Comedia do Campo volume III (Scenas do Minho)
Part 11
Passados momentos, o semblante coloriu-se-lhe com uma expressão mais suave, quando contemplou a cadeira de braços, onde _seu papá_, depois de jantar, costumava ler o jornal e adormecia recostado. Tinha-o visto n’esta posição muitas vezes:—o seu grave aspecto paternal apresentava uma curvatura desleixada, tendo a cabeça caída para o seio, resonando com gravidade e com estrondo. Este quadro simples e familiar impressionara-o sempre, deixando-lhe o desejo de ler o jornal, recostado na cadeira com abandono, como seu pae. O momento era opportuno, estava sósinho na sala, ninguem o poderia impedir... Fechou a porta do corredor com todas as cautelas de um malvado, de um pequeno facinora consciente, para d’esta maneira poder realisar com facilidade esta ambição temeraria, de fingir que sabia ler o jornal recostado na cadeira paterna!
N’aquelle momento ouviu tossir a _mamã_ que estava no quarto proximo e por isso suspendeu, por instantes, a realisação do seu audacioso plano. E, como passado pouco tempo, tudo recaíu n’um socego favoravel, Emilio dirigiu-se á cadeira. Subiu para ella, agarrando-se com esforço, lançando primeiro a perna esquerda, depois a perna direita, ficando primeiro de bruços e chegando a indireitar-se depois de se ter apoiado nos joelhos e segurado fortemente com as mãos. Quando chegou a cima e se recostou, a sua respiração era larga e profunda, signal de que estava cançado do grande esforço que fizera!
Pomposamente recostado na cadeira, Emilio tinha um ar orgulhoso e via se que estava bem penetrado da sua importancia fortuita! Fingiu admiravelmente que lia o jornal, movendo levemente os beiços como fazia seu pae, revirando os olhos com intelligencia e dando á cabeça movimentos lateraes apropriados. A final, para completar o quadro, deixou cair com desleixo o papel, entrando resolutamente no periodo do somno digestivo, fingindo com propriedade, um resonar altivo e cheio de insolencia!
Esteve assim algum tempo... Porém, não lhe consentindo as impaciencias naturaes o demorar-se muito, levantou-se em pé na cadeira e desceu para o chão, por um processo inverso ao que empregára para subir. A um lado, sobre uma pequena mesa, estava a bengala e o chapéu do papá. Dirigiu-se intrepidamente a estes objectos respeitados, para os possuir. Poz o chapéu na cabeça, pegou na bengala pelo castão de velho marfim defumado e desejou passear ao longo da sala com porte altivo, com importancia natural. Mas o chapéu enterrou-se-lhe até aos hombros e, quando pretendeu dar passadas de um homem encostado á sua bengala, tropeçou e caíu de bruços.
Então levantou-se zangado, nervoso, vermelho de colera e retomou um aspecto imponente e auctoritario. Principiou a andar no comprimento da sala com o corpo direito, a cabeça alta e o braço esforçadamente levantado para agarrar no castão da bengala, o que, de certa maneira, lhe dava a parecença de um menino dependurado.
Depois, para se rehabilitar diante de si proprio por ter caído de bruços, quiz exercer a sua auctoridade incontestada, o poderio absoluto de que se achava possuido, sobre todos os objectos que ali estavam—lembrou-se de tombar as cadeiras, quebrar os vidros, _atirar abaixo aquelles homes_. E os seus grandes olhos energicos fixaram-se com arreganho, com altivez sobranceira nas estatuetas que permaneciam em frente da janella sobre a pequena mesa. O velho militar do primeiro imperio napoleonico, com todo o seu conjuncto marcial—a espada triumphante, os bigodes magestosos, as rugas severas, acobardou-o, obrigando-o a baixar ligeiramente os olhos e a reflectir durante momentos. Porém, Christovão Colombo, com o seu rosto suave de uma bravura serena e consciente, não o intimidou, e por isso, Emilio, o fixou com mais confiança, com menos susto. E como o descobridor da America tinha na mão esquerda um globo, na qual apontava resolutamente com um ligeiro sorriso de inspirado, um ponto com o dedo, o pequeno, _para se metter com elle_, fez-lhe este pedido exigente:
—Dás-me essa cousa?
Christovão Colombo não teve logo uma resposta favoravel. Emilio repetiu imperiosamente:
—Dás ou não dás? Olha que tu...
E fez-lhe um arremeço significativo com a bengala.
Porém, o silencio do possuidor da bola continuou-se, e o pequeno julgando-o um signal desprezador do seu poder, pareceu-lhe provocante. Por isso o olhou com mais intimativa, e, para o castigar, como lhe faziam a elle proprio ás vezes, repetiu a concisa e habitual phrase de seu pae:
—Então vae lá para dentro.
Imaginou que ía ser obedecido. Para não haver delongas, nem evasivas, conservou-se n’uma attitude ameaçadora, com a bengala paternal no ar, agarrada pelo castão. Com voz mais alta e decisiva repetiu ao possuidor da bola:
—Não vaes? Arrumo-te.
Christovão Colombo não obedeceu. Oppunha a resistencia passiva de um ser inanimado. O pequeno Emilio vingou-se d’aquella immobilidade insoffrivel, atirando-lhe á cabeça com a bengala irreverente. A estatueta caíu no chão quebrando-se com estrondo em mil pedaços!... A cabeça, os braços, a bola, separaram-se! O pequeno facinora ficou a olhar para aquelle destroço, com um sentimento de vingança satisfeita!
Porém, sua mãe, que estava no quarto proximo, ouvindo este barulho, correu á sala para averiguar o que teria sido. Vendo a estatueta quebrada e seu filho encostado á bengala n’um aspecto arrogante, exclamou instinctivamente:
—Ah! grande maroto que ahi vem o papá.
Emilio respondeu sereno, impertubavel, com segurança:
—Ora!... eu _tamem_ sou papá.
FIM