Claridades do sul

Part 2

Chapter 2 3,955 words Public domain Markdown

Como vos amo ver ó cathedraes sosinhas, A recortar o azul das noutes constelladas! Erguidos corucheus, mysticas andorinhas, --Ó grandes cathedraes do sol ensanguentadas!

Como vos amo ver, pombas alvoroçadas! Ogivas ideaes, anjos de puras linhas, E ó criptas sem luz, aonde embalsamadas Dormem de mãos em cruz as santas e as rainhas!

Em vão olhaes o Ceu sagradas epopeias! Flores de renda e luz, d'incenso e aromas cheias, Aves celestiaes banhadas da manhã!

Em vão santos e reis, ó monges dos desertos! Em vão, em vão resais, sobre os livros abertos, --O Ceu por que chorais é uma ficção christã!

*LYCANTHROPIA*

L'auteur á remarqué que que la mort de ceux qui nous sont chers, et géneralment la contemplation de la mort, affecte biem plus notre âme pendaut l'été que dans les autres saisons de l'anineé. (Paradis artificiels)

Nuvens da tarde, azul fundo e sereno! E astros inviolados, larangeiras! Para mim não valeis seu riso ameno, E aquellas _lindas_, languidas olheiras!

Nunca mais... eu bem sei que nunca mais... Ouvir-lhe-hei seus ais no ar calado, Junto á janella á tarde no bordado, E entre as murtas do outono... Nunca mais!

..........................................

Quando á tarde, no occaso, os penetrantes Cheiros das plantas nadam pelos ares, E que as vermelhas nuvens singulares Tomam formas de sonhos fluctuantes,

Quando ha no azul a mystica elegia Que nos lança nas lugubres chimeras, Eu scismo então--ó rutilas espheras! N'aquella que já come a terra fria!

E então n'aquella vaga somnolencia-- Somnolencia em que a terra desparece! Mais immortal seu vulto me parece; Mais cruel e sem fim _aquella auzencia_!

Nuvens da tarde, azul fundo e sereno! E astros inviolados, larangeiras! Nunca mais me dareis seu riso ameno E aquellas _lindas_, languidas olheiras.

Quando é que, ó grande e santa Natureza! Me poderás um dia consollar --D'aquella que já mais eu pude amar!-- Inacreditavel, lugubre crueza!

D'aquella que talvez, alegre e louca, Eu de certo amaria;--amara, é certo!-- Mas que era pobre e só, e cuja boca Tinha a vermelha côr d'um cravo aberto!

Cuja voz era doce como um favo, Voz que tocava as cordas mais secretas! Que nos fazia o coração escravo, Cujos olhos... leaes tulipas pretas!...

Nuvens d'Agosto, azul fundo e, sereno! E astros inviolados, larangeiras! Nunca mais me dareis seu riso ameno E aquellas _lindas_, languidas olheiras!

Nunca mais... Ah! mas não; Virá um dia, --Dia livre de vis _conveniencias_!-- Que a ella me una em fim na terra fria, E te ache ó paz! nas santas florescencias!

*O PECCADO*

Nunca cessamos de peccar (Imitação de Christo)

I

*Ubique doemon*

Bem sei... e mais que o sei, claro luar! Que segundo a severa theologia, Pelas noutes sonoras de poesia O aroma dos lyrios faz peccar!

Quem vos diría!... madresilvas, mar, Lilazes, claros rios, cotovia! Que ao dizer da tirannica theoria, Vós farieis a Carne triumphar!

Ah! Natureza, pois, se és criminosa, E nos levam ao mal urnas da rosa, Bom coração de Christo imaculado!...

Quantos não vês morrer, do ceu prufundo, Cheios de sangue, como heroes no mundo, --Exhautos dos mil golpes do Peccado!?--

II

*O Peccado*

Elle é antigo, tragico e venal, Amando a Carne, o Crime e os assassinos, E como a folha acerba d'um punhal, --É quem golpeia os seios femeninos!--

É complicado, mystico, mortal, Com sombrios escrupulos divinos, E é quem faz estorcer os braços finos, E escorregar a lagrima final.

No entanto, grato e funebre Peccado! Atrahente, gostoso e desejado, Negro nome de vicio e perdição!...

A Egreja vê em tudo as tuas chagas; E ha muito tempo já que o mundo esmagas, E te embriaga o sangue da Paixão!

III

*A Cidade*

Em vão busco na velha e hostil Cidade, Beata amante, de gangrenas cheia, As dispersas raizes da Verdade, --Como uma flor n'um pateo de cadeia.

Quando, alta noute, D. _Juan_ passeia, Ella põe-lhe em leilão a mocidade, Tratada com a mystica anciedade Com que um sabio cultiva a flor da Idea.

Mas, comtudo ninguem receia tanto O aspero Deus, e o lenho sacrosanto Da dorida tragedia do Calvario!

E, ó _D. Juan_, ás luzes das estrellas, Tu bem sabes se encontras nas viellas Mais de uma vez, perdido algum rosario!...

IV

*O Inimigo*

Á genoux! Je suis Pan! (Victor Hugo)

Ha muito que é chamado o Aborrecido, O rebelde, o leproso, o descontente, E eterno tentador sempre vencido, Que habita o Ar, a Terra, e o Fogo ardente.

Elle é a hydra, a Carne, o incontinente, O orgulho nos abysmos submergido, O que anda sempre em _nós_, o cão batido, O espirito da Duvida, a Serpente,

Mas, mau grado, ó Egreja, a tua ira, Elle não é nem Vicio, nem Mentira, Nem synonimo de Mal e de Impureza!...

E eu bem sei, negro symbolo apupado, Velho satyro, vil, calumniado, Diabo! que te chamas «Natureza!»

V

*Em toda a parte*

_Elles_ tem dito e escripto que o Peccado Anda disperso e roe o mundo inteiro, Que habita o duro coração guerreiro, E o peito femenino e delicado.

Que anda no ar, em nós, da flor no cheiro, Das pugnas no ruido desolado, No vinho, na paz doce do mosteiro, --No corpo da mulher perfeito e amado!--

É portanto, homem timido e sujeito, Quer te encostes, ou não, ao vão Direito, O teu funebre gozo e teu tormento!

Habitua-te a tel-o na Desgraça, No ar, no chão, na flor, no som que passa, --E até, serpente vil, no Pensamento!

VI

*Á Janella*

Altas horas da noute, quando a rua É deserta da onda crapulosa, No seu caminho em meio, vagarosa, --Abro a minha janella a ver a lua.

Como uma branca divindade nua Ella avança celeste, e, á luz ditosa, Qual copo de cristal que enche uma rosa, O goivo do Peccado em luz fluctua.

Fluctua, e é nestas horas recolhidas Que me ergo então ás cupulas subidas D'onde se avista o mystico ideal...

E rio, e admiro o vulgo obsecado Que cuida ver, nas beiras d'um telhado, Abrir-se n'um _craveiro_ a flor do Mal!

VII

*Ella*

Quando _ella_ emfim morrer, verão os vivos Cortando o ar uns ais de sentimento, Como os lugubres córos dos captivos N'um triumpho, ou n'um grande saímento.

Ouvir-se-hão soluços pelo vento, Elogios, ais fundos, fugitivos, Que dirão:--«Lá se vão meus lenitivos! Morreu a Espada, a Lei, Guia e Sustento!»

O seu tumulo terá goivos e rosas, E vãs estatuas lividas, chorosas, E epitaphios em lugubre latim.

Terá palmas mais verdes que a Esperança; --Mas a alma, em cima, escreverá:--Descança! Serpente, irmã de Judas e Cain!

*SONETO D'UM POETA MORTO*

Achado nos seus papeis

Bem sei que hei de morrer cedo e cansado, Alguma cousa triste em mim o diz, E vagarei no mundo desterrado, Como Dante chorando a Beatriz.

Pelos reinos, irei talvez curvado, Como um proscripto princepe infeliz, Ou como o indio pallido e exilado Chorando o vivo azul do seu payz.

Mas no entanto, ah! ninguem ao Sol divino Abrasou mais as azas, derretidas Ante as duras, ferozes multidões!

E ninguem teve a torre d'ouro fino, Aonde, quaes princezas perseguidas, Morreram minhas doudas illusões!

*A UMA JUDIA*

(SAUDAÇÃO)

Avé Regina! (Hymno Catolico)

Podem apagar o Sol e as estrelas, bastam-me os olhos da minha amada! (Idyllio persa)

Le second soleil! Le second soleil. (Phan taisies scientifiques de Sam)

Ó filha d'Israel, ó vestal impolluta! --Serena como a côr diaphana do azul-- O rebelde da Luz vencêra Deus na lucta Se armara contra os ceus teus cabellos do Sul.

Filha de Cham e Loth, tu és o ideal vivo! (Ó ouro, incenso e myrra, ó licor nunca visto!) Quando nos queima a luz do teu olhar esquivo, Teus olhos ferem mais do que os cravos do Christo!

São dous cravos de luz, dous limpidos espelhos, --A luminosa cruz onde me ensanguentei!-- N'elles soletro claro os grandes Evangelhos, E n'elles leio mais que nas taboas da Lei!

Quando passas por mim, toda a minha alma anceia! E os meus olhares vão cobrindo-te de beijos, --E tu passas--archanjo em corpo de Phrynea, E biblia encadernada em lubricos desejos.

Ah! teus olhos crueis, limpidos, negros, baixos, Se um dia o sol morrendo, enoutecesse os ceus, Ser-me-hiam, mulher! como dois grandes fachos, Á luz dos quaes iria a ver se achava Deus!

*A VISITA*

Hontem dormia á noute--e, eis que desperto Sacudido d'um vento agudo e forte, Como um homem tocado pela Morte, Ou varrido d'um vento do deserto.

Accordei--era Deus, que de mim perto, Me dizia: Alma sceptica e sem norte! É preciso que creias e te importe Adorar o Deus Uno, Eterno, e Certo!

É preciso que a fé cresça em tua alma Como no inutil saibro a verde palma, Verme! filho da Duvida--Eis-me aqui!

Eu sou a Espada o Antigo, o Omnipotente! Crê barro vil!--Mas eu, descortezmente, Voltei-me do outro lado e adormeci.

*PALACIOS ANTIGOS*

A Anthero do Quental.

Bons castellos leaes nas rochas construidos, Ás contorções do vento, á chuva ennegrecidos, Que vamos admirar na angustia dos poentes; Grandes sallas feudaes com tellas de parentes, O que fazeis de pé, como entre os nevoeiros, Os antigos heroes e as sombras dos guerreiros?!

Uma grande tristeza enorme vos habita! No entanto a alma antiga ainda em vós palpita, Evocando a emoção das chronicas guerreiras; E mau grado o destroço, a herva, e as trepadeiras, --Como um desejo bom nas almas devastadas-- Cresce, ao vento, uma flor no peito das sacadas!

A parasita hera avassalou os muros! Aninha-se o bolor nos cantos mais escuros, Tudo dorme na paz das cousas silenciosas; E nos velhos jardins aonde não ha rosas, --Só resistindo ainda aos seculos injustos-- Uma Venus de pedra espera entre os arbustos!

Paira em tudo o silencio e o lugubre abandono Das cousas que já estão dormindo o grande somno, Evocando ainda em nós os velhos cavalleiros, --E ás lufadas do vento, os grandes reposteiros, Entre as nossas visões das epocas sublimes, Agitam-se ao luar vermelhos como crimes.

Mas no entanto o poeta entende aquellas dores, E as mudas solidões, os largos corredôres, As boas castellãs as gothicas janellas, Abertas toda a noute a olhar para as estrellas; Só elle sabe os ais e os gemidos das portas, --E inveja ás vezes ser o pó das cousas mortas!

*CAIN*

Cain no mundo errante, desterrado, Fugindo á sua dôr cruenta e dura, Morria sobre um valle, abandonado, No sollo primitivo da Escriptura.--

O remorso--esse mal que não tem cura-- Não abatia o peito allucinado Do que nasceu no seio do Peccado Que herdou depois a géração futura.

Do Ceu sem mendigar luz nem consollo Conservava inda erguido e altivo o collo;-- Mas nessa hora fatal que a todos vem...

Cain velho rebelde,--e atheu primeiro-- Nosso pae, nosso irmão, como um guerreiro. Bradou, caindo--Ó Terra! ó Minha Mãe!

*A PRIMAVERA*

De Julio Forni

Hãode dizer-me--Insensatos! Que tenha novos amores, Que brilham já outros soes, De novo se abrem as flores E é o tempo dos rouxinoes.

E dirão inda depois: Que a primavera começa, E andam aromas no ar, Que nos sobem á cabeça, Como um vinho singular.

E eu dir-lhes-hei: Que m'importa! Faz frio, fechem-me a porta! --Ella, o meu bem, meu abrigo, Levou, desde que está morta, A Primavera comsigo!

SEGUNDA PARTE

REALIDADES

*ACCUSAÇÃO A CHRISTO*

(A Theophilo Braga)

Bradava um dia ao Christo, ao Redemptor, Satan, cançado d'insultar os astros: --Eis-te pendido ahi qual velha flor, Propheta escarnecido nos teus rastros!...

Vê como a Egreja vae! baixel sem mastros! Navio roto em mares do Equador! E os seus padres tem ouros e alabastros, E folga, Messalina sem pudor!

Tem lançado teu corpo aos cães e aos corvos! Falsificado a Lei, cheia d'estorvos, E fogueiras erguido, ó Christo! ó Cruz!...

Satan dizia mais... mas lenta e lenta, Uma lagrima viu sanguinolenta Escorregar na face de Jesus!

*DE NOUTE*

A João de Deus

Elle vinha da neve, dos trabalhos Violentos, custosos, da enxada; Cantando a meia voz pelos atalhos.

A mulher loura, infeliz, resignada, Cosia junto á luz. O rijo vento Batia contra a porta mal fechada.

Ao pé havia um Christo, um ramo bento, E uma estampa da Virgem, colorida, Cheia de magoa olhando o firmamento.

Uma banca de pinho, mal sustida, Vacillante nos pés, um candieiro; Companheiros d'aquella negra vida.

O homem alto, pallido, trigueiro, Entrou; tinha as feições queimadas, duras Dos que andam com a enxada o dia inteiro.

A mulher abraçou-o. As linhas puras Do seu rosto contavam já tristezas De grandes e secretas amarguras.

Tinha chorado muito as estreitezas D'aquella vida assim! Talvez sonhado Um dia, com palacios e riquezas!

Elle deitou-se a um canto; fatigado D'erguer-se alta manhã, todos os dias, Mal voavam as pombas no telhado.

Lá fora, nuvens grossas e sombrias No pesado horisonte; elle assim esteve; --As noites eram asperas e frias.--

Ella cobriu-o d'uma manta leve Esburacada, velha;--no telhado Ouvia-se cair, sonora, a neve.

Ella, então, meditou no seu passado; No seu primeiro beijo; nas lembranças Talvez, do seu vestido de noivado.

E nas tardes das eiras; e das danças Ás estrellas, e aquella vez primeira Que a rosa lhe furtou das longas tranças!

E aquella tarde junto da amoreira, Que trocaram as mãos; e na janella; E quando olhavam, juntos, a ribeira.

E quando era timida e singella... .......................................... Lá fóra, dava o vento nos caixilhos; Não brilhava no ceu nem uma estrella.

E, áquella hora da noite, por que trilhos Andariam no mundo--ella scismava-- Nas miserias, talvez, sem rumo, os filhos!

Elle na manta velha resonava.

*AQUELLE SABIO*

N'aquellas altas janellas Que deitam para o telhado; Eu vejo-o sempre encostado, A namorar as estrellas.

Tem assim ares d'empyrico Mui lido em philosophástros; É um pobre poeta lyrico, Que escreve cartas aos astros.

Traz luto nos seus vestidos Por uma Ophelia de menos, Tem uns cabellos compridos, E uns olhos tristes, serenos.

Parece um Jove proscripto, E já descrente das Ledas, Conhece o hebraico, o sanscrito E os livros santos dos Vedas.

Espelha na luz do olhar Não sei que visões amenas; Anda sempre a imaginar Idylios ás açucenas.

E aquella mulher vaidosa --Que elle chama a sua Egeria-- Ri d'aquella alma anciosa, E aquella triste miseria...

.......................................... .......................................... ..........................................

Mais de tres dias ou quatro Que lhe falta o necessario; Estava hontem no theatro Com luvas côr de canario.

*NA TABERNA*

A João de Deus

Vejo apontar o hynverno... os crepitantes frios Me açoutam as vidraças... (Francisco Manoel)

Alguns dormem nas mezas, debruçados, Junto aos restos de um vinho já bebido; --Outros contam seus casos desgraçados.--

Um d'elles alto, magro, mal vestido, Conta historias d'amor, lançando fumo D'um cachimbo de gesso ennegrecido.

Um tenta levantar um outro a prumo Sobre os hombros, e um calvo, e já vermelho Faz das suas miserias um resumo.

Depois conta que o pae ethico e velho Lhe está para morrer; lastima a vida; E sobre as vinhas pede um bom conselho.

A casa é escura, velha, ennegrecida Do fumo. Noute velha, ouve-se o vento Bater na antiga porta carcomida.

O frio, a neve, a fome, o mau sustento Tem quebrantado muito aquellas frontes, E em muitos esmagado o pensamento.

N'alguns extinguido, mesmo, as fontes Da justiça e do bem; e feito errar No mundo, como os lobos pelos montes.

E o egoismo dos filhos e do Lar Banido o dó das lastimas estranhas; E tornado-os mais frios do que o mar.

Alguns vivem nas neves, nas montanhas, Outros o rio tem por seu visinho; E com a Fome travam más campanhas.

E--todos--tem o ar triste e mesquinho, Dos que vão sem prazer, habituados, Como a um somno que tira maus cuidados,

Beber as suas lagrimas com vinho.

*OS LOBOS*

La neige batait les vitres... (Gustavo Droz)

Cae lentamente a neve em cima dos telhados.

Tres longos dias crus, terriveis são passados, Que o rude lavrador anda por fóra ao vento, Á neve, ao frio, ao sol, em busca de alimento, E ainda não voltou. Um dos tres filhos chora; Rija e sonoramente, a chuva cae lá fóra.

Quem sabe se virá? Já tem corrido os dias: Ella pobre mulher, viuva d'alegrias, Magra, branca, doente, aspecto macerado, Ha muito que presente um caso desgraçado, O assassinio talvez!... Ha horas malfadadas, A miseria é sinistra e extensas as estradas!

Talvez pelo caminho, entre atalhos perdidos, Na dura escuridão matassem-n'o os bandidos; A fome magra e escura a tudo obriga e atreve! Talvez de sangue esteja, ainda, tinta a neve!

Elle era bom;--talvez um pouco rude e duro! Mas é que a vida é triste e o seu trabalho escuro Á chuva, ao frio, aos soes, e entre o luar gelado Faziam-o cruel; e ás noutes embriagado Talvez para esquecer, tinha--sinistro o vinho; Mas, no entanto era o sol d'aquelle estreito ninho, A Alegria, a Força; e a fome macerada Tinha-a espancado sempre a sua forte enxada!

Então cheia de dôr, pallida de receio, Quiz il-o procurar, pegou n'um filho ao seio, O mais novo, e accendeu tremendo uma lanterna. Vinha, ás vezes, no vento uns risos de taberna; A noute era cruel, a chuva rija e fria; Riam-se os pinheiraes, a solidão gemia; Corriam tradições de mortes e de roubos; E ouvia-se, na neve, uivar de fome os lobos.

Se saisse talvez não encontrasse abrigo!

Os filhos, a chorar, pediam ir comsigo. Um esfregava o rosto em prantos e cabellos, Perto d'um gato esguio envolto entre novellos, E outro roto e magro edefinhado, em pranto, Soluçava e tossia ao mesmo tempo a um canto.

Ambos elles sem côr, doentes, encovados, Dormiam pelo chão, nos asperos sobrados, Magros, cheios de febre, em farrapos, sombrios, Sordidos, semi-nús e lividos dos frios, E a manta esburacada e cheia de rasgões; De vez emquando, ao longe, ouviam-se os trovões, Caia fina a neve, a chuva terminára, E como um grande alvor o meigo azul limpára!-- Ella saiu então; na capa esburacada Embrulhou bem o filho e foi-se pela estrada; Mas, elles, a chorar, quizeram ir com ella, E como o escuro azul tinha uma clara estrella Deixou-os ir tambem--que um d'elles se o levava Era por ser aquelle a quem o pae beijava, E affagava, sorrindo, e enchendo de carinhos, Quando o ia, aguardar á noute, nos caminhos!

A miseria é fatal! dorida farça escura Que termina o christão latim da sepultura!

E assim pensava só, vestida de tristeza A nervosa mulher, n'aquella natureza Sombria, dura, má; por entre aquelles gelos, E aquelle vento cru rasgando-lhe os cabellos:

«Ella nascera só para a dôr!--da Desgraça Ha muito havia já que lhe amargára a taça! Não conhecera nunca os risos e agasalhos; --Os miseraveis Deus só faz para os trabalhos!

E, áquella hora, talvez, felizes e contentes, Cheios do bom calor os ricos indolentes Comeriam, á luz das vélas perfumadas, Nas mesas sensuaes; e em quanto nas estradas Pelos atalhos máus e as veredas sombrias, Ella ia a tiritar por entre as nevoas frías. Sem pão, sem luz, sem Deus--alegres satisfeitos, Elles riam, talvez, da chuva nos seus leitos!

O sol d'elles é bom!--Nos duros ceus serenos Parece que não ha um Deus para os pequenos!»

E continuava a errar por campos, por florestas; Era o inverno cruel, tinham-se ido as giestas; Iam sangrando os pés nos asperos espinhos; A neve amortalhava os lividos caminhos.

«Ah como os ricos são serenos e felizes! --Elles sordidos, vis, podem comer raizes, Não ter lume nem pão, andarem macilentos Ás nevoas e aos soes e aos gelos dos relentos; São os parias, os Jobs, os vis--e rejeitados Como os mortos que traz o mar esverdeados!

E as mães se não serão leaes, boas, contentes! Sempre os filhos com pão, os filhos sempre quentes, Cheios d'amor e sol, vestidos de cuidados De beijos, d'affeições, d'arminhos, de bordados, Amados seraphins, olympicos amores, E áquella hora talvez em leitos como em flores;» --Em quanto os seus, da fome encovados, immundos, Tremendo d'ella ao pé sublimes e profundos, «Sem pão, talvez sem pae, sem leito brando e leve, Choravam semi-nús, descalços pela neve!»

Em toda a parte a neve amortalhava o sollo!

Por fim cada vez mais chorava o filho ao collo; Não rompia o luar, não tremia uma estrella; Nem mesmo o proprio ceu se amerciava d'ella; Lembrou-lhe as lendas más de mortos e de roubos; E ouviu-se já mais perto uivar de fome os lobos.

Cada vez, cada vez, se approximavam mais;

Ella poz-se a correr por selvas, por pinhaes; Mas caiu-lhe a lanterna,--os filhos aturdidos Açoutavam o ar de choros, de gemidos, Já tinha em sangue os pés dos rijos matagaes; Os lobos cada vez se aproximavam mais!

Na sombra, então, ouviu-se um grito lacerante, Tinham levado um!...

Terrivel, n'este instante, Voltou-se para traz, como hyena ferida, Desvairada, feroz, tragica, enfebrecida, Desejando rasgar, rugir, lutar tambem; Mas logo na sua dôr, lembrou-se que era mãe, E que ia a expôr os mais aos dentes aguçados Dos animaes crueis.--Elles, os desgraçados, Eram filhos tambem!--tambem seu coração! --Fraca e vencida emfim poz-se a chorar então.

«Ella vivêra sempre entregue á dura sorte, Tão avara, cruel, que era mais doce a morte; Sempre a escrava fiel da Familia, do Lar, Das duras afflicções; sabia só chorar;-- Não invejára nunca as pompas nem os brilhos; E até nem mesmo o Ceu lhe concedia os filhos!»

Dir-se-hia a noute eterna, a noute desolada; Começou a correr nos campos desvairada; Depois voltou atraz... ouviu-se um ai profundo; Uivavam outra vez--Levaram-lhe o segundo.

Então o medo escuro apederou-se d'ella!... Não se via no ceu tremer nem uma estrella, A solidão profunda, a nevoa fria, intensa, E em toda a parte só chovendo a neve immensa.

Proseguiu a correr, louca, feroz, sem tino, Quasi o filho a esmagar d'encontro ao seio fino, Na dura escuridão, chamando em altos brados Os nomes immortaes, os symbolos sagrados; Pedindo compaixão, miseravel, vencida, Fraca, chorando já aquella negra vida, Convulsa de terror;--mas, longe, lentamente, Começaram a uivar os lobos, novamente.

De novo retomou a barbara carreira Desalentada já; até que quasi á beira D'um fosso aberto ali n'uma vereda escura, Como um cadaver cae em uma sepultura, Por fim, quebrada, hostil, olhando os negros ceus Caiu cheia de dôr, injuriando Deus.

No ceu surgia a lua--e já se ouvia agora, Mais perto, elles uivar na solidão sonora;-- Ali, ella aguardou que fossem devoral-a. .......................................... Serena ergueu-se a lua, a lua côr d'opala!...

*MISERIA OCCULTA*

Bate nos vidros a aurora, Vem depois a noute escura; E o pobre astro que ali móra, Não abandona a costura!

Para uns a vida é d'abrolhos! Para outros mouta de lyrios! Bem o revelam seus olhos, Pisados pelos martyrios!

Miseria afugenta tudo! Miseria tem dons funestos! Quem é que gaba o velludo D'aquelles olhos honestos!...

Ninguem seus olhos brilhantes Descobre n'essas alturas... E aquellas formas tão puras, E aquellas mãos elegantes!

Sempre á costura inclinada! Morra o sol ou surja a lua Nunca vi descer á rua Aquella loura encantada!

Aquelle lyrio dobrado Por que assim vive escondido! Eu bem sei!--não tem calçado! E é muito usado o vestido!

Por isso não tem porvir Morrerá virgem e nova, E aguarda-a bem cedo a cova... Que eu bem a ouço tossir!

Miseria afugenta tudo! Miseria tem dons funestos! Quem é que gaba o veludo D'aquelles olhos honestos!

Pobre flor desfalecida Tão nova e ainda em botão! Como teve estreita a vida, Terá estreito o caixão!

*LISBOA*

Cette ville est au bord de l'eau; on dit qu'elle este batie en marbre... (Baudelaire)

De certo, capital alguma n'este mundo Tem mais alegre sol e o ceu mais cavo e fundo, Mais collinas azues, rio d'aguas mais mansas, Mais tristes procissões, mais pallidas creanças, Mais graves cathedraes--e ruas, onde a esteira Seja em tardes d'estio a flor de larangeira!

A Cidade é formosa e esbelta de manhã!-- É mais alegre então, mais limpida, mais sã; Com certo ar virginal ostenta suas graças, Ha vida, confusão, murmurios pelas praças; --E, ás vezes, em roupão, uma violeta bella Vem regar o _craveiro_ e assoma na janella.

A Cidade é beata--e, ás lucidas estrellas, O Vicio á noute sae ás ruas e ás viellas, Sorrindo a perseguir burguezes e estrangeiros; E á triste e dubia luz dos baços candieiros, --Em bairos sepulchraes, onde se dão facadas-- Corre ás vezes o sangue e o vinho nas calçadas!