Cidades e Paisagens

Chapter 5

Chapter 51,420 wordsPublic domain

Perdôem-me os expertos se n'isto vai grande barbaridade, mas em tempos de suffragio universal é permittido ouvir-se a voz do vulgo. De resto, questão incidente; prosigamos. Ausencia de grandeza e abuso do adorno não são qualidades de gente guerreira, e por isso comprehendo Carlos V mandando arrasar parte da Alhambra e construindo no seu logar um palacio da mais bella renascença; foi ingenuamente o homem da sua raça. Quem dos jardins do Generalife vir os telhados da Alhambra, baixos como cabanas ao lado do palacio sumptuoso e altivo, comprehenderá porque razão _isto_ venceu _aquillo_. Estão alli duas architecturas e duas almas.

Lamentamos e com razão que se houvessem destruido tão boas fontes de saber. Penetrar o espirito alheio, abranger na extensão do nosso pensamento a vida de toda a terra e de todo o universo, se possivel, é para nós um tão grande prazer como a contemplação de quanto nos deleita a vista: e n'este sentido são justas as lamentações de todo o monumento perdido. Mas não é menos justa a sympathia pela expansão forte, viril e inconsciente dos instinctos de uma raça, ainda não pervertida pela largueza intellectual que conduz ao scepticismo, pondo o _cant_ no logar da admiração sincera: e então os actos barbaros como o de Carlos V têm seus laivos de grandeza.

E todavia quem falla d'esta fórma da arte arabe ainda hontem poderia ser surprehendido em flagrante delicto de admiração diante da entrada de um casino de Sevilha. Que singeleza! Um vestibulo rectangular, ladrilhado de marmore, as paredes com uma cercadura de um metro de azulejo e depois gobelinos até ao tecto de madeira, apainelado; ao centro tres arcos sobre quatro columnas de marmore branco dando entrada para o pateo, quadrado, com uma ornamentação semelhante á do vestibulo. Não ha n'isto grandes reminiscencias dos mouros? Ha, decerto; toda a differença consiste não em desconhecermos a belleza da sua arte mas em a tornarmos como subordinada a uma concepção mais alta. De fim ultimo e principal, os seus mais bellos elementos transformam-se ás nossas mãos em accidente e complemento.

É tempo de passarmos á formosa Andaluzia, formosa nas suas mulheres, no pittoresco dos costumes, retardatarios da desnacionalisação, porque a formosura dos seus campos soffre grandes reservas.

Pelos montes e outeiros predominam os olivaes, e a palmeira (_chamærops humilis_), as agaves, o esparto, a giesta, e as lavouras de trigo preenchem os intervallos; as terras baixas são mimosas, onde têm agua, mas com esta indecifravel confusão de plantas dos terrenos bem cultivados, perdem toda a fôrça e caracter como paizagem. Para esta ficam só as terras altas e que pouco dizem porque as oliveiras estão muito distantes entre si e as outras plantas muito dispersas para darem qualquer fórma ou colorido definido. Ainda assim, onde o olival é basto accentua-se certo caracter de calor e suavidade; a folha da oliveira, leve de colorido e pouco brilhante, semelhando cobre velho oxydado, desenrola sobre a terra um tapete que se sente profundo e leve, sem a dureza polida e fria das vastas superficies luzentes. Caracter que as restantes plantas partilham: o brilho é proprio das plantas viçosas e aqui não as ha, têm falta d'agua. A propria palmeira é bem differente d'aquillo que parece nos nossos jardins, mais coriacea, não se expande nesse viço que é uma phase brilhante de estiolamento.

E todavia não faltará quem se extasie diante do Guadalquivir e do Genil em que se reflecte a alvura da Serra Nevada. Se me não illudo, é o caso tão frequente da confuzão do bem-estar physico com a belleza da paizagem. Para os que vêm dos montes abrazados, o valle humido e tepido dá uma sensação balsamica que nos induz a chamar bello a quanto nos rodeia. Esta sensação associada á cubiça de riquezas, foi talvez uma das grandes forças da conquista arabe; por aquellas veigas sorria um prazer que para lá do mar era bem raro e o mouro vinha buscal-o, impetuoso, como uma onda negra espumando sangue.

N'estes climas tão ricos, a vegetação vai desde o trigo até á vinha, a oliveira, a laranjeira e a tamara; nos poucos metros d'um jardim percorrem-se quasi completamente as zonas de todo o mundo.

D'aqui a belleza da gente, creada na abundancia, com os frios moderados que avigoram, sem a molleza lymphatica dos calores excessivos. O clima tudo lhes deu: uma alimentação variada, abundante e sã, e as alternativas e graduações de temperatura convenientes para dar ao corpo plena expansão de vigor.

Vigor indomavel, latejante e transparente: a belleza das raparigas do norte palpita apenas; na andaluza, os olhos e os cabellos negros, a pelle mimosa e branca, têm relampagos de sensualidade.

Mas a mocidade é breve, segue-se uma vida mais sedentaria, e quando na casa a mesa é farta e a doença e o trabalho não castigam, um corpo tão são tem comsigo um inimigo invencivel da belleza--a obesidade. É ahi que vai naufragar o melhor da formosura da Andaluzia; nas ruas, nos passeios e nos caminhos de ferro encontra-se esta phylloxera em todos os estados, desde a mulher de trinta annos de uma redondeza acabada, até á sexagenaria informe.

Mudou a physionomia mas o caracter é sempre o mesmo, é em toda a idade a desenvoltura de que já em Marselha tivemos prenuncios. Dar exercicio aos musculos, palrando com grandes gestos, saracoteando-se e cantando, constitue a primeira necessidade d'esta gente. É sabido como os hespanhoes adoram a rua e os cafés. Pois não é porque bebam muito; o que precisam é fallar e agitar-se, ruido e movimento.

A mesma musica tem este caracter de agilidade; as depressões alternadas de andamento rapido e lento são manifestas como na musica italiana a predilecção pela cadencia prolongada. Parece que só a Allemanha tirou da musica a expressão d'uma paixão intima e moral; os outros povos contentam-se em reduzil-a á simples traducção do seu modo de ser sensual.

Para que tudo esteja d'harmonia--e esta harmonia é para mim o mais bello da Andaluzia--a habitação é tambem o que melhor se podia conformar com o clima. O pateo, com a fonte de marmore ao centro, rodeado por uma galeria em arcos ou sobre columnas é quasi geral nas casas da Andaluzia; adornado com plantas dá um canto de frescura para passar no verão as horas de calma, ao mesmo tempo que é um elemento de belleza. Não foi a Andaluzia que o inventou, é romano ou arabe, é talvez de todos os povos. Adoptal-o, porém, foi o grande impulso de bom-senso.

Porque não fizemos o mesmo em Lisboa, preferindo a imitação parisiense, tão pouco justificada? Porque não teremos o pateo alumiado, fresco e aceiado em logar da escada sombria, abafada e negra? Porque não fizemos uma avenida ladeada de casas peninsulares em logar d'um _boulevard_?

Descuidadamente, fui a fallar das coisas de casa. Pois não voltarei atraz. Recolho ao ninho, que já não é sem saudade.

Ao abeirar-me d'essa natureza que encerra o vidoeiro e a palmeira, com tanto amor bafejada da fertilidade e belleza, ao contacto d'essa alma tão nobre que na corrupção e na miseria tem ainda scintillações de heroismo, esmorece a sympathia pela gente que deixei para além dos Pyrenéos e dos Alpes.

A sua alegria é um sorriso frouxo na sombra tremula e fria do vidoeiro e do abeto, e a alegria da minha terra vai desde a alvorada de primavera rutilante e fresca até á gargalhada estridente e pagã, entre o perfume do louro e o vigor do pampano. A sua melancolia é o brando palpitar d'um crepusculo de outono, e a melancolia da minha terra é ardente e ampla, um clamor de bronze vibrado nas labaredas do estio.

Bem vindo seja pois esse ninho tecido de miserias e de grandeza!

INDICE

Pag.

Dedicatoria V

Advertencia VII

Modos de viajar 2

O Minho 4

O Douro 6

Entrada em Hespanha 7

Salamanca 9

Miranda do Ebro 12

Os Pyrenéos 13

Paris 14

Liège 23

Lavoura por cavallos 24

Campos de Liège 25

O Hanover 26

Prados e florestas 27

O snr. G. Saunders 28

Berlim 29

De Berlim a Varsovia; a alfandega russa 33

A paisagem da Polonia 34

Varsovia 36

A paizagem do norte da Russia 38

A aldeia da Russia 39

Moscow 40

Visita a Tolstoï 44

S. Petersburgo 53

A Finlandia 55

A paizagem 56

A Scandinavia 59

Copenhague 64

A industria moderna 67

O domingo em Paris 72

Seducções de Paris 73

Paizagem do Rhodano 75

Marselha 76

Caminho d'Argel 77

Argel 80

Paizagens 87

Os monumentos arabes 91

A Andaluzia 97

DO MESMO AUCTOR:

_Estudos sobre litteratura contemporanea_ 1 vol.

_O Snr. Oliveira Martins e o seu projecto de lei sobre o fomento rural_ Folh.

_A arte d'estudar_ (versão do inglez) 1 vol.

_A Democracia_ Folh.

End of Project Gutenberg's Cidades e Paisagens, by Jaime de Magalhães Lima