Part 3
Por detrás das cortinas seguia-te com o olhar, até que desapparecias no fim da rua, e este prazer, rapido como era, alimentava o meu amor, habituado á viver de tão pouco.
Depois de minha carta tu deixaste de passar dous dias; estava eu á partir para aqui, d'onde devia voltar unicamente para embarcar no paquete inglez.
Minha mãi, incansavel nos seus desvelos, quer levar-me á Europa e fazer-me viajar pela Italia, pela Grecia, por todos os paizes de um clima doce.
Diz ella que é para mostrar-me os grandes modelos de arte e cultivar o meu espirito; mas eu sei que essa viagem é sua unica esperança, que não podendo nada contra minha enfermidade, quer ao menos disputar-lhe sua victima durante mais algum tempo.
Julga que fazendo-me viajar sempre me dará mais alguns dias de existencia, como si estes sobejos de vida valessem alguma cousa para quem já perdeu sua mocidade e seu futuro.
Quando ia embarcar para aqui lembrei-me que talvez não te visse mais, e diante d'essa derradeira provança succumbi. Ao menos o consolo de dizer-te adeos!...
Era o ultimo!
Escrevi-te segunda vez; admirava-me da tua demora, mas tinha uma quasi certeza de que havias de vir.
Não me enganei.
Vieste, e toda minha resolução, toda minha coragem cedeu, porque, sombra ou mulher, conheci que me amavas como eu te amo.
O mal estava feito.
Agora, meu amigo, peço-te por mim, pelo amor que me tens, que reflictas no que te vou dizer, mas que reflictas com calma e tranquillidade.
Para isto parti hoje para Petropolis sem prevenir-te, e colloquei entre nós o espaço de vinte e quatro horas e uma distancia de muitas leguas.
Desejo que não procedas precipitadamente, e que, antes de dizer-me uma palavra, tenhas medido todo o alcance que ella deve ter sobre teu futuro.
Sabes o meu destino, sabes que sou uma victima cuja hora está marcada, e que todo o meu amor, immenso, profundo, não te póde dar talvez dentro em bem pouco sinão o sorriso contrahido pela tosse, o olhar desvairado pela febre e caricias roubadas aos soffrimentos.
É triste; e não deves immolar assim tua bella mocidade, que ainda te reserva tantas venturas e talvez um amor como o que eu te consagro.
Deixo-te, pois, meu retrato, meus cabellos e minha historia: guarda-os como uma lembrança, e pensa algumas vezes em mim; beija esta folha muda, onde os meus labios deixáram-te o adeos extremo.
Entretanto, meu amigo, si, como tu dizias hontem, a felicidade é amar e sentir-se amado; si te achas com forças de partilhar esta curta existencia, estes poucos dias que me restam á passar sobre a terra, si me queres dar esse consolo supremo, unico que ainda embellezaria minha vida, vem!
Sim, vem! iremos pedir ao bello céo da Italia mais alguns dias de vida para nosso amor; iremos onde tu quizeres, ou onde nos levar a Providencia.
Errantes pelas vastas solidões dos mares ou pelos cimos elevados das montanhas, longe do mundo, sob o olhar protector de Deos, á sombra dos cuidados de nossa mãi, viveremos tanto um do outro, encheremos de tanta affeição os nossos dias, as nossas horas, os nossos instantes, que, por curta que seja minha existencia, teremos vivido por cada minuto seculos de amor e de felicidade.
Eu espero; mas temo.
Espero-te como a flôr desfallecida espera o raio do sol que deve aquecel-a, a gotta de orvalho que póde animal-a, o halito da briza que vem bafejal-a. Porque para mim o unico céo que hoje me sorri são teus olhos, o calor que póde me fazer viver é o do teu seio.
Entretanto temo, temo por ti, e quasi peço á Deos que te inspire e te salve de um sacrificio talvez inutil!
Adeos para sempre, ou até amanhã!
Carlota»
VIII
Devorei toda esta carta de um lanço de olhos.
Minha vista corria sobre o papel como o meu pensamento, sem parar, sem hesitar, poderia até dizer sem respirar.
Quando acabei de ler só tinha um desejo: era o de ir ajoelhar-me á seus pés, e receber como uma benção do céo esse amor sublime e santo.
Como sua mãi, lutaria contra o destino, cercal-a-hia de tanto affecto e de tanta adoração, tornaria sua vida tão bella e tão tranquilla, prenderia tanto sua alma á terra, que lhe seria impossivel deixal-a.
Crearia para ella com o meu coração um mundo novo, sem as miserias e as lagrimas d'este mundo em que vivemos; um mundo só de ventura, onde a dôr e o soffrimento não pudessem penetrar.
Pensava que devia haver no universo algum lugar desconhecido, algum canto de terra ainda puro do halito do homem, onde a natureza virgem conservaria o perfume dos primeiros tempos da creação e o contacto das mãos de Deos quando a formára.
Ahi era impossivel que o ar não désse vida; que o raio do sol não viesse impregnado de um atomo de fogo celeste; que a agua, as arvores, a terra, cheia de tanta seiva e de tanto vigor, não inoculassem na creatura a vitalidade poderosa da natureza no seu primitivo esplendor.
Iriamos, pois, á uma d'essas solidões desconhecidas; o mundo abria-se diante de nós, e eu sentia-me com bastante coragem para levar o meu thesouro além dos mares e das montanhas, até achar um retiro onde escondesse a nossa felicidade.
N'esses desertos, tão vastos, tão extensos, não haveria siquer vida bastanto para duas creaturas que apenas pediam um palmo de terra e um sopro de ar, afim de poderem elevar á Deos, como uma prece constante, o seu amor tão puro?
Ella dava-me vinte e quatro horas para reflectir, e eu não queria nem um minuto, nem um segundo.
Que me importavam o meu futuro e a minha existencia, si eu os sacrificaria de bom grado para dar-lhe mais um dia de vida.
Todas estas idéas, minha prima, cruzavam-se no meu espirito rapidas e confusas, emquanto eu fechava na caixinha de páo-setim os objectos preciosos que ella encerrava, copiava na minha carteira a sua morada, escripta no fim da carta, e atravessava o espaço que me separava da porta do hotel.
Ahi encontrei o criado da vespera.
--Á que horas parte a barca da Estrella?
--Ao meio-dia.
Eram onze horas; no espaço de uma hora eu faria as quatro leguas que me separavam d'aquelle porto.
Lancei os olhos em torno de mim com uma especie de desvario.
Não tinha um throno, como Ricardo III, para offerecer em troca de um cavallo; mas tinha a realeza do nosso seculo, tinha dinheiro.
Á dous passos da porta do hotel estava um cavallo, que o seu dono tinha pela redea.
--Compro-lhe este cavallo, disse eu caminhando para elle, sem mesmo perder tempo em comprimental-o.
--Não pretendia vendêl-o, respondeu-me o homem cortezmente; mas, si o senhor está disposto á dar o preço que elle vale...
--Não questiono sobre preço; compro-lhe o cavallo arreiado como está.
O sujeito olhou-me admirado; porque, á fallar a verdade os arreios nada valiam.
Quanto á mim, já tinha-lhe tomado as redeas da mão; e, sentado no sellim, esperava que me dissesse quanto tinha de pagar-lhe.
--Não repare, fiz uma aposta e preciso de um cavallo para ganhal-a.
Isto deu-lhe á comprehender a singularidade do meu acto e a pressa que eu tinha: recebeu sorrindo o preço do seu animal, e disse, saudando-me com a mão de longe, porque já eu dobrava a rua:
--Estimo que ganhe a aposta; o animal é excellente!
Na verdade era uma aposta que eu tinha feito commigo mesmo, ou antes com a minha razão, a qual me dizia que era impossivel apanhar a barca, e que eu fazia uma extravagancia sem necessidade, pois bastava ter paciencia por vinte e quatro horas.
Mas o amor não comprehende esses calculos e esses raciocinios, proprios da fraqueza humana; creado com uma particula do fogo divino, elle eleva o homem acima da terra, desprende-o da argilla que o envolve, e dá-lhe força para dominar todos os obstaculos, para querer o impossivel.
Esperar tranquillamente um dia para ir dizer-lhe que eu a amava, e queria amal-a com todo o culto e admiração que me inspirava a sua nobre abnegação, me parecia quasi uma infamia.
Seria dizer-lhe que tinha reflectido friamente, que tinha pesado todos os prós e contras do passo que ia dar, que havia calculado como um egoista a felicidade que ella me offerecia.
Não só minha alma se revoltava contra esta idéa; mas parecia-me que ella, com a sua delicadeza de sentimento, embora não se queixasse, sentiria vêr-se objecto de um calculo e o alvo de um projecto de futuro.
A minha viagem foi uma corrida louca, esvairada, delirante. Novo Mazzepa, passava por entre a cerração da manhã, que cobria os pincaros da serrania, como uma sombra que fugia rapida e veloz.
Dir-se-hia que alguma rocha collocada em um dos cabeços da montanha tinha-se desprendido de seu alveolo secular, e precipitando-se com todo o peso rolava surdamente pelas encostas.
O galopar de meu cavallo formava um unico som, que ia reboando pelas grutas e cavernas, e confundia-se com o rumor das torrentes.
As arvores, cercadas de nevoa, fugiam diante de mim como fantasmas; o chão desapparecia sob os pés do animal; ás vezes parecia-me que a terra ia faltar-me, e cavallo e cavalleiro rolavam por algum d'esses abysmos immensos e profundos, que devem ter servido de tumulos titanicos.
Mas de repente, entre uma aberta de nevoeiro, eu via a linha azulada do mar, e fechava os olhos e atirava-me sobre o cavallo, gritando-lhe ao ouvido a palavra de Byron:--_Away!_
Elle parecia entender-me, e precipitava essa corrida desesperada; não galopava, voava; seus pés, como impellidos por quatro molas de aço, nem tocavam a terra.
Assim, minha prima, devorando o espaço e a distancia, foi elle, o nobre animal, abater-se á alguns passos apenas da praia; a coragem e as forças só o tinham abandonado com a vida, e no termo da viagem.
Em pé, ainda sobre o cadaver d'esse companheiro leal, vi á cousa de uma milha o vapor que singrava ligeiramente para a cidade.
Ahi fiquei perto de uma hora, seguindo com os olhos essa barca que a conduzia; e quando o casco desappareceu olhei os frocos de fumaça do vapor, que se ennovelavam no ar, e que o vento desfazia á pouco e pouco.
Por fim, quando tudo desappareceu, e mais nada me fallava d'ella, olhei ainda o mar por onde havia passado e o horizonte que a occultava aos meus olhos.
O sol dardejava raios de fogo; mas eu bem me importava com o sol; como meu espirito os meus sentidos se concentravam em um unico pensamento: vêl-a, vêl-a em uma hora, em um momento, si possivel fosse.
Um velho pescador arrastava n'esse momento sua canôa á praia.
Approximei-me e disse-lhe:
--Meu amigo, preciso ir á cidade, perdi a barca, e desejava que você me conduzisse na sua canôa.
--Mas si eu agora mesmo é que chego!
--Não importa; pagarei o seu trabalho, e tambem o incommodo que isto lhe causa.
--Não posso, não, senhor; não é lá pela paga que eu digo que estou chegando; mas é que passar a noite no mar sem dormir não é lá das melhores cousas; e estou cahindo de somno.
--Escute, meu amigo...
--Não se canse, senhor, quando eu digo não, é não: e está dito.
E o velho continuou á arrastar a sua canôa.
--Bem, não fallemos mais n'isto; mas conversemos.
--Lá isto como o senhor quizer.
--A sua pesca rende-lhe bastante?
--Qual! rende nada!...
--Ora diga-me! Si houvesse um meio de fazer-lhe ganhar em um só dia o que póde ganhar em um mez, não engeitaria de certo?
--Isto é cousa que se pergunte?
--Quando mesmo fosse preciso embarcar depois de passar uma noite em claro no mar?
--Ainda que devesse remar tres dias com tres noites, sem dormir nem comer.
--N'esse caso, meu amigo, prepare-se, que vai ganhar o seu mez de pescaria; leve-me á cidade.
--Ah! isto já é outro fallar; porque não disse logo?...
--Era preciso explicar-me?!
--Bem diz o dictado que é fallando que a gente se entende.
--Assim, é negocio decidido. Vamos embarcar?
--Com licença; preciso de um instantinho para prevenir á mulher; mas é um passo lá e outro cá.
--Olhe, não se demore; tenho muita pressa.
--É n'um fechar dos olhos, disse elle correndo na direcção da villa.
Mal tinha feito vinte passos, parou, hesitou, e por fim voltou lentamente pelo mesmo caminho.
Eu tremia; julgava que se tinha arrependido, que vinha apresentar-me alguma nova difficuldade. Chegou-se para mim de olhos baixos e coçando a cabeça.
--O que temos, meu amigo? perguntei-lhe com uma voz que esforçava por tornar calma.
--É que... o senhor disse que pagava um mez...
--De certo; e, si duvida..., disse levando a mão ao bolso.
--Não, senhor, Deos me defenda de desconfiar do senhor! Mas é que... sim, não vê, o mez agora tem menos um dia que os outros!
Não pude deixar de sorrir-me do temor do velho; nós estavamos com effeito no mez de Fevereiro.
--Não se importe com isto; está entendido que quando eu digo um mez é um mez de trinta e um dias; os outros são mezes aleijados, e não se contam.
--É isso mesmo, disse o velho rindo-se da minha idéa; assim como quem diz um homem sem um braço. Ah!... ah!...
E continuando á rir-se, tomou o caminho de casa e desappareceu.
Quanto á mim, estava tão contente com a idéa de chegar á cidade em algumas horas, que não pude deixar tambem de rir-me do caracter original do pescador.
Conto-lhe estas scenas e as outras que se lhe seguiram com todas as suas circumstancias por duas razões, minha prima.
A primeira é porque desejo que comprehenda bem o drama simples que me propuz traçar-lhe; a segunda é porque tenho tantas vezes repassado na memoria as menores particularidades d'essa historia, tenho ligado de tal maneira o meu pensamento á essas reminiscencias, que não me animo á destacar d'ellas a mais insignificante circumstancia; parece-me que si o fizesse separaria uma parcella de minha vida.
Depois de duas horas de espera e de impaciencia, embarquei n'essa casquinha de noz, que saltou sobre as ondas, impellida pelo braço ainda forte e agil do velho pescador.
Antes de partir fiz enterrar o meu pobre cavallo; não podia deixar assim exposto ás aves de rapina o corpo d'esse nobre animal, que eu tinha roubado á affeição do seu dono, para immolal-o á satisfação de um capricho meu.
Talvez lhe pareça isto uma puerilidade; mas a senhora é mulher, minha prima, e deve saber que, quando se ama como eu amava, tem-se o coração tão cheio de affeição, que espalha uma atmosphera de sentimento em torno de nós, e inunda até os objectos inanimados, quanto mais as creaturas, ainda irracionaes, que um momento se ligáram á nossa existencia para realisação de um desejo.
IX
Eram seis horas da tarde.
O sol declinava rapidamente, e a noite, descendo do céo, envolvia a terra nas sombras desmaiadas que acompanham o occaso.
Soprava uma forte viração de sudoeste, que desde o momento da partida retardava a nossa viagem; lutavamos contra o mar e o vento.
O velho pescador, morto de fadiga e de somno, estava exhausto de forças; a sua pá, que á principio fazia saltar sobre as ondas como um peixe o fragil barquinho, apenas feria agora a flôr da agua.
Eu, recostado na pôpa, e com os olhos fitos na linha azulada do horizonte, esperando á cada momento ver desenhar-se o perfil do meu bello Rio de Janeiro, começava seriamente á inquietar-me da minha extravagancia e loucura.
Á proporção que declinava o dia e que as sombras cobriam o céo, esse vago inexprimivel da noite no meio das ondas, a tristeza e melancolia que infunde o sentimento da fraqueza do homem em face d'essa solidão immensa de agua e de céo, se apoderavam do meu espirito.
Pensava então que teria sido mais prudente esperar o dia seguinte, para fazer uma viagem breve e rapida, do que sujeitar-me á mil contratempos e mil embaraços, que no fim de contas nada adiantavam.
Com effeito, já tinha anoitecido; e, ainda que conseguissemos chegar á cidade por volta de nove ou dez horas, só no dia seguinte poderia ver Carlota e fallar-lhe.
De que havia servido, pois, todo o meu arrebatamento, toda a minha impaciencia? Tinha morto um animal, tinha incommodado um pobre velho, tinha atirado ás mãos cheias dinheiro, que poderia melhor empregar soccorrendo algum infortunio e cobrindo esta obra de caridade com o nome e a lembrança d'ella.
Concebia uma triste idéa de mim; do meu modo de ver então as cousas, parecia-me que eu tinha feito do amor, que é uma sublime paixão, apenas uma estupida mania; e dizia interiormente que o homem que não domina os seus sentimentos é um escravo, que não tem o menor merecimento quando pratica um acto de dedicação.
Tinha-me tornado philosopho, minha prima, e de certo comprehenderá a razão.
No meio da bahia, mettido em uma canôa, á mercê do vento e do mar, não podendo dar largas á minha impaciencia de chegar, não havia sinão um modo de sahir d'esta situação, e este era arrepender-me do que tinha feito.
Si eu podesse fazer alguma nova loucura creio piamente que adiaria o arrependimento para mais tarde: porém era impossivel.
Tive um momento a idéa de atirar-me á agua, e procurar vencer á nado a distancia que me separava d'ella; mas era noite, não tinha a luz de _Hero_ para guiar-me, e me perderia n'esse novo Hellesponto.
Foi de certo uma inspiração do céo ou o meo anjo da guarda que me veio advertir que n'aquella occasião eu nem sabia mesmo de que lado ficava a cidade.
Resignei-me, pois, e arrependi-me sinceramente.
Dividi com o meu companheiro algumas provisões que tinha trazido; e fizemos uma verdadeira collação de contrabandistas ou piratas.
Cahi na asneira de obrigal-o á beber uma garrafa de vinho do Porto, bebendo eu outra para acompanhal-o e fazer-lhe as honras da hospitalidade. Julgava que d'este modo elle restabeleceria as forças e chegariamos mais depressa.
Tinha-me esquecido que a sabedoria das nações, ou a sciencia dos proverbios, consagra o principio de que de vagar se vai ao longe.
Acabada a nossa magra collação, o pescador começou á remar com uma força e um vigor que me reanimaram a esperança.
Assim, docemente embalado pela idéa de vêl-a e pelo marulho das ondas, com os olhos fitos na estrella da tarde, que ia sumir-se no horizonte e me sorria como para consolar-me, senti á pouco e pouco fecharem-se-me as palpebras, e dormi.
Quando accordei, minha prima, o sol derramava seus raios de ouro sobre o manto azulado das ondas: era dia claro.
Não sei onde estavamos; via ao longe algumas ilhas: o pescador dormia na prôa, e resonava como um boto.
A canôa tinha vogado á mercê da corrente: e o remo, que cahira naturalmente das mãos do velho, no momento em que elle cedêra á força invencivel do somno, tinha desapparecido.
Estavamos no meio da bahia, sem poder dar um passo, sem poder mover-nos.
Aposto, minha prima, que a senhora acaba de dar uma risada, pensando na comica posição em que me achava; mas seria uma injustiça zombar de uma dôr profunda, de uma angustia cruel como a que soffri então.
Os instantes, as horas, corriam de decepção em decepção; alguns barcos que passáram perto, apezar dos nossos gritos, seguiram seu caminho, não podendo suppôr que com o tempo calmo e sereno que fazia houvesse sombra de perigo para uma canôa que boiava tão levemente sobre as ondas.
O velho, que tinha accordado, nem se desculpava; mas a sua aflicção era tão grande que quasi me commoveu; o pobre homem arrancava os cabellos e mordia os beiços de raiva.
As horas corrêram assim n'essa atonia do desespero. Sentados em face um do outro, talvez culpando-nos mutuamente do que succedia, não proferiamos uma palavra, não faziamos um gesto.
Por fim veio a noite. Não sei como não fiquei louco lembrando-me que estavamos á 13, e que o paquete devia partir no dia seguinte.
Não era unicamente a idéa de uma ausencia que me afligia: era tambem a lembrança do mal que ia causar-lhe, á ella, que, ignorando o que se passava, me julgaria egoista, supporia que a havia abandonado, e que ficára em Petropolis divertindo-me.
Aterrava-me com as consequencias que poderia ter esse facto sobre a sua saude tão fragil, sobre a sua vida; e me condemnava já como assassino.
Lancei um olhar hallucinado sobre o pescador, e tive impetos de abraçal-o e atirar-me com elle ao mar.
Oh! como sentia então o nada do homem e a fraqueza da nossa raça tão orgulhosa de sua superioridade e do seu poder!
De que me serviam a intelligencia, a vontade, e essa força invencivel do amor, que me impellia e me dava coragem para arrostar vinte vezes a morte?
Algumas braças d'agua e uma pequena distancia me retinham e me encadeavam n'aquelle lugar como á um poste; a falta de um remo, isto é, de tres palmos de madeira, creava para mim o impossivel; um circulo de ferro me cingia, e para quebrar essa prisão, contra a qual toda a minha razão era impotente, bastava-me que fosse um ente irracional.
A gaivota, que frisava as ondas com a ponta de suas azas brancas; o peixe, que fazia scintillar um momento seu dorso de escamas á luz das estrellas; o insecto, que vivia no seio das aguas e plantas marinhas, eram reis d'essa solidão, na qual o homem não podia siquer dar um passo.
Assim, blasphemando contra Deos e sua obra, sem saber o que fazia nem o que pensava, entreguei-me á Providencia; embrulhei-me no meu capote, deitei-me e fechei os olhos, para não ver a noite adiantar-se, as estrellas empallidecerem e o dia raiar.
Tudo estava sereno e tranquillo; as aguas nem se moviam; apenas sobre a face lisa do mar passava uma aragem tenue; que dir-se-hia o halito das ondas adormecidas.
De repente pareceu-me sentir que a canôa deixára de boiar á discrição e singrava lentamente; julgando que fosse illusão minha, não me importei, até que um movimento continuo e regular convenceu-me.
Afastei a aba do capote e olhei, receiando ainda illudir-me; não vi o pescador, mas á alguns passos da prôa percebi os rolos de espuma que formava um corpo agitando-se nas ondas.
Approximei-me, e distingui o velho pescador, que nadava, puxando a canôa por meio de uma corda que amarrára á cintura, para deixar-lhe os movimentos livres.
Admirei essa dedicação do pobre velho, que procurava remediar a sua falta por um sacrificio que eu supunha inutil: não era possivel que um homem nadasse assim por muito tempo.
Com effeito, passados alguns instantes, vi-o parar e saltar ligeiramente na canôa como temendo acordar-me; a sua respiração fazia uma especie de borborinho no seu peito largo e forte.
Bebeu um trago de vinho, e com o mesmo cuidado deixou-se cahir n'agua e continuou á puxar a canôa.
Era alta noite quando n'esta marcha chegámos á uma especie de praia, que teria quando muito duas braças. O velho saltou e desappareceu.
Fitando a vista nas trevas, vi uma claridade, que não pude distinguir si era fogo, si luz, sinão quando uma porta abrindo-se deixou-me ver o interior de uma cabana.
O velho voltou com um outro homem, sentáram-se sobre uma pedra e começáram á fallar em voz baixa. Senti uma grande inquietação; na verdade, minha prima, só me faltava, para completar a minha aventura, uma historia de ladrões.
A minha suspeita, porém, era injusta; os dous pescadores estavam á espera de dous remos que lhes trouxe uma mulher, e immediatamente embarcáram e começaram a remar com uma força espantosa.
A canôa resvalou sobre as ondas, agil e veloz como um d'esses peixes de que ha pouco invejava a rapidez.
Ergui-me para agradecer á Deos, ao céo, ás estrellas, ás aguas, á toda a natureza emfim, o raio de esperança que me enviavam.
Uma facha escarlate já se desenhava no horizonte; o oriente foi-se esclarecendo de gradação em gradação, até que deixou ver o disco luminoso do sol.
A cidade começou á erguer-se do seio das ondas, linda e graciosa, como uma donzella que, recostada sobre um monte de relva, banhasse os pés na corrente limpida de um rio.
Á cada movimento de impaciencia que eu fazia, os dous pescadores dobravam-se sobre os remos e a canôa voava. Assim nos approximámos da cidade, passámos entre os navios, e nos dirigimos á Gloria, onde pretendia desembarcar, para ficar mais proximo de sua casa.
Em um segundo tinha tomado á minha resolução; chegar, vêl-a, dizer-lhe que a seguia, e embarcar-me n'esse mesmo paquete em que ella ia partir.