Chapter 3
Em torno d'este nome fez-se uma verdadeira lenda que representa o conde como um louco, fazendo sapatos e lavrando as terras. E na verdade tem não sei que de singular e de poetico a sua vida.
Um dia, um conde d'esse dourado imperio dos czars vestiu-se de _moujik_, e mais do que simplesmente, pobremente, foi esconder-se na sua aldeia e começou a ceifar o trigo, semear o grão e construir a cabana. Tinha tudo o que a vaidade ambiciona, uma fortuna immensa, um nome illustre, uma mulher formosa e, sob traços grosseiros, uma rudeza viril alliada ao encanto d'um olhar limpido em que brilhava a doçura que lhe vinha da alma. Sobre tantos dons da natureza e da fortuna tinha ainda um prodigioso talento de artista. Nada lhe faltava para conquistar a lisonja e a veneração do seu tempo, e esse homem, que podia ter uma côrte de admiradores e thuriferarios, tudo deixou pelo trabalho da terra e pela companhia do aldeão, que ha pouco ainda era seu escravo.
O mundo viu com espanto tamanha abnegação, sorriu e, sem ousar dizel-o, chamou-lhe loucura. Não o é; mas uma tal energia em conformar o sentimento e a acção surprehende n'uma época em que a simplicidade, a modestia, a religião e o christianismo, são essencias preciosas para uso verbal e devaneios litterarios apenas. E todavia o proceder de Tolstoï está ainda muito longe do ascetismo de outras eras em que princezas e fidalgos abandonaram familia, os palacios e o luxo, trocaram todos os prazeres, os prazeres santos e os prazeres impuros, pelo extasi divino e pela solidão do claustro.
Vejamos brevemente que idéas e sentimentos levaram o conde ao novo claustro em que se encerrou.
Dizia-me: Não conheço nações, ha homens apenas; e a sua lei divina e christã é a fraternidade. Por ahi devemos regular as nossas acções e aferir o seu valor.
Respondi-lhe que não me parecia que o espirito nacional fosse incompativel com a fraternidade. Tomemos um exemplo, a protecção industrial aduaneira, uma consequencia do nacionalismo. Destroe a fraternidade? Não; pelo contrario, realisa praticamente uma equitativa distribuição de riqueza entre os differentes povos e, se não, lembremo-nos dos effeitos da liberdade commercial que seria manifestamente a miseria para uns e a opulencia para outros. Concedendo que dos motivos concorrentes na actividade humana, os motivos de ordem moral devem governar os da ordem natural ou physica, temos que a fraternidade, o amor, ou como melhor deva dizer-se, carecem de dar aos ultimos a satisfação devida para completa realisação dos primeiros. E assim é necessario que para os povos haja nações, como para cada familia uma casa.
Erro! replíca Tolstoï. Para lançar uma pedra sobre determinado ponto carecemos de apontar mais longe, e assim tambem, para vivermos segundo o christianismo, precisamos não contar com os motivos de ordem natural. Elles se manifestarão espontaneamente; pensar n'elles é mal empregar a razão que deve guardar-se para as coisas superiores.
Singular raciocinio, direi eu, que não quer contar com um elemento cuja existencia reconhece! Por este caminho vamos ao nihilismo, e Tolstoï era perfeitamente logico quando acrescentava: Para que servem os governos? Se ámanhã Moscow e Petersburgo desabassem, que importava a esta aldeia? Seria inteira e completamente o que hoje é. E contava-me, como esclarecimento e demonstração, que da Russia emigram familias inteiras, e na simples carroça que leva todos os seus bens vão muito longe, á Siberia e quasi á China, fazer as colheitas. Com o producto d'esse trabalho levantam a casa, estabelecem uma lavoura n'esses desertos incultos e são felizes até que o governo os descobre para lhes pedir impostos e os filhos para o exercito.
Nova illusão, a meu vêr. Para que esta especie de nihilismo seja possivel são precisas duas condições, terra em extensão superior ao pedido e a simplicidade de costumes do _moujik_. Desde o momento em que a terra necessite partilha, ahi temos inevitavelmente um principio de governo; e desde que a vida se complique, igualmente apparece a necessidade de uma actividade collectiva, uma força que mantenha a ordem, e preste os serviços communs. Ora pelo que respeita á terra todos sabemos se ella abunda, e pelo que respeita á simplicidade de vida a historia e a observação dos instinctos naturaes são sufficientemente claros. O desenvolvimento e complexidade da civilisação demonstram historicamente uma tendencia irreprimivel e, se esta prova não existisse, bastava attender aos appetites e desejos dos mais simples, para descobrirmos um inicio de evolução para a complexidade. Na choupana do _moujik_ vamos encontrar um mealheiro e estampas coloridas a adornarem as paredes; entre essa choupana e a galeria de quadros do capitalista a relação é manifesta, uma contém o germen da outra.
De fórma que essa simplicidade, individualmente possivel, é collectivamente impossivel. O que não importa a negação de uma vida mais simples do que a actual, como fim ultimo da civilisação; o balanço dos prazeres e penas da plena expansão natural, combinado com os sentimentos piedosos e aspirações christãs, conduzem a uma reducção reflectida das nossas necessidades, mas entre esta e o estado primitivo ha uma enorme differença que devemos vêr e pesar; e, sendo a simplicidade consciente um producto superior da civilisação, seria erro esperal-a do vulgo que para a attingir carece de ser educado. D'este ultimo facto a necessidade de governo e instituições educativas, que não serão portanto um mal e uma desobediencia á doutrina christã, mas sim a condição da sua realisação pratica.
Como é de uso n'esta especie de palestra viemos de parte a parte a um interrogatorio sobre o estado social de Portugal e da Russia. Repeti o que disse na minha ultima carta, que a religião me parecia a maior força do moscovita.
É e não é religioso, respondeu-me o conde. Entre Gogol e Beliensky levantou-se um dia essa questão e estou em dizer que ambos tinham razão. Se julga pelo numero das igrejas e pela sua concorrencia, dir-lhe-hei que o russo não é religioso; isso é um habito, como o alcool ou o chá, sem maior significação psychologica. Mas acontece que, differentemente do que succedeu com a Igreja romana, traduzimos o evangelho ha novecentos annos e as suas maximas divulgaram-se no povo em que ainda agora actuam energicamente. Por este lado a Russia é um paiz religioso.
Se me é dado acrescentar alguma coisa, direi que o é ainda por outro lado, o fundo fatalista, Deus, Acaso, Providencia, negação da previdencia e reconhecimento de uma vontade superior incognoscivel. O proprio conde Tolstoï representa esta feição. Mostra-a nas suas obras e conversando commigo sobre as fórmas futuras da propriedade, disse singelamente:--Quem póde prever o que acontecerá d'aqui a vinte annos?
Ao vêr o enthusiasmo com que Tolstoï me mostrava a aldeia e as habitações do _moujik_, ouvindo fallar dos campos e das seáras, fazendo a apologia ardente do trabalho braçal como tonico indispensavel para o corpo e para o espirito, comparando os actos e as palavras, pareceu-me que os grandes sentimentos que determinaram o seu modo de viver tão anormal, foram o amor da terra e a humildade christã. Conhecendo profundamente toda a sociedade e a alma humana, só ahi encontrou paz e satisfação á sua consciencia, e por isso envergou o habito e professou n'essa nova religião.
Quizera reproduzir todo o longo discurso de Tolstoï, mas a memoria nunca me ajuda e muito menos n'este momento, em que a successão e diversidade de materias a contrariam. Ficou-me porém esta impressão--que o pensamento vôa mais alto em duas horas de palestra com um homem de genio do que em dois annos de meditação solitaria.
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_Copenhague, 26 de Setembro._
Deixamos em Moscow uma cidade, producto espontaneo, e portanto caracteristico, do genio d'um povo em cujo sangue se amalgamam differentes raças, e em S. Petersburgo vamos encontrar a capital d'um grande imperio consciente da sua grandeza; a primeira é uma construcção historica, a segunda a revelação do pensamento e dos sonhos d'um imperador. A igreja da Assumpção, no Kremlim, na sua pequenez, com a profusão dos seus adornos e do seu ouro, é gigante como documento da concepção artistica do moscovita; Santo Isac, de Petersburgo, com os seus monolithos de vinte metros de altura, singela, sobria e grande, foi traçada por um francez e, se demonstra alguma coisa, é a victoria da architectura greco-romana em todo o mundo civilisado. Aquella infinita variedade de fórmas e de linhas em que se fundiam ou baralhavam a China, a Persia, o Oriente e a Italia, perdeu-se nas margens do Neva, entregues á imitação do occidente; e emquanto Moscow parece ter sahido da terra como o desenvolvimento natural e facil dos germens que continha, S. Petersburgo mostra uma vontade, um esforço de adaptação a habitos, costumes e fórmas estranhas, reflectidamente julgados melhores. É uma cidade afrancezada, como de resto o são todas as cidades modernas.
Ha muito passou ao dominio da banalidade extasiar-se a gente perante a vastidão de Petersburgo; mas essa vastidão é unica no mundo, e por isso não importa repetir o facto, porque vêl-a será sempre uma impressão surprehendente. Entre o Neva abundante e profundo a espraiar-se n'um amor barbaro, insaciavel de terra, ao fundo d'essas planicies infindas povoadas de florestas e aldeias, para encerrar a corôa que liga as neves do Himalaya ás neves do Baltico era necessaria uma cidade, cuja vastidão eclipsasse todas as capitaes do mundo. Ruas, igrejas, palacios, pontes e caes, tudo é d'uma largueza unica.
Todavia, através d'essa grandeza, que é porventura espontanea, e através da imitação do occidente, que é manifestamente pensada e deliberada, transparece certo sabor do torrão, qualquer coisa de barbaro. Muitas vezes o pensei ao atravessar a perspectiva Nevsky. No _isvochik_ ligeiro e rapido, o cavallo ligado por uma especie de bridão (_pavotkin_) ao arco (_duga_) que liga os varaes, o cocheiro envolvido n'um amplo _caftan_, curvado para a frente, braços abertos, cada uma das guias em sua mão, vai levado como o vento ao trote solto dos seus formosissimos animaes, A rua é um hippodromo de barbaros, no trenó o quadro será completo; a carruagem não é ainda uma commodidade, é um meio de andar rapidamente. N'essa vastidão da Russia é preciso voar para não morrer antes de chegar ao ponto de destino.
De repente, no breve espaço de uma noite, que contraste! Para atravessar o Baltico vim embarcar em Helsingfords, capital da Finlandia; do ruido e da vastidão cahi na estreiteza e no silencio. Ou seja porque não chegou até aqui o sangue oriental ou sómente porque as condições da terra e do clima são outras, o finio é absolutamente differente do moscovita e mais se aproxima dos seus irmãos do outro lado do mar do que d'aquelles a que está sujeito. É possivel qne a constituição e quasi independencia da Finlandia proviesse simultaneamente de circumstancias historicas e do reconhecimento de insuperaveis difficuldades na russificação d'este reino.
Descendo o golfo, viemos a Abo, ainda na Finlandia, e d'ahi a Stockolmo. Com excepção de poucas horas, navegamos sempre por meio de ilhas de uma deliciosa belleza. Bem povoadas de abetos e vidoeiros, não muito elevadas mas com as inclinações abruptas, que só a firmeza das rochas graniticas permitte, aqui e além cabanas de pescadores, raros animaes na pastagem, e sempre um mar tranquillo em volta, essas bahias e ilhas têm uma paizagem rica de sensações e aspectos.
Além, na planicie, o vidoeiro absorvia os abetos, aqui na collina e na montanha separaram-se, e cada um apparece com as suas fórmas. São paizagens d'um genero que geralmente se aprecia e, a meu vêr, por esta razão são as que encerram maior riqueza. Emquanto a planicie nos dá a maxima repetição na minima e constante variedade, uma successão de manchas repetindo-se innumeras vezes mas variando constantemente na successão (como demonstração offerecerei o effeito das pinturas japonezas em sêda), na montanha temos toda a belleza linear possivel na paizagem, resultante da nitidez de traços com que se desenha no espaço e do isolamento que no arvoredo provém da disposição. Belleza a que o mar e os lagos dão maior relevo ainda, porque introduzindo novos tons e novas côres ao mesmo tempo destacam, emmolduram, dão luz. É o que n'essas ilhas acontece.
Não lhes chamarei marinhas, porque o mar aqui é accidental ou pelos menos não tem maior valor do que os outros elementos constituintes. Esse nome reservo eu aos quadros que nos mostram o mar em toda a sua immensidade, tendo para mim que o prazer que em nós despertam provém não tanto da côr ou da fórma, que é nulla, como de uma sensação de grandeza de espaço e intensidade de luz. E se me perguntam porque razão sobre esse espaço põe tamanha belleza uma nuvem, uma vela, um ponto negro que seja, responderei que é um effeito de contraste para dar relevo ao elemento capital. Na escóla hollandeza encontraremos maravilhosos quadros n'este genero: grandes barcos no primeiro plano, uma torre ou um mastro no extremo horisonte, o mar, o céo e nada mais; e os olhos naturalmente fixam-se no espaço que medeia entre o primeiro plano e o horisonte contemplando a sua vastidão, cheia de luz.
A riqueza da paizagem nas ilhas e costas da Finlandia e da Suecia não póde porém comparar-se com a riqueza das paizagens similares do occidente; a vegetação é comparativamente pobre de vigor e de variedade, e a luz é frouxa. Ás horas do poente, em vão procurei a onda trespassada de esmeralda das minhas praias; apenas um collar de perolas desbotadas sobre o dorso negro da vaga.
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_Paris, 29 de Setembro._
«Com o seu sólo e o seu clima, a Scandinavia não póde ter senão uma vegetação pobre e uniforme.»
Nos breves dias que passei em Stockolmo muitas vezes me lembraram estas palavras do meu _Boedeker_; pois não é só a vegetação mas toda a vida da Scandinavia que deriva das condições do seu sólo e do seu clima. Nem conheço paiz em que a natureza physica tenha mais clara influencia na determinação do caracter do povo.
_Epiphania_ não é a creação da phantasia de um poeta. O «sangue côr de rosa», a «cinza que lhe inunda os hombros» quando pelos seus cabellos passa uma briza, os olhos «puros de sombra e de desejos» que «nunca sorriram e nunca choraram», esse typo de candidez impassivel coube em sorte a Scandinavia; todos os seus povos tiveram quinhão no thesouro, embora a partilha fosse individualmente desigual como é regra em taes casos. E só uma terra pobre e um clima frio podiam dar-lh'o; um sangue mais rubro e uma circulação mais activa prejudical-o-hiam inteiramente.
D'ahi vem todas as suas qualidades moraes, a doçura, a serenidade, o bom-senso, que constituem o caracter scandinavo e são a base da felicidade d'aquelles povos. A debilidade physica parou n'um justo equilibrio da actividade sem descer tão baixo que chegasse á inacção e ao idiotismo; são felizes porque são fracos. Transportem-no a um clima ardente, dêem-lhe uma alimentação abundante e toda a excitação do calor e da luz, e o homem apparecerá apaixonado, cruel e febril. A vida será torrencial, sempre em correntes espumosas, edificando e destruindo, revolvendo e cavando a terra e a alma até ás suas mais intimas profundezas, heroica na natureza e no homem.
Essas torrentes nunca passaram nos valles estreitos e frios da Scandinavia. Os olhos flammejantes de um gaiato de Napoles e a meiguice timida de uma criança de Stockolmo dizem-nos tudo o que as duas almas encerram.
A fraqueza conduz á serenidade e á doçura; a reacção do individuo contra os accidentes da vida social e physica é proporcional á sua sensibilidade e á sua actividade. Por isso o scandinavo não se revolta contra os homens e contra as coisas, difficilmente vulneravel, entre a indifferença e o perdão.
Os seus sentimentos são os que se conformam com este temperamento que lhe vem da terra, são a familia, a paz domestica, a fidelidade, tudo o que não exija um grande esforço e dê o prazer que cabe na medida e esphera da sua capacidade; um prazer superior ou heterogeneo seria indifferente, porque não poderia ser percebido. Passemos pelos museus: o parisiense pára diante dos quadros que lhe recordam a vida sensual; o prusso extasia-se perante os campos de batalha coalhados de trophéos e de cadaveres; o russo prefere os grandes dramas intimos, a dôr da viuvez ou o olhar allucinado do remorso; o scandinavo contenta-se com menos, o desembarcar do pescado n'um recanto da praia, a sopa fumegante sobre a mesa e a familia em torno. Abençoada fraqueza! Limitando a vida damos-lhe a maior garantia de felicidade. A maior? Não, a unica. Sem esses limites a inquietação é inevitavel, os tormentos são tão grandes como as aspirações.
Este mesmo clima que produziu um typo de actividade physica e psychologica de intensidade mediocre, mas por isso mesmo regular e equilibrada, porque não tendo oppressões congestivas não tem igualmente as depressões consequentes, esse mesmo clima concorre para manter intactos os costumes nacionaes, actuando constantemente sobre a sua base, o caracter do povo. Concorre apenas; pois n'este ponto a causa determinante principal póde com bons motivos encontrar-se na situação geographica--quasi uma ilha, nos confins da Europa, desligada do continente pelo mar e pelo gelo, e durante longos mezes de inverno inteiramente isolada. O povo é pacifico e moderadamente trabalhador; nem guerras nem expansão commercial que alterem o sangue primitivo pelo contacto ou liga de outro sangue. E assim o typo nacional, filho do clima e auxiliado pelo isolamento, conserva-se puro.
Pureza relativa, já se vê; as mesmas causas geraes que crearam o cosmopolitismo, tendendo a fundir n'um só os caracteres e costumes dos differentes povos, essas mesmas causas actuam alli, contrariadas todavia por forças indestructiveis, d'onde vem a fixidez quasi unanimemente reconhecida pelos viajantes. Na Hespanha temos um caso que esclarece e completa o da Scandinavia: alli os costumes nacionaes apparecem como simples reminiscencias do passado que a civilisação ainda não logrou destruir, mas sem caracter algum de fixidez, condemnados a completa extincção. As guerras interiores, a pobreza e a difficuldade de communicações prolongaram modos e fórmas de vida, que de futuro irão provavelmente refundir-se nos cadinhos communs a todo o mundo.
Do que fica dito facilmente se deprehende a feição de Stockolmo, uma cidade burgueza, pacifica, aceiada, em ordem, sem grandes palacios nem grandes ruas, parcamente animada de commercio e de prazeres.
Já assim não é Copenhague, em que parei no regresso a Paris. Differe o povo e differe a cidade.
Perdeu-se a delicadeza de traços e pureza de linhas que tinhamos frequentemente nas raparigas da Suecia, a dinamarqueza é mais corpulenta e grosseira, mais flamenga. Talvez ainda consequencias da natureza do sólo, pois descendo a Suecia, amiudam-se as planicies que na Dinamarca se aproximam e assemelham ás da Allemanha, e além tinhamos um terreno accidentado e granitico, proprio a crear o musculo enxuto produzido pelo esforço de uma imperceptivel mas constante gymnastica.
A cidade participa principalmente do aspecto commercial maritimo, ao contrario de Stockolmo que, sendo na realidade porto de mar, parece ainda um mercado interno.
Só as cidades maritimas podem dar-nos a impressão n'um grande movimento commercial, porque só ahi se produz a accumulação indispensavel a esse fim; só ahi se encontram as massas fabulosas que, distribuidas pelos mercados interiores, perderam esse effeito pelo facto de dispersão. Por este lado, as cidades do interior, por grandes que sejam, são sempre inferiores ás cidades maritimas. O movimento de povo nas ruas de uma cidade de prazer como Paris ou de uma grande secretaria de estado como Berlim, é mesquinho ao lado das montanhas de mercadorias que fluctuam nas cidades de Inglaterra, por exemplo. Umas movem-se como formigas, as outras como rhinocerontes; á superficie do mar vem de espaço a espaço um monstro e encostando-se á terra, começa a vomitar riquezas com uma prodigalidade que entontece de pasmo e esmaga de abundancia. Exceptúo Moscow, cidade do interior com o movimento das cidades maritimas; e, se as minhas viagens fossem mais longe, era possivel que tivesse de exceptuar todos os grandes mercados da Asia. A raridade e a distancia poderão produzir accumulações semelhantes ás que resultam do abastecimento de densos e frequentes povoados.
Copenhague estabelece uma transição para o grande bulicio do occidente, mas a posição insular e as affinidades de raça deixam transparentes grandes laivos de parentesco com a Scandinavia e a Flandres. Direi mesmo que, emquanto por lá andei, lembrei-me mais frequentemente de Amsterdam do que de Stockolmo.
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_Marselha, 2 de Outubro._
Fui descansar a Paris das longas jornadas da Russia.
Poucas coisas me interessam mais n'uma cidade do que percorrer os mercados de toda a especie, vêr o que se produz e o que se consome; e o interesse ordinario aggravava-se agora com a circumstancia de vêr Paris immediatamente a impressões diversas das que trazia da minha terra. Involuntariamente referia o que observava ao que tinha deixado na Suecia e na Dinamarca principalmente e, em quanto respeita a artes industriaes, essa comparação era desvantajosa para a França.
Não tanto como na Allemanha, que em mau gosto na materia leva a palma a todos os paizes do mundo, as lojas de Paris, entre productos da mais fina e pura belleza, encerram, em grande quantidade, o que a imaginação póde crear de mais absurdo e incoherente. Combinam-se e ligam-se as fórmas mais oppostas, juntam-se as côres mais desharmonicas; casa-se a simplicidade grega com os monstros japonezes e sobre os tapetes e porcelanas dansam desconchavadamente todas as côres. Nenhuma sabe do seu par.
Já assim não acontece com as rendas e porcelanas da Suecia e da Dinamarca, que me encantaram e surprehenderam (na minha ignorancia desconhecia o que, parece, é sabido de todo o mundo e até famoso). Combinações de duas ou tres côres, desenhos simples, nada variados, repetindo-se com frequencia, e de tão parcos elementos, esses paizes souberam tirar effeitos que a industria franceza não conseguiu gastando e torturando a imaginação.
É bem simples a razão, a meu vêr. Quiz o acaso que em Stockolmo parasse no deposito da mais afamada das suas fabricas de porcelana e faianças, justamente no momento em que me dirigia ao museu nacional; e pude vêr quanto os productos modernos differiam pouco dos modelos historicos. Muito de proposito aponto a ordem da observação para que não se julgue que no meu juizo houve preoccupações de tradicionalista. Não houve realmente; foi a evidencia de facto que me levou a crêr que, inspirando-se na tradição, a industria encontrára alli o mais seguro guia de belleza e bom-gosto.
Não direi exactamente o mesmo do que vi em Copenhague. Ahi, embora as rendas e bordados se não afastem tambem de modelos que têm seculos de existencia, a pintura em louça tomou para base a cópia do natural. E inutil será acrescentar que, explorando esta via, não chegou a resultados menos brilhantes do que os seus visinhos seguindo na tradição.
A nenhum d'estes tutores se quer sujeitar a moderna industria franceza, e, emancipada, entrega-se á phantasia excitada pela concorrencia que lhe pede novidade, invenção. É talvez uma maneira de traduzir o espirito de liberdade n'este terreno, mas a extrema liberdade aqui como em tudo não foi mais feliz do que a obediencia sensata e justa, consciente e reflectida. E, se não, vejam-se os productos preciosos que, em França mesmo, nos apresentam as industrias que se não afastaram da tradição, o ferro forjado, por exemplo. É mais uma resurreição dos antigos modelos do que uma industria nova; pois não sei que se possa inventar coisa alguma de mais bello, e estou certo de que os estrangeiros que vierem a Paris hão de dar-me razão.