Part 6
Nasceu nas doces, puras regiões?... --Ah quem onde dirá nasceu Satan?!... --Nasceu entre as demais constellações? --Commandava as flammantes legiões?... E seria seu pae Leviathan?...
N'esse tempo do exilio as penas mestas Jupiter não soffrera inda proscrito; Apis não inventára suas festas... Não errava inda Pan pelas florestas, E não ladrava Anubis no Egypto.
Pára aqui, n'este ponto, a humana vista!... --Quem sabe se do velho Cahos nasceu?... Só quando contra Deus a lança enrista, É que segundo, o eleito, o Evangelista... Não se acha mais o seu lugar no Ceu?...
*AGUA FURTADA D'UM ORIGINAL*
(A Fernandes Costa)
Eu moro altivo é só n'uma trapeira, Onde as pennas das pombas deixam rastros; Exposta todo o dia á soalheira... E onde passa dormindo a vida inteira, Nas visinhanças limpidas dos astros!
Como na era feliz das serenadas, As graves castellãs nos seus balcões, E gothicas varandas recostadas... --Vejo, em baixo, passar as cavalgadas, Os enterros e as lentas procissões!...
Professo o culto só do _far niente_ Deitado, todo o dia, num colchão... Na posição immovel d'um vidente... Fumando o meu cachimbo, eternamente, Com os tranquillos modos d'um sultão.
Ó filhas do _spleen_ malfadadas Vãs poesias sem razão nem senso! _Ó sebentas_ do estudo empoeiradas, E tristes quaes sultanas despresadas, A quem o grão senhor não deita o lenço!...
E vós teias d'aranhas inquietos Tecidos, onde o sol brilha e seduz!... Ó Musas que inspiraes os meus sonetos! Qual foi o deus, ó astros dos meus tectos! Que vos creou ao seu _fiat lux_!?
Sois vós que me escondeis, qual caracol, E servís de cortina e bambinellas... Quando eu declamo involto n'um lençol, E as visinhas que estão tomando o Sol A espreitar-me se põe entre as janellas!...
Ali tenho um cachimbo de cigano Sobre uns versos que fiz a uma Felicia... E onde puz um retrato de Trajano, Dentro d'um casacão diluviano, Soffrendo como Cesar de calvicia!
Nas paredes estão phrases symbolicas, E aqui e ali borrados a carvão: Uma Venus com ar de grandes colicas, Um santo d'umas barbas apostolicas, E dous frades jogando o bofetão!
Mais ao pé, tenho as cartas de namoro, E uma Biblia mui velha onde no fim... Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d'ouro... Tendo n'um grande pé chinello mouro, E vestido com ar de mandarim!...
Defronte ri sinistra uma caveira, A que puz uns bigodes com cortiça... E d'um truão a loura cabelleira... E me acompanha a rir da vida inteira Como um Marte do Papa ajuda á missa!
Ao lado mora-me um visinho manco Que faz dos sinos unico regallo... E gosa da união d'um saltimbanco, Que anda pintado de vermelho e branco, E toda a noute canta como um gallo.
Defronte uma visinha costureira, Doce lyrio que treme a um vento vario... Que canta a manhã toda e a tarde inteira... E tem deixado cá para a trapeira Duas vezes fugir o seu canario!...
Toda a noute o sineiro tem secretos Desejos de espreitar como é que eu passo!... Imita o som dos sinos indescretos... E canta, n'uma voz que abala os tectos, Ao som das cambalhotas do palhaço!
E assim eu vivo só n'uma trapeira... Onde as pennas das pombas deixam rastros... Exposta todo o dia á soalheira, E onde passo dormindo a vida inteira, Nas visinhanças limpidas dos astros!
*BILHETE D'UM ESTUDANTE*
D'aquelle esguio telhado --Onde tu sabes que eu moro, Eu acho os astros d'um ouro Já bastante mareado!
Nenhum d'elles val a trança Dos teus cabellos compridos! Por isso meu peito lança Ao teu telhado gemidos!
Se eu fosse Deus, minha amada! --Dar-te-hia Satan m'esfólle!-- Uma cartinha fechada, Servindo de lacre o Sol.
Mas sou um predio em ruinas, --Não tenho nada commigo, Sou um deus feito mendigo, Que tomo o sol ás esquinas.
Divago roto e contente!... --Odeio um lente--e o Philyntho! E sob este azul clemente, Triumpho alegre e faminto!
Meus deuses são Vico e Dante!-- E gosto, no meu caminho, Encontrar Minerva amante, E as Musas cheias de vinho.
Como um barco sem amarra, Navego, turgidas vellas, E desafio as estrellas, Á noute, sobre a guitarra!
E a cabello louro ou preto-- --Fragillidades do barro! Envio sempre um soneto Na mortalha d'um cigarro!
Erro sem norte e sem tino! --Ninguem m'estende o seu braço! Quer-me por força o destino Comendador ou palhaço!
*Postscriptum.*
Desculpa-me, flor amada! --Ó minha Musa divina! Não fui hontem á escada, Por que empenhei a batina!...
*A LADY*
Aquella que me tem agora, presa Minha alma, meus sentidos, meus cuidados, E me faz sonhar sonhos desmanchados, É uma altiva, uma olympica ingleza.
Nunca typo ideal de mais pureza Vi nos gothicos quadros mais presados, Seus dôces olhos castos e velados Tem um ar, infinito, de tristeza.
Tem uns gestos de deusa que caminha, Fronte grega, e um ar grande de Rainha; E umas mãos, como as ladys de Van Dick.
Segue-a sempre um lacaio, e tristemente, É por ella que eu morro, lentamente... E ponho no bigode _cósmétique_.
*DEDICATORIA D'UM LIVRO*
A Ti, a quem, eu, sempre, em meus idyllios, Sublimo, em phrases ternas... Te dedico, eu, vergonha dos Virgilios! Estas rimas _modernas_.
Para que, minha fama, inda hoje escura, A tua boca espalhe, Ao lel-as, no intervallo da leitura Das obras de _Terrail_.
E as guardes na gaveta, onde costumas Guardar os teus velinos... Entre os frascos, essencias, mais as plumas, E os novos figurinos.
Que possam occupar teus pensamentos Meus lyricos ensaios!... E, ó meu bem! lhes concedas os momentos Que dás aos teus lacaios
E vejas quanto em mim é aviltante O amor das fórmas tuas... Que me faz baixo, vil e semelhante Aos histriões das ruas.
A Ti, que com teu rir sempre me animas A sagrar-te em meus motes, Dedico eu estas modernas rimas Para os teus... _papelotes_.
*HUMORISMO MYSTICO*
(Ao Dr. Thomaz de Carvalho)
Quando eu morrer, se acaso inda presares Aquellas nossas digressões antigas Ao verde campo, e as joviaes cantigas Da aldeia inda apagar os teus pezares...
Se, acaso, inda a giesta, o rosmaninho, A larangeira e o grande muro branco... Te lembram... e te vaes sentar no banco Ás tardes... junto ás tilias do caminho!...
Se, acaso, aquelle nome solitario Que eu fui gravar um dia no pinheiro, Vinha descendo o sol... como um guerreiro Cheio de sangue... atraz do campanhário...
Se, acaso, aquelle nome o tronco duro Inda o guardou fiel!... e a larangeira!... E eu não passei por este val escuro Como uma ave lugubre e estrangeira!...
Se acaso inda te lembra d'esse, a quem Tanta vez tu vestiste com as tranças!... E á cova em que eu jazer vier _alguem_... Sem ser as meigas pombas e as creanças!...
Se acaso aquelle fogo em que te abrasas Inda não se apagou!... nem o encanto!... --Mais que a ideal palpitação das azas, Ser-me-ha doce, meu bem! ouvir teu pranto!
E n'essa cova então bella e dourada, --Como a nossa união antiga e calma! Colhe tu uma flor branca e raiada... --Que n'essa flor te enviarei minha alma!
Toma cuidado n'ella... Ali se encerra O que amaste!... e, ah! não vás como as mulheres Curiosas d'amor, lançando á terra As folhas virginaes dos _malmequeres_!...
Planta-a dentro d'um vaso predilecto... Entre os outros, á luz... sobre a sacada... E eu gosarei como um praser secreto, Sentindo a tua mão pequena e amada!...
Será esse o meu goso derradeiro!... O meu sol, meu azul, o meu espaço!... E ao sentir-me regar pelo teu braço... Lembrar-me-ha o teu osculo primeiro...
Lembrar-me-ha a giesta, o rosmaninho, A larangeira e o grade muro branco... --E quando iamos fallar no velho banco, Ás tardes... junto ás tilias do caminho!
*O CANNIBAL*
(A C. Verde)
Tenho, defronte, uma visinha loura Cuja carne alva, fina e setinosa, Faz lembrar, quando á tarde o sol descóra, A côr humana pallida da rosa.--
Não é fragil, nem debil, vaporosa, Como as virgens mortaes que a luz não doura, Antes é forte, esbelta e a voz sonora, --Tranquilla e altivamente magestosa!
Nasceu formada assim para os amores; E o modo com que rega as suas flores, Na varanda, a sorrir, não tem rival!...
Ao vel-a os D. Juans baixam a falla!... --Mas quanto a mim... quisera _devoral-a_... Com a fome imbecil d'um cannibal!
*ROMANTISMO*
Quando ergue o transparente da janella, Ou que o seu quarto se innundou de luz, Eu amo vel-a seductora e bella --Longos cabellos sobre os hombros nus!
Oh como é bella! e como fico a olhar Dos seus cabellos desatando a fita!... Lembram-me as virgens que do austero ermita Vinham as noutes d'orações tentar!
Oh como é bella! Tem na luz do olhar Quaes violetas quando as fecha o somno, Não sei que doce ou languido abandono, Não sei que triste que nos faz scismar!
Como eu a espreito, palpitante o seio, Como eu a sigo nos seu gestos vários... N'aquelle quarto, aquelle ninho cheio Da doce voz dos joviaes canarios!...
Como eu quisera ser nos sonhos d'ella Um rei das lendas, o fatal _D. Juan_, Pirata mouro em galeões á vella, Com minaretes sob o ceu do Iran!
Como eu quizera--e que vontade intensa!-- Só pelo brilho d'essa longa trança! Ser cavalleiro d'invencivel lança, Ou rei normando d'uma ilha immensa!
Como eu quizera, no seu pensamento, Ser o rei bardo no rochedo duro, E ambos fugindo, recortar o vento, Sobre a garupa d'um cavallo escuro!
Se me morresse, que comprido choro!... Como vergára sob a cruz da Malta! Como eu deitara a minha taça d'ouro Por causa d'ella d'uma torre alta!...
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E assim por ella fico preso, em quanto O sol s'esconde no occidente triste, Um cravo murcha n'uma jarra, a um canto, --E as aves vôam debicando o alpiste!
*AVENTURAS*
Tenho bem fundo, ainda, a sua imagem Gravada na minha alma. Era alta e bella; Tomei _cognac_ muita vez com ella, E aos circos a levei de carruagem.
Era nervosa e lyrica. De pagem Não faltavam _Destins_ áquella Estrella, Lembra-me ainda a scena da janella, E aquella em que morria na estalagem.
Depois viajou muito. Foi a Hespanha, A França; Italia; Londres; a Allemanha; Teve um naufragio, junto de Delhi.
Um corsario vendeu-a na Turquia; --E hoje, ahi, vive, emfim, e leva o dia A enxotar as moscas d'um _kadi_.
*O INCONVENIENTE DE MATAR A MULHER*
(A Alexandre Dumas Filho)[3]
Matei-a!... Sobre o leito desmanchado Morreu!... Mas o remorso me povôa! E, agora, vago solitario e á tôa, N'uma tristeza immensa despenhado!
Quando o punhal no arminho immaculado Enterrei... Sempre a mágoa me corrôa! Ella chorou, gritando-me... _Perdôa_! _Morro_!... e morreu!... Ó lyrio ensanguentado!
E agora aonde irei! Horror! Tortura!... O ceo é o seu olhar! A noute escura Lembra-me sempre o seu cabello preto!...
E, ó supplicio dos crimes verdadeiros! --Ouço, em chusma, gritarem-me os livreiros: _Quando é que sae agora o seu folheto_?...
*UM BLASÉ*
(A S. Nazareth)
Olhando o mundo assim com ar d'enfado, Casaco abotoado e de luneta, Caminha com ar grave no Chiado, Com ar de quem achou algum planeta.
Dizem que nutre uma paixão secreta Este Musset dos homens ignorado, E pulsa um coração esphacelado, Ali debaixo da casaca preta.
A todos diz ha muito andar _blasé_... E falla em vasar copos d'absyntho, Como quem bebe orchata ou capilé!...
Mas, Bacho! ó ceus! perdoem-me se minto! Referem que uma noute, n'um café, Acharam-o a libar do... _vinho tinto_!
*O VELHO*
D'entre os males crueis da Humanidade, A que os vis animaes estão sujeitos, Nenhum mais triste e cheio de defeitos... Do que a dura e imbecil senilidade!
N'esta quadra de prantos e saudade, Ha velhos d'alvas barbas sobre os peitos, Que nos fazem lembrar, pelos seus geitos, Orang-otangos de provecta edade.
E eu vi um velho assim!... Seus fortes braços... Tinham como a rijesa dos bons aços... E os seus gestos seriam d'um guerreiro...
Se não fossem seus labios já sem dentes, Fazendo uns gestos comicos, ridentes... --Como um macaco em cima d'um coqueiro!...
SEXTA PARTE
RUINAS
*FARRAPOS*
(A Oliveira Martins)
A ALMA
Estou lassa de ti, mundo em ruinas!-- Velho mundo cruel! nada m'ensinas! De grande ao coração! Acaso estás tão gasto e gangrenado?!
A CARNE
--Ah como é bom, sob este azul arcado, Fazer a digestão!
A ALMA
Prefiro antes cerrar-me solitaria A sós e o ideal--ó visionaria Grande ambição do bem! Como é que o vicio affronta as violetas?!...
A CARNE
Que olhos tão sensuaes! que tranças pretas Que a quella mulher tem?--
A ALMA
Cansada de soffrer, em vão anceio O Justo, o Bello!--Ó terra, abre-me o seio! Bastante, emfim soffri! Estou lassa do Vicio, e da Impostura!
A CARNE
Dizem que a terra é fria, a cova escura, E tudo acaba ahi!
A ALMA
Estes tempos são vis, e sem virtude! Os corpos sem valor e sem saude, Os peitos sem amor!
A CARNE
Mas ha _corpos_ mui brancos e perfeitos! Olhos cheios de luz--formosos peitos, Tranças de negra côr!...
Ha noutes de prazer pelo caminho! E abunda muito velho e forte vinho Sem ser falsificado!
Nem tudo é luto e dôr!--Ha muito riso! --E é mais quente que o antigo Paraiso O seio do Peccado!
A ALMA
A Morte, a Morte, é o termo das tristezas! É ali que emfim livres das torpezas! Se pode ser feliz!
A CARNE
Mas, mau grado essas nobres _theorias_, --O que passar por mim, findos dous dias, Tapará o nariz!
A ALMA
O que importa!--Melhor é que pereças!... Antes na terra ali tu apodreças... Do que eu, n'estas paixões!...
A CARNE
Assim será talvez! Santas doutrinas! Mas as pernas gentis das dançarinas Teem grandes tentações!
A ALMA
Calculos vãos! Contemplações pequenas! --Seculo vil d'aspirações terrenas, Cain do Pensamento! Matas as creanças e bons sonhos puros!
A CARNE
Vou vêr se ponho um capital a juros, Que dê _cento_ por cento!
A ALMA
Hontem, foram levar á sepultura Uma santa mulher formosa e pura, Celeste, livre d'erros!... Tão virginal!... Ninguem lhe orou na cova!
A CARNE
Mandei fazer uma casaca nova Para os grandes enterros!--
A ALMA
Nada é mais triumphante que o Egoismo, A ambição de brilhar, o vil cynismo, --E, n'este carnaval... Custa a encontrar um peito bom, sincero!..
A CARNE
Foram-se os castellões, o negro clero! --Saude ao _Capital_!...
A ALMA
O Capital, bem sei!--A eterna historia Do assassinio das honras e da gloria, Do talento e da Idea!... Vil raça de tyranos e bandidos!...
A CARNE
Silencio! que as paredes tem ouvidos!... --Cuidado na Cadeia!
A ALMA
Tem quebrantado as almas, as mais fortes! --Tyrano algum já mais fez tantas mortes, Nem mais vis proscripções!
A CARNE
Talvez! Talvez! Mas fez, na Sociedade, Guardar a Lei... firmou a _Propriedade_, _O juro_ e as _inscripções_!
A ALMA
É elle o protector dos seus _direitos_! --Ó nobres corações, sem fel nos peitos, Simples castos e bons! Deixae-vos fuzillar por essas ruas... Que vos afoguem as creanças nuas, Sem sangue e sem _coupons_!
Deixae que o _senhor_ goze--Ó Natureza! Curvae-vos, passa agora Sua Altesa Que o mundo assim dispôz! Callae-vos rouxinoes melodiosos!...
A CARNE
Não sei por que!--São muito saborosos Cosidos com arroz!
A ALMA
Velho bezerro d'ouro sobe ao throno! --Ó alma escura, ó terra, ó abandono!... A vil devassidão... Roe-vos mais que o bolor, mundo em farrapos!...
A CARNE
Se as meigas andorinhas mais os sapos Fizeram união!
A ALMA
É isso! O Capital faz maravilhas! Elle bem sabe ás Mães comprar as filhas, Dal-as ao lupanar! Roubar as crenças, honras e a saude!...
A CARNE
Não fazem mais, amantes da Virtude, Que dar-lhes de jantar!
A ALMA
Quantas tristes que a tysica asphixia... Sem pão, sem ar, cosendo noute e dia, Vão nas garras do açôr... Cair cheias d'opprobrios e martyrios!...
A CARNE
--Obedecem os sapos mais os lyrios Á lei do eterno amor!
A ALMA
Isto está desabando!... Homens cruentos! Lançae ao mundo novos fundamentos!... Venha o Direito e a Lei! Venha armada, a Justiça vingadora, E que na grande ceifa... a espiga loura...
A CARNE
Que horror!... bem sei! bem sei!...
A ALMA
Visões, visões talvez! Mas preso e adoro Estes sonhos vermelhos e côr do ouro De luta, vida e Acção... Se não fosse inda a crença santa e ardente!...
A CARNE
--Deixa-me louca em paz--e emfim consente Que faça a digestão!...
*AOS VENCIDOS*
Quando é que emfim virá o claro dia, --O dia glorioso e suspirado!-- Que não corra mais sangue, esperdiçado Á luz do Sol que os mundos alumia?!--
Que os _vencidos_ não vejam a agonia Do seu tecto de colmo incendiado, E se ouça retumbar o monte e o prado, Ao tropel da velloz cavallaria?!
Quando é que isto será?--Quando na vida, Virá ella, a doce hora promettida, Hora cheia d'amor, e desejada!...
Em que fataes Cains, fartos da guerra, Nosso sangue não beba mais a terra... --E nem mesmo a Justiça use d'Espada?!
*O MUNDO VELHO*
Nas crises d'este tempo desgraçado, Quando nos pomos tristes a espalhar Os olhos pela historia do passado... Quem não verá, contente ou consternado, --Mundo velho que estás a desabar--?!...
Sim tu estás a morrer, vil socio antigo... E Pae de nossos vicios e paixões! Camarada dos crimes, torpe amigo... --Morre, emfim, correrá no teu jazigo, Em vez de vinho, o sangue das nações!
Deves morrer, provecto criminoso! Tens vivido de mais, vil sensual! Tu estás velho, cansado e desgostoso, E, como um velho principe gotoso, Ris, cruelmente, ás sensações do mal.
--Que é feito do teu Deus, do teu Direito? --Onde estão as visões dos teus prophetas? --Quem te deu esse orgulho satisfeito? Muribundo Caiphaz, junto ao teu leito, Morrem, debalde, os gritos dos poetas!
No tempo em que eras forte, foi teu braço Que apunhalou os grandes ideaes!... Hoje estás gordo, sensural, devasso, E andas, torpe a rir, como um palhaço, N'um circulo lusente de punhaes.
Tu tens vendido os justos no mercado! Crucificado o nobre, o bello e o bom! Vaes cahir templo pôdre e abandonado, Não á voz de Jesus ensanguentado, --Mas ao verbo sinistro de Proudhon.
É elle que te arrasta ao teu jasigo, Andas vergado á sua maldição! Cambalêas ao funebre castigo, E passas corcovado como o antigo, Escravo, sob o lenho da paixão!
O seu grande clarão inda t'innunda, Fulminou-te, morcêgo, á sua luz! Marcou-te a consciençia rôta e immunda, E a chaga que te abriu é mais profunda Que a do lado direito de Jesus!
Nenhum deus, já ninguem póde cural-a! Has-de morrer, caido amphytrião; É essa a dôr eterna que te rala, --Manda erguer o caixão na tua salla, Prepara o funerario cantochão!
Tu tens quebrado os peitos mais robustos, Tens dado aos santos o vinagre e o fel... --Bom conviva de Nero e dos Procustos, Andas ebrio do sangue de mil justos, De mil sabios... de Christo e de Rossel!
Tens talhado a teu modo a Sociedade! E por isso o infeliz que te condemne; Ensanguentaste as mãos da Mocidade, Nunca amaste o Direito ou a Equidade, Matas Vallès...... Deixas viver Bazaine.
Tu viveste contente e agasalhado Entre os brilhantes, e as visões do gaz! --Bem te importava a neve... e o ar gelado, O Frio e a Fome... É tepido o Peccado! Calvo amigo!... Venceu-te Satanaz!
Tornaste o Templo casa de penhores, --Mas ninguem ora a Deus nas cathedraes! E já cheios de lastimas e dôres, Nós lemos mais nas petalas das flores Do que em todas as folhas dos missaes!
Morre, morre, venal, sem um gemido! --Nem podes, levantar as mãos aos ceus! Ha muito que ris d'isso, aborrecido? Em nada crêste, em nada!--Adeus vencido! Morre ahi como um cão!--Vencido, adeus!
Morre, morre, na lucta, pois, soldado! Corpo cheio de tedio e de bolor! --Adeus, velho navio destroçado! --Morre! antigo conviva do peccado! --Faltou-te sempre Deus, a Lei e o Amor!
*AOS VENCEDORES*
Visto que tudo passa e as épicas memorias Dos fortes, dos heroes, se vão cada vez mais, Que tudo é luto e pó! ó vós que triumphaes Não turbeis a razão nos vinhos das vãas glorias!
Não ergais alto a taça, á hora dos gemidos, Esquecidos talvez nos gosos, nos regallos; E não façaes jámais pastar vossos cavallos Na herva que cobrir os ossos dos vencidos!
Não celebreis jámais as festas dos noivados, Não encontreis na volta os lugubres cortejos! --E se amardes, olhae que ao som dos vossos beijos Não respondam da praça os ais dos fusilados!
Sim!--se venceste emfim, folgae todas as horas, Mas deixae lastimar-se os orphãos, as amantes, Nem façaes, junto a nós, altivos, triumphantes, Pelas ruas demais tinir vossas esporas!
Pois toda a gloria é pó! toda a fortuna vã!-- --E nós lassos emfim dos prantos dolorosos, Regámos já demais a terra--ó gloriosos Vencedores! talvez,--_vencidos d'amanhã_!
*A CANALHA*
Eu vejo-a vir ao longe perseguida, Como d'um vento livido varrida, Cheia de febre, rota... muito além... --Pelos caminhos asperos da Historia-- Emquanto os Reis e os Deuses entre a gloria Não ouvem a ninguem!
Ella vem triste, só, silenciosa, Tinta de sangue... pallida, orgulhosa, Em farrapos, na fria escuridão... Buscando o grande dia da batalha, --É ella! É ella! A livida Canalha! --Cain, é vosso irmão!
Elles lá vem famintos e sombrios, Rotos, selvagens, abanando aos frios, Sem leito e pão, descalços, semi-nus... --Nada, jámais, sua carreira abranda! Fizeram Roma, a Inglaterra e a Hollanda, E andaram cum Jesus!
São os tristes, os vis, os opprimidos, --Em Roma são marcados e batidos, Passam cheios de vastas afflicções!... Nem das mesas lhes deitam as migalhas! Morrem sem nome, ás vezes, nas batalhas, E andam nas sedições.
Veem varridos do lugubre destino! Em Roma e a velha Grecia erram, sem tino, Nos tumultos, enterros, bachanaes... Nas praças e nos porticos profundos... E disputam, famintos e immundos, O lixo aos animaes!
São os parias, os servos, os _illotas_, Vivem nas covas humidas, ignotas, Sem luz e ar; arrancam-lhes as mães, --Passam curvados nas manhãs geladas, E, depois de já mortos, nas calçadas, Devoram-os os cães.
Elles veem de mui longe... veem da Historia, Frios, sinistros, maus, como a memoria, Dos pesadellos tragicos e maus... --Eu oiço os reis cantando em suas festas! E _elles_, _elles_--maiores do que as florestas-- Chorarem nos degraus!
É uma antiga e lugubre legenda! --Vão, sempre, sempre sós, na sua senda, Sublimes, quasi heroicos, rotos, vis... Cheios de fome, ás luzes das lanternas, Cantando sujas farças, nas tabernas, Chorando nos covis.
Alguns dormem em covas quaes serpentes! Viveram, entre os povos, e entre as gentes, Vergados d'um remorso solitario... --Sabem, de cór, os reinos desvastados! E, vieram, talvez, ensanguentados Da noite do Calvario!
Teem trabalhado, occultos, noite e dia, Ó reis! ó reis! as luzes d'esta orgia, De subito, que vento apagará! --Corre no ar um echo subitaneo... E escuta-se, feroz, no subterraneo, O riso de Marat!
Chega, talvez, a hora das contendas! Ó legionarios! desertae as tendas, Já demolem os porticos reaes... Os que teem esgotado a negra taça, --Cantam, ao vento, os psalmos da _Desgraça_, E a historia dos punhaes!
Vão, ha muito, na sombra, foragidos, Pelas neves, curvados e transidos, Em quanto Deus se aquece nos seus Ceus! Vem do Sul uma lugubre toada, E escuta-se Rousseau, na agua furtada, Gritar--_Que me quer Deus_!?
Erguem-se ebrios de mortes, de vinganças,-- Assoma lá ao longe um mar de lanças, Resoam sobre os thronos os machados... E a Europa vê passar, cheia de assombros, Ferozes, em triumphos, aos seus hombros, --Seus reis esguedelhados.
Á voz das legiões rotas, sombrias, Desabam pelo mundo as monarchias... Tremem os graves bispos... e depois... Que mais farão? perguntam, desolados, --Vão ser, inda, depois, crucificados Os deuses e os heroes!
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Vae prolongada a vil, barbara orgia!... No silencio da noite intensa e fria, Vem uns echos perdidos de batalha... Como uns ventos do norte impetuosos, --São uns passos, nas trevas, vagarosos, Os passos da _Canalha_!