# Claridades do sul

## Part 5

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Teu corpo está talvez, dilacerado Entre as plantas escuras e as raizes!.. E, ah! que vezes talvez, n'um _ai_ cortado Não me terá teu seio immaculado Entre as hervas bradado--_Não me pizes_!

Por isso vou curvado para o chão Com medo de pizar-vos, tranças bellas! --E ah! quantos, como eu, tambem irão, Correndo o mundo atraz d'uma illusão, Ou soletrando as mysticas estrellas!

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Foste-te luz das solidões amenas! Ó grandes olhos trístes divinaes!... --Partiste, casta pomba d'alvas pennas Em procura dos lucidos pombaes!

*TRISTISSIMA*

N'um paiz longe, secreto, Lendaria ilha affastada, Jaz todo o dia sentada N'um throno de marmor preto.

No seu palacio esculpido Não entram constellações; Os tectos dos seus sallões São todos d'ouro polido!

Nas largas escadarias Sobem vassallos ao cento, De noute suluça o vento N'aquellas tapeçarias.

E pelas largas janellas Fechadas, sempre corridas, Ha flores desconhecidas Que não olham as estrellas.

Na dextra segura um calix, --Calix da Dôr e da Magoa! Onde está contida a agoa E o sangue dos nossos males!

Pelas florestas sosinhas Escuras, sem rouxinoes, Erram chorando os Heroes, E as desgraçadas Rainhas.

Seguida, á noute, de servas, Caminha, em cortejo mudo, Rojando o negro velludo De seu cabello nas hervas.

Sómente ao vel-a passar Ficam as almas surprezas; --Ha todo um mar de tristezas No abismo do seu olhar!

*IDYLLIO TRISTE*

(A Léon de La vega)

Olha! sinto-me exhausto Pomba da minha vida! Eu serei o teu Fausto, Sê minha Margarida!

Deixa que o alegre ria Alma que me estremeces! Que ruja fóra a orgia Os prantos, as _kermesses_!

Vamos a colher rosas, Rola dos meus carinhos! Pelos brancos caminhos Nas noutes luminosas!

Sob esta curva azul Amemos, bem amada! Na torre levantada Que gema o rei de Thule!

Que o mundo chore e gema Em quanto o Tempo dura! Da nossa noute escura Façamos um poema!

Deixa na roca os linhos Pomba dos meus amores! E aos sabios e aos doutores Os livros e os cadinhos!

E aos tristes, aos ascetas As grutas, os cilicios, E a esponja dos supplicios Aos labios dos poetas!

Nas noutes estrelladas, Amemos solitarios! Deixemos as estradas Que levam aos Calvarios!

Olha! sinto-me exhausto Pomba da minha vida! Eu serei o teu Fausto, Sê minha Margarida!

*A UM LYRIO*

(A. A.)

Conta como é que existe A tua vida á luz, Lyrio mais casto e triste Que os olhos de Jesus!

Quando nasceste, flor? Quem te arrancou do chão? Gérou-te occulto amor De morto coração?

Ó lyrio delicado! Ó lyrio branco e fino! Talvez fosses creado N'um seio femenino!

Escuta ó lyrio amado! A flor confunde os sabios... Talvez fosses os labios D'aquella que hei amado!...

Talvez fosses seus dedos! Seus olhos innocentes... --Conta-me os grãos segredos... Profundos das sementes!...

O morto que se enterra Leva as paixões secretas?... Dize, se sob a terra, Se amam as violetas!

Ouviste aves chorosas, E o mar nos seus delirios? --Quem é que pinta as rosas? --Quem é que veste os lyrios?

Já viste alguma estrella? Viste uma lua nova! --Abriste n'uma cella? --Floriste n'uma cova?

O que é que mais desejas De tudo quanto existe? O amor?--O que é que invejas Bom lyrio branco e triste?!

Ó vil sorte mesquinha! E eterno desejar! --Invejas a andorinha Que vôa pelo ar!?

*A UMA ANDORINHA*

Nas brisas da tardinha Pára teu vôo um pouco; Ouve um poeta, um louco, --Escuta-me andorinha!

Um pouco deixa os ninhos; Attende as vãs loucuras, --Tambem nas sepulturas Vôam os passarinhos!

Nem sempre o azul ethereo Quaes flexas vão cortando, --Tambem riem, voando, No chão do cemiterio!

Lavam os pés rosados Nas urnas funeraes; --Tu, mesmo, nos telhados Moras das cathedraes!

Não fujas d'um poeta, Que ha nuvens mais sombrias! --Tu já moraste uns dias No nicho d'um propheta!

Por tanto, tu que adoras A primavera e o Sul, Dize-me,--no alto azul, Quem faz sempre as Auroras!

Quem dá tintas vermelhas Ao Sol poente que arde? --Quem coze as nuvens velhas, E accende o astro da tarde?

Os campos dão renovos Tambem, n'outras espheras? --Quem faz as primaveras? --Quem faz os astros novos?

Quem faz a ave-flor? Quem tinge o temporal? --Quem faz a pomba, côr Do lyrio virginal?

No Sol ha violetas, E rios, campos, vinhas? --Dize, se nos planetas?... Tambem ha andorinhas...

E tu que mais almejas? Tens sol, astros e ninhos-- Tens tudo o que desejas... --Luz, grãos, pelos caminhos!

Ó triste ambicionar! Ó santo e vão delirio! --Talvez, ó filha do Ar Quizesses ser um lyrio!

*ENTRE OS ARVOREDOS*

Calma silentia lunae. (Virgilio)

Recordas-te essa noute, ó bella desgostosa! Que nós andámos sós e tristes divagando, Entre as folhas e o vento, o vento leve e brando. Aos lividos clarões da lua silenciosa?!...

Callados e atravez da grande sombra escura Dos cerrados pinhaes e augustos castanheiros, Como as almas leaes e antigos companheiros, Unidos a gemer a mesma desventura!

E eu sentia-te, ó grande e triste Abandonada! Em meu seio verter as tuas fundas maguas, Ao rythmo trivial e nitido das aguas, E á alva e fina luz da hostia levantada!

E andámos a gemer a nossa dôr intensa, E abrindo os corações, os langidos segredos, Aos ais soltos no ar dos grandes arvoredos, E ás vastas afflições da natureza immensa!

Que dôr assim será?--Que dôr será egual! Á quella immensa dôr? ó pallida vencida! N'aquella natureza augusta e condoida, E áquella branca luz, mais fria que um punhal!...

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Ah! nunca mais virá, ó branca desgostosa! Aquella vez que nós andámos divagando, Entre as folhas e o vento, o vento leve e brando. Aos lividos clarões da lua silenciosa!...

*CONFISSÃO A UMA VIOLETA*

Eu confesso-me a ti, doce flor delicada! Recolhida, modesta, e sol da singeleza, Das vezes que atravez da verde natureza Fiz soar com orgulho a bulha do meu nada!

Em vez de amar a vida humilde, chã, callada, Do sabio estoico e são, exemplo d'inteireza, Quantas vezes cuspi no Justo e na Belleza; E cri-me o Fogo e a Luz da géração creada!

Orgulho! orgulho vão! Vaidade e mais vaidade! Como disse o rei sabio e justo á claridade Dos astros da Judea e ao gyro dos planetas!...

Feliz de quem como eu ri das Academias! E estuda as novas leis e as grandes Theorias Nas folhas femenis e meigas das violetas!

*A SUA CAMARA*[2]

No ar calado e bom da camara fechada, Como um ninho d'amor, casto e silencioso, Um grande cravo branco ergue o caule cheiroso, N'uma jarra de jaspe, antiga e cinzelada.

Voam aromas bons no ar tranquillo e molle; Algumas flores vão morrer nas jarras finas, --Elle sereno vê, nas rendas das cortinas, Silencioso morrer na sua gloria o Sol!

Todas morrem ao pé, só elle altivo é bello, No seu vaso de jaspe, entre as demais existe, --Como um rei infeliz n'um ultimo castello, Com seu ar virginal e com seu modo triste!

Cheio de vida ainda, idyllico, ideal, Talvez lamente o amor, na sua jarra d'agua! --Mysteriosa flor!--que caprixosa magoa O virá a pender na haste virginal?!

Talvez lamente o Sol--a luz vermelha viva? O sol que vae morrer--o bello agonisante! Talvez que chore a lua--a lua pensativa! Que lhe venha lavar a alvura soluçante!

Quem foi a branca mão--olympica, divina, A mão macia, ideal--traidora--que o colheu? Que o foi roubar á terra, um dia, e que o prendeu Na fria solidão d'aquella jarra fina?

E foi roubar ao amor, aos cantos, ás folhagens, Á bondade da luz--ás noutes meigas bellas, Exilado do sol, e orphão das paisagens, O cravo virginal--viuvo das estrellas?!

Mysteriosa flor! a sua extranha magoa A ninguem o dirá seu calix pensativo, E a morrer--morrerá, calado, firme, altivo, E nobre como um rei, na sua jarra d'agua!

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Lá fora morre o sol, como um desgosto humano, Voam aromas bons no ar quente e calado; Vae-se esvaindo a luz, e triste, e socegado, Vê-se um jasmin morrer em cima d'um piano.

Nas paredes estão, nas preciosas telas, Pintados menestreis, pastoras e guitarras, Debruçam-se os jasmins nas grades das janellas, E os lyrios, como uns _ais_, morrem nas finas jarras.

Tudo agonisa ao pé, n'aquella solidão!... --Solidão de mulher distincta e perfumada! Cuja pelle é talvez mais fina que a pomada, E as farinhas d'Italia e as sedas do Industão!...

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Tudo agonisa ao pé,--só elle altivo e bello, No seu vaso de jaspe entre as demais existe, Como um rei infeliz n'um ultimo castello, Com um ar virginal e com um modo triste!

E no entanto talvez a mystica amorosa, --A _noiva_ a dona d'elle, occulta uma outra magua No morto coração, mais morto que uma rosa, E do que elle amanhã na sua jarra d'agua!

*HORA MYSTICA*

Hour of love (Byron. Parisina.)

Do pôr do Sol áquella luz sagrada, Eu perdia-me... ó hora doce e breve! Meu peito junto ao seu collo de neve,-- --N'uma contemplação vaga e elevada!

Nossas almas s'erguiam, como deve Erguer-se uma alma á Luz afortunada; Do mar se ouvia a grande voz chorada; --Palpitavam as pombas no ar leve!

Eu então perguntei-lhe, baixo e brando:-- Em que mundos de luz é que caminhas?... Que torre está tua alma architetando?...

--Ella travando as suas mãos das minhas, Me disse, ingenua, então:--Estou scismando No que dirão, no ar, as andorinhas?!

*JUNTO DO MAR*

Que vezes viajando no Passado,! --Nas horas das torturas das Chimeras-- --Meu bem!--scismo nas limpidas espheras,-- Junto do verde mar lento e chorado!

N'esses astros talvez já habitámos, --N'outros tempos mais santos e felizes! E, ó nuvens! bem sabeis se entre as raizes Dos mortos, para os soes nos elevámos!

Talvez que ali tambem fomos romeiros Sedentos do Ideal--sem o encontrar! --Melhor vós o sabeis, castos luzeiros! Ó chorosa e sonora alma do Mar!

Talvez ali tambem--riste, amorosa... Cantando entre as torturas assassinas!... Como as rosas que tapam d'uma lousa As vãas escuras inscripções latinas!

Talvez tam bem choraste nos caminhos... E alegre riste, ás virações contrarias, Como, ó meu bem, ao sol, os passarinhos Riem dentro das urnas funerarias!

Talvez! quiçá! Talvez!--Ó Mar eterno! Tu que és sonoro e minas os rochedos, Duro sombrio, esguedelhado e terno... Como a rabeca cheia de segredos!...

Tu que sabes d'antigas desventuras, E que sabes chorar!... que és musical!... Dize se encontras mais amargo sal Do que os prantos das nossas amarguras!

E comtudo que és tu... mar lastimoso! Guardando como o avaro um vão thesouro!... Sempre vago, cruel, mysterioso... --Senão d'um mundo extinto um longo choro!

E o que são essas vozes laceradas, E, ó gigante! essas vastas convulsões, Senão... senão... mortaes lamentações De cidades e egrejas sepultadas!

Que blasphemías! que choro vem do fundo Do teu peito tão largo e descontente! --São talvez das galés do Novo Mundo, Ou dos ricos navios do Oriente!

Quem tem na voz suspiros mais convulsos, E mais duros e lugubres lamentos Do que á tormenta, e aos desgrenhados ventos... --O mar cheio de medos e soluços?!...

E quem como elle assim nos dá confortos... Ou balsamos leaes, desconhecidos, Alento e amor aos corações vencidos, --E quem mais e melhor falla dos _mortos_!

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Por isso eu irei _só_--ó Mar eterno! Triste e _só_, escutar-te entre os rochedos... Duro, sombrio, esguedelhado e terno, --Como a Harmonia cheia de segredos!...

*DOENTE*

Podesse eu junto a mim--eternamente!-- Sentir roçar, meu bem! o teu vestido E ó ventura! o teu bafo enfebrecido, Teu doce olhar e o teu sorrir doente!

Caia do monte o cedro! a grande molle! Que feneça a _herva prata_ lá no val-- Que me importa!--e qual é meu grande mal Que morra o cedro, e a planta s'estiole!...

Mas tu, meu bem! mais bella que a _herva prata_ Banhada pelo orvalho transparente... Não quero que te vás de mim, ingrata, --Nem teu olhar, nem teu sorrir doente!

Mais depressa em mim vôe ave agoureira... E que o sepulcro avaro me abra os braços, Não veja herva crescer apoz meus passos, --E me maldiga a flor da larangeira!

Mais depressa em meu leito morra o somno, Não brilhem mais no ceu constellações, Que as folhagens me lancem maldições, --Nem hajam fructos para mim no outomno!...

Mais depressa que a vinha que conforta Me negue a sua sombra!--Noute e dia Não luza para mim luz de Alegria, --E que a Tristeza durma á minha porta!...

Por que tu, se te vaes--no teu lençol Levarás, doce riso dolorido!... Como uns fios pegados n'um vestido, Todos os raios d'ouro do meu Sol!

E, em tudo, julgarei vêr teu vestido, No mar, na estrella azul, nos ceus; em tudo; --E quando, acaso, a fronte erguer do estudo Faltar-me-ha o teu riso dolorido!

Por que tu tens disperso em meu caminho O teu sorriso triste... ah! triste, e puro... --E abrigarei depois... um odio escuro, Mais rude do que um cardo, ou que um espinho!

E não mais, nada me ha de consolar!... Nem a Estrella da tarde mensageira, Nem o Amor, nem a flor da larangeira, --Nem a sombria musica do Mar!...

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Ah! podesse eu, meu bem! o teu vestido Sentir roçar por mim--eternamente! E, ó ventura! teu bafo enfebrecido, Teu doce olhar e o teu sorrir doente!...

*N'UM CEMITERIO*

Surgite mortui. (Apocalypso)

Invideo quia requiescunt. (Palavras de Luthero no cemiterio de Wormo)

Mortos! eu vos invejo!--As frias lagens Cobrem-vos, hoje, os corações desfeitos!... As brancas pombas vôam n'esses leitos... E as meigas aves gemem nas folhagens!

A Natureza enflora os vis defeitos... Ri nas estatuas, urnas, nas imagens!.. E, ahi emfim, contentes, satisfeitos, Vós descansais das lugubres viagens!...

Mas comtudo, no inverno, á triste Morte, Talvez seja mais duro o vento norte!... E vos gele inda mais os ossos nús!...

Em quanto nós--ingratos! descuidados!-- Vos deixamos chorar, abandonados, A poeira dos mortos feita luz!

*DESPEDIDA AO SOL*

Adeus, adeus, ó Sol! grão moribundo Tão amado dos mysticos amantes! Vae dourando inda os ninhos e os mirantes E os sinceiraes, o Mar, o velho mundo!

Vae! vae! ó astro lyrico! no fundo Das aguas apagar-te!... Os teus instantes São curtos, coração largo e profundo! Mas da minha amargura semelhantes! E, no entanto, astro de fogo, astro tyrano! Se a tua chaga é funda, no Oceano Todo o teu sangue ali podes lavar!...

Mas eu recalco, ó Sol! meu mal no seío... Peja-me o pranto e a magoa!... e até receio Que os ais da minha dôr vibrem no ar!

QUINTA PARTE

HUMORISMO

*ARANHA*

N'um sonoro theatro antigo da Alemanha, D'um violino aos ais, banhada de luz viva, Surgia d'um covil uma grotesca aranha, Dos banquetes do Som habitual conviva.

O ser sombrio e obscuro, ó meu amor! não priva Da adoração do Bello, a adoração extranha! E assim se embriagava a escura pensativa Da lyrica emoção que nossa alma banha!

Mataram-a uma vez. Não mais a pobre amante Da Musica, surgiu áquella luz brilhante; Foi-lhe o velho theatro a sua sepultura...

Assim preso tambem pela attracção que choro, --Não te rias cruel! Ó idolo que imploro!... Tu és o Violino e eu sou a aranha escura!...

*NOVA BALLADA DO REI DE THULE*

N'um paiz nada visinho... Em Thule até mui distante, Houve outr'ora um rei farçante, Um rei amigo de vinho.

Quando sua amante fiel Mimosa e cheia de graça, Morreu, deixou-lhe uma taça Que semelhava um tonel.

Era tamanha a grandeza Da taça que nada iguala! --Ficava sempre ao esgotal-a, El-rei debaixo da mesa.

Quasi sempe ao lusco-fusco, De noute, até horas mortas, Folgava, as pernas já tortas, Este rei velho e patusco!

Em noute d'agreste vento, Na sua mais alta torre, Pensando em que tudo morre, Tratou do seu testamento.

A sua amisade céga Legava a todos dinheiro, E a seu filho e seu herdeiro Seu reino, seu povo... e a adega.

Da sua amisade em prova A todos dava uma graça, Só aquella enorme taça Levava o rei para a cova!

Um dia, os altos barões, Fez juntar para uma orgia, N'uma sala, onde dormia As suas indigestões.

E ali, depois de libar... Passados curtos momentos, Começou a vêr, aos ventos, Os seus castellos dançar.

Assoma, trocando o pé, De taça em punho, á janella, Mas n'isto, tropeça... e ella Vae levada da maré...

E afunda-se... mas tal revéz Tomba o rei morto de magoa! --Era esta a primeira vez Que a taça se enchia d'agua!

*PHANTAZIA D'UM ABORRECIDO*

Eu vivo só das multidões distante, E tenho um tom solemne grave e emphatico, Amo Flaubert, Gostavo Droz e Dante, Sou mysanthropo, hysterico e limphatico.

Sou phantastico, altivo, e caprixoso, E tenho uns paradoxos meus protervos... E entre elles conto um livro volumoso... Em que explico o Remorso pelos nervos.

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Ás vezes vou pensando, ó tranças negras! Quebrados, sensuaes olhos celestes! Que has de ainda, entre as plantas verde-negras, Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

E n'esses braços lisos, indolentes, Hão de os vermes travar a escura guerra, Hão de infundir pavor, inda, esses dentes, E de beijos fartar-te a immunda terra!

Teu rir sem labios meterá assombros --Ó tu que fazes rastejar as lyras! E serão ossos nús teus lisos hombros, Costumados ás leves cachemiras.

Que vezes scismo, assim quando tu passas, E eu estou fumando ás portas dos cafés, E que insultas as lepras e as desgraças, Coberta de velludos e _plaquets_!

E eu penso ó corpo esculptural, perfeito! Ó corpo de Phryné cheio de graça! Que has de ainda ser putrido e desfeito, E tomar-te azotato de potassa!

E não terás então, ó minha impura! Serenadas debaixo das janellas, E escondida no pó da sepultura Terás medo dos olhos das estrellas!

Hontem, rojando estofos ruidosos, Inclinada e indolente sobre o braço, Comtemplavas com olhos cubiçosos, As contorsões e saltos d'um palhaço.

E eu suffocando dentro os meus anhelos, Soluçava d'amor, ó crua filha, E exaltava-me o olor dos teus cabellos, Onde escorrem perfumes de Manilha.

Mas eu heide vingar-me, ó tranças negras! Ó cansados, mortaes olhos celestes! Quando fores, nas plantas verde negras, Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

Quando morreres, meu botão d'um dia! Açucena que puz no peito o abrir! Farei da tua tez fina e macia Um prosaico barrete de dormir!

Farei da tua trança azevichada Um _cachenez_, por causa dos catarros E será no teu craneo, ó minha amada! Que eu deitarei as pontas dos cigarros!

D'essa carne farei abertas rosas Que enganarão as brancas borboletas! E teus olhos, em jarras preciosas, Olharão, como duas violetas.

Farei da boca um cravo, que no fraque Porei sempre que saia de passeio... E mandarei fazer um almanak Na pelle encadernado do teu seio!

Forrarei as paredes do meu quarto Com tuas longas cartas de namoro... E ali passearei de illusões farto, Como o avaro no meio do seu ouro!

E então tu serás _minha_, ó tranças negras! Quebrados, sensuaes olhos celestes! Quando fores, nas plantas verdes negras, Morar debaixo, um dia, dos cyprestes!

*EL DESDICHADO*

Ninguem póde dizer que soffro ou tenho; Eu não amo a princeza da Golconda, Nem da prisão livral-a é meu empenho, Qual paladim da Tavola Redonda.

E sinto-me ir minando; um mal extranho Que ninguem sabe, e vista alguma sonda, Me mata lentamente, como um lenho Que vae levando, mar em fóra, a onda.

Todas as tardes fujo ao sol poente; Recolho cedo a casa, e durmo quente, E a Medecina já me desengana...

E o meu mal é d'amor, e a minha amada... Uma Chineza ideal, que vi pintada N'uma taça de chá de porcelana!

*A VALENTINA DE LUCENA*

Eu tambem já em tempos não distantes, Fiz versos sensuaes e namorados, Aos occasos de luz ensanguentados, E á meiga e boa lua dos amantes.

E escrevi pelos albuns elegantes Idyllios em papeis assetinados, E, como a luz dos ponches inflammados, Fiz odes ideaes e extravagantes.

Mas hoje emfim mudei, e inda ha bem pouco, A diva por quem choro e vivo louco, --A flor, a flor ideal das maravilhas...

A minha deusa de cabello preto... Pediu-me, rindo, a graça d'um soneto, --E eu mandei-lhe uma caixa de pastilhas!

*PHANTASIAS*

Tenho, ás vezes, desejos delirantes De a todos te roubar, meu lyrio amado! E levar-te, em um vôo arrebatado, Aos paizes phantasticos, distantes.

Á India, China ou o Iran, e os meus instantes Passal-os a teus pés, grave e encrusado, N'um tapete chinez, avelludado, Com flores ideaes e extravagantes.

Nossa vida seria, ó pomba minha! Mais leve do que a aza da andorinha... E, nas horas calmosas, eu e tu...

Olhando o mar sereno, o mar unido, Comeriamos os dois arroz cosido... Emballados n'um junco de bambu!

*A BIOGRAPHIA DE SATAN*

Fragmento

Eu vou contar a grande lenda escura Do fulminado tragico da Luz! Seu antigo esplendor e sorte dura Quando andava entre os povos da Escriptura, E comprava os juizes de Jesus.

Elle é o Velho Mal, o Orgulho, o Enfado, E sómente Satan é um pseudonymo; É o auctor do Remorso e do Peccado, O morcego da Biblia, e o cão damnado Que espancava de noute S. Jeronymo.

No tempo em que era bello, grande e forte, Fez a guerra dos astros contra Deus; Tem-lhe sido incostante e varia a sorte! --Andava roto e pobre por Francfort Nos bairos tortuosos dos Judeus.

Ó anjo expulso, triste e escarnecido, Que foste mais fulgente do que o dia! Deus adorado em Delphos e em Gnido! Ah quem mais do que tu terá soffrido, E teve essa ideal melancolia!

Já Vier contra ti perdendo o tino, Fez dos seus crús pamphletos um açoute; Fez-te sonetos, lubricos o Aretino, E S. Thomaz contou o teu destino, E as aventuras célebres da noute.

Quem dirá os espinhos que cingiste! Quem pesará teu calix de agonias! E quantos longos seculos carpiste Aquella luz que cae maguada e triste, Ó grão crucificado d'ironias!

Eu sei que hoje estás morto ou retirado, Ó corvo escuro e mau do firmamento! E que andavas no mundo envergonhado, Já doentio e calvo, e desdentado, E que era o teu catarrho a voz do vento!

Tu foste sabio, confessor e medico Nos tempos, legendarios, medivaes... Tu eras visionario, vão, prophetico... E o mocho que adejava escuro e tétrico Nos conventos, egrejas, cathedraes...

Eu sei que foste tu que, um dia, impuro, Tentaste a castidade de Rachel! Em Delphos desvendavas o futuro... E cheio d'um pavor tragico e escuro, Deixaste envenenar-te Daniel.

Em Sodoma, na noute derradeira, Tentas as filhas sensuaes de Loth! Fazes de Roma toda uma fogueira!... E és tu mesmo que escolhes a figueira A Judas, natural d'Iscarioth.

Foi _elle_ que abrasou na carne, um dia, A tribu sensual de Benjamin! Prégou na cathedral d'Alexandria; Era pae d'um senhor de Normandia... Foi amigo de Nero e de Cain.

Ia tentar o asceta á sua cella Nos claustros escuros do Occidente;-- Aos Magos escondeu nos céus a Estrella... E andava disfarçado em sentinella Guardando o Justo, o Bom, e o Resplendente.

Ao homem tinha uns odios velhos, tragicos... E era elle, o que andava entre as pelejas!... Corrompeu os conselhos areopágicos; E fazia roubar pelos seus magicos As hostias consagradas nas egrejas.

Fazia distrair a S. Clemente Com a bulha invisivel de corceis; E era elle, nas horas do poente, Quem apagava as luzes, de repente, Quando oravam nos templos os fieis.

Tomava, ás vezes ordens e a tonsura... E benzia as prostradas povoações;-- Fazia a voz então austera e dura, Explicava os segredos da Escriptura, E cantava entre as lentas procissões...

Dava n'um tom dogmatico uma idéa, E vinha discutir com S. Thomaz; Iniciava os sábios da Chaldêa, E nos biblicos tempos da Judea Andava a intrigar Christo com Caiphaz.

Tem no rosto o descor d'um fulminado; --Era mulher nas lendas monacaes; Outras vezes gigante e corcovado, E vagava no mundo disfarçado, Como os deuses nas formas d'animaes.

Nas regiões serenas, luminosas, Encontram-se inda os seus lucidos rastros?... Ó constellações felizes, piedosas... Inda, ás noites, choraes silenciosas A grande lucta biblica dos astros?...

