Cinco minutos

Part 1

Chapter 13,938 wordsPublic domain

*Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Dezembro 2013)

[capa]

CINCO MINUTOS

J. DE ALENCAR

CINCO MINUTOS

EDIÇÃO ESPECIAL

RIO DE JANEIRO Typ. Mont'Alverne--Rua do Ouvidor 82

1894

A D***

I

É uma historia curiosa a que lhe vou contar, minha prima. Mas é uma historia, e não um romance.

Ha mais de dous annos, seriam seis horas da tarde, dirigi-me ao Rocio para tomar o omnibus de Andarahy.

Sabe que sou o homem o menos pontual que ha n'este mundo: entre os os meus immensos defeitos e as minhas poucas qualidades, não conto a _pontualidade_ essa virtude dos reis, e esse mão costume dos Inglezes.

Enthusiasta da liberdade, não posso admittir de modo algum que o homem se escravise ao seu relogio e regule as suas acções pelo movimento de uma pendula.

Tudo isto quer dizer que, chegando ao Rocio, não vi mais omnibus algum; o empregado á quem dirigi-me respondeu:

--Partio ha cinco minutos.

Resignei-me, e esperei pelo omnibus de sete horas.

Anoiteceu.

Fazia uma noite de inverno fresca e humida: o céo estava calmo, mas sem estrellas.

Á hora marcada chegou o omnibus, e apressei-me á ir a tomar o meu lugar.

Procurei, como costumo, o fundo do carro, afim de ficar livre das conversas monotonas dos recebedores, que de ordinario têm sempre uma anecdota insipida á contar, ou uma queixa á fazer sobre o máo estado dos caminhos.

O canto já estava occupado por um monte de sedas, que deixou escapar-se um ligeiro farfalhar, conchegando-se para dar-me lugar.

Sentei-me; prefiro sempre o contacto da seda á vizinhança da casimira ou do panno.

O meu primeiro cuidado foi ver si conseguia descobrir o rosto e as fórmas que se escondiam n'essas nuvens de seda e de rendas.

Era impossivel.

Além de estar escura a noite, um maldito véo cahido de um chapéozinho de palha não me deixava a menor esperança.

Resignei-me, e assentei que o melhor era cuidar de outra cousa.

Já o meu pensamento tinha-se lançado á galope pelo mundo da fantasia, quando de repente foi obrigado á voltar por uma circumstancia bem simples.

Senti no meu braço o contacto suave de um outro braço, que me parecia macio e avelludado como uma folha de rosa.

Quiz recuar, mas não tive animo; deixei-me ficar na mesma posição, e scismei que estava sentado perto de uma mulher que me amava e que se apoiava sobre mim.

Pouco e pouco fui cedendo áquella attracção irresistivel e reclinando-me insensivelmente: a pressão tornou-se mais forte; senti o seu hombro tocar de leve o meu; e por acaso encontrei uma mãozinha delicada e mimosa que deixou-se apertar á medo.

Assim, fascinado ao mesmo tempo pela minha illusão e por este contacto voluptuoso, esqueci-me, á ponto que, sem tino do que fazia, e, favorecido pela obscuridão, passei-lhe a mão pela cintura e cerrei seu talhe delicado.

_Ella_ soltou um grito, que foi tomado naturalmente como susto causado pelos solavancos do omnibus, e refugiou-se no canto.

Meio arrependido do que tinha feito, voltei-me como para olhar pela portinhola do carro, e, approximando-me d'ella, disse-lhe quasi ao ouvido:

--Perdão!

Não respondeu; conchegou-se ainda mais ao canto.

Tomei uma resolução heroica.

--Vou descer; não a incommodarei mais.

Ditas estas palavras rapidamente, de modo que só ella ouvisse, inclinei-me para mandar parar.

Mas sentì outra vez a sua mãosinha, que apertava docemente a minha, para impedir-me de sahir.

Está entendido que não resisti, e que deixei-me ficar; ella conservava-se sempre longe de mim, mas tinha-mè abandonado a mão, que apertava respeitosamente.

De repente veio-me uma idéa. Si fosse feia! si fosse velha! si fosse uma e outra cousa!

Fiquei frio, e comecei á reflectir.

Esta mulher, que sem me conhecer me permittia o que só se permitte ao homem que se ama, não podia deixar com effeito de ser feia e muito feia.

Não lhe sendo facil achar um namorado de dia, ao menos agarrava-se á este, que de noite e ás cegas lhe proporcionára o acaso.

É verdade que essa mão delicada, essa espadua avelludada... Illusão! Era a disposição em que eu estava!

A imaginação é capaz de maiores esforços ainda.

N'esta marcha, o meu espirito em alguns instantes tinha chegado á uma convicção inabalavel sobre a fealdade de minha vizinha.

Para adquirir a certeza renovei o exame que tentára á principio aproveitando-me da luz furtiva de algum raro lampião acceso: porém ainda d'esta vez foi baldado; estava tão bem envolvida no seu mantelete e no seu véo, que nem um traço do rosto trahia seu incognito.

Mais uma prova! Uma mulher bonita deixa-se admirar, e não se esconde como uma perola dentro da sua ostra.

Decididamente era feia, enormemente feia!

N'isto ella fez um movimento entreabrindo o seu mantelete, e um bafejo suave de aroma de sandalo exhalou-se.

Aspirei voluptuosamente essa onda de perfume, que se infiltrou em minha alma como um effluvio celeste.

Não se admire, minha prima, tenho uma theoria á respeito dos perfumes.

A mulher é uma flôr que se estuda, como a flôr do campo, pelas suas côres, pelas suas folhas e sobretudo pelo seu perfume.

Dada a côr predilecta de uma mulher desconhecida, o seu modo de trajar e o seu perfume favorito, vou descobrir, com a mesma exactidão de um problema algebrico, si ella é bonita ou feia.

De todos estes indicios, porém, o mais seguro é o perfume; e isto por um segredo da natureza, por uma lei mysteriosa da creação, que não sei explicar.

Porque é que Deos deu o aroma mais delicado á rosa, ao heliotropo, á violeta, ao jasmim, e não á essas flôres sem graça e sem belleza, que só servem para realçar as suas irmãs?

É de certo por esta mesma razão que Deos só dá á mulher linda esse tacto delicado e subtil, esse gosto apurado, que sabe distinguir o aroma mais perfeito.

Já vê, minha prima, porque esse odor de sandalo foi para mim como uma revelação.

Só uma mulher distincta, uma mulher de sentimento, sabe comprehender toda a poesia d'esse perfume oriental, d'esse _hatchiss_ do olfacto, que nos embala nos sonhos brilhantes das _Mil e uma Noites_, que nos falla da India, da China, da Persia, dos esplendores da Asia e dos mysterios do berço do sol.

O sandalo é o perfume das odaliscas de Stamboul e das houris do propheta; como as borboletas que se alimentam de mel, a mulher de Oriente vive com as gottas d'essa essencia divina.

Seu berço é de sandalo; seus collares, suas pulseiras, o seu leque, são de sandalo; e, quando a morte vem quebrar o fio d'essa existencia feliz, é ainda em uma urna de sandalo que o amor guarda as suas cinzas queridas.

Tudo isto passou-me pelo pensamento, como um sonho, emquanto eu aspirava ardentemente a exhalação fascinadora, que foi á pouco e pouco desvanecendo-se.

Era bella!

Tinha toda a certeza; d'esta vez era uma convicção profunda e inabalavel.

Com effeito, uma mulher de distinção, uma mulher de alma elevada, si fosse feia, não dava sua mão á beijar á um homem que podia repellil-a quando a conhecesse; não se expunha ao escarneo e ao desprezo.

Era bella!

Mas não a podia ver, por mais esforços que fizesse; via-a com os olhos da alma, fazia o seu retrato imaginario.

O omnibus parou; uma outra senhora ergueu-se e sahio.

Senti que _sua_ mão apertava a minha; vi uma sombra passar diante de meus olhos no meio do _ruge-ruge_ de um vestido, e quando dei accordo de mim rodava o carro e eu tinha perdido a minha visão.

Resoava-me ainda ao ouvido uma palavra murmurada, ou antes suspirada quasi imperceptivelmente:

--_Non ti scordar di me_!...

Lancei-me fóra do omnibus; caminhei á direita e á esquerda; andei como um louco até nove horas da noite.

Nada!

II

Quinze dias se passáram depois da minha aventura.

Durante este tempo é escusado dizer-lhe as extravagancias que fiz.

Fui todos os dias á Andarahy no omnibus das sete horas, para ver si encontrava a minha desconhecida; indaguei de todos os passageiros si a conheciam, e não obtive a menor informação.

Estava á braços com uma paixão, minha prima, e com uma paixão de primeira força e de alta pressão, capaz de fazer vinte milhas por hora.

Quando sahia não via ao longe um vestido de seda preta e um chapéo de palha que não lhe désse caça, até fazel-o chegar á abordagem..

No fim descobria alguma velha ou alguma costureira desgeitosa, e continuava tristemente meu caminho, atrás d'essa sombra impalpavel, que eu procurava havia quinze longos dias, isto é, um seculo para o pensamento de um amante.

Um dia estava em um baile, triste e pensativo, como um homem que ama uma mulher e não conhece a mulher que ama.

Recostei-me á uma porta, e d'ahi via passar diante de mim uma myriada brilhante e esplendida, pedindo á todos aquelles rostos indifferentes um olhar, um sorriso, que me désse á conhecer aquella que eu procurava.

Assim preoccupado, quasi não dava fé do que se passava junto de mim, quando senti um leque tocar no meu braço, e uma voz que vivia no meu coração, uma voz que cantava dentro de minha alma, murmurou:

--_Non ti scordar di me_!...

Voltei-me.

Corri um olhar pelas pessoas que estavam junto de mim, e apenas vi uma velha que passeava pelo braço de seu cavalheiro, abanando-se com um leque.

--Será ella, meu Deos? pensei eu horrorisado.

E, por mais que fizesse, meus olhos não se podiam destacar d'aquelle rosto cheio de rugas.

A velha tinha uma expressão de bondade e de sentimento que devia attrahir a sympatia; mas n'aquelle momento essa belleza moral, que illuminava aquella physionomia intelligente, pareceu-me horrível e até repugnante.

Amar quinze dias uma sombra, sonhal-a bella como um anjo, e por fim encontrar uma velha de cabellos brancos, uma velha _coquette_ e namoradeira!

Não, era possivel! Naturalmente a minha desconhecida tinha fugido antes que eu tivesse tempo de vêl-a.

Essa esperança consolou-me; mas durou apenas um segundo.

A velha fallou, e na sua voz eu reconheci, apezar de tudo, apezar de mim mesmo, o timbre doce e avelludado que ouvira duas vezes.

Em face da evidencia não havia mais que duvidar. Eu tinha amado uma velha, tinha beijado sua mão enrugada com delirio, tinha vivido quinze dias de sua lembrança.

Era para fazer-me enlouquecer ou rir; não me ri nem enlouqueci, mas fiquei com tal tedio e aborrecimento de mim mesmo que não posso exprimir.

Que peripecias, que lances, porém, não me reservava ainda esse drama, tão simples e obscuro!

Não distingui as primeiras palavras da velha logo que ouvi a sua voz; foi só passado o primeiro espanto que percebi o que dizia.

--Ella não gosta de bailes.

--Pois admira, replicou o cavalheiro; na sua idade!

--Que quer! não acha prazer n'estas festas ruidosas, e n'isto mostra bem que é minha filha.

A velha tinha uma filha, e isto podia explicar a semelhança extraordinaria da voz. Agarrei-me á esta sombra, como um homem que caminha no escuro.

Resolvi-me á seguir a velha toda a noite, até que ella se encontrasse com sua filha: desde este momento era o meu fanal, a minha estrella polar.

A senhora e o seu cavalheiro entráram na saleta da escada. Separado d'ella um instante pela multidão, ia seguil-a.

N'isto ouço uma voz alegre dizer da saleta:

-Vamos, mamãi!

Corri, e apenas tive tempo de perceber os folhos de um vestido preto, envolto n'um largo _bornou_ de seda branca, que desappareceu ligeiramente na escada.

Atravessei a saleta tão depressa como me permittio a multidão, e, pisando callos, dando encontrões á direita e á esquerda, cheguei emfim á porta da sahida.

O meu vestido preto sumio-se pela portinhola de um _coupé_, que partio á trote largo.

Voltei ao baile desanimado; á minha unica esperança era a velha; por ella podia tomar informações, saber quem era a minha desconhecida, indagar o seu nome e a sua morada, acabar emfim com este enigma, que me matava de emoções violentas e contrarias.

Indaguei d'ella.

Mas como era possivel designar uma velha da qual eu só sabia pouco mais ou menos a idade?

Todos os meus amigos tinham visto muitas velhas, porém não tinham olhado para ellas.

Retirei-me triste e abatido, como um homem que se vê em luta contra o impossivel.

De duas vezes que a minha visão me tinha apparecido, só me restava uma lembrança, um perfume e uma palavra!

Nem siquer um nome!

Á todo momento parecia-me ouvir na briza da noite essa phrase do _Trovador_, tão cheia de melancolia e de sentimento, que resumia para mim toda uma historia.

Desde então não se representava uma só vez esta opera em que eu não fosse ao theatro, ao menos para ter o prazer de ouvil-a repetir.

Á principio, por uma intuição natural, julguei que _ella_ devia, como eu, admirar essa sublime harmonia de Verdi, que devia tambem ir sempre ao theatro.

O meu binoculo examinava todos os camarotes com uma attenção meticulosa; via moças bonitas ou feias, mas nenhuma d'ellas me fazia palpitar o coração.

Entrando uma vez no theatro e passando a minha revista costumada, descobri finalmente na terceira ordem sua mãi, a minha estrella, o fio de Ariadne que me podia guiar n'este labyrintho de duvidas.

A velha estava só na frente do camarote, e de vez em quando voltava-se para trocar uma palavra com alguem, sentado no fundo.

Senti uma alegria ineffavel.

O camarote proximo estava vazio; perdi quasi todo o espectaculo á procurar o cambista incumbido de vendêl-o. Por fim achei-o, e subi de um pulo as tres escadas.

O coração queria saltar-me quando abri a porta do camarote e entrei.

Não me tinha enganado; junto da velha vi um chapéozinho de palha com um véo preto rocegado, que não me deixava ver o rosto da pessoa á quem pertencia.

Mas eu tinha adivinhado que era _ella_; e sentia um prazer indefinivel em olhar aquellas rendas e fitas, que me impediam de conhecêl-a, mas que ao menos lhe pertenciam.

Uma das fitas do chapéo tinha cahido do lado do meu camarote, e, em risco de ser visto, não pude soster-me e beijei-a á furto.

Representava-se a _Traviata_, e era o ultimo acto; o espectaculo ia acabar, e eu ficaria no mesmo estado de incerteza.

Arrastei as cadeiras do camarote, tossi, deixei cahir o binoculo, fiz um barulho insupportavel, para ver si _ella_ voltava o rosto.

A platéa pedio silencio; todos os olhos procuráram conhecer a causa do rumor; porém _ella_ não se moveu; com a cabeça meio inclinada sobre a columna, em uma languida inflexão, parecia toda entregue ao encanto da musica.

Tomei um partido.

Encostei-me á mesma columna, e em voz baixa balbuciei estas palavras:

--Não me esqueço!

Estremeceu e, abaixando rapidamente o véo, conchegou ainda mais o largo _bornou_ de setim branco.

Cuidei que ia voltar-se, mas enganei-me; esperei muito tempo, e debalde.

Tive então um movimento de despeito e quasi de raiva; depois de um mez que eu guardava a maior fidelidade á sua sombra, _ella_ me recebia assim friamente.

Revoltei-me.

--Comprehendo agora, disse eu em voz baixa e como fallando á um amigo que estivesse á meu lado, comprehendo porque ella me foge, porque conserva esse mysterio; tudo isto não passa de uma zombaria cruel, de uma comedia, em que eu faço o papel do amante ridiculo. Realmente é uma lembrança engenhosa! Lançar em um coração o germen de um amor profundo; alimental-o de tempos a tempos com uma palavra, excitar a imaginação pelo mysterio; e depois, quando esse namorado de uma sombra, de um sonho, de uma illusão, passear pelo salão a sua figura triste e abatida, mostral-o á suas amigas como uma victima immolada aos seus caprichos, e escarnecer do louco! É espirituoso! O orgulho da mais vaidosa mulher deve ficar satisfeito!

Emquanto eu proferia estas palavras, repassadas de todo o fel que tinha no coração, a Charton modulava com a sua voz sentimental essa linda aria final da _Traviata_, interrompida por ligeiros accessos de uma tosse secca.

_Ella_ tinha curvada a cabeça, e não sei si ouvia o que eu lhe dizia ou o que a Charton cantava; de vez em quando as suas espaduas se agitavam com um tremor convulsivo, que eu tomei injustamente por um movimento de impaciencia.

O espectaculo terminou, as pessoas do camarote sahiram, e _ella_, levantando sobre o chapéu o capuz de seu manto, acompanhou-as lentamente.

Depois, fingindo que se tinha esquecido de alguma cousa, tornou á entrar no camarote, e estendeu-me a mão.

--Não saberá nunca o que me fez soffrer, disse-me com a voz tremula.

Não pude ver-lhe o rosto; fugio, deixando-me o seu lenço impregnado d'esse mesmo perfume de sandalo e todo molhado de lagrimas ainda quentes.

Quiz seguil-a; mas ella fez um gesto tão supplicante que não tive animo de desobedecer-lhe.

Estava como d'antes; não a conhecia, não sabia nada á seu respeito; porém ao menos possuia alguma cousa d'ella; o seu lenço era para mim uma reliquia sagrada.

Mas as lagrimas? Aquelle soffrimento de que ella fallava? O que queria dizer tudo isto?

Não comprendia; si eu tinha sido injusto, era uma razão para não continuar á esconder-se de mim. Que queria dizer este mysterio, que parecia obrigada á conservar?

Todas estas perguntas e as conjecturas á que ellas davam lugar não me deixáram dormir.

Passei uma noite de vigilia á fazer supposições, cada qual mais desarrazoada.

III

Recolhendo-me no dia seguinte, achei em casa uma carta.

Antes de abril-a conheci que era d'ella, porque lhe tinha imprimido esse suave perfume que a cercava como uma aureola.

Eis o que dizia:

«Julga mal de mim, meu amigo; nenhuma mulher póde escarnecer de um nobre coração como o seu.

Si me occulto, si fujo, é porque ha uma fatalidade que á isto me obriga. E só Deus sabe quanto me custa este sacrificio, porque o amo!

Mas não devo ser egoista e trocar sua felicidade por um amor desgraçado.

Esqueça-me.

C.»

Essa assignatura era a mesma lettra que marcava o seu lenço, e á qual eu desde a vespera pedia debalde seu nome!

Reli não sei quantas vezes esta carta, e, apezar da delicadeza de sentimento que parecia ter dictado suas palavras, o que para mim tornava-se bem claro é que ella continuava á fugir-me.

Fosse qual fosse esse motivo que ella chamava uma fatalidade, e que eu suppunha ser apenas escrupulo, sinão uma zombaria, o melhor era aceitar o seu conselho e fazer por esquecel-a.

Reflecti então seriamente sobre a extravagancia da minha paixão, e assentei que com effeito precisava tomar uma resolução decidida.

Não era possivel que continuasse á correr atrás de um fantasma que esvaecia-se quando ia tocal-o.

Aos grandes males os grandes remedios, como diz Hippocrates. Resolvi fazer uma viagem.

Mandei sellar o meu cavallo, metti alguma roupa em um sacco de viagem, embrulhei-me no meu capote e sahi, sem me importar com a manhã de chuva que fazia.

Não sabia para onde iria. O meu cavallo levou-me para o Engenho-Velho, e eu d'ahi encaminhei-me para a Tijuca, onde cheguei ao meio-dia, todo molhado e fatigado pelos máos caminhos.

Si algum dia se apaixonar, minha prima, aconselho-lhe as viagens como um remedio soberano e talvez o unico efficaz.

Deram-me um excellente almoço no hotel; fumei um charuto, e dormi doze horas, sem ter um sonho, sem mudar de lugar.

Quando accordei, o dia despontava sobre as montanhas da Tijuca.

Uma bella manhã, fresca e rociada das gottas do orvalho, desdobrava o seu manto de azul por entre a cerração, que se desvanecia aos raios do sol.

O aspecto d'esta natureza quasi virgem, esse céo brilhante, essa luz esplendida cahindo em cascatas de ouro sobre as encostas dos rochedos, serenou-me completamente o espirito.

Fiquei alegre, o que ha muito tempo não me succedia.

O meu hospede, um Inglez franco e cavalheiro, convidou-me para acompanhal-o á caça; gastámos todo o dia á correr atrás de duas ou tres marrecas e á bater as margens da Restinga.

Assim passei nove dias na Tijuca, vivendo uma vida estupida quanto póde ser; dormindo, caçando e jogando o bilhar.

Na tarde do decimo dia, quando já me suppunha perfeitamente curado e estava contemplando o sol, que se escondia por detrás dos montes, e a lua, que derramava no espaço a sua luz doce e assetinada, fiquei triste de repente.

Não sei que caminho tomáram as minhas idéas; o caso é que d'ahi á pouco descia a cerra no meu cavallo, lamentando esses nove dias, que talvez tivessem feito perder para sempre a minha desconhecida.

Accusava-me de infidelidade, de traição; a minha fatuidade dizia-me que eu devia ao menos ter-lhe dado o prazer de ver-me.

Que importava que ella me ordenasse que a esquecesse? Não me tinha confessado que me amava, e não devia eu resistir e vencer essa fatalidade, contra a qual ella, fraca mulher, não podia lutar?

Tinha vergonha de mim mesmo; achava-me egoista, cobarde, irreflectido, e revoltava-me contra tudo, contra o meu cavallo, que me levára á Tijuca, e o meu hospede, cuja amabilidade alli me havia demorado.

Com esta disposição de espirito cheguei á cidade, mudei de trajo, e ia sahir, quando o meu moleque deu-me uma carta.

Era d'ella.

Causou-me uma sorpresa misturada de alegria e de remorso:

«Meu amigo.

Sinto-me com coragem de sacrificar o meu amor á sua felicidade; mas ao menos deixe-me o consolo de amal-o.

Ha dous dias que espero debalde vêl-o passar, e acompanhal-o de longe com um olhar! Não me queixo; não sabe nem deve saber em que ponto de seu caminho o som de seus passos faz palpitar um coração amigo.

Parto hoje para Petropolis, d'onde voltarei breve; não lhe peço que me acompanhe, porque devo ser-lhe sempre uma desconhecida, uma sombra escura que passou um dia pelos sonhos dourados de sua vida.

Entretanto, eu desejava vêl-o ainda uma vez, apertar a sua mão e dizer-lhe adeus para sempre.

C.»

A carta tinha a data de 3; nós estavamos a 10; havia oito dias que ella partira para Petropolis e que me esperava.

No dia seguinte embarquei na Prainha e fiz essa viagem da bahia, tão pittoresca, tão agradavel, e ainda tão pouco apreciada.

Mas então a magestade d'essas montanhas de granito, a poesia d'esse vasto seio de mar, sempre alisado como um espelho, os grupos de ilhotas graciosas que bordam a bahia, nada d'isto me preoccupava.

Só tinha uma idéa--chegar; e o vapor caminhava menos rapido do que meu pensamento.

Durante a viagem pensava n'essa circumstancia que a sua carta me revelára, e fazia-me por lembrar de todas as ruas por onde costumava passar, para ver si adivinhava aquella onde ella morava, e d'onde todos os dias me via sem que eu suspeitasse.

Para um homem como eu, que andava todo o dia desde a manhã até a noite, á ponto de merecer que a senhora, minha prima, me appellidasse de Judêo Errante, este trabalho era improficuo.

Quando cheguei á Petropolis eram cinco horas da tarde; estava quasi noite.

Entrei n'esse hotel suisso, ao qual nunca mais voltei, e emquanto me serviam um magro jantar, que era o meu almoço, tomei informações.

--Têm subido estes dias muitas familias? perguntei ao criado.

--Não, senhor.

--Mas ha cousa de oito dias não vieram da cidade duas senhoras?

--Não estou certo.

--Pois indague, que preciso saber e já; isto o ajudará á obter informações.

A physionomia sizuda do criado expandio-se ao tinir da moeda, e a lingua adquiriu a sua elasticidade natural.

--Talvez o senhor queira fallar de uma senhora já idosa que veio acompanhada de sua filha.

--É isso mesmo.

--A moça parece doente; nunca a vejo sahir.

--Onde está morando?

--Aqui perto, na rua de...

--Não conheço as ruas de Petropolis; o melhor é acompanhar-me e vir mostrar-me a casa.

--Sim, senhor.

O criado seguio-me, e tomámos por uma das ruas agrestes da cidade allemã.

IV

A noite estava escura.

Era uma d'essas noites de Petropolis, envoltas de nevoeiro e cerração.

Caminhavamos mais pelo tacto do que pela vista, difficilmente distinguiamos os objectos á uma pequena distancia; e muitas vezes, quando o meu guia se apressava, o seu vulto perdia-se nas trevas.