Comedia do Campo volume III (Scenas do Minho)

Part 10

Chapter 103,698 wordsPublic domain

As raparigas cantavam nos campos, atraz dos seus bois de cornos retorcidos que pastavam, fiando as estrigas da tarefa. A temperatura de um tepido parasidiaco e sensual enlanguescia, produzindo sensações dominadoras, fazendo comprehender os movimentos fecundantes da seiva universal!... Era um estonteamento de vinho forte o que subia á cabeça rija do velho maritimo, que caminhava lento e absorvido, reconhecendo todos aquelles logares queridos da sua infancia! Os olhos humedeciam-se-lhe de lagrimas, e o contentamento e a felicidade que lhe percorria ao longo dos nervos, entorpeciam-n’o... Os homens e as raparigas que passavam, interrogavam este desconhecido com olhares insistentes...

Quem será este homem, que caminha dando sacudidellas aos hombros e que tem o andar de um borracho!?...—pensavam.

Então elle parava para lhes perguntar numa entonação estrangeirada:

—Conheceis a Cathrina, filha do cego da rocha?

Conheciam perfeitamente; mas não era nenhuma rapariga. Muito pelo contrario, a mulher que tinha esse nome mostrava-se já muito velha, corcovada e doente... A sua vida era esmolar pelas aldeias e dormia por caridade n’um palheiro do padre Beiral. Mas espantavam-se que o desconhecido principiasse a chorar com estes esclarecimentos e perguntavam-lhe compadecidos:

—Quem é você, hominho? Para que quer saber da Cathrina, e chora?

Mas o homem da barba branca, que andava como um desengonçado, não lhes respondia e continuava a caminhar para a _residencia_ que se via d’ali, na encosta, ao pé da igreja. Levava ao hombro, enfiado n’um pau, uma mala de couro e umas botas de canos... Este modo de andar aos solavancos impressionava os que o viam... Não podiam saber quem fosse e ficavam a olhar uns para os outros!... Mas quem o reconheceu, mesmo antes d’elle fallar, foi Catharina, que se lhe agarrou ao pescoço, chorando e repetindo muitas vezes:

—Meu rico irmão, como estás velho!

E Miguel, o valente marinheiro temerario, deixou caír ao chão a mala e as botas, dizendo por entre soluços:

—E tu como estás acabada, mulher! Como te venho encontrar!

Mas depois, como Miguel trazia algum dinheiro, que juntára cuidadosamente para esta eventualidade de voltar á sua aldeia, resolveu-se a comprar a mesma casa onde nascera, a qual seu pae tinha vendido por causa da longa cegueira em que viveu. O padre Beiral ajudou-o. A casa era velha e pequena; mas o campo adjunto era largo e magnifico terreno...

O espirito do maritimo principiou a sentir um renascimento, a remoçar-se, a ter os alegres impetos da mocidade. Era aquella a mesma paisagem que sempre vira até aos vinte annos. Havia o mesmo musgo nas mesmas paredes; a mesma hera segurando as pedras dos muros esbarrigados; os mesmos penedos no alto do monte sobranceiro á igreja, manchavam o azul intenso das tardes primaveraes; as sebes de silvas, cobertas de folhas perpetuas e de amoras, embeiravam os campos e caminhos; e, finalmente, na frontaria da igreja ainda estava quebrado o mesmo vidro, como no dia em que elle partira! O que encontrava de differente no longo espaço de trinta annos? Muito pouco: o cypreste do adro tinha crescido e até envelhecêra; a carvalheira do pé da fonte, que tres homens com as mãos agarradas não podiam abraçar, estava carcomida, porque fôra queimada por um raio; as tres casas novas, caiadas, que se distinguiam de longe com as suas claridades vivas, e cujas vidraças scintillavam com o sol poente, tinham sido levantadas por uns brazileiros ricos, um dos quaes tambem presenteára a Nossa Senhora da igreja, com uma lampada de prata, que causára inveja ás outras _Nossas Senhoras_ da visinhança. Mas, de todos os factos que permaneciam, e que Miguel tanto estimava, aquelle que o chocou de um modo energico, aquelle que o penetrou em todo o seu ser com uma força omnipotente, foi o toque do sino grande da igreja, que ainda era falhado como d’antes!...

Quando agora o ouviu pela primeira vez, depois de tantos annos, eram trindades e estava comendo uma posta de bacalhau á lareira do Beiral. Deixou caír o garfo de ferro, ficou a olhar com um modo estupido, e as lagrimas corriam-lhe pelo rosto enrugado! Oh! era aquelle o mesmo som, que o accordava nos domingos despreoccupados da sua vida passada!...

Por todos estes motivos, o embarcadiço resolveu morrer na sua aldeia!... Estava velho, ainda que robusto; as fadigas e os trabalhos por esse mundo fóra tinham-no gasto muito. O mar... o mar para elle já não podia ser senão uma sepultura!... Uma grande sepultura decerto; mas, sepultura por sepultura, tinha ali uma na igreja que era mais perto, ainda que mais humilde. Ficava ao pé dos ossos de sua mãe que não conhecera, e de seu pae que não tornára a ver!... Resolvido isto de um modo terminante, principiou a interessar-se pela historia local, pela monotonia da conversa dos visinhos, a quem elle espantava com os successos da sua vida curiosa. Vieram-lhe tambem os desejos de grandes emprehendimentos agricolas—quiz cultivar o seu campo. Plantava hortaliças que mandava vender á villa, semeava batatas, colhia quasi um carro de milho, uma meia pipa de vinho e tinha muita fructa. Os seus melões e melancias davam-lhe orgulho—mandava-os vender ás romarias, onde já tinham nomeada e eram preferidos aos dos outros cultivadores! Tambem não admira, pois que lhes dedicava muito tempo e amor—regava a tempo, mondava-os com sagacidade, regulava-lhes o sol de um modo conveniente... O padre Beiral disse-lhe um dia, que não se fallava nas gazetas de que houvesse, em qualquer parte do mundo, outros melões como os d’elle. O Timão, orgulhoso e confundido, respondeu:

—Isso, senhor, é da semente e da Senhora da _Bôa-Viage_ a quem os encommendo sempre!...

* * * * *

Mas havia na aldeia uma malta de rapazes, que tinham por brazão não deixar segura qualquer fructa boa, no quintal de quem a tivesse. Estes meliantes, n’esse anno em que o sacerdote gabou os melões, projectaram ir _proval-os_ de noite. O Timão já andava com a pedra no sapato e, para os prevenir, disse um domingo no adro, ao saír da missa, fallando bem alto para ser ouvido, «que se alguem lhe fosse ao meloal _o racharia de meio a meio_!»

O Tone da Engracia incitou-se com esta ameaça e propoz um assalto á fazenda do embarcadiço... Poderiam ir n’uma noite escura, com cautelas premeditadas, para não serem presentidos... Desceriam do muro de vagar, por uma corda presa a certo carvalho, para não fazerem baque no chão...

O meloal era muito perto da casa, n’um recanto soalheiro, onde podiam á vontade ser meticulosamente vigiados... O Miguel Timão tratava-os com tantos cuidados, que até para lhes tirar a sombra baixára uma videira antiga, dirigindo-a para uma latada, junto ao muro... De manhã cedo, ainda o sol vinha em casa de Deus, já elle, em mangas de camisa, andava contando as boas melancias rajadas, que deixára na vespera, e os optimos melões apimentados assentes sobre folhas, para não apodrecerem com a humidade da terra.

Alegrava o espirito, consolava, vêl-o assim de barba branca, este velho robusto e musculoso, trabalhar com amor, assiduamente, no seu campo, incluindo n’esta preoccupação toda a sua alma e todo o seu tempo... Oh! os rapazes que pensavam em roubar-lhe os melões, decerto se arriscavam muito! O velho Timão levado por mal seria um demonio, em convulsões de desespero!...

Mas o da Engracia, o Teixugo, o Cambado e o Telhas, não se preoccupavam com medos e sómente commentavam com antecipação, a grande risota que se produziria em toda a gente, quando soubessem que aquelle papa-gente tivera, ao seu tão gabado meloal, um inesperado assalto! A não ser o Telhas, os outros, não pensavam em qualquer risco. Sendo alta a noite e bem escura, o embarcadiço estaria a dormir profundamente! Se, ainda tivesse um cão, podia haver receio; mas, o imprevidente velho, dizia muitas vezes _que um bom cão era elle_!

Quando chegou a noite do sabbado combinado, o Telhas, que era cagarola, ainda disse... assim com um modo engulhado:

—Home, e se elle nos pilha?!

Esta phrase denunciava quanta impressão, diante da mente espavorida d’este rapaz, produzira o quadro terrificante do Timão, n’um canibalismo infimo, mastigando os seus companheiros de infortunio, na desesperada fome que soffrera no mar das Indias! O Tone irritou-se com esta covardia despresivel, chamou fracalhão ao Telhas, que lhe respondeu com um modo prophetico e despresador:

—Olhem o valente! Tamem quero ver, quando te vier um balasio pelos queixos, se não ficas de cara á banda!...

Mas o da Engracia engulia balas—não tinha medo nenhum d’ellas! N’essa mesma noite, estavam resolvidos, foram. Mas, como não queriam ser engarampados com alguma arriosca, ao chegarem ao sitio, caminharam instinctivamente com certa prudencia... O embarcadiço era um velho rijo, que não tinha medo da morte, porque a vira muitas vezes diante de si. Não se importava de matar um ladrão, arriscando-se a ir por uma barra fóra; pois andar por lá sempre fôra sua vida. Com uma navalha de tres estalos e um bacamarte de bôca de sino, costumava fazer ameaças abstractamente, dizendo:

—Aquelle que m’as fizer estiro-o. Ainda seis centos mil raios me partam!

A beata Vicencia, quando lhe ouvia esta jura, recuava berrando:

—Abrenuncio! Santo Nome de Maria, que nos póde vir um grande castigo por causa d’este excommungado!

O Timão retorquia-lhe com olhar de piedade:

—Calla-te minha papa-hostias. Bons castigos soffri eu por esse mundo.

Porém, o plano de roubar o meloal estava estabelecido, os rapazes não trepidaram. O da Engracia é quem saltaria dentro, para encher o sacco. O Teixugo e o Cambado ficariam no caminho, de vigias; o Telhas em cima do muro. Á meia noite o Tone desceu do muro, cautelosamente ajudado pela corda presa ao carvalho, para não ser presentido... Quando assentou os pés na terra defendida pela navalha hespanhola e pelo bacamarte de bôca de sino, estremeceu involuntariamente!... Sentia, dentro em si mesmo, uma opposição, á qual resistiu com toda a força da sua energica vontade. Talvez desejasse retroceder; mas atraz de si, em cima do muro, estava o Telhas, a quem chamára fracalhão, e que logo que o viu um momento parado e apurando o ouvido, lhe disse com uma ironia perceptivel:

—Home, não tenhas medo. O velhote dorme como um porco.

O rapaz encorajou-se subitamente, levantou a cabeça com orgulho e começou a andar com certa resolução temeraria. Na profundidade da noite tranquilla, serena e sem luar, ouvia-se o cochichar subtil dos vigias, o som gemebundo e extenso de dois sapos, o ruido estival, permanente e continuado dos ralos!... Um grande morcego manchou a limpidez do ar com o seu vôo largo, produzindo um silvo. A pequena casa do Timão ainda se percebia ao fundo, por entre as arvores de fructa, como uma massa confusa. A escuridade e o silencio augmentam sempre o medo, e no cerebro do Tone da Engracia, as idéas principiavam a atropellar-se, a confundir-se, a tomar fórmas...—diante dos seus olhos, configuravam-se homens aggressivos. Por isso elle tornou a parar no meio do campo! Então sentiu-se n’um isolamento mais completo, como o do alto mar!... Por cima o céu limpido, as estrellas com movimentos crepitantes de luz, a amplidão cheia de uma sombra grandiosa...—um certo palpitar da natureza que o subjugava! A pequena distancia, em cima do muro, o Telhas, como uma reprehensão sempre viva. Qualquer manifestação de receio, de pavor, que sarcasticas censuras não encontraria?! No entretanto, n’este instante nervosamente inexplicavel, a figura do velho marujo endurecido nos trabalhos e nas difficuldades, appareceu-lhe na imaginação, com uma realidade que feria! N’este momento o Telhas tossiu ao longe! O Antonio estremeceu e teve um calefrio ao longo da espinha! Estas duas circumstancias, bem diversas, deram-lhe o impulso definitivo, e o Tone começou a caminhar ousado, direito, altivo e até insolente! Passando por entre as hervas e calcando as folhas seccas fazia um ruido imprevidente... Que lhe importava a elle que apparecesse o velho maritimo! Aquella tosse casual de um dos seus companheiros teve nos seus ouvidos uma ressonancia ironica, aguilhoara-lhe a vaidade, restituira-lhe a sua coragem e temeridade habituaes.

Entrou no meloal. Principiou a agachar-se muitas vezes, para escolher o que havia de melhor. Estava apparentemente sereno, não temia ninguem. Levantava os melões para os suppezar, para os levar ao nariz pelo lado do pé com o fim de lhes apreciar o adiantamento da maturação. Affastava as folhas largas, carnosas, recortadas das melancias...—queria escolher as mais sazonadas. O que lhe ía servindo cortava rente pelo pé, e logo ía depositar, a dois passos, no carreiro junto do sacco. N’um d’estes instantes, o silencio da amplidão foi cortado por um chiar de gonzos prudentissimo... O Tone levantou a cabeça á escuta... Não percebeu mais nada: talvez fosse a passagem de algum noitibó por entre a ramagem das arvores. A escuridade não o deixou ver a cabeça do Timão, que appareceu ao postigo, escutando... O da Engracia continuou. Mas, quando tinha cortado mais um melão e que o ía levar... sentiu certa difficuldade em mover um pé!

Empregou impensadamente um esforço mais energico para vencer esta opposição; porém, sem logo perceber porquê, caiu redondamente no chão, de bruços, produzindo na quéda o baque de um corpo sem vida!—tinha os pés presos n’um laço intelligente, armado pelo marinheiro, para agarrar um ladrão presumptivo. O temerario rapaz deu um grito e esforçou-se logo por se levantar, colleando como uma cobra ferida na cabeça!... Porém, soccorrel-o, era impossivel. Os companheiros, atterrados pelo som do bacamarte de bôca de sino que o embarcadiço disparou para o ar, fugiram, tendo ainda tempo de ouvir esta phrase temerosa:

—Seus grandissimos ladrões, que os mato!

Taes palavras e aquelle tiro disparado com um fim theatral, produziu o effeito previsto. Os companheiros do Tone, julgando-o talvez morto, abandonaram-no. O Miguel Timão, que saíra da casa com grande rompante para espantar os que estivessem, chegou-se ao que jazia no chão, e disse-lhe com ar de troça:

—Então sempre caíste melrinho?! Deixa que eu t’o digo já. Ha-de-te ficar de escramenta.

O da Engracia, completamente submettido, pediu:

—Ó tio Miguel, não me faça mal, que eu não torno...

O marinheiro não lhe fez mal. Tambem lh’o estava pedindo sua irmã, que era muito obrigada ás esmolinhas, que a tia Engracia lhe fizera em tempos precisados. Porém, apesar dos esforços de raiva e das supplicas, o velho maritimo não prescindiu de enlear bem enleado o seu preso e de o ir collocar no caminho, com o fim de ser solto pelos primeiros misericordiosos que passassem para os campos! E ao deixal-o fóra do muro, disse-lhe:

—_Prá_ outra vez, se cá voltas, ha de ser peor. Entendes?

Depois retirou-se, não cedendo mesmo á intervenção a favor do adoptivo da Engracia, feita por sua irmã Catharina, que lhe pediu para o desamarrar, e a quem respondeu:

—Sabes que mais?! _Bae bugiar._ É uma ensinadella.

O REI ABSOLUTO

O REI ABSOLUTO

Emilio era uma creança robusta, que tinha as pernas grossas, os braços grossos, o pescoço firme, o olho penetrante, travesso, audacioso. As suas pestanas finas, grandes, ramudas, sombreavam-lhe as pupillas negras; as sobrancelhas espessas, fortes, unidas, aproximavam-se irriçadas, nos momentos de colera infantil, como o dorso de uma hyena.

Quando já tinha quatro annos e que sentia o poder intimo dos seus musculos; quando principiava a distinguir-se dos outros, a considerar-se pessoa, e que reconhecia, como uma energica qualidade que se impõe, a sua vontade potente e a sua força capaz de executar, o pequeno Emilio quebrou uma jarra de flores, atirando-lhe acintosamente com uma pera, que não queria comer, por desejar outra. A mãe, que era severissima, castigou-o. Elle que era um rapaz de brio, principiou uma berraria de mil diabos, gritando com perrice, com frenesi, deitado de barriga, batendo no chão com os pés, com os punhos, com a cara, e mordendo no bibe para o rasgar! Convencionaram calculadamente, a mãe e as creadas, não fazer caso d’elle, deixal-o chorar quanto quizesse, deixal-o espernear, gritar, morder-se, contundir-se. Queriam fatigal-o, vencel-o pelo proprio esforço que fazia, para assim lhe darem uma lição moral, para o ensinarem a conhecer que as maldades castigam por si mesmas, aquelles que as praticam. Mas, qual lição, ou qual diabo!—esta conspiração passiva enraiveceu-o ainda mais, e mordia ainda mais nas mãos, batia de cada vez mais na cara, de cada vez dava na cabeça com o punho mais cerrado e com mais força! Quando a mãe, com a sua paciencia reflectida, lhe disse, do vão da janella onde costurava, com voz moderada e firme: «deixa que tu has-de-te calar», elle, berrando com mais força, respondeu-lhe: «não hei, não hei, não e não», continuando intencionalmente o seu choro.

Dava uns gritos agudos, estridentes, discordantes, como as vibrações de uma rebeca desafinada; mas depois, com o tempo, como a mãe previra, veio o cançasso, o desleixo, o esquecimento de que estava chorando, e decaíu gradualmente n’uma voz mais branda, mais enfraquecida, monotona como o som da ultima badalada de um sino, que se esgota de quebrada em quebrada. Houve até um momento em que chegou a calar-se; porque no chão, adiante da sua cara, uma _farmiga-operaria_ andava lidando na remoção de uma pedra que encontrára no caminho. O pequeno animal, estonteado, perdido das suas companheiras, que formavam um longo fio negro, junto da parede, adiantava-se para elle, afastava-se para traz, para a esquerda, para a direita, procurando com uma intelligencia tenaz, um auxilio, alguem que o ajudasse. Por fim vieram mais duas, e então principiou uma lucta obscura, mas profiada e imponente, em que tres formigas removiam, com um nobre esforço cheio de paciencia, uma pedra mais pesada do que todas ellas juntas.

Emilio principiou a interessar-se nos movimentos apparentemente caprichosos dos pequenos insectos. Os seus olhos vivos e animados seguiam com cuidado, com esmero, aquelle trabalho das formigas-obreiras, que tombavam a pedra, levando-a na direcção desejada. Calado, de bruços, com o pequeno queixo sobre o punho, observava attenciosamente todos os movimentos, tendo as linhas faciaes n’uma contencção rigida, nervosa, reveladora de um esforço intimo. A mãe, apreciando incompletamente este silencio de seu filho, disse-lhe com ligeiro ar de triumpho:

—Mas sempre te calaste...

Ao que elle respondeu promptamente:

—Mas vou gritar mais.

E retomou o seu choro com nova energia, com mais vigor. Porém, como viu que a mãe se rira escarnecendo-o, reconheceu-se vencido, mediocre, e cheio de vergonha pela sua imprevidencia, pela falta de tenacidade, fugiu d’ali chorando alto com asperos gritos de raiva.

Foi pelo corredor adiante para a varanda, que dava sobre os campos. Era uma larga paisagem com o horisonte recortado pelas alturas das arvores desiguaes. Os altos castanheiros com as suas folhas lenhosas, rijas e de um verde claro, distinguiam-se dos pequenos carvalhos fortes, atarracados, folhudos e das cerdeiras vistosas, de ramagem espalhada, e de um verde mais suave.

O pequeno Emilio observou, com a serenidade dos seus grandes olhos negros, todo este conjuncto. A sua physionomia era meia contemplativa, meia raciocinadora. Media, com despeito, a enorme superioridade d’aquellas arvores, pela ostentosa corpulencia com que se destacavam ao longe. Mas depois, por um movimento natural, com uma reacção instinctiva, fez este juizo simples e claro, dando ás suas palavras um tom imperativo, com os beiços alongados:

—Tambem eu sou capaz de subir a cima d’ellas, como o Manuel!

E com o seu pequeno rosto de uma auctoridade expressiva, ficou a olhar para os campos, fixando soberbamente as arvores, ás quaes se reconheceu superior.

Sentia-se forte como o Manuel, o creado da lavoura. Nos seus musculos havia uma energia latente, a sua vontade era uma voz de commando, intima, secreta, mas absoluta. Elle podia-se mover, andar, ir buscar uma cadeira, arrastal-a até á varanda para subir, para ver as arvores que estavam nas orlas dos campos, quietas, n’uma immobilidade permanente!...

Ao longe viu duas vaccas que pastavam, com a cabeça baixa e o pescoço estendido para a herva. De vez em quando moviam com lentidão, os seus corpos volumosos, dando passadas de vagar, mas pousando com segurança os seus pés. Outras vezes levantavam a cabeça, espalhando mansamente o seu olhar sereno pelas encostas, e, se viam outras vaccas, mugiam com uma voz ululante, vaga, de uma expressão triste. Um pequeno rapaz de dez annos, forte, sujo e travesso, vigiava as vaccas. Em certos momentos, quando ellas se aproximavam das vinhas, era elle que as enxutava, picando-as cruelmente com a aguilhada, berrando-lhes alto, com energia, obrigando-as a tomarem a direcção que desejava.

O pequeno Emilio apreciou, da sua varanda, estes factos com um olhar meditativo, profundo, e conheceu-se intimamente capaz de mandar n’aquellas vaccas, de andar n’aquella liberdade dos campos, correndo, saltando, subindo ás arvores, dando quédas, dando gritos, picando as vaccas...

N’este momento todo o seu ser estava possuido de uma forte necessidade de posse, de commando. Desejava ser livre como aquelle rapaz que via ao longe, no meio do campo, com um imperio indiscutivel e tyrannico sobre a vontade d’aquelles animaes possantes, que obedeciam resignadamente á sua aguilhada. Emilio sentia-se tomado de uma grande ambição, de um sentimento de energia que o tornava audacioso... Desejava possuir todo aquelle mundo que via—as vaccas, os campos, as arvores, as casas, as poças de agua, os pombos que passavam no ar com o seu vôo rapido, as proprias nuvens que estavam suspensas, como ephemeros frocos de espuma. Mas queria possuir _tudo_, mandar em _tudo_ de um modo absoluto, incondicional!

—Se morresse toda _essa_ gente... era tudo meu!—raciocinou atrevidamente.

_Essa gente_ eram os outros, os que possuiam aquellas cousas todas, que no momento elle ambicionava!...

E com as palpebras immoveis, as pupillas fixas n’um ponto indeterminado, as sobrancelhas severamente contraídas, os beiços alongados como os de um macaco colerico, o queixo apoiado na mão esquerda, contemplou a grandeza _do mundo que via da varanda_!

Por fim, absorvido _na sua idéa de poderio, de auctoridade_, desceu da cadeira e, calado, altivo, arrogante, foi por um corredor escuro que se abria na sala.

* * * * *

Entrando, observou com intrepidez, com supremacia indiscutivel, os retratos e as gravuras que estavam pendentes das paredes. Sustentou um olhar de soberba, com a estatueta de porcelana, que representava Christovão Colombo com o mundo na mão esquerda. Reparou com desdem altivo n’outra de um velho general _do primeiro imperio_, que faiscava coleras marciaes dos olhos coruscantes, tendo o seu chapéu napoleonico de travez, na direcção dos fartos bigodes, e apoiava a mão esquerda nos punhos da sua espada invencivel. O pequeno Emilio, vendo casualmente no espelho da parede, que o seu pequeno rosto tinha bastante séveridade, encarou de novo o general, ainda com mais intelligencia e sobrecenho, conservando-se firme, auctoritario e dominador!