Cinco minutos

Part 2

Chapter 23,931 wordsPublic domain

Em alguns minutos chegámos em face de um pequeno edificio construido á alguns passos do alinhamento, e cujas janellas estavam esclarecidas por uma luz interior.

--É alli.

--Obrigado.

O criado voltou, e eu fiquei junto d'essa casa, sem saber o que ia fazer.

A idéa de que estava perto d'ella, que via a luz que a esclarecia, que tocava a relva que ella pisára, fazia-me feliz.

É cousa singular, minha prima! O amor, que é insaciavel e exigente, e não se satisfaz com tudo quanto uma mulher póde dar, que deseja o impossivel, ás vezes contenta-se com um simples gozo d'alma, com uma d'essas emoções delicadas, com um d'esses _nadas_, dos quaes o coração faz um mundo novo e desconhecido.

Não pense, porém, que eu fui á Petropolis só para contemplar com enlevo as janellas de um _chalet_; não: ao passo que sentia esse prazer, reflectia no meio de vêl-a e de fallar-lhe.

Mas como?...

Si soubesse todos os expedientes, cada qual mais extravagante, que inventou a minha imaginação! Si visse a elaboração tenaz á que se entregava o meu espirito para descobrir um meio de dizer-lhe que eu estava alli e a esperava!

Por fim achei um; si não era o melhor, era o mais prompto.

Desde que chegára, tinha ouvido uns preludios de piano, mas tão debeis que pareciam antes tirados por uma mão distrahida que roçava o teclado do que por uma pessoa que tocasse.

Isto me fez lembrar que ao meu amor se prendia a recordação de uma bella musica de Verdi; e foi quanto bastou.

Cantei, minha prima, ou antes assassinei aquella linda _romanza_; os que me ouvissem tomar-me-hiam por algum furioso; mas ella me comprehenderia.

E de facto, quando eu acabei de estropeiar esse trecho magnifico de harmonia e sentimento, o piano, que havia emmudecido, soltou um trilho brilhante e sonoro, que acordou os echos adormecidos no silencio da noite.

Depois d'aquella cascata de sons magestosos, que se precipitavam em ondas de harmonia, do seio d'aquelle turbilhão de notas, que se cruzavam, deslisou plangente, suave e melancolica, uma voz que sentia e palpitava, exprimindo todo o amor que respira a melodia sublime de Verdi.

Era ella quem cantava!

Oh! não posso pintar-lhe, minha prima, a expressão profundamente triste, a angustia de que ella repassou aquella phrase de despedida:

Non ti scordar di me Addio!...

Partia-me a alma.

Apenas acabou de cantar, vi desenhar-se uma sombra em uma das janellas; saltei a grade do jardim; mas as venezianas descidas não me permittiram ver o que se passava na sala.

Sentei-me sobre uma pedra e esperei.

Não se ria, D***; estava resolvido á passar alli a noite ao relento, olhando para aquella casa, e alimentando a esperança de que ella viria ao menos com uma palavra compensar o meu sacrificio.

Não me enganei.

Havia meia hora que a luz da sala tinha desapparecido e que toda a casa parecia dormir, quando abrio-se uma das portas do jardim, e eu vi ou antes presenti a sua sombra na sala.

Recebeu-me sem sorpresa, sem temor; naturalmente e como si eu fosse seu irmão ou seu marido. É porque o amor puro tem bastante delicadeza e bastante confiança para dispensar o falso pejo, o pudor de convenção de que ás vezes costumam cercal-o.

--Eu sabia que sempre havia de vir, disse-me ella.

--Oh! não me culpe! si soubesse!

--Eu culpal-o? Quando mesmo não viesse, não tinha direito de queixar-me.

--Porque não me ama!

--Pensa isto? disse-me com uma voz cheia de lagrimas.

--Não! não!... Perdôe!

--Perdôo-lhe, meu amigo, como já lhe perdoei uma vez; julga que lhe fujo, que me occulto, porque não o amo, e entretanto não sabe que a maior felicidade para mim seria poder dar-lhe a minha vida.

--Mas então porque esse mysterio?

--Esse mysterio, bem sabe, não é uma cousa creada por mim, e sim pelo acaso; si o conservo é porque, meu amigo... não deve amar.

--Não a devo amar! Mas eu amo-a!...

Recostou a cabeça no meu hombro, e eu senti uma lagrima cahir sobre meu seio.

Estava tão perturbado, tão commovido d'essa situação incomprehensivel, que senti-me vacilar, e deixei-me cahir sobre o sofá.

Ella sentou-se junto de mim; e, tomando-me as duas mãos, disse-me um pouco mais calma:

--Diz que me ama!

--Juro-lhe!

--Não se illude talvez?

--Si a vida não é uma illusão, respondi, penso que não, porque a minha vida agora é você, ou antes a sua sombra.

--Muitas vezes toma-se um capricho por amor; não conhece de mim, como diz, sinão a minha sombra!...

--Que me importa?...

--E si eu fosse feia? disse ella rindo.

--É bella como um anjo! Tenho toda a certeza.

--Quem sabe?

--Pois bem; convença-me, disse eu passando-lhe o braço pela cintura e procurando leval-a para uma sala vizinha, d'onde filtravam os raios de uma luz.

Desprehendeu-se do meu braço.

A sua voz tornou-se grave e triste.

--Escute, meu amigo; fallemos seriamente. Diz que me ama; eu o creio, eu o sabia antes mesmo que me dissesse. As almas como as nossas quando se encontram se reconhecem e se comprehendem. Mas ainda é tempo; não julga que mais vale conservar uma recordação do que entregar-se á um amor sem esperança e sem futuro?...

--Não, mil vezes não! Não entendo o que quer dizer; o meu amor, o meu, não precisa de futuro e de esperança, porque o tem em si, porque viverá sempre!...

--Eis o que eu temia; e entretanto eu sabia que assim havia de acontecer; quando se tem a sua alma ama-se de uma só vez.

--Então porque exige de mim um sacrificio que sabe ser impossivel?

--Porque, disse ella com exaltação, porque, si ha uma felicidade indefinivel em duas almas que ligam sua vida, que se confundem na mesma existencia, que só têm um passado e um futuro para ambas, que desde a flôr da idade até a velhice caminham juntas para o mesmo horizonte, partilhando os seus prazeres e as suas magoas, revendo-se uma na outra até o momento em que batem as azas e vão abrigar-se no seio de Deos; deve ser cruel, bem cruel, meu amigo, quando, tendo-se apenas encontrado, uma d'essas duas almas irmãs fugir d'este mundo, e a outra, viuva e triste, fôr condemnada á levar sempre no seu seio uma idéa de morte; á trazer essa recordação, que, como um crepe de luto, envolverá a sua bella mocidade; á fazer do seu coração, cheio de vida e de amor, um tumulo para guardar as cinzas do passado! Oh! deve ser horrivel!...

A exaltação com que fallava tinha-se tornado uma especie de delirio; sua voz, sempre tão doce e avelludada, parecia alquebrada pelo cansaço da respiração.

Ella cahio sobre o meu seio, agitando-se convulsivamente em um accesso de tosse.

V

Assim ficámos muito tempo immoveis, ella com a fronte apoiada sobre meu peito, eu sob a impressão triste de suas palavras.

Por fim ergueu a cabeça; e, recobrando a serenidade, disse-me em tom doce e melancolico:

--Não pensa que melhor é esquecer do que amar assim?

--Não! Amar, sentir-se amado, é sempre um gozo immenso e um grande consolo para a desgraça. O que é triste, o que é cruel, não é essa viuvez da alma separada de sua irmã, não; ahi ha um sentimento que vive, apezar da morte, apezar do tempo. É sim esse vacuo do coração que não tem uma affeição no mundo, e que passa como um estranho por entre os prazeres que o cercam.

--Que santo amor, meu Deus! Era assim que eu sonhava ser amada!...

--E me pedia que a esquecesse!...

--Não! não! Ama-me: quero que me ame. Ao menos...

--Não me fugirá mais?

--Não.

--E me deixará ver aquella que eu amo, e que não conheço? perguntei sorrindo.

--Deseja?

--Supplico-lhe!

--Não sou eu sua?...

Lancei-me para a saleta onde havia luz, e colloquei o lampião sobre a mesa do gabinete em que estavamos.

Para mim, minha prima, era um momento solemne; toda essa paixão violenta, incomprehensivel, todo esse amor ardente por um vulto de mulher, ia depender talvez de um olhar.

E tinha medo de ver esvaecer-se, como um fantasma em face da realidade, essa visão poetica de minha imaginação, essa creação que resumia todos os typos.

Foi, portanto, com uma emoção extraordinaria que, depois de collocar a luz, voltei-me.

Ah!...

Eu sabia que era bella; mas a minha imaginação apenas tinha esboçado o que Deos creára.

Ella olhava-me e sorria.

Era um ligeiro sorriso, uma flôr que desfolhava-se nos seus labios, um reflexo que illuminava o seu lindo rosto.

Seus grandes olhos negros fitavam em mim um d'esses olhares languidos e avelludados que afagam os seios d'alma.

Um annel de cabellos negros brincava-lhe sobre o hombro, fazendo sobresahir a alvura de seu collo gracioso.

Tudo quanto a arte tem sonhado de bello e de voluptuoso desenhava-se n'aquellas formas soberbas, n'aquelles contornos harmoniosos que se destacavam entre as ondas de cambraia de seu ropão branco.

Vi tudo isto de um só olhar, rapido, ardente e fascinado; depois fui ajoelhar-me diante d'ella, e esqueci-me á contemplal-a.

Ella me sorria sempre, e se deixava admirar.

Por fim tomou-me a cabeça entre as mãos, e seus labios fecháram-me os olhos com um beijo.

--Ama-me, disse.

O sonho esvaeceu-se.

A porta da sala fechou-se sobre ella; tinha-me fugido.

Voltei ao hotel.

Abri a minha janella, e sentei-me ao relento.

A brisa da noite trazia-me de vez em quando um aroma de plantas agrestes que me causava intimo prazer.

Fazia-me lembrar da vida campestre, d'essa existencia doce e tranquilla que se passa longe das cidades, quasi no seio da natureza.

Pensava como seria feliz vivendo com ella em algum canto isolado, onde pudessemos abrigar o nosso amor em um leito de flôres e de relva.

Fazia na imaginação um idyllio encantador, e sentia-me tão feliz que não trocaria a minha cabana pelo mais rico palacio da terra.

Ella me amava.

Essa só idéa embellezava tudo para mim; a noite escura de Petropolis parecia-me poetica e o murmurejar triste das aguas do canal tornava-se-me agradavel.

Uma cousa, porém, perturbava essa felicidade; era um ponto negro, uma nuvem escura que toldava o céo da minha noite de amor.

Lembrava-me d'aquellas palavras tão cheias de angustia e tão sentidas, que pareciam explicar a causa de sua reserva para commigo: havia n'isto um quer que seja que eu não comprehendia.

Mas esta lembrança desapparecia logo sob a impressão de seu sorriso, que eu tinha em minh'alma, de seu olhar, que eu guardava no coração, e de seos labios, cujo contacto ainda sentia.

Dormi embalado por estes sonhos e só acordei quando um raio do sol, alegre e travesso, veio bater-me nas palpebras e dar-me o _bom dia_.

O meu primeiro pensamento foi ir saudar a minha casinha; estava ainda fechada.

Eram oito horas.

Resolvi dar um passeio para disfarçar a minha impaciencia; voltando ao hotel, o criado disse-me terem trazido um objecto que recommendáram me fosse entregue logo.

Em Petropolis não conhecia ninguem; devia ser d'ella.

Corri ao meu quarto, e achei sobre a mesa uma caixinha de páo setim; na tampa havia duas lettras de tartaruga incrustada:--C. L.

A chave estava fechada em uma sobrecarta com endereço á mim: dispuz-me á abrir a caixa com a mão tremula e tomado por um triste presentimento.

Parecia-me que n'aquelle cofre perfumado estava encerrada a minha vida, o meu amor, toda a minha felicidade.

Abri.

Continha o seu retrato, alguns fios de cabello e duas folhas de papel escriptas por ella e que li de sorpresa em sorpresa.

VI

Eis o que ella me dizia:

«Devo-te uma explicação, meu amigo.

Esta explicação é a historia de minha vida, breve historia, da qual escreveste a mais bella pagina.

Cinco mezes antes do nosso primeiro encontro, completava eu os meus dezeseis annos, a vida começava á sorrir-me.

A educação rigorosa que me dera minha mãi me conservára menina até aquella idade, e foi só quando ella julgou conveniente correr o véo que occultava o mundo aos meus olhos que eu perdi as minhas idéas de infancia e as minhas innocentes illusões.

A primeira vez que fui á um baile fiquei deslumbrada no meio d'aquelle turbilhão de cavalheiros e damas, que girava em torno de mim sob uma atmosphera de luz, de musica, de perfumes.

Tudo me causava admiração; o abandono com que as mulheres se entregavam a seu par de valsa, o sorriso constante e sem expressão que uma moça parece tomar na porta da entrada para só deixal-o á sahida, esses galanteios sempre os mesmos e sempre sobre um thema banal, ao passo que me excitavam a curiosidade, faziam desvanecer o enthusiasmo com que tinha acolhido a noticia que minha mãi me dera de minha entrada nos salões.

Estavas n'esse baile; foi a primeira vez que te vi.

Reparei que n'essa multidão alegre e ruidosa tu só não dansavas nem galanteavas, passando pelo salão como um espectador mudo e indifferente, ou talvez como um homem que procurava uma mulher e só via _toilettes_.

Comprehendi-te, e durante muito tempo segui-te com os olhos: ainda hoje me lembro de teus menores gestos, da expressão de teu rosto e do sorriso de fina ironia que ás vezes fugia-te pelos labios.

Foi a unica recordação que trouxe d'essa noite, e quando adormeci, os meus doces sonhos de infancia, que, apezar do baile, vieram de novo pousar nas alvas cortinas de meu leito, apenas foram interrompidos um instante por tua imagem, que me sorria.

No dia seguinte reatei o fio de minha existencia, feliz, tranquilla e descuidosa, como costuma ser a existencia de uma moça aos dezeseis annos.

Algum tempo depois fui á outros bailes e ao theatro, porque minha mãi, que guardára a minha infancia como um avaro esconde seu thesouro, queria fazer brilhar a minha mocidade.

Quando cedia a seu pedido e me ia a apromptar, emquanto preparava o meu simples trajo, murmurava:

--Talvez elle esteja.

E esta lembrança, não só me tornava alegre, mas fazia com que procurasse parecer bella, para te merecer um primeiro olhar.

Ultimamente era eu quem, cedendo á um sentimento que não sabia explicar, pedia á minha mãi para irmos á um divertimento, só na esperança de encontrar-te.

Nem suspeitavas então que entre todos aquelles vultos indifferentes havia um olhar que te seguia sempre e um coração que adivinhava teus pensamentos, que expandia-se quando te via sorrir e contrahia-se quando uma sombra de melancolia anuviava teu semblante.

Si pronunciavam o teu nome diante de mim corava, e na minha perturbação julgava que tinham lido esse nome nos meus olhos ou dentro de minh'alma, onde eu bem sabia que elle estava escripto.

E entretanto nem siquer ainda me tinhas visto; si teus olhos haviam passado alguma vez por mim, tinha sido em um d'esses momentos em que a luz se volta para o intimo, e se olha mas não se vê.

Consolava-me, porém, que algum dia o acaso nos reuniria, e então não sei o que me dizia que era impossivel não me amares.

O acaso deu-se, mas quando a minha existencia já se tinha completamente transformado.

Ao sahir de um d'esses bailes apanhei uma pequena constipação, de que não fiz caso. Minha mãi teimava que eu estava doente, e eu achava-me um pouco pallida e sentia ás vezes um ligeiro calafrio, que eu curava sentando-me ao piano e tocando alguma musica de bravura.

Um dia, porém, achei-me mais abatida; tinha as mãos e os labios ardentes, a respiração era difficil, e ao menor esforço humedecia-se-me a pelle com uma transpiração que me parecia gelada.

Atirei-me sobre um sofá, e com a cabeça recostada ao collo de minha mãi cahi em um lethargo que não sei quanto tempo durou. Lembro-me sómente que, no momento mesmo em que ia despertando d'essa somnolencia que se apoderára de mim, vi minha mãi sentada á cabeceira de meu leito chorando, e um homem dizia-lhe algumas palavras de consolo, que eu ouvi como em sonho.

--Não desespere, minha senhora; a sciencia não é infallivel, nem os meus diagnosticos são sentenças irrevogaveis. Póde ser que a natureza e as viagens a salvem. Mas é preciso não perder tempo.

O homem partio.

Não tinha comprehendido suas palavras, ás quaes não ligava o menor sentido.

Passado um instante, ergui tranquillamente os olhos para minha mãi, que escondeu o lenço e tragou em silencio o pranto e os soluços.

--Chora, mamãi?

--Não, minha filha... não... não é nada.

--Mas está com os olhos cheios de lagrimas!... disse eu assustada.

--Ah! sim!... uma noticia triste que me contáram ha pouco... sobre uma pessoa... que tu não conheces.

--Quem é este senhor que estava aqui?

--É o Dr. Valladão, que te veio visitar.

--Então eu estou muito doente, boa mamãi?

--Não, minha filha, elle assegurou que não tens nada; é apenas um incommodo nervoso.

E minha querida mãi, não podendo mais conter as lagrimas que lhe saltavam dos olhos, fugio pretextando uma ordem á dar.

Então, á medida que a minha intelligencia ia sahindo do lethargo, comecei á reflectir sobre o que se tinha passado.

--Aquelle desmaio tão longo, aquellas palavras que eu ouvira ainda entre as nevoas de um somno agitado, as lagrimas de minha mãi e a sua repentina afflicção, o tom condoìdo com que o medico lhe fallára...

Um raio de luz esclareceu de repente o meu espirito.

Estava desenganada.

O poder da sciencia, o olhar profundo, seguro, infallivel, d'esse homem, que lê no corpo humano como em um livro aberto, tinha visto em meu seio um atomo imperceptivel.

E esse atomo era o verme que devia destruir as fontes da vida, apezar dos meus dezeseis annos, apezar de minha organisação, apezar de minha belleza e dos meus sonhos de felicidade!»

Aqui terminava a primeira folha, que eu acabei de ler entre as lagrimas que me inundavam as faces e cahiam sobre o papel.

Era este o segredo de sua estranha reserva; era a razão por que me fugia, por que se ócultava, por que ainda na vespera dizia que se tinha imposto o sacrificio de nunca ser amada por mim.

Que sublime anegação, minha prima! E como eu me sentia pequeno e mesquinho á vista d'esse amor tão nobre!»

VII

Continuei á ler:

«Sim, meu amigo!...

Estava condemnada á morrer; estava atacada d'essa molestia fatal e traiçoeira, cujo dedo descarnado nos toca no meio dos prazeres e dos risos, nos arrasta ao leito, e do leito ao tumulo, depois de ter escarnecido da natureza, transfigurando as suas mais bellas creações em mumias animadas.

É impossivel descrever-te o que se passou então em mim: foi um desespero mudo e concentrado, que me prostrou em uma atonia profunda; foi uma angustia pungente e cruel.

As rosas da minha vida apenas se entreabriam, e já eram bafejadas por um halito infectado; já tinham no seio o germen da morte que devia fazel-as murchar!

Meus sonhos de futuro, minhas tão risonhas esperanças, meu puro amor, que nem siquer ainda tinha colhido o primeiro sorriso, este horizonte, que ha pouco me parecia tão brilhante; tudo isto era uma visão que ia sumir-se, uma luz que lampejava prestes á extinguir-se.

Foi preciso um esforço sobrehumano para esconder de minha mãi a certeza que eu tinha sobre o meu estado, e para gracejar dos seus temores, que eu chamava imaginarios.

Boa mãi! Desde então só viveu para consagrar-se exclusivamente á sua filha, para envolvel-a com esse desvelo e essa protecção que Deos deu ao coração materno, para abrigar-me com suas preces, sua solicitude e seus carinhos, para lutar á força de amor e de dedicação contra o destino.

Logo no dia seguinte fomos para Andarahy, onde ella alugára uma chacara, e ahi, graças á seus cuidados, adquiri tanta saude, tanta força, que me julgaria boa si não fosse a sentença fatal que pesava sobre mim.

Que thesouro de sentimento e delicadeza que é um coração de mãi, meu amigo! Que tacto delicado, que sensibilidade apurada, possue esse amor sublime!

Nos primeiros dias, quando ainda estava muito abatida e era obrigada á agasalhar-me, si visses como ella presentia as rajadas de um vento frio antes que elle agitasse os renovos dos cedros do jardim, como adivinhava a menor neblina antes que a primeira gotta humedecesse a lage do nosso terraço!

Fazia tudo por distrahir-me; brincava commigo como uma camarada de collegio; achava prazer nas menores cousas para excitar-me á imital-a; tornava-se menina e obrigava-me á ter caprichos.

Emfim, meu amigo, si fosse á dizer-te tudo, escreveria um livro, e esse livro deves ter lido no coração de tua mãi, porque todas as mãis se parecem.

Ao cabo de um mez tinha recobrado a saude para todos, excepto para mim, que ás vezes sentia um quer que seja como uma contracção, que não era dôr, mas me dizia que o mal estava alli, e dormia apenas.

Foi n'esta occasião que te encontrei no omnibus de Andarahy; quando entravas a luz do lampeão illuminou-te o rosto e eu reconheci-te.

Faze idéa que emoção sentiria quando te sentaste junto de mim.

O mais tu sabes; eu te amava, e era tão feliz de ter-te á meu lado, de apertar a tua mão, que nem me lembrava como te devia parecer ridicula uma mulher que, sem te conhecer, te permittia tanto.

Quando nos separámos, arrependi-me do que tinha feito.

Com que direito ia eu perturbar a tua felicidade, condemnar-te á um amor infeliz e obrigar-te á associar tua vida á uma existencia triste, que talvez não te podesse dar sinão os tormentos de seu longo martyrio?!

Eu te amava; mas, já que Deos não me tinha concedido a graça de ser tua companheira n'este mundo, não devia ir roubar ao teu lado e no teu coração o lugar que outra mais feliz, porém menos dedicada, teria de occupar.

Continuei á amar-te, mas impuz-me á mim mesma o sacrificio de nunca ser amada por ti.

Vês, meu amigo, que não era egoista e preferia a tua á minha felicidade. Tu farias o mesmo, estou certa.

Aproveitei o mysterio do nosso primeiro encontro, e esperei que alguns dias te fizessem esquecer essa aventura e quebrassem o unico e bem fragil laço que te prendia á mim.

Deus não quiz que acontecesse assim: vendo-te só em um baile, tão triste, tão pensativo, procurando um ser invisivel, uma sombra, e querendo descobrir os seus vestigios em algum dos rostos que passavam diante de ti, senti um prazer immenso.

Conheci que tu me amavas; e, perdôa, fiquei orgulhosa d'essa paixão ardente, que uma só palavra minha havia creado, d'esse poder do meu amor, que, por uma força de atracção inexplicavel, tinha-te ligado á minha sombra.

Não pude resistir.

Approximei-me, disse-te uma palavra sem que tivesses tempo de ver-me; foi essa mesma palavra que resume todo o poema do nosso amor, e que depois do primeiro encontro era, como ainda hoje, a minha prece de todas as noites.

Sempre que me ajoelho diante do meu crucifixo de marfim, depois de minha oração, ainda com os olhos na cruz e o pensamento em Deos, chamo a tua imagem para pedir-te que não _te esqueças de mim_.

Quando tu te voltaste ao som da minha voz eu tinha entrado no _toilette_; e pouco depois sahi d'esse baile, onde apenas acabava de entrar, tremendo da minha imprudencia, mas alegre e feliz por te ter visto ainda uma vez.

Deves agora comprehender o que me fizeste soffrer no theatro quando me dirigias aquella accusação tão injusta, no momento mesmo em que a Charton cantava a aria da _Traviata_.

Não sei como não me trahi n'aquelle momento e não te disse tudo; o teu futuro, porém, era sagrado para mim, e eu não devia destruil-o para satisfação de meu amor-proprio offendido.

No dia seguinte escrevi-te; e assim, sem me trahir, pude ao menos rehabilitar-me na tua estima; doia-me muito que, ainda mesmo não me conhecendo, tivesses sobre mim uma idéa tão injusta e tão falsa.

Aqui é preciso dizer-te que no dia seguinte ao do nosso primeiro encontro tinhamos voltado á cidade, e eu via-te passar todos os dias diante de minha janella, quando fazias o teu passeio costumado á Gloria.