Colonisação de Lourenço Marques: Conferencia feita em 13 de março de 1897
Part 3
Pelo contrario, na Zambezia, não succede o mesmo. O preto ali, submette-se ao senhor do praso em que habita, trabalhando por um preço baixo, de 3$000 a 4$500 reis por mez, por isso que mal acredita que não está já sujeito ao regimen da escravatura, unico possivel para fazer trabalhar o negro, quando convenientemente fiscalisado. Os inglezes tanto assim o comprehenderam que, feitos grandes esforços, sob vãos pretextos de philantropia e generosidade, para acabar com a escravatura barbara dos antigos tempos, a reorganisaram com meios mais suaves, mas não menos firmes, em seu exclusivo proveito. E têm razão, pois que a liberdade que nós damos ao preto resume-se em lhe darmos só direitos, dos quaes o que lhes é mais precioso é o de não trabalharem, sem lhe impôrmos deveres.
Assim, temos na provincia de Moçambique pontos onde podemos ir implantar, sem receio de mau exito, as verdadeiras colonias de exloração, ricas, de largo futuro, não inferior ao da nossa colonia de S. Thomé, sem recorrermos para isso a Lourenço Marques.
É, porém, certo que este districto dispõe de recursos especiaes: é cortado de rios navegaveis, que tornam os transportes muito faceis: dispõe nos valles dos rios de fertilissimos terrenos, onde se poderiam installar culturas remuneradoras; pela sua posição fóra dos tropicos e proximidade da visinha colonia do Natal e da Republica sul africana, as experiencias n'aquelles paizes realisadas, poderiam decerto aproveitar-lhe; e finalmente ainda, é menos insalubre do que os outros districtos da provincia, á excepção talvez de alguns pontos de Inhambane e das terras altas do interior. Algumas localidades até, infelizmente pouco extensas, são relativamente salubres, dando-se o caso curioso de que não se podem sempre reconhecer á primeira vista as suas condições hygienicas. É assim que Incanine, no baixo Incomati, rodeado por toda a parte de pantanos e lodaçaes, se reconheceu ser o local mais salubre de todos os occupados em 1895 pelas nossas tropas; era por assim dizer um verdadeiro sanatorio.
Por isso, industrias agricolas ha que se devem installar em Lourenço Marques; serão naturalmente aquellas que exijam pouca mão d'obra, ou em que o trabalho possa ser feito por machinas e ainda as que possam tirar valor dos seus faceis meios de transporte, os rios.
Taes são a creação de gados, quer vaccum, quer lanigero, e a cultura de cereaes, que poderia fornecer largamente a metropole. Que importa, com effeito, que a Huilla, que a região de Milange e tantas outras possam fornecer o milho e o trigo, se estes, por falta de transporte barato, não puderem sahir do paiz de producção?
A cultura do milho, sem duvida se póde realisar em Lourenço Marques; cultivam-n'o os pretos em todos os pontos onde ha agua, e não são poucos, e com magnifico resultado, pois se vêem as plantas attingir 3, 4 e mais metros de altura, com uma producção proporcional ao porte. Em todo o valle do baixo Incomati, do Limpopo e do Maputo, se vêem vastas planicies, onde ás areias se misturam as alluviões do rio, formando um sólo extremamente fertil.
O trigo deveria tambem dar-se, por isso que se produz em condições analogas no Natal; das experiencias feitas no districto, pouco se póde concluir, pois que ainda não foram regularmente seguidas para fornecer dados seguros; todas, porém, têm dado resultado e só de uma, feita nas visinhanças da cidade, soube que os resultados foram pouco animadores, mas é provavel que, se o trigo se manteve rachitico e sem desenvolvimento, foi porque as experiencias foram mal dirigidas, não se escolhendo a época favoravel á sementeira, nem o typo de semente mais apropriado. Na Beira, onde o dr. Arriaga, um dos benemeritos da colonisação africana da costa oriental, fez experiencias da cultura do trigo em larga escala, os resultados foram magnificos, obtendo em média 50 sementes; ora o que succedeu no valle do Busi, n'uma alta latitude, mais naturalmente succederá no do Incomati.
Nos postos do Incomati, no Marracuene, Manhissa, Magudi e no Maputo, foram estabelecidos, em 1895, com o atilado criterio de quem então dirigia os negocios da provincia, pequenas quintas regionaes, com o fim de se proceder ás necessarias experiencias de agricultura, e, apesar dos poucos meios de que a provincia podia dispor, muito ha a esperar do resultado d'estes trabalhos, que oxalá sejam dados a publico.
Quer o milho, quer o trigo, muito vantajosamente seriam importados pela metropole, pois decerto os transportes seriam baratos, em fretes de retorno. O milho, além do consumo no interior do districto, pois que, comquanto pareça incrivel, o districto de Lourenço Marques importa por vezes milhares de saccas de milho e arroz, poderia ser utilisado para fabricação do alcool exportavel para o Transvaal, producto de que já ha montadas fabricas importantes, quer na cidade, quer em Ressano Garcia.
Além d'estas culturas principaes e ainda do arroz, muitas outras se poderiam crear, não só para consumo local, mas talvez tambem para exportação. As arvores de fructo europeias desenvolvem-se bem no districto, conforme se verificou nas plantações de Anguane. As laranjeiras e limoeiros não têm difficuldade em medrar, pois que os ultimos são selvagens, encontrando-se ao longo das margens do Incomati milhares de limoeiros, carregados de esplendidos limões, que se reproduzem sem cultura, para gaudio dos cafres e dos macacos.
Nas vertentes dos Libombos, do rio dos Elephantes, até á fronteira sul do districto, em grande parte dos valles do Incomati, do Umbeluzi e do Limpopo, a creação de gado vaccum far-se-ia sem difficuldade, pois em qualquer d'estes pontos se vêem rebanhos de gado de centenares de cabeças, pertencentes aos cafres. O gado muar e os burros dar-se-iam tambem perfeitamente, podendo prestar grandes serviços n'aquelle paiz em que os cavallos morrem tão facilmente: duas muares vi no Incomati, que, tendo fugido aos donos, se tinham tornado selvagens, vivendo em liberdade e eram magnificos exemplares; infelizmente foram mortas a tiro, por quem decerto tinha pouco bom senso.
O gado lanigero, pelo menos raças semelhantes ás do Transvaal e do Cabo, encontraria tambem magnificas condições de desenvolvimento n'uma extensa zona nas vertentes dos Libombos, onde já se encontra, na posse dos cafres, se bem que em pequeno numero e de raça inferior. A exportação das lãs constitue hoje um dos principaes elementos de riqueza do Cabo da Boa-Esperança e do Transvaal, e podel-o-ia ser tambem de Lourenço Marques.
Na zona que da base da vertente dos Libombos vem até á zona argillosa e humida, encontram-se, quando a população escasseia, avestruzes selvagens, indicando-nos o proveito que pela sua creação poderiamos tirar da região arenosa do districto, de um modo analogo áquelle por que no Cabo da Boa-Esperança se conseguiu tirar d'aquelles animaes um rendimento importante, de centos de mil libras annuaes.
A cultura do arroz e do algodão, o primeiro já hoje cultivado em pequena escala pelos negros, e o segundo, de que já se fizeram ensaios coroados de bom resultado, poderiam tambem concorrer para a prosperidade da colonia.
De tantos elementos de riqueza, e ainda outros que seria longo enumerar, pouco se aproveita hoje, apesar de muitos esforços por vezes empregados pelo governo. Já em 1780 foi necessario que o governador Pereira do Lago, obrigasse os moradores á cultura do algodão, e em 1760 o governador Pedro de Saldanha de Albuquerque forçou os habitantes de Lourenço Marques a entregarem-se á agricultura, «_para ao menos evitarem que até o pão e a mandioca lhes viessem de fóra_». Que diria elle hoje, em que vem de fóra não só o pão para os brancos, mas ainda o arroz e o milho para os cafres!
Das riquezas mineiras de Lourenço Marques pouco posso dizer. Ha talvez ouro, e minerios preciosos, nos filões dos Libombos e ao norte do districto, na camada de conglomerados, mas das pesquizas até hoje feitas nada se tem conseguido; verdade é que têm sido poucas e mal dirigidas; entretanto alguma vantagem haveria em que se fizessem methodicamente.
Se Lourenço Marques não está em condições de poder, como colonia de exploração propriamente dita, vir a attingir o elevado grau de prosperidade de S. Thomé, Cabo, Java, etc., nem por isso é tão desprotegido pela natureza, como vêmos, que não possa, amparado pela sua colonia commercial, desenvolver-se e medrar, concorrendo em curto periodo para libertar a metropole dos pesados encargos do seu _deficit_ de producção cerealifera.
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Mas se Lourenço Marques só póde ser principalmente uma colonia commercial, devendo-se a esta sua feição subordinar tudo o mais, nem por isso faltam, nos nossos vastos dominios coloniaes, regiões onde se installem colonias de outro genero.
Na região alta do interior de Moçambique podem encontrar-se vastos terrenos salubres, com clima pouco differente do nosso e onde a população póde desenvolver-se sem obstaculos insuperaveis. Taes são Manica, Milange, a região do Nyassa, etc., e para ahi nos installarmos basta que o nosso povo ahi queira repetir os trabalhos que os nossos antepassados executaram na America; o governo só póde fazer os trabalhos de preparação, ou installar colonias penaes. As colonias militares, pelo seu caracter, não julgo que possam dar bom resultado.
Para colonias de exploração temos quasi toda a vasta área da provincia de Moçambique, que se abre á nossa actividade, apresentando-nos uma variedade de recursos que difficilmente se encontrarão n'outros pontos. Se estamos, ou por outra, se o nosso descuido levou outros, mais activos e trabalhadores, a nos deixarem reduzidos a uma tira de terreno ao longo da costa, essa mesma situação nos dá a posse dos melhores portos, testas obrigadas dos caminhos para o interior, que se podem encontrar desde o Cabo da Boa-Esperança até ao Guardafui.
Inhambane, n'uma zona de mais de 100 kilometros de largura e que corre parallelamente á costa, tem uma população numerosa e trabalhadora, terrenos fertilissimos, e a borracha e o café desenvolvem-se ali espontaneamente, sendo este de magnifica qualidade. Antigas plantações junto da villa, mostram ainda hoje a pujança dos cajueiros, coqueiros, mangueiras e outras muitas especies vegetaes. O café, que cresce quasi na costa, não tem animado ainda até hoje os nossos colonos a iniciarem plantações, limitando-se a ensaccar o que do interior é trazido pelos cafres; ha annos, porém, ensaiou-se ali uma larga plantação de chá, que morreu com o fallecimento do proprietario, tendo entretanto apresentado bons indicios. No interior do districto a caça, bufalos, zebras, antilopes e até elephantes, são abundantissimos.
Se de Inhambane passamos ao Zambeze, encontramos uma bella via fluvial, em cujas margens, e em tempos remotos, os nossos maiores estabeleceram grande numero de feitorias, povoações e centros agricolas, de que ainda restam vestigios.
Modernamente alguns homens de iniciativa têm, em pouco tempo, realisado fortunas avultadas e fundado magnificas plantações no baixo Zambeze. O coqueiro, de que se encontram ali milhões de exemplares, tem sido plantado largamente; a canna saccharina, o café, o arroz, etc., estão sendo cultivados com vantagem, e se os exemplos dados fossem seguidos, poderiamos em pouco tempo ter ali a primeira colonia de exploração portugueza, superior ainda a S. Thomé.
Nos prasos das margens do rio ha magnificas mattas onde a madeira podia ser explorada, e onde os elephantes ainda se encontram com abundancia; em Tête encontram-se jazigos de carvão, infelizmente de qualidade inferior na parte já reconhecida, e nos terrenos ainda não explorados ha indicios de importantes jazigos auriferos.
Na região alta do norte do Zambeze, o clima é semelhante ao da Europa, e ahi poderiam os colonos ir restabelecer-se, quando atacados das doenças inevitaveis no valle insalubre do rio.
Finalmente mais ao norte, no Ibo, Moçambique e Angoche, pouco se conhece do interior, mas a todos estes portos concorre o café selvagem do sertão e por elles se exportam annualmente muitos contos de reis de sementes oleaginosas. Desde que sejam conhecidos, provavel é encontrar territorios ainda mais bem dotados do que os da Zambezia, região esta onde a colonia de Blantyre, ha poucos annos começada, já hoje exporta mais toneladas de café do que toda a provincia de Moçambique exporta de saccas da mesma mercadoria.
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Não seria, pois, razoavel procurar fazer de Lourenço Marques uma colonia de exploração propriamente dita, tentando introduzir ali, com sacrificio, culturas que a provincia n'outros pontos espontaneamente nos dá. O futuro de Lourenço Marques está inteiramente ligado ao seu desenvolvimento commercial e á emigração para ali de individuos capazes de o alargarem e de capitaes que o facilitem, e isto está, mais uma vez o repito, nas mãos da iniciativa particular.
Ao governo compete não contrariar, pelas suas medidas administrativas, essas iniciativas e vigiar para que os seus agentes sigam a mesma-ordem de idéas. Por nós ou pelos estrangeiros, Lourenço Marques ha de fatalmente tornar-se o primeiro porto commercial da Africa do sul, e tudo o que contrarie esse destino redundará em nosso damno.
A permanencia dos governadores no districto (de 1881 até 1896 houve vinte e sete mudanças de governadores), a creação de tropas coloniaes, a separação naturalmente indicada de Lourenço Marques e Inhambane, n'um governo autonomo, do resto da provincia, a applicação dos rendimentos do districto ao seu melhoramento, sem os distrahir para fóra, a nomeação de pequeno numero de funccionarios, bons e bem pagos, em vez de muitos e mal pagos, o ensino obrigatorio da lingua cafreal, a organisação dos cafres no interior, sem vexames, causa de todas as revoltas, e tantas outras questões de administração, só podem ser ordenadas pelo governo, e muito contribuirão para a prosperidade do districto, com o qual a metropole já hoje não deveria fazer despezas.
Que os penosos e lentos sacrificios que nos impuzemos durante muitos seculos, não vão hoje, que a messe está madura, aproveitar a outros, que avidamente espreitam o momento de lançar mão dos nossos despojos; e que uma colonisação preponderante e activa nos mantenha aberto o vasto campo de expansão e actividade necessario a um povo que não está ainda completamente decadente e perdido, é o que devemos procurar.
De entre os restos do nosso vasto dominio colonial é Lourenço Marques aquelle de que a avidez estrangeira mais nos demonstra a importancia capital para o futuro desenvolvimento de Moçambique. Para que a sua desnacionalisação não se opere, torna-se necessario que para ali concorra a actividade commercial, a industria e os capitaes, que são ainda mais do que os emigrantes, o nervo da colonisação, e de todos estes meios de acção nenhuma região é mais rica do que o norte do paiz e em nenhuma cidade elles se encontram mais largamente espalhados do que no Porto.
É por isso que, agradecendo ao Atheneu Commercial do Porto o honroso convite com que me distinguiu, e á assembléa a cortezia e attenção com que se dignou escutar o que diligenciei expôr, sem galas de estylo, mas com inteira franqueza e verdade, me sentirei verdadeiramente orgulhoso, se por pouco que seja, tiver conseguido attrahir sobre Lourenço Marques as attenções d'uma cidade, a primeira sempre no paiz, nos grandes emprehendimentos de que póde resultar para a nossa querida patria, riqueza, gloria e prosperidade.
[1] Dados extrahidos do _Districto de Lourenço Marques_, por Eduardo de Noronha.