Cidades e Paisagens

Chapter 4

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Venho a concluir que das tres fontes de inspiração apontadas, a natureza vegetal, a tradição e a phantasia, só as duas primeiras nos levam por caminho seguro. A natureza vegetal não tem desharmonias; filhas do mesmo solo e do mesmo clima, creadas com o mesmo alimento, a mesma humidade e a mesma luz, as plantas têm a harmonia necessaria de productos dos mesmos factores. É isto que nos faz dizer bellas as flôres mais exoticas e extravagantes. Demais o homem recebe a educação natural d'esses mesmos elementos e goza com o que é lhes conforme, soffre com o que os contraría.

A tradição, perpetuando fórmas e combinações, demonstra _ipso facto_ a sua concordancia com a maneira intima de sentir de uma raça. D'outra fórma, desappareceriam como desapparece tudo o que é contrario ao seu caracter permanente, ainda que por qualquer motivo tivessem tido uma existencia mais ou menos duradoura.

Mas a novidade e a phantasia são perigosas, pois diz-nos a razão e a historia que o poder creador não é infinito, encerrado como está entre os limites objectivos, a constancia dos materiaes, e os limites subjectivos, a capacidade e a fórma de sentir de cada raça.

As artes exoticas, que são um dos muitos elementos que a sciencia e as descobertas modernas deram á phantasia, despertarão sempre curiosidade intellectual como revelações de civilisações estranhas, mas, passado este primeiro deslumbramento, não entrarão nos museus, deixando no adorno domestico só o que se conforma com as nossas concepções estheticas?

* * * * *

_Oran, 6 de Outubro._

Despedi-me de Paris com saudades, digo-o com franqueza, por muito incoherentes que pareçam estas sympathias com o que disse nas minhas cartas anteriores; saudades aggravadas pela tristeza da cidade no dia da partida, um domingo, quasi tão despovoado e silencioso como em Londres. Todo o mundo emigra e vai dispersar-se pelos arrabaldes.

É ainda um pequenino facto a notar a differença do domingo entre Paris e Stockolmo. Alli o domingo, na cidade, é animado, os passeios, os museus e os espectaculos apinhados de povo; a vida dos dias de trabalho não é tão absolutamente extenuante como em Paris e por isso não appareceu ainda a necessidade de tão pleno repouso; nos prazeres e no trabalho mantem-se a sabedoria da modestia, que nem carece de se esfalfar na conquista de riquezas, nem demanda requintes de gozo. E, como nas aldeias, o domingo é para a palestra e para vêr os amigos, que na verdade o corpo não se sente fatigado, só o espirito necessita de alimento e expansão.

Não continuemos n'este thema; já muito tenho dito do que em Paris me magôa. É tempo de dar razão das minhas saudades.

Disse que Paris carecia de vida moral, nem outra coisa podia succeder a uma terra que, entre muitas outras causas d'esse estado, tem uma alluvião de estrangeiros em busca de prazeres, incessantemente renovada. Mas, se o homem não vive só de pão, não vive tambem só do coração e do amor divino; tem aspirações complexas e irreductiveis, e embora em sua consciencia reconheça certa ordem dominante, nem ignora a existencia das outras tendencias concorrentes nem, quando é sincero, nega o prazer de as sentir satisfeitas.

Vem isto a dizer que, independentemente da vida intima social ha uma outra vida social mais larga e menos profunda, que é uma necessidade e um prazer, e em que a sympathia rege o que na primeira é regulado pela amizade, e a urbanidade substitue a dedicação paciente. Ora a este genero de vida, cuja actividade sentimos todos os dias e, póde dizer-se, todas as horas, a este genero de vida Paris deu todo o encanto real e attingivel, com as suas formulas de polidez e com uma comprehensão instinctiva das pequeninas coisas que podem ferir ou magoar. Muito francez--diz-se como significando falta de sinceridade, e é possivel que um longo habito tornasse inconscientes actos e palavras que d'outro modo teriam valor moral; mas é incontestavel que embora essas formulas, esse modo de ser externo, não tenham valor moral positivo, não deixam por isso de ter reduzido ao minimo os espinhos e asperezas da convivencia; podem não ser virtude nem peccado, mas são em todo o caso uma arte com todos os prazeres de tal natureza. E, quando alguem os sente, abandona-os com a mesma tristeza com que os bons bebedores abandonam os bons vinhedos, onde por baixo preço sorvem com delicia todos os dias o precioso perfume a que mais querem.

Emquanto assim pensava, aproximavam-se as bocas do Rhodano, cuja paizagem me deixou indifferente. Os campos são largos, vastos, e por vezes viçosos e ferteis, e ao longe descobrem-se as ultimas ramificações dos Alpes, mas os montes estão excessivamente distantes para que possam entrar como valor importante, e a planicie, muito cultivada, tem uma variedade de vegetação e regularidade de plantações que destroe toda a harmonia natural. A paizagem carece pois de movimento.

Parecerá absurda esta expressão--movimento da paizagem--mas, observando e reflectindo, veremos que a repetição de uma mesma curva acompanhada da repetição simultanea dos mesmos tons de colorido e dos mesmos reflexos dá na realidade a impressão de uma determinada ondulação, um mesmo movimento, como acontece nas montanhas ou planicies povoadas de uma só especie vegetal, ou, pelo menos, de uma só especie dominante. Ora este effeito perde-se nas terras em que a cultura obriga á variedade.

Voltando ao Rhodano--não quero dizer que não tenha quadros encantadores, para o que lhe basta a abundancia de luz. São todavia limitados e sem relação entre si; são para a grande paizagem o mesmo que os innumeros quadros da vida domestica são para a grande pintura historica que condensa a epopêa d'um povo, lançando n'uma tela estreita seculos de vida.

Caminhemos. Adiante encontramos Marselha, e á paizagem vem juntar-se a cidade para nos lembrar a distancia a que estamos de Paris e um pouco tambem para nos avivar as saudades. Marselha é um prenuncio da Hespanha: reappareceu o penteado tão cuidado que não tornára a vêr desde Salamanca, os cabellos pretos e a desenvoltura. Esta gente é irrequieta, o que é uma coisa bem differente da vivacidade franceza. A vivacidade, para mim, é constituida por gestos e movimentos da physionomia, breves em intensidade e duração mas repetidos e revelando uma actividade de espirito simultanea e semelhante; a desenvoltura é prodiga de movimentos que nada dizem das suas relações psychologicas. A vivacidade, quando ri, scintilla de sympathia; a desenvoltura, rindo, é egoista se não encerra um sarcasmo. Os francezes são mais vivos, a gente de Marselha mais desenvolta, como os hespanhoes.

Estamos á beira-mar; mais vinte e quatro horas e bateremos ás portas do mundo arabe.

Pela manhã trovejou, e das bandas de Africa sopra um vento asphyxiante e morno.

A um canto do vapor uma criança ao collo repete com o olhar fixo de mysterioso scismar que as crianças têm ás vezes: Pa... pá, pa... pá... Ao lado, uma mulher nova e galante conversa com o capitão, brandamente, n'um tom meigo de saudade.

--Vamos, disse elle.

--_Bon voyage._

--_Au revoir._ E abraçaram-se, silenciosos, mudos, sem uma lagrima.

Ella seguiu pelo caes, voltou-se e olhou quando o vapor partia e perdeu-se no borborinho da rua, caminhando ao lado do filho, lenta, tranquillamente, o coração envolto na dôr, na esperança a na virtude.

Vi ainda uns vagalhões titanicos e cambaleando deixei-me rolar como um fardo no canto de um divan. Na ancia e na fraqueza semi-febril obscurecem-se os limites do sonho e do pensamento consciente.

Via o enterro d'um amigo; um enterro civil. A porta desconjuntada e carunchosa d'um quintalejo, n'um sitio ermo, veio uma carroça empoeirada de cal, puxada por um macho escuro, somnolento, orelha derrubada, uns arreios sujos, de pregos amarellos, resequidos e gretados do sol. O caixão appareceu sobre a carroça, não sei como, e sobre elle, o carroceiro, um soldado francez, de largas calças vermelhas e jaqueta azul, sentou-se, perna bamboleante, costas para o macho. Fallou-lhe e partiu. Ao lado da carroça pendia uma lanterna; no limiar da porta ficára uma mulher da Beira, morena, espadaúda e baixa, o cabello empastado na testa e as mãos cruzadas debaixo do avental.

--Não quer a lanterna accesa, tio Manoel?

--Não é preciso, a noite está clara.

E n'aquelle silencio sentiu-se só o estremecer da carroça sacudida no macadam da estrada á beira d'um juncal, caminho do cemiterio.

--_Monsieur, nous sommes à Alger_, disse alguem perto de mim.

Levantei-me e subi. Na noite escura, mais escuro ainda um grande panno negro, uma montanha semeada de luzes; e em baixo sob um rosario de bicos de gaz, pernas e faces negras e nuas entre gorros vermelhos e farrapos brancos enxovalhados--foi o meu despertar no mundo arabe.

Um sonho mau entre um quadro de amor domestico e um quadro de miseria--são todas as minhas impressões d'esse Mediterraneo azul, limpido, sereno, dissolução filtrada de anilina que em tempos que já la vão faria a delicia dos janotas e a fortuna das engommadeiras de Lisboa, vendido a retalho.

* * * * *

_Granada, 9 de Outubro._

Argel, vista de noite, nas sombras da luz escassa, dá-nos a impressão de uma grande miseria; mas, vindo a manhã, no movimento das ruas e dos mercados, essa miseria conver-te-se n'uma grande mascarada para os olhos surprehendidos do viajante europeu, pouco habituado ao contacto das civilisações mescladas e exoticas. Rimos d'essa confusão de arabes, de turcos, de francezes e marroquinos e rimos ainda mais do albornoz e do turbante; associados ao chapéo de sol e ás botas de elastico, vivendo em santa paz na mesma pessoa. Ao lado da franceza toda encalmada, de manga curta e collo descoberto, vêm as mulheres da terra, embiocadas em leves roupas brancas que a imaginação do nosso povo escolheria para trajo das almas do outro mundo; entre os mercadores de blusa azul, de pé, lestos em attender o freguez, como os vemos pelas nossas praças, está o arabe, sentado, de pernas cruzadas, indifferente e moroso, com um lento pestanejar de ruminante.

Rimos emquanto o pensamento não nos inicia em caminho differente; porque logo, reflectindo, entre o grotesco e o comico de associações disparates descobrimos o orgulho do vencedor, dominando imperioso e inflexivel, e, em baixo, a seus pés, a babugem de uma onda outr'ora forte e temerosa, agora fraca e quasi extincta, agitando-se semi-morta nas prisões de ferro em que a Europa a lançou. N'uma cidade, como Argel, em que passeiam hombro a hombro vencedor e vencido, a derrota é patente todo o dia como na hora do combate. Quando a Allemanha venceu a França, cada um recolheu ás suas terras e ahi recobrou altivez; mas Argel vencida foi tambem conquistada e o povo arrasta as algemas de uma escravidão mais ou menos real e mais ou menos consciente. Por aquellas ruas anda uma população que se agita e move, livre, risonha, altiva, calcando uma terra que lhe pertence, e rasteja tambem um denso rebanho que o pastor conduz, mas a que não falla senão para ordenar. N'uma hospedaria, um criado europeu manda vir o _arabe_ para acarretar as bagagens com a mesma entonação com que mandaria vir um jumento.

Respondem-me que essa gente vive livre e feliz, sómente sob as leis e regulamentos que foi necessario dar-lhes. Nem tanto mereciam.

Não derramarei lagrimas sob a sua sorte nem mesmo direi que seja má a sua condição material e que tivessem merecimentos para melhor. Apenas aponto um facto; é que no momento actual Argel nos da o espectaculo altamente interessante e instructivo do aviltamento moral de uma raça conquistada em frente dos seus senhores.

Uma outra coisa nos offerece Argel, não menos interessante. É um bairro arabe, quasi uma cidade, que o camartello europeu ainda não alcançou e em que os costumes, a gente, e as habitações indigenas são ainda de grande pureza.

Nada direi d'essas viellas ingremes em que as casas quasi se tocam de um ao outro lado, especie de fortalezas com uma pequenina porta e raras frestas nos muros. Tudo está minuciosamente descripto em muitos livros e, de resto, esses recintos são vedados aos simples viajantes. Deixaram-me uma pequena impressão--pequenez e frescura. Tudo me pareceu acanhado e pequenino, fresco e humido como os logares profundos onde o sol não penetra.

O arabe vem descendo até aos bairros europeus, e ahi abundam as lojas e officinas. Bordam, tecem, costuram, têm as suas cozinhas e cafés e tudo aquillo se assemelha tanto á nossa regularidade que naturalmente perguntamos como tende a aniquilar-se uma raça que chegou a organisar o trabalho, a arte, a familia, a religião, a politica, que creou uma civilisação, uma ordem social, funccionando e correspondendo na sua organisação á capacidade ethnica. Parece que um povo que chegou a este estado não deveria ser tão facilmente destruido e dominado dentro do seu proprio _habitat_.

Não soube defender-se--é a resposta que mais immediatamente encontramos no nosso espirito; se tivessem inventado os canhões de Krupp talvez os seus destinos fossem outros. E vamos a dar razão á Allemanha: Pois a primeira necessidade de um povo não é ser forte? Virtude, grandeza d'alma, um ideal, para que? Se não tem musculos sãos, armados d'aço e lançando fogo, esse povo será devorado pelos lobos sempre á espreita das ovelhas.

Mas lançados n'esta ordem de cogitações encontramos a Allemanha receiosa e timida diante do cossaco esfarrapado que vi nos acampamentos da Polonia. Já não vale a força; tudo ameaça dissolver-se n'essa infinita vastidão em que já um dia se perderam setecentos mil homens. «Vive em paz com a Russia», recommendára, diz-se, o velho Guilherme moribundo a Frederico, seu filho; no seu espirito fluctuava já o desanimo com que Napoleão voltou de Moscow ás margens do Niemen e antecipadamente se entregava a essa amizade obrigada.

E o espirito perde-se buscando em vão uma base de força duradoura, eterna, indestructivel! Não pensará assim o arabe, que tudo aceita sem espanto, como derivado da ordem logica e natural das coisas, se é que podemos aventurar-nos a penetrar tão intimamente no espirito de uma raça estranha. Duvido.

Muitas vezes na Argelia, pensando no arabe mysterioso, surgiu no meu espirito esta duvida. Podemos comprehender inteiramente a psychologia de uma raça estranha? Modos de vêr e de sentir differentes devem conduzir a differentes ordens de pensamento e, embora vejamos as suas conclusões externas e praticas, no modo de funccionar intimo poderá existir qualquer coisa mysteriosa que nos escapa. Comprehendemos claramente a psychologia da criança; não ha entre ella e nós senão graus de desenvolvimento e de actividade sendo iguaes a tendencia evolutiva e o modo de funccionar, tendencia e modos que devem variar de raça para raça. É verdade que o nosso espirito não concebe duas logicas, mas fóra d'esse estreito terreno commum que margem não fica para variantes incomprehensiveis? Pasmamos muitas vezes da logica excentrica de certos espiritos, da maneira por que n'elles se prendem e ligam as idéas, e este facto, combinado com uma reconhecida differença de base physica, não basta para nos levar a qualquer conclusão mas deixa no espirito certa desconfiança quanto a affirmações positivas sobre a psychologia das differentes raças.

Talvez que sobre o espirito arabe o juizo mais acertado seja o de uma senhora americana muito instruida com quem conversei largamente sobre essa gente. «Só gostava de saber o que elles pensam...»--«Creio que pensam muito pouco», respondeu-me.

É possivel que n'estas palavras se resuma toda a sua psychologia. Um clima ardente congestiona e opprime, como o frio entorpece; em qualquer caso ha uma paralysação de vida. A indifferença arabe não seria como a do russo uma conclusão final do cogitar sobre a inanidade de todas as previsões, seria uma abdicação por indolencia, seria a aceitação das coisas sobre o que o pensamento se nega a reflectir. Mata e morre friamente, n'um torpor de somnolencia invencivel. Sabe lavrar e conduzir os rebanhos na pastagem, caminha arrastadamente, e apto para o trabalho lento; não sabe cavar, repugna-lhe o trabalho activo e diligente.

Este mesmo clima que produziu uma raça avassallada pelo ardor do sol, movendo-se sob impulsos mysteriosos, creou a paizagem que deslumbra e cega os olhos do artista europeu educados na luz coada pelas nevoas do norte. Deu á sensualidade tudo o que ella podia exigir de mais intenso e vivo; e por isso se comprehende que a paizagem da Argelia tenha na pintura um culto reservado e distincto. Para a poder sentir é necessario ter olhos insaciavelmente cubiçosos e nem todos attingem tamanho vigor de Sensualidade visual. Para os que ficam áquem, esses prazeres perdem-se despercebidos, quando não repugnam, ferindo e maguando. Uma luz abundantissima n'uma atmosphera sêcca; e todas as impressões virão aos nossos olhos nitidas, precisas, distinctas, vibrando rijamente, soltas e desvendadas da humidade attenuante que modera, corrige e confunde, mostrando-nos toda a natureza através d'uma atmosphera transparente sim, mas uniformemente colorida.

A atmosphera tem portanto côr? Pela primeira vez surgiu no meu espirito este pensamento quando em Copenhague encontrei na exposição pinturas japonezas em sêda, esboços grosseiros de paizagens sobre um fundo sem nuvens, unicolor. E todavia transmittiam-me a impressão de uma paizagem por muito que me repugnasse crêr na realidade do céo e do ar amarello ou verde. Parece que da terra e do céo, de todos os reflexos fundidos resulta um prisma distincto para cada paizagem, através do qual a vemos e conhecemos.

Talvez resultado d'este scismar, uma noite, em Argel,--ainda outro sonho!--vi essa terra como as ruinas do Coliseu de Roma. Era uma enorme bacia formada de montanhas escalvadas, de uma argilla vermelha que descia em degraus até ao fundo e sobre a terra, immoveis, equidistantes, os albornós brancos dos arabes; um espaço vermelho e cavado, maculado de pontos brancos. Assim toda a paizagem da Argelia estaria envolvida n'essa atmosphera vermelha.

Não contradiz este sonho o que acima disse relativamente á intensidade de impressão resultante da seccura atmospherica. Uma coisa é o colorido ligeiro que provém da fusão dos reflexos ambientes, outra a decomposição da paizagem através da nevoa mais ou menos densa; essa attenua e confunde profundamente, a outra dá apenas um ligeiro colorido sem prejudicar a predominancia das impressões primitivas; uma sente-se principalmente nos espaços vazios, a outra actua com igual força sobre toda a natureza terrestre.

A paizagem da Argelia, pois, com a sua atmosphera propria, como as demais paizagens, e a sensualidade requintada da riqueza e intensidade de impressões visuaes que resultam da seccura do ar associada á abundancia de luz. Explica-se d'esta fórma como nos quadros dos pintores que têm estudado essas regiões apparecem com tão grande frequencia as montanhas, as ruinas e o mar; são aquelles elementos em que este caracter de nitidez, de transparencia e de variedade consequente apparece mais distinctamente.

Para nós, porém, a paizagem da Argelia não tem o valor que lhe dá a gente do norte. Estes crepusculos em braza que se prolongam n'um esmorecer lento, a luz que á tarde doura o arvoredo, como com tanta saudade a vi nas mattas de pinheiros de Alepo, em Orleansville, nada d'isso é novo para nós com quem a natureza foi tão prodiga.

* * * * *

_Sevilha, 13 de Outubro._

Duas coisas bem differentes temos que vêr no sul da Hespanha, os monumentos arabes e a Andaluzia, os vestigios d'uma raça e d'uma civilisação extinctas n'esta parte do mundo e os povos e a civilisação agora existentes na mesma região. Ambas igualmente interessantes; a primeira porque encerra documentos de primeira ordem no seu genero, e a segunda pela importancia de todo o elemento activo contemporaneo.

Nem a Alhambra nem a mesquita de Cordova nem o alcaçar de Sevilha destruiram a impressão que a Argelia me tinha deixado da arte arabe; antes confirmaram o que ahi tinha pensado e que em certo modo se relaciona com o que em Moscow julguei de todo o Oriente. Aqui tambem como alli, encontrei uma concepção esthetica que não é da nossa raça e não se conforma com o nosso modo de sentir. N'este ponto as duas impressões são identicas. Differem porém: emquanto no moscovita domina a imaginação insaciavel, um enredar infindo, parecendo que o seu pensamento não consegue definir-se em certa ordem de linhas geraes, o arabe alcançou esse ultimo estado, definiu o seu conceito em fórmas precisas e determinadas. Depois de termos visitado os monumentos arabes, por longo tempo nos ficam diante dos olhos certas proporções e direi mesmo certos angulos, embora tenha a certeza de que os seus angulos variam de grandeza em numero infinito. Ha manifestamente uma tendencia, um movimento n'uma direcção fixa.

D'esse conceito, d'essa visão ultima e final, producto de series de impressões successivas, resultam para mim duas idéas--a ausencia de grandeza e a preferencia do adorno sobre a estructura.

Sobre esta creio não haver duvida. _Dentelle_--foi a palavra que mais vezes ouvi do guarda da Alhambra que me acompanhava; rendas são na verdade todos esses minusculos trabalhos em gesso de que os seus muros estão cobertos. Para lhes dar todo o relevo estenderam-se sobre o ouro e as côres mais vivas, um azul intenso e um vermelho rutilante, e não se pouparam as perspectivas que os projectassem sobre a grandeza do espaço e da luz; e, depois de os ter despendido com uma prodigalidade infatigavel, cobriram-se os intervallos que restavam com azulejos e couros de Cordova, rendas ainda, posto que d'outra materia. Não se levantaram palacios, atapetaram-se alcovas de sultana.

É de crer que me neguem a falta de grandeza nos monumentos arabes, adduzindo como primeira prova de contestação a mesquita de Cordova. Ao que responderei que é d'esse mesmo documento que pretendo tirar a melhor prova do meu pensamento.

Quando lá entrei, lembrou-me um pomar de macieiras frondosas e bem alinhadas, d'esses que os brazileiros da minha terra têm alli pela Villa da Feira. Li depois que Theophilo Gautier a comparára a uma floresta, mas as florestas bracejam á vontade, erguem-se ao sol e desconhecem a linha recta, errando gigantes por onde a luz e a terra mysteriosamente as conduzem. Transcrevo as proporções d'esse edificio e o leitor dirá se n'ellas cabe grandeza.

Supprimamos a capella-mór e vejamos só as proporções da mesquita no seu estado primitivo. Um quadrilatero, cento e sessenta e sete metros de comprimento, cento e dezenove de largura, dez d'altura; dezenove naves n'uma direcção e trinta e seis na outra, arcos mouriscos assentes em columnas de cerca de tres metros. É facil de imaginar o aspecto de tanta galeria tão baixa, tão estreita e tão longa.

A isto chamou-se grandeza, sendo aliás a sua negação. A grandeza está nas proporções d'um só conceito, e o arabe, não podendo alcançal-a, vingou-se na extensão, repetindo n'um vasto campo o mesmo conceito. Incapacidade de espirito ou consequencia de um mau ponto de partida? Foi o espirito arabe que carecia de grandeza ou a grandeza era incompativel com a fórma d'arco que adoptára e que mais amava? E questão que por certo os homens do officio terão resolvido ha muito, e elles saberão dizer-nos se com o arco arabe poderemos ir muito longe; para os meus olhos desprevenidos e ignorantissimos aquelle arco parece concluir sempre o edificio, tornando impossivel uma sobreposição equilibrada apparentemente, já se vê, porque quanto á realidade não ha duvida.