mais para os olhos o seu chapéu de abas largas disse de um modo vago:

—Eram precisas ahi quatro croaças em _covre_...

Então, um rapaz novo, sem barba, muito magro e amarello, com o tronco osseo apertado no seu fraque velho muito coçado nos cotovelos e lusidio nas costas, pegou nas quatro corôas, que o jogador lhe deu por cima do hombro. Com passo ligeiro e leve, dirigiu-se ao taberneiro, que estava medindo quartilhos, e pediu-lhe n’uma voz urgente, perturbada, com inflexões nervosas:

—Tio Domingos... Estas croaças em _covre_!...

Collocou-lh’as sobre o mostrador humido de vinho.

O tio Domingos, com o seu ar de borrachão pantagruelico, perguntou-lhe usurariamente interessado:

—Então elles hoje... ein Marquinhos?!

Marcos, amanuense do governo civil, respondeu com muita pressa, contente, encolhendo-se em si mesmo, passando n’um frenesi, o seu dinheiro de uma mão para a outra, n’um estado de impaciencia quasi sensual:

—Sim, senhor, _vão fazer_... São aquelles dois de Braga, o Barroso e o outro que eu não sei como dianho se chama...

—Timotheo... O Timotheo da Carcova... Quem diabo não conhece o Timotheo?!

—Sim, senhor, um nome assim arrevezado, o Timotheo... Mas ande depressa, tio Domingos!—pediu com insistencia, com a sua voz aflautada, de um timbre choroso.—De-me esse troco que estão á espera! O Barroso não _se volta_, emquanto lhe não levarem _covre_!

O taberneiro disse:

—Olha, vae-te Marquinhos, que eu levo já. Diz-lhe que eu levo já.

E depois de ter contado meticulosamente o dinheiro, escolhendo o mais falso, foi elle mesmo pôl-o sobre a mesa do jogo. As suas mãos plebeias e sujas íam cheias de patacos esverdeados, de uma côr venenosa, levando ao mesmo tempo, de baixo do braço direito, um pequeno mialheiro, que collocou em cima da mesa, dizendo n’uma voz chorosa e comica que fez rir:

—_Aqui pr’ás bemditas almas!..._

Esta pequena caixa de folha com uma fenda na tampa superior, era onde os jogadores teriam de deitar os baratos!

Só depois d’isto, quando em volta da mesa estavam muitos individuos com um olhar desvairado e o dinheiro apertado freneticamente na mão, á espera do momento de jogar, é que o Barroso tirou quatro cartas do baralho, collocando-as nos respectivos vertices dos angulos de um quadrilatero que traçara mentalmente... Em seguida, accendeu um cigarro, piscando os olhos com as fumaças e disse:

—Agora, meus homes, é metter-lh’o sem medo!...

Chegára o tetrico momento dos primeiros palpites! A expressão de todos os semblantes era mais viva e as respirações abrandaram-se momentaneamente. Duas vélas de cebo, em duas bogias de folha, espirravam sobre a mesa, alumiando, com fraca luz, aquelles rostos sugados! O fumo espesso e azul, o cheiro nauseabundo do peixe que se estava frigindo, envolviam o grupo dos jogadores, que se entendiam por uma linguagem breve. Os cigarros accesos, collocavam n’aquellas pelles escuras e nas barbas pretas, pontos incandescentes! E cá fóra, na loja humida da taberna, o _ou-ou_ prolongado das vozes dos feirantes pedindo mais vinho e praguejando, continuava-se n’um unisono monotono e ondeante, de momento a momento cortado pela voz do banqueiro, o Timotheo da Corcova, que dizia com arrogancia, «jógo.»

Era quasi manhã, quando _isto_ acabou. O Fogueira _apontou_ durante toda a noite, de um modo accintoso, contra o Rio Tinto, e esteve sempre com uma sorte de burro! Fartou-se de ganhar dinheiro, os montes de corôas iam crescendo diante d’elle e já lhe atulhavam os bolsos. Todos os outros _pontos_, embirrados com isto, seguiam o partido do Rio Tinto, que estava sem sorte nenhuma, e perdiam com elle! Em virtude d’isto, quando eram cinco horas da manhã, estavam _á lisa_, achando-se o dinheiro no cinto do Fogueira que os _tinha alimpado a todos_!

Antes da meia noite, a taberna ficara vasia de gente, que tinha saído para a romaria, com fim de ver o fogo! Na rua passavam continuadamente descantes á viola. Os que perdiam ao jogo, o Rio Tinto, o Fanfarra e todos se indignavam pronunciando insultos e obscenidades contra os das esturdias... O Fogueira bem comprehendia que eram injurias contra elle, por lhes ganhar o dinheiro, e ria-se ás gargalhadas, fazendo chacota e guardando com escarneo os soberanos que os outros perdiam. Por fim, quando amanheceu, o Barroso e o Timotheo da Carcova, _encontrando-se pela primeira vez, no seu dinheiro_, depois de uma noite inteira de jogo, durante a qual houve um momento em que a banca perdia mais de vinte moedas, disseram com certo desafogo:

—Contra esta sorte não ha que fazer! Estamos desforros...

E levantaram a banca sendo já dia alto.