Part 3
As mulheres são vãs; mas altas e morenas, D'olhos cheios de luz, nervosas e serenas, Ebrias de devoções, relendo as suas _Horas_; --Outras fortes, crueis, os olhos côr d'amoras, Os labios sensuaes, cabellos bons, compridos... --E ás vezes, por enfado, enganam os maridos!
Os burguezes banaes são gordos, chãos, contentes, Amantes de Cupido, avaros, indolentes, Graves nas procissões, nas festas e nos lutos, Bastante sensuaes, bastante dissolutos; Mas humildes crhistãos!--e, em lugubres momentos, Tendo, ainda, crueis saudades dos conventos!
E assim ella se apraz n'um somno vegetal, Contraria ao Pensamento e hostil ao Ideal!-- --Mas mau grado assim ser cruel, avara, dura, Como Nero tambem dá concertos á lua, E, em noutes de verão quando o luar consolla, Põe ao peito a guitarra e a lyrica violla.
No entanto a sua vida é quasi intermitente, Afunda-se na inação, feliz, gorda, contente; Adora inda as acções dos seus navegadores Velhos heroes do mar; detesta os pensadores; Faz guerra a Vida, á Acção, ao Ideal--e ao cabo É talvez a melhor amiga do Diabo!
*A SESTA DO SENHOR GLORIA*
É no fim do jantar. Deram tres horas No bom relogio antigo dos avós, E o senhor Gloria pega n'uma noz Com um ar de quem trata com senhoras.
A casa de jantar toda pintada E o estuque cheio d'aves, de paysagens, De nymphas, prados, d'aguas, de boscagens, Tem uma forma antiga e recatada.
D'involta com seus goles de Madeira A senhora digere o seu café; E ao lado, um filho rubido de pé Parece um pregador sobre a cadeira.
No collo da matrona dorme um gato No melhor somno commodo do mundo, Em quanto em baixo um cão grave e profundo, Contempla uns restos que inda estão n'um prato.
O senhor Gloria falla, chocarreiro, Do seu cunhado Aleixo de Miranda; Lá fóra, um papagaio n'um poleiro Diz cousas aos burguezes, da varanda.
Com um ar meio comico e boçal Um sisudo creado atraz, de pé, De vez em quando falla menos mal; --O senhor Gloria aspira o seu café
Muito tempo assim ficam n'esse estado De santa somnolencia e beatitude, Mais que assás conhecido da Virtude Quando tem digerido e bem jantado.
No entanto o senhor Gloria, olhos dormentes, Contempla na parede os bons pastores, Confidentes fieis dos seus amores, --Que outrora hão já sorrido aos seus parentes
Duas pastoras fallam com poesia N'uma vereda d'alamos annosos,-- E isto accorda-lhe os tempos virtuosos Que a hora do jantar era ao meio dia!
Bellos tempos--pensa elle--de virtude! De gloria, amor, coragem, fé ardente, De longas procissões, e de saude, De singelesa e paz--vida contente!
E o senhor Gloria aqui, n'um travesseiro Deita a cabeça, de pensar prostrado; --O papagaio ri no seu poleiro, --E a senhora sorri para o criado.
*FARÇA TRISTE*
Je suis son pére. (Flaubert)
Ninguem diria ao certo a edade que teria! Era um velho devasso e histrião--bom guia Para mostrar de noute, aos baços candieiros, As casas de bordeis aos velhos estrangeiros.
Encontravam-o sempre a errar, imbecilmente; Era alto, magro, hostil, e dava-se á aguardente--
Tinha um certo tremor em todo o corpo--o vinho Dava-lhe um rir constante; tinha o sorrir mesquinho E dubio que nos faz arrepiar mau grado;-- Fôra mendigo e actor, ladrão, bobo e soldado.
Tinha os habitos vis e as _farças_ de caserna, Ninguem sabia mais os casos de taberna; Como era magro, esguio, e alto como um cypreste Dobrava para o chão; o sopro do nordeste Fazia-o tiritar; tinha os labios fendidos, E uns oculos azues e linho nos ouvidos.
No entanto segue o Mal varios e negros trilhos! O livido truão tinha mulher e filhos Esfomeados, nus, amados com paixão; Por elles fôra tudo:--actor, bobo e ladrão.
Quando voltava á noute, as lividas creanças Rotas, velhas da fome, _ella_ soltas as tranças, Desfeita, emmagrecida, esqualida, doente, Faziam-o chorar a vida e a aguardente.
Injuriava Deus. Elle é sublime e augusto, Bello celeste, bom; dizem-o grande e justo, E habita são, feliz, de soes agasalhado, Em quanto os _mais_ tem fome, e que elle acabrunhado
Era velho e ladrão! Tinha accessos, delirios, E apostraphava o Ceu hermetico aos martyrios, Abraçava a mulher e os filhos, e de novo Saia;--d'esta vez, voltava com um roubo!
Quando voltava então, os prantos da alegria Tornavam-os boçaes,--e o pão era uma orgia!
A mulher tinha um rir alegre e natural, E elle magro e faminto, exhausto, machinal, Chorava como um pae; tinha olvidado o inferno, A misería, a desgraça; era boçal e terno; Tinha um ar virtuoso e angelico; os pequenos Cansados de soffrer a fome, o frio, ao menos Sabiam comer bem! Eram emfim felizes! Não rojavam na terra a devorar raizes! Comiam-lhe o seu pão! Custara-lhe trabalho! Coitados! sempre assim, sem pão nem agasalho! Era uma vida atroz, ingrata vil, escura! Não tinham de comer, não tinham cobertura! Tossiam tanto á noute!--Ah! Deus era um ingrato!
E os prantos em roldão cahíam-lhe no prato.
*MADRIGAL DA RUA*
Ó irmã das açucenas! Meu coração é um horto, Semeado de mais penas Que as chagas d'um Christo morto.
Tanto é ver-te o meu desejo! Tanto em mim poder conservas! Que eu creio se não te vejo Já ser debaixo das hervas!
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Debaixo d'essas janellas Sempre crueis e fechadas, Hontem á noute, ás estrellas, Deram-me quatro facadas!
Mas nenhuma fez no peito O mal,--que por minha cruz! Os teus olhos me tem feito Dando facadas de luz!
TERCEIRA PARTE
CARTEIRA DE UM PHANTHASISTA
*ANTES DE ABRIR A CARTEIRA*
Aqui leitor socegado! Velho burguez d'outras eras! Depõe o livro de lado; --Não leias estas chimeras!
Não corras esta carteira Meu velho amigo sem dentes! Em quanto geme a chaleira Sonha em teus mortos parentes!
Mas vós amigos dos sonhos Doces mysticas violetas, Castos selvagens tristonhos, E solitarios poetas!...
Que amais as tristes paysaygens E as cousas mysteriosas, A longa chuva, as viagens, E as melodias nervosas.
Nas longas noutes d'outono Que o vento varre a poeira, E a chuva bate--sem somno!-- Folheae esta carteira!
*A NOUTE DO NOIVADO*
O primeiro conviva, em punho a taça, Ergueu-se lentamente, e com voz rouca, Bradou: Amigos! consenti que faça Uma saude á Morte--a velha louca!
A minha historia é triste e muito pouca! Eu como vós, sou filho da desgraça, Amei uma só vez. Que mimo e graça! Oh que pé andaluz! que olhar, que boca!
Na noute do noivado--ouvi, devassos! Beijei-a doudamente entre meus braços, E atirei-a no mar, tremula e nua!
Ninguem não mais a gosará um dia! Repousa ali a minha noiva fria, Guardada pelo olhar frio da lua!
*A TORTURA DAS CHIMERAS*
Les édifices eloquentes... Balzac
Quantas vezes, nas noutes pluviosas, Ou nas limpidas noutes estrelladas, Como espectros de espinhos e de rosas-- Erguem-se em nós as cousas apagadas!
Que vezes, n'esta vida positiva, --N'esta comedia lugubre moderna-- Se eleva a outra esphera nobre e viva Nossa alma mais poetica, mais terna!
Os contornos das cousas despresadas, Um fundo triste, um muro, umas ruinas Um mosteiro, um luar--nas almas finas São como umas celestes madrugadas.
Quem não terá jamais sentido um dia As gostosas torturas do _mysterio_ Surgindo, ao fundo, a mystica elegia D'um nevado luar n'um cemiterio!
Sim, nestes climas lucidos do Sul, Tão propenso ás visões sentimentaes E ás chimeras--quem não terá jámais Tido a cruel _melancholia_ azul?
Sim, quantas vezes n'uma tarde bella, Á dorida eloquencia d'um castello, D'um muro, não pensei nos Ceus, _n'aquella_ Que eu podia partir como um cabello!
Nuvens distantes, rubras, singulares, Formas vagas... neblinas pardacentas, Velhos musgos... azul... _cousas_ nevoentas Sois causas de phantasticos pesares!
Quem não terá scismado em suas magoas E amado as cousas mysticas, celestes, Por um luar calado sobre as aguas E um choroso sol posto entre os cyprestes!
No entanto sonhos vãos que nos prendeis Qual prendem velho muro as verdes heras... --É tempo brancas pombas que deixeis Os laranjaes e as ruas das chimeras!
E é tempo que as torturas assassinas Que nos rasgam melhor do que um punhal, --Bem o sabeis mãos brancas, pequeninas! Vos não junteis _miserias_ do Ideal!
*TARDE DE VERÃO*
Trepam-lhe pelas janellas Jasmins, cheirosas serpentes, E soltam-se as bambinellas Em pregas indifferentes.
Os lyrios que são uns ais Suspiram melancholias; Riem quadros sensuaes Nas largas tapeçarias.
Satyro ri nas florestas Niobe soluça magoas, E escuta-se entre as giestas A voz rythmica das agoas.
E á luz dubia dos occasos Ensanguentados do Sul As camelias dos seus vasos Olham voltadas o azul.
Lá dentro das gelosias Volteiam como desejos, Perfumes, melancholias, Como saudades de beijos.
Jaz ao pé do seu bordado Um cofre de filigrana, E um mandarim espantado Com olhos de procelana.
Uma violeta esfolhada Chora um amor n'um jardim. Uma vareta quebrada Ri n'um leque de marfim.
Nadam no quarto perfumes D'oleos, pomadas cheirosas, Um collar mostra os seus lumes; Voam aves gloriosas
N'um album perto olvidado Ha uns idyllios d'amores, E ao pé d'um Christo chagado Morrem nas jarras flores.
Mas, pasmada alheia a tudo Junto d'um missal já velho, Uma masc'ra de velludo Olha idiota no espelho.
Olhos vasios d'espanto, Olha, olha, nada vê, Ri-se uma Venus a um canto, E um cravo murcha-lhe ao pé.
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Assim eu sou moço velho, E em minha alma, ó minha amada! Como a masc'ra no espelho Eu olho e não vejo... nada!
*NA CABECEIRA D'UM LEITO*
Quando as tuas mãos inermes Forem em cruz sobre o peito, E que te roam os vermes Ó corpo branco e perfeito!
E sejas cheia de terra Boca cheia de risadas, Chora este amor que me aterra... Pelas noutes estrelladas!...
*MADRIGAL EXCENTRICO*
Tu que não temes a Morte, Nem a sombra dos cyprestes, Escuta, Lyrio do Norte, Os meus canticos agrestes:
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Tu ignoras os desgostos D'um coração torturado, Mais tristes do que os soes postos, Ou de que um bobo espancado!
Eu bem sei, ó Musa louca Que não conheces a magoa... E tens um riso na boca Como um cravo aberto n'agua...
Eu bem sei... bem sei que ris Dos meus madrigaes modernos. Sem cuidar, ó flor de liz! Que hão de chegar-te os invernos!
Que nos corre a Mocidade, Qual folha verde do val, E ha de vir-te a tempestade, Ó branco lyrio real!
Que has de ser como a açucena Varrida pelo nordeste... E os prantos da minha pena Que hão de regar teu cypreste!
Que ha de a terra agreste e dura Servir-te de ultimo leito... E a pedra da sepultura Quebrar teu corpo perfeito!
E has de, emfim, ser devorada Na fria noute, entre os bichos... Ó tu que andas adorada, Como as santas sobre os nichos!...
--Eu bem sei que te não does Do meu coração ralado, E fazes aos rouxinoes Parodias sobre o teclado.
Que amas ver--como n'um drama, O meu coração ferido, Como um gladiador de fama, Sobre um theatro vencido.
--Ah! mas eu que já estou velho... Carcomido como a Cruz... Digo adeus ao ceu vermelho... E ás boas tardes de luz!
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Adeus, adeus, ó Amor! Sinistra farça divina, Mais sonoro que o tambor De bohemia bailarina!
Adeus, adeus, ó outomno! Vão-se as folhas amarellas!... Sinto-me cair de somno, Olhando para as estrellas!
Sigam todos os meus rastros!... Andei errado o caminho! E sinto-me ebrio dos astros Como um bebado de vinho!
Adeus, adeus rola amada! Não chores a minha viagem... Vou hospedar-me no Nada, Como na boa estalagem!
Adeus, adeus, Mocidade! Já chega o inverno do Mal!... Vae despir-te a Tempestade Nevado lyrio real!
Chegou a noite fechada! Adeus tardes das janellas! --Pintai-me agora no Nada Sobre as tristes aquarellas!
*AQUELLA ORGIA*
Nós eramos uns dez ou onze convidados, --Todos buscando o gozo e achando o abatimento, E todos afinal vencidos e quebrados No combate da Vida inutil e incruento.
Tocava o termo a ceia--e ia surgindo o alvor Da madrugada vaga, etherea e crystallina, A alguns trazendo a vida, e enchendo outros de horor, Branca como uma flor de prata florentina.
Todos riam sem causa.--A estolida batalha Da Materia e da Luz travara-se afinal, E eram já côr de vinho os risos e a toalha, --E arrojavam-se ao ar os copos de crystal.
Crusavam-se no ar ditos como facadas; Escandalos de amor, historias sensuaes... --Rolavam nos divans caindo, ás gargalhadas, Sujos como truões, torpes como animaes.
Um agitando o ar com risos desmanchados, Recitava canções, farças, Hamlet e Ophelia; --Outro perdido o olhar, e os braços encruzados, De bruços, n'um divan, roia uma camelia!
Outros fingindo a dôr, fallavam dos ausentes, Das amantes, dos paes, com gritos d'afflicção, --Um brandia um punhal, com ditos incoherentes; --Outro sobre um sophá ladrava como um cão.
Era um delirio atroz de risos pelos ares! --Ah! mas eu, que só quero a paz dos vegetaes, Feliz! então feliz! matava os meus pesares N'aquelle ocio imbecil da pedra e dos metaes!
Havia extinto em mim as ultimas scentelhas;-- Julgava achar-me só n'aquelle phrenesim, Não sentia pungir as minhas magoas velhas, Feliz! muito feliz!--ah! descansava emfim!
Repousava a final da pallida batalha, Espalhava-se em mim o grande esquecimento; Cuidava achar-me emfim cingido da mortalha, Ou minhas cinzas já dispersas pelo vento.
Quando um d'elles então--n'uma ironia rude, E erguendo-se de pé, na vasta confusão, Com um rir bestial ergueu uma saude --_Áquella_ que tornou-me em cinza o coração!...
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--Ah! seu nome cruel, de subito lembrado, De novo reabriu todas as minhas magoas! E desfeito, de pé, senti-me transmudado, Como um morto trazido á praia pelas aguas!
E como o morto errante ás luas silenciosas, Ao vento, aos temporaes, ás algas das marés, Trazendo inda a visão das noutes tempestuosas, --Todos calou o horror da minha pallidez.
E em lagrimas bradei, então:--Ó Infelizes! Imbecis! histriões! heroes do Soffrimento! Como haveis de fechar as vossas cicatrizes, --Se nem aqui deixaes matar o pensamento?!
*O VISIONARIO ou Som e Côr*
(A Eça De Queiroz)
Eu tenho ouvido as simphonias das plantas.
Eu sou um visionario, um sabio apedrejado, Passo a vida a fazer e a desfazer chymeras, Em quanto o mar produz o monstro azulejado E Deus em cima faz as verdes primaveras.
Sobre o mundo onde estou encontro-me isolado, E erro como estrangeiro ou homem d'outras eras, Talvez por um contacto ironico lavrado Que fiz e já não sei talvez, n'outras espheras.
A espada da Theoria, o austero Pensamento, Não matou ainda em mim o antigo sentimento, Embriagam-me o Sol e os canticos do dia...
E obedecendo ainda a meus velhos amores, Procuro em toda a parte a musica das côres, --E nas tintas da flôr achei a Melodia!
II
J'ai vu les Espréces et les Formes, j'ai vu l'Esprit des Choses. (Balzac Seraphita)
Bem sei que a planta engana e a Natureza mente, E que a flexa do Sol nos pode assassinar, Que a Peste torna o azul sereno e resplendente, E que a pérola sae das infecções do Mar!
Tudo é Materia e Força e lei omnipotente! E em quanto o lyrio incensa e azula-se o luar, Impassivel talvez, em baixo, surdamente, A terra cria a flôr que me hade envenenar.
Bem sei! mas, na floresta immensa das Theorias, Eu amo divagar ouvindo as melodias Que as plantas musicaes dão aos astros e aos Ceus.
Ah! eu vejo Jesus no coração das rosas! Só eu, ouço as leaes flores melodiosas! E o lyrio é para mim a hostia onde está Deus!
III
O vermelho deve ser como o som d'uma trombeta.... (Um cego)
Allucina-me a Côr! A Rosa é como a Lyra, A Lyra pelo tempo ha muito engrinaldada, E é já velha a união, a nupcia sagrada, Entre a côr que nos prende e a nota que suspira.
Se a terra, ás vezes, brota a flôr que não inspira, A trivial camelia, a branca enfastiada, Muitas vezes no ar perpassa a nota alada Como a perdida côr d'alguma flor que expira!
Ha plantas ideaes d'um cantico divino Irmãas do oboé, gemeas do violino; Ha gemidos no azul, gritos no carmezim!
A magnolia é uma harpa etherea e perfumada!... E o cacto a larga flor, vermelha e ensanguentada, Tem notas marciaes, sôa como um clarim!
IV
Mas aquella que adoro, a hieratica duqueza, Nobre como as reaes senhoras de Brabante, Como a hei de pintar egual e semelhante, Se não ha Som nem Côr em toda a Natureza!
Seu collo tem do lyrio a rigida firmeza, Seu amor é um ceu catholico e distante; Mas a luz do olhar sonoro e radiante Eleva como a Côr, sôa como a Belleza!
Nunca lhe ousei fallar, nem sei, se amor lhe inspiro; Mas quando emfim morrer, então como um suspiro Meu seio florirá, em vez do meu amor...
N'uma flor que porá talvez sobre a janella-- Uma flor rubra e negra, em forma d'uma estrella, --Como uma symphonia obscura de terror!
*MADRIGAL FUNEBRE*
Na mortalha alheia não temos mais que fazer Bernardim Ribeiro.
To die to sleep. (Shakspeare)
A ti que os meus ais resumes Estas quadras dolorosas, Corpo inundado em perfumes, E de pomadas cheirosas:
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A mim custa-me a morrer, --Não por que esta vida valha; Mas porque sei que heide ter Teu coração por mortalha.
E, depois d'estes abrolhos, Hei de ter a valla escura Do teu peito, e esses teus olhos Coveiros da sepultura.
Não terei pompas de pasmos, Nem a estatua que lastíma; E hão de mandar pôr-me em cima Uma cruz dos teus sarcasmos!
E para que a morte atteste Epitaphio de bocejos, --E ao pé erguido um cypreste, Nascido dos meus dezejos.
E ao ouvires as enxadas No que morreu sem confortos, Serão tuas gargalhadas As ladainhas dos mortos.
E então ali que me rôa O verme dos teus olvidos, E não tenha uma corôa E os teus cabellos fingidos.
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Ó filha vã de Magdala! Quanto cadaver desfeito Não tens lançado na valla Voraz e fria do peito!?
Quantas crenças enterradas! E que mortos, sem capellas, Sem pombas, nas madrugadas, Nem os prantos das estrellas!
*DEBAIXO D'UMA JANELLA*
A Batalha Reis
FAUSTO E MEPHISTOPHELES
FAUSTO
Nas noutes brancas de lua É que se abrem as janellas! Vem vêr meus olhos escuros A sementeira d'estrellas!
Quem me dera a mim que fosse Para te poder fallar, O teu peito uma janella E o meu amor o luar!
Uma voz (_cantando dentro_)
As estrellas mais brilhantes, Entre as outras as primeiras, São os prantos de Maria E o suor das Oliveiras.
MEPHISTOPHELES (_cantando n'uma guitarra_)
O nosso bom arcebispo Perdeu a sobrepeliz, Uma vez em casa de... São cousas que o povo diz.
FAUSTO
Eu era um rei poderoso, Sem legiões, nem castellos, Tendo a corôa de teus braços, E o manto de teus cabellos!
Meu amor, são os teus olhos, Mais negros que a noute escura, Dous trigueiros assassinos Cavando-me a sepultura!
A voz (_cantando_)
Os rubins são umas pedras Feitas de pingos de luz, Foram as gotas de sangue Dos roxos pés de Jesus.
MEPHISTOPHELES
Escrevi o meu amor No muro do coração, N'uma noute de relento, Com teus olhos de carvão!
FAUSTO
Por que estaes, soes, encobertos, Ó tristes olhos amenos! Receias ó minha esquiva! Não te crestem os serenos?
A voz (_cantando já ao longe_)
Quando subiu ao Ceu Christo Depois da paixão da Cruz, Subiu por vós, ó estrellas! Que sois escadas de luz!
MEPHISTOPHELES
Eu deixarei, ó trigueira, D'amar tuas tranças negras, Quando mandarem os sapos Sonetos ás toutinegras.
FAUSTO
Fecharam-se as violetas E dormem as andorinhas; A mim ha muito que o somno Desertou das noutes minhas!
Ó bem amada das almas, Tão avara de carinhos! Acaso nos teus canteiros Sómente crescem espinhos!
(_affastam-se e vão de braço dado_,)
MEPHISTOPHELES (_ao longe_)
O nosso bom arcebispo Perdeu a sobrepeliz Uma vez em casa de... São cousas que o povo diz!
*A SELVAGEM*
Ás vezes, como os grandes _phantasistas_, Sinto o desejo intenso das viagens... E ir sosinho habitar entre os selvagens, Como n'um ermo os asperos trapistas.
As grandes, vastas, limpidas paysagens, Que sabem vêr os immortaes artistas... Teriam novos tons, novas imagens, Longe do mondo avaro e as suas vistas!
Com uma virgem--flor d'essas montanhas-- Entre os mil sons das arvores extranhas, Dos coqueiros, bambus... fôra feliz!...
Dormiria em seus braços nus, lustrosos;-- E ouviria, entre uns beijos voluptuosos, Tintinar-lhe as argollas do nariz!
*A LANTERNA*
O sabio antigo andou pelas ruas d'Athenas, Com a lanterna accesa, errante, á luz do dia, Buscando o varão forte e justo da Utopia, Privado de paixões e d'emoções terrenas.
Eu tambem que aborreço as cousas vãs, pequenas E que mais alto puz a sã Philosophia, Ha muito busco em vão--ha muito, quem diria! O mais cruel ideal das concepções serenas.
Tenho buscado em balde, e em vão por todo o mundo; Esconde-se o ideal no sitio mais profundo, No mar, no inferno, em tudo, aonde existe a dôr!...
De sorte que hoje emfim, descrente, resignado, Concentrei-me em mim só, n'um tedio indignado, E apaguei a lanterna--É só um sonho o Amor!
*ULTIMA PHASE DA VIDA DE D. JUAN*
(AMOR DE COSINHA)
Afinal D. Juan vinha, hoje, a morrer d'uma indigestão. (Palavras d'um grande realista)
Cançado de vãos fogos de Bengalla, Como Pansa odeei o Pensamento, E abandonei os ideaes de salla --Pelo amor da cosinha succulento!
E os meus fortes desejos sensuaes, --Desejos que hão de dar na morte escura!-- Soluçam só--ó deuses immortaes! Só pela ama d'um florído cura.
Ella é o forte e esplendido ideal! Seu cabello é mais fino do que o ouro, E a sua voz mais bella que o metal, E os cantos catholicos do côro.
Os seus labios vermelhos e discretos Lembram romãs das cercas clericaes, E os seus olhos sombrios são mais pretos Do que o latim escuro dos missaes!
Se, acaso, o mundo nota-lhe alguns erros, Compensa-os para mim com bons presuntos; Os olhos d'ella fazem mais defuntos, Dos que o padre acompanha nos enterros!
Fugiu de mim a vã melancholia!... Ella é franca e alegre como a vinha... E em quanto o padre está na sachristia Eu devoro-lhe as aves na cosinha.
--Mas, hontem, que gosando o seu amor Dormia, santamente, entre seus braços, Bateu, tragicamente, o bom prior, E a escada rangeu sob os seus passos...
O coração pulsou-me acelerado; Ella estacou trémula e suspensa.... Mas levou-me a um sitio agasalhado, --E dormi toda a noute na dispensa.
*A ULTIMA CEIA DE FALSTAFF*
Nunca mais me permitte a sorte crua Que ande ás portas batendo tresnoutado, Vae morrer em beco, abandonado, O maior bebedor que olhou a lua!
Dos braços da creada seminua Nunca mais rolarei sobre o telhado; E, ao relento, encherei, com passo errado, De lettras cabalisticas a rua.
Vae morrer, morrer sim, por seus castigos, O estomago que foi mais forte e cheio, Que na Paschoa ceiou com Satanaz...
Cae o rival dos bebados antigos! Ó toneis immortaes abri-lhe o seio! --São-me fataes as ceias de _goraz_!--
*FALSTAFF MODERNO*
In vino veritas
Quando eu morrer, ninguem lerá no craneo Se eu fui mouro ou judeu, Se presava o _cognac_ ou o _Madeira_, Que soffrer foi o meu!
Ninguem dirá se era trigueiro ou louro, Se eu fui Pope ou Camões, E os sabios não dirão, coçando a calva, A côr dos meus calções.
Não saberão dizer se foi a pipa O hotel em que vivi, E se fazia sol ou aguaceiros No dia em que nasci.
Se, apoz a douda orgia, o meu enterro Pela manhã, sair, Tu virás á janella bocejando, E em coifa de dormir.
E não conseguirás verter um pranto Do terno teu setim, Em quanto os gordos padres irão lentos, Ressonando em latim!
Os annos jogarão com os mais craneos E o meu magro esqueleto Uma especie de jogo das caveiras Dos coveiros d'Hamleto!
Ninguem, mulher, dirá que _funda magoa_ Minou meu coração! E eu mandarei pôr, por epitaphio! --Maldita indigestão!--