Claridades do sul

Part 1

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CLARIDADES DO SUL

GOMES LEAL

CLARIDADES DO SUL

LISBOA BRAZ PINHEIRO--EDITOR Praça d'Alegria 73 1875

PRIMEIRA PARTE

INSPIRAÇÕES DO SOL

HYMNO AO SOL

Vous prêtres! qui murmurez, vous portez ses signes sur tout votre corps: «votre tonsure» est le disque du «soleil,» votre «étole» est son zodiaque, vos «chapelets» sont l'embléme des astres et des planétes.

VOLNEY (LES RUINES)

Eu te saudo ó Sol, bello astro amigo! (Tão pontual ha tantos centos d'annos) Mais reluzente que um broquel antigo, Mais dourado que sceptros de tyranos; Avé, heroica luz! viva e sonora, Vestindo o mundo, emquanto aos ceus erguidas, As florestas extensas dão gemidos, E o duro mar se chora!

Eu te saudo, ó astro das batalhas!... Por que atravez das cruas dissenções, Douras o pó que se ergue das mortalhas. E levantas os nossos corações! E por isso, ainda hoje, e eternamente, Os romanticos te hão de a ti saudar, --E os tristes sempre irão, á luz poente, Ver-te morrer no mar!

Tu és a Voz; a Côr; as _Harmonias_ Accordam com as tuas claridades; És quem benze as aldeias e as cidades, E quem fases cantar as cotovias; És quem inspira extranhas theorias, És forte, são, consolador e bom! Tem a lua silencios e elegias; --Mas tu a _Côr_ e o _Som_!

Eu te saudo, ó astro dos guerreiros!... Eterno confessôr de madrigaes, Que desgellas os densos nevoeiros, Que alegras as sonoras capitaes; Que dás valor nos campos marciaes, E força e amor aos aldeões trigueiros, E que incitas os tigres carniceiros A beber nos caudaes!

Desde a Chaldea ás tristes solidões, Tens tido cultos, templos levantados, E velhos ritos barbaros sagrados, E alegres, sensuaes religiões!... Tu foste _Mithras_, nome cabalistico, _Baal_, _Agni_, _Apollo_ (invocações) --E hoje _Christo_--teu nome occulto e mystico-- Fere inda os corações!

Quem contará, ó luz, tuas bondades?... E o amor no qual o coração abrasas, E as tuas funeraes solemnidades Á ideal palpitação das azas?... Quem nos livra das flexas do pecado? Quem faz na intima terra o diamante? Quem gera o monstro, a pomba, o lyrio amado, E a idea extravagante?

Ave! pois, asto caro dos valentes... Da Força, Vida, Gloria, da Paixão, A flexa d'ouro aos corações ardentes, Astro amigo das lutas e da Acção! Ave! e em dias crús d'expiação Vae, e beija--nas hervas relusentes-- Os que morrem, vencidos combatentes, --A espada inda na mão!

*Á JANELLA DO OCCIDENTE*

O mundo oscilla (Luthero)

Os deuses ou são mortos ou caídos, Quaes duros aldeões dormindo as sestas, Ou andam pelos astros perseguidos Chorando os velhos tempos das florestas,

Os reis ressonam nas devassas festas: Já os fructos do Mal estão crescidos: Ó Sol, ha muito que tu já nos crestas! E aos nossos ais o Ceu não tem ouvidos!

Ha muito já que o Olympo está vazio, E no seio d'um astro immenso e frio É morto o Deus do Testamento Velho.

Apenas sobre o mundo eterno e afflicto, Procura Fausto o _x_ do infinito, E Satan dorme em cima do Evangelho.

*OS SANTOS*

Les saints arrachaient leurs auréoles. (Dubois)

Viam-nos caminhar, exilados da luz, As grandes povoações, as rochas, as paisagens. E os corvos, os fieis amantes das carnagens, Estos magros heroes, paladins de Jesus.

Andavam rotos, vis, os pés chagados, nús. Finavam-se a rezar ante as santas imagens, E ouviam-nos bradar no meio das folhagens: --Ó arvores em flor! vós sois esquife e cruz!

Onde estaes hoje vós? nas grutas dos planetas, Inda hoje rezaes, ó pallidos ascetas, Luzes vivas da Lei! martyres solitarios?

Na terra não; que ha muito a Materia nos nutre, E nem no Ceu talvez;--no entanto o negro abutre Tem saudades de vós nas cristas dos calvarios!

*D. QUICHOTE*

A Luciano Cordeiro

O que é isto?

Nos tempos medivaes dos campeões andantes, E das balladas como a do bom rei de Thule, Andava D. Quichote em busca de gigantes, Magro, tristonho, ideal, crente Fausto do Sul.

Batalhador juiz da Virtude e do Crime, Defendendo o opprimido, a mulher, o ancião, Corria o mundo assim, ridiculo e sublime, Em seu magro corcel, sob arnez de cartão.

Cheio de tradições, o velho mundo absorto, Da banda do meio dia, ouvia o seu tropel, E como insectos vis sobre um cavallo morto, Riam as multidões do ultimo fiel.

Ia triste a scismar, com a alma abatida, Nos caminhos do mal rasgando as illusões, Magro Fausto do Sul, buscando a Margarida, Cheio de apupos vis, d'escarneos e irrisões.

Vinha de batalhar espancado e abatido, Cheio de contusões e lodos d'atoleiros, E ao pé montando um burro, e o escudo já partido, Sancho Pança a Materia, e o rei dos escudeiros!

Vinha sereno e grave, escarnecido e exangue, Emmagrecido e caalmo em meio dos estorvos, --Vinham ladrar-lhe os cães, e pressentindo sangue, Grasnavam-lhe em redor bandos negros de corvos.

Sancho Pança fiel, vasculhava a escarcella, E ascultava a borracha emmudecida emfim; Em quanto o Heroe scismava, inclinado na sella, Na conquista ideal do escudo de Membrin.

Paravam aldeões, lavradores crestados; Vinham á porta as mães, fiando o linho fino; E os magros charlatães viam passar, pasmados, Na sombra d'um cavallo o extremo paladino.

Dançavam os truões; as sujas enxurradas Com a lodosa voz, perguntavam: Que é isto?-- Satan n'um corucheu, dizia ás gargalhadas: --Ó campeão do Bem! ó victima do Christo!

*O PUBLICANO*

Ils erraient sales et immonds, et avaient des dévotions hypocrites (Dubois)

Um graõ doutor da Lei dizia ao publicano, Junto ao atrio do templo, em tempos da Judea, Tambem tu vens orar, publicano sereia, A tua casa ardeu, ou deu na vinha o damno?

Jejuas tu agora e resas todo o anno, Tu que levas o pobre e o orphão á cadeia, Que tiras á viuvez o pão, o leito, e a teia, Tu que és avaro e vil, pagão como um Romano?!

Que não resas como eu, que nunca vi desfeito Dos compridos jejuns, nem macerar o peito; E que hospedas Satan, como o antigo Saul!

Não vês como estou sempre erguendo ao Ceu os braços? --O publicano então, disse, olhando os espaços: «Tambem os poços são voltados para o Azul!»

*A LYRA DE NERO*

Nos seus jardins pagãos, entre archotes humanos, Na lyra de marfim sobre as cordas douradas, Nero vinha cantar ás noutes estrelladas, Elegias d'amor e canticos thebanos.

Essa lyra do Mal que ouviram os romanos, Que cantou entre o fogo, as casas abrazadas, E os lutos, os truões, as ceias depravadas, Que mysterios não viu, medonhos e profanos!

E, no emtanto, apesar da sua historia triste, Se os tempos tem corrido, a Lyra ainda existe Do devasso real, do lyrico histrião...

Seu canto inda nos prende e ouvimol-o sem susto, E, ó Terror! ó Terror! eu que amo o Forte e o Justo, --Ouço-o ás vezes tambem, dentro do coração!

*MYSTICISMO HUMANO*

Sunt lacrimae rerum... (Virgilio)

A alma é como a noute escura, immensa e azul, Tem o vago, o sinistro, e os canticos do sul, Como os cantos d'amor serenos das ceifeiras Que cantam ao luar, á noute pelas eiras... Ás vezes vem a nevoa á alma satisfeita, E cae sombria, vaga, e meuda e desfeita... E como a folha morta em lagos somnolentos As nossas illusões vão-se nos desalentos!

Tem um poder immenso as Cousas na tristeza! Homem! conheces tu o que é a natureza?... --É tudo o que nos cerca--é o azul, o escuro, É o cypreste esguio, a planta, o cedro duro, A folha, o tronco a flor, os ramos friorentos, É a floresta espessa esguedelhada aos ventos; Não entra o vicio aqui com beijos dissolutos, Nem as lendas do mal, nem os choros dos lutos!...

--E os que viram passar serenos os seus dias... E curvados se vão, ás longas ventanias, Cheio o peito de sol, atravez das florestas, Á calma do meio dia... e dormiam as sestas, Tranquillos sobre a eira, entre as hervas nas leivas... Vão cansados depois, entre os ramos e as seivas, Outra vez sob o Sol--a sua eterna crença!-- Em fructos resurgir á natureza immensa, E, aos beijos do luar, descansarem felizes, Da bem amada ao pé, no meio das raizes!

Morrer é livramento! oh deve saber bem Sentir-se dilatar na Natureza mãe! Ser tronco, ramo ou flor, nuvem, herva ou alfombra, A rosa que perfuma, a arvore que dá sombra! Estremecer na encosta ás nocturnas geadas, E recortar o azul das noutes constelladas!

Oh pelo claro azul d'essas noites serenas, Que o segador trigueiro entôa as cantilenas, Tristes como a lua e o espinho dos martyrios, E que atravez do azul parecem cair lyrios!... Quando a brisa levanta as folhas indiscretas, Noivam os rouxinoes e se abrem as violetas... E a Natureza tem como um sabor de beijos, Que obriga a soluçar a alma de desejos!...

Que segredos dirão nas brisas mensageiras, Á doçura da lua, a flor das larangeiras, O lyrio, a madresilva, os jasmins vacillantes, Que foram já, talvez, seios fortes e amantes, E que hoje' á branca luz dos myrthos sideraes, Conversam sobre o amor e os gosos ideaes Do tempo, que a fallar corriam breve as horas, Que seus olhos leaes tinham a côr d'amoras, E debaixo do Ceu teciam longas danças, Ao pé da amante meiga e de compridas tranças!...

No lago somnolento a flor do nenuphar Talvez é um coração que abre para chorar! O lyrio um seio bom,--e as violetas curvadas São os olhos talvez das doces bem amadas!...

Feliz o semeador que vive entre os arados, O campo, os lentos bois, longe dos povoados, Entre os rijos irmãos humildes e trigueiros, Que vivem sob o sol, á chuva, aos nevoeiros, E quando á noute finda os suarentos trabalhos, Vem a doce mulher buscal-o nos atalhos, Cujo olhar como a lua é tranquillo e consola, E descanta chorando á noute na viola!...

E os que andam pelo mar, alegres e contentes, Entre as ondas e o Ceu, saudosos, negligentes, Entre os cantos do vento, olhos fitos nos ceus, Entre o azul, o escuro, e os frios escarceus, Hombro a hombro o abysmo,--abysmo sempre aos pés, Que dormem á poesia, á lua das marés, E morrem uma noute, ó mar, aos teus emballos, Deixando uns olhos bons e meigos a choral-os!

Eu por mim não terei um astro bom nos Ceus, Nem uns olhos leaes que chorem pelos meus, E que inda a fronte mal me obscureça a magoa, Como espelhos d'amor já sejam rasos d'agua!... Sósinho passarei, e não irei jámais, Pelas murtas com ella ás tardes outomnaes; De inverno não terei os consollos do lar, Nem do estio a doçura immensa do luar; Meus filhos não irão jámais colher os ninhos; Ninguem virá á tarde esperar-me nos caminhos!

*OS MONGES DE ZURBARAN*

(IMITADO DE TH. GAUTIER)

Monges de Zurbaran! ó magros solitarios, Que ao longo deslisaes dos grandes claustros frios, Correndo eternamente as contas dos rosarios!

Dos remorsos sentis os santos desvarios? Que mal vos fez a Carne, algozes de tonsura? Espectros monacaes cavados e sombrios?

Essa materia vil--que é divina esculptura, E que o Justo vestiu nas santas tradições, Com que lei e razão é que bradaes--Impura?

Ó santos! eu entendo as allucinações! Os chumbos em fusão, as abrasadas lenhas, As grelhas, a polé, e as fauces dos leões!...

As rodas infernaes que rasgam as entranhas, Tudo o que Roma ideou;--mas o que eu não entendo É o suicidio e a fé sob essas estamenhas!

Por que pois, sempre assim, um suicidio horrendo? E toda a noute a carne, entre as vis disciplinas, Dilacerar até o sangue ver correndo?

Não são só as crueis macerações mofinas, E o continuo bater nos peitos angulosos, Que em tuas letras só, ó Christo! nos ensinas!

Julgais que Deus só quer aos grandes ulcerosos! E que essa morte lenta, esse ar austero e grave, Vos faça abrir mais cedo os ceus gloriosos?

Julgais que tal suicidio os grandes crimes lave? --Largae das magras mãos, unidas, as caveiras, Vossas covas, mortaes, deixai que um outro as cave!

O espirito immortal ergue-se entre as fogueiras; Mas continuo insultar a Carne com desdem, É rebaixar-te, ó Deus, a charlatão de feiras!

E comtudo que força e que energia teem, Esses monges de Deus, em vivo amortalhados, A viver sem mulher, sem paes, e sem ninguem!

Tão moços! e, assim já, tão velhos e cavados! Por horisonte um claustro e um muro,--indifferentes, Sósinhos a resar ante os Crucificados!

Teus frades, Lesueur, são d'estes differentes! O triste Zurbaran soube exprimir melhor Os extases do olhar e as cabeças doentes!

E a vertigem do ceu, o tedio, o desamor Da Carne, que lhes dá aureolas febris,-- E esse aspecto que faz gelar-nos de pavor!

Como o duro pincel lhes pinta a flor de liz Dos cilicios! e a luz dos olhos mortecidos, E essas rugas que os faz magros, sublimes, vis!

Como as pregas alonga aos habitos compridos! Como ás faces lhes cava a pallidez da terra, Como se fossem já uns mortos estendidos!

Quando as vizões do Ceu nos extases descerra, Ao Crucifixo os pés beijando soluçantes, E açoutando-se qual o mar açouta a serra!...

Ou quando passeaes pelos claustros gigantes, Nem mesmo a propria sombra atraz deixando ao muro, --Sempre, ó monges! vos pinta eguaes e semelhantes!

Com duas tintas só--claro livido, e escuro, Só duas posições--a recta e a que inclina, Pintou a vossa historia e o vosso viver duro!

A forma, o raio, a côr, a luz que nos fascina, Nada são para vós, magros indifferentes, Por que o Ceu vos desvaira e a Cruz vos allucina!

E assim mudos passaes nas Biblias reverentes... Julgando sempre ouvir nos ceus que se descobrem, Trovejar de repente as trombetas dos crentes.

Ó monges! ó fieis! não entendeis o homem! Talvez a herva cresça, agora, em vossos peitos, Pois bem, que dizeis hoje aos vermes que vos comem?

Que sonhos maus fazeis n'esses extremos leitos? Choraes o ter gastado o tempo que nos foge, Entre essas solidões e esses muros estreitos?!...

Monges, o que haveis feito, inda o farieis hoje?!

*A BELLA FLOR AZUL*

Quem saberá «signora» d'onde terá nascido esse bello lyrio branco? (Velha Comedia Italiana)

Eu não sou o fatal e triste Baudelaire; Mas analyso o Sol e decomponho as rosas, As rijas e crueis dahlias gloriosas, --E o lyrio que parece o seio da mulher.--

Tudo que existe ou foi, morre para nascer; Na campa dão-se bem as plantas graciosas, E, um dia, na floresta harmonica das Cousas, Quem sabe o que serei quando deixar de ser!

A Morte sae da Vida--a Vida que é um sonho! A flor da podridão, o Bello do medonho E a todos cubrirá o mystico cypreste!...

E, ó minha Sphinge, a flor pallida e azul no meio, Que hontem tinhas no baile, e que trouxeste ao seio Levantei-a d'um chão onde passára a Peste.

*HORA DO MEIO DIA*

J'étois inquiet distrait, réveur; jé dèsirois un bonheur dont je n'avois pas l'ideé. (Confessions de J.J. Rousseau)

--Sosinho no meu quarto retirado,-- Certas horas do dia calorosas, Quando as flexas do Sol queimam as rosas, Eu scismo no seu corpo esbelto e amado!

As curvas do seu collo assetinado, Mais fino que o das rollas amorosas, Dar-me-hiam as noutes voluptuosas De que fallam os doutos do Peccado.

Mas, no emtanto, lá fora o sol adusto Queima as campinas e o aldeão robusto; Vôam abelhas a colher o mel.

E eu cheio de tristeza e d'anciedade, Continuo a scismar--como um abbade-- Na Virgindade olympica e cruel.

*CANTIGA DO CAMPO*

Como eu adoro as tuas «simplicidades!» (Heine)

Por que andas tu mal commigo? Ó minha doce trigueira? Quem me dera ser o trigo Que, andando, pisas na eira!

Quando entre as mais raparigas Vaes cantando entre as searas, Eu choro ao ouvir-te as cantigas Que cantas nas noutes claras!

Os que andam na descamisa Gabam a violla tua, Que, ás vezes, ouço na brisa Pelos serenos da lua.

E fallam com tristes vozes Do teu amor singular Áquella casa onde cozes, Com varanda para o mar.

Por isso nada me medra, Ando curvado e sombrio! Quem me dera ser a pedra Em que tu lavas no rio!

E andar comtigo, ó meu pomo, Exposto ás chuvas e aos soes! E uma noute morrer como Se morrem os rouxinoes!

Morrer chorando, n'um choro Que mais as magoas consolla, Levando só o thesouro Da nossa triste violla!

Por que andas tu mal commigo? Ó minha doce trigueira? Quem me dera ser o trigo Que, andando, pisas na eira!

*A AGUIA*

No tempo em que era a grande deusa viva Os deuzes, os heroes e as Musas bellas, Dizia uma aguia velha e pensativa, Que fizera a viagem das estrellas:

--Vão-se indo as tradições! e hão-de ir com ellas Apollo, Jove, Vichnou e Siva! Um astro é grão de luz; o mar saliva De ti ó grande Pan!... Só Pan tu vellas!...

Mas quando assim fallava a aguia, eis quando Se ouviu aquella voz triste bradando Na Sicilia: _Morreu o grande Pan_!

Epheso estremeceu, carpiu Eleusis;-- Mas a aguia velha gargalhou:--Ó deuses! _Qual será o deus novo de ámanhã_!

*ACCUSAÇÃO Á CRUZ*

Ainsi lirat-il les artiques vérités, les tristes vérités, les grandes, les terribles vèrités. (De Quincey)

Ha muito, ó lenho triste e consagrado! Desfeita podridão, velho madeiro! Que tens avassalado o mundo inteiro, Como um pendão de luto levantado.

Se o que foi nos teus braços cravejado Foi realmente a Hostia, o Verdadeiro, Elle está mais ferido que um guerreiro Para livrar das flexas do Peccado.

Ha muito já que espalhas a tristeza, Que lutas contra a alegre Natureza, E vences ó Cruz triste! Cruz escura!

Chega-te o inverno, symbolo tremendo! Queremos Vida e Acção--Fica-te sendo Um emblema de morte e sepultura!

*LUTHERO*

Ah, és tu diabo?... (Lenda mouacal)

Luthero, o frade austero e macilento, Encontrou a Satan dormindo um dia, N'uma rua d'Erfurt, á ventania, Envelhecido, calvo e vinolento.

Dorme! gritou-lhe o frade... a teu contento, Guloso Pae da Indigistão, da Orgia! Renunciaste as lições de theologia, Ó velho corvo mau do Firmamento?!

O mundo como tu é calvo e velho; A Egreja é o lupanar do Evangelho; E tu ó ébrio, gulotão, descanças!?...

Satan, olhando o azul, disse:--As estrellas Vão pelo Ceu tão baças, amarellas, Deus já deixou enferrujar as lanças!

*A TERRA*

Fecundarás a terra com o suor do teu rosto.

Cavae, eternamente, a velha terra! Soffrei, suae, gemei na dura enxada, Fecundae-a na paz ou pela guerra, Quer seja pelo arado ou pella Espada,

Ó Homem! trabalhar é tua herança Até que a Morte, emfim, grite--descança!

É a Arvore a tua companheira O lar, a tenda, a sombra de teus passos, Da tua amante a perfumada esteira, Como bençãos t'estende os longos braços!

E ou seja em teu inverno, ou teu estio, E teu berço, teu leito, e teu navio!

É preciso que as lagrimas que correm Façam crescer dos cardos os trigaes, E por cima dos corpos dos que morrem Se ergam verdes loureiros triumphaes!

É preciso que em paz ou pela Guerra, Com pranto, ou sangue se fecunde a Terra!

É preciso caval-a!--nos teus braços Luza a enxada ou o gladio de destroços! A vida é curta--e breves nossos passos, E as flores vivem, crescem sobre os ossos!

E o berço não é mais, ó creatura! Que a linha d'união á sepultura!

É preciso que a Morte, a dôr e os lutos Se transformem em vinhas ostentosas, Nossos prantos convertam-se nos fructos, Do sangue dos heroes tinjam-se as rosas!

Soffrei, lutae, morrei, ó infelizes! --O vosso sangue é util ás raizes!

*O OURO*

A Theophilo Braga

Dizia o ouro á pedra;--Ente mesquinho! Que profundo scismar sempre te préga Á beira d'uma estrada, ou d'um caminho, Pasmada, mas sem ver, eterna cega?!

Em vão o orvalho a ti te lava e rega! Em ti não cresce nunca pão, nem vinho, Dura e inutil--o lodo é teu visinho, E o homem só, por te pisar, t'emprega!

Em ti só medra e cresce o cardo os lixos! Tu serves só d'abrigo ao lodo e aos bixos, E ensanguentas os pés descalços, nus!

Ó pedra! quanto a mim, sou a Riqueza! --A cega disse, então, com singeleza: --Eu, tambem, guardo no meu seio a Luz!

*O BUDA*

(De Catullo Mendés)

O Budha scisma, as mãos sobre os artelhos.

Aquelle então que ouvira os seus conselhos Diz:--Mestre! os que não foram resgatados Do Mal, são como uns ceus anuviados! Aos povos que d'aqui moram distantes, Para que a Lei não errem, ignorantes, Consente que affrontando os soes e os frios, Montes, rochas, passando a nado os rios, Teu grande dogma, ó Mestre, eu vá prégando!...

--Mas se elles, corta o Budha venerando, Te insultarem, eleito! que dirás?

--Direi só:--estas gentes não são más, Pois vindo-lhes prégar de terra alheia, Não me atiram aos olhos com areia, Nem me espancam e ferem com pedradas!

--Mas se as gentes, acaso, allucinadas Te espancarem, causando graves damnos?

--Estes povos, direi, são muito humanos, E ha doçura n'aquelles corações; Pois quando erguiam pedras e bastões Contra uma creatura tão mesquinha, Não tiraram a espada da bainha.

--Se o ferro te ferir?

--São bons, de sorte Que me ferem, sem querer-me dar a Morte!

--Se morreres?

--A morte é grande esmolla!

--Vae pois, o Budha diz, salva e consolla!

*NO CALVARIO*

Maria com seus olhos magoados, Ceus espirituaes, lavava em pranto As largas chagas de Jesus, emquanto Ria ao pé um dos tres crucificados.

Semblantes de mulher mortificados Escondiam a dôr no casto manto; Uma mulher d'Hennon chorava a um canto, Jogavam sobre a tunica os soldados.

Martha, os pingos de sangue, alva açucena, Dir-se-hia no bom seio recolhel-os; Alguns riam brutaes d'aquella pena!...

Salomé tinha um mar nos olhos bellos; João fitava a Cruz... Mas Magdalena, Limpava a Christo os pés com seus cabellos!

*HÉLI! HÉLI!*

Quando elle, emfim, morrendo, elle o cordeiro, Pomba mansa no ar pesado e immundo, Pendeu-se como um lyrio moribundo, Sobre a haste do tragico madeiro.

E lançando o espirito prufundo Ao reino bello, grande, e verdadeiro, Finou-se, emfim, chagado e justiceiro, Ainda, ainda, perdoando ao mundo.

Um soldado romano vendo-o exposto, E já morto na Cruz, com um desgosto, Com a lança enristada o trespassou...

Saiu d'aquella chaga sangue e agoa... --Ah sangue que não deu a tanta mágoa! --Lagrimas, sim, talvez que não chorou!

*AS ALDEIAS*

Eu gosto das aldeias socegadas, Com seu aspecto calmo e pastoril, Erguidas nas collinas azuladas-- Mais frescas que as manhãs finas d'Abril.

Levanta a alma ás cousas _visionarias_ A doce paz das suas eminencias, E apraz-nos, pelas ruas solitarias, Ver crescer as inuteis florescencias.

Pelas tardes das eiras--como eu gosto Sentir a sua vida activa e sã! Vel-as na luz dolente do sol posto, E nas suaves tintas da manhã!

As creanças do campo, ao amoroso Calor do dia, folgam seminuas; E exala-se um sabor mysterioso D'a agreste solidão das suas ruas!

Alegram as paysagens as creanças, Mais cheias de murmurios do que um ninho, E elevam-nos ás cousas simples, mansas, Ao fundo, as brancas velas d'um moinho.

Pelas noutes d'estio ouvem-se os rallos Zunirem suas notas sibilantes, E mistura-se o uivar dos cães distantes Com o canto metallico dos gallos...

*BENEFICIOS E PHILOSOPHIA DO SOL*

Tem sido até agora--o scintillante E antigo Sol, amigo da Harmonia, Que me tem ensinado, cada dia, A desprezar a Morte escura e errante!

As densas nuvens do porvir distante Desdenha-as a sua epica alegria, E a sua heroica e sã philosophia Nada, até hoje, eguala e é semelhante.

Decerto, é grato ao soffrimento insano Dos tristes, quando surge o _rosto humano_ _Da lua_, abrandecer o Ceu com ais;

Mas, quando é que jámais dobrou á Sorte, A alma do _fakir_, paciente e forte, Mais sereno que as plantas e os metaes?!

*DISPUTA*

Voltaire dando com o pé n'uma caveira, ria Com certo riso mau, sinistro e mofador; --A velha companheira, então, da Theologia Dos santos e da Cruz bradou ao pensador:

--És tu impio Voltaire, ó verme roedor Das folhas do Evangelho! ó Satan da ironia! Cujos risos crueis fazem chorar Maria, E despregam do lenho a ensanguentada flor!?

Tu tens lançado o cuspo aos astros lancinantes; Abalado da Cruz os cravos vacillantes; E ladrado de Deus que julgas a dormir!...

Mas olha em cima é o Ceu, dos astros sementeira!... --Voltaire disse-lhe então: Pois se assim é, caveira, Por que te encontram, sempre, ao pé da cruz a rir?

*AS CATHEDRAES*