Chapter 2
Se houvesse de consultar os meus sentimentos sobre a vida de Paris cobriria estas folhas de lamentos; mas o critico escuta as vozes estranhas sem dar ouvidos á sua voz intima, observa, descreve e classifica os phenomenos e as ligações das coisas, esquecendo as suas aspirações e desejos. Se porém me é permittida uma pequena desobediencia a lei, confessarei quanto me repugna esta inanidade de vida moral, e o desprendimento da natureza e de todas as forças intimas e divinas que regem o homem e o mundo. Paris afigura-se-me uma fornalha de gelo, rubra como a chamma e fria como a neve; consome e não dá calor, como se um dia no pólo todas as neves se incendiassem n'uma labareda ingente e em torno um frio agudo a prostrar na morte a humanidade.
Sempre a tyrannia do horario dos caminhos de ferro! Tinha ainda duas palavras a dizer de Paris, de Berlim, e da viagem até aqui, mas só em Moscow poderei fazel-o. Já me resignei a nunca trazer estas notas em dia.
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_Moscow, 13 de Setembro._
Ao vêr os arredores de Paris, coalhados de jardins e de pequeninas casas tratadas com esmero, dir-se-hia que aquella gente conserva sempre vivo um grande amor pelo silencio e pela paz da natureza. Do pequeno burguez ao grande banqueiro, todos ambicionam a arvore e a flôr, ou sejam em dois palmos de terra, comprados a peso de ouro, ou seja em vastos parques, traçados com arte e sabedoria; e ao domingo, o operario, o caixeiro, a legião innumera dos humildes vai a Saint Cloud, a Saint Germain, a Enghien, ou a qualquer outro arrabalde, onde tenha um retalho de relva e um farrapo de sombra para deitar-se um momento.
São porém levados pelo amor da terra? Não são. Todas as grandes cidades têm ao lado estes ninhos de verdura onde nas horas de ocio se acoita a população extenuada e anemica; são uma necessidade hygienica, dependencias obrigadas, como os theatros, os museus e as escólas. Mas o que ahi se procura não é a satisfação d'um sentimento ha muito perdido no tumulto das ruas e na anciedade de enriquecer e gozar; procura-se saude, recuperar forças, um tonico, um alimento substancial, especie de ferro e de extracto de carne.
Transportam-se para o campo os habitos da cidade, não se vai para o campo a fugir da cidade; e na arvore mysteriosa e sagrada não se adora um deus que o cerebro exangue já não percebe nem sente, vê-se uma pomada, um balsamo que dá frescura e vigor á pelle, abrazada por um ar empestado e por uma actividade excessiva. A cidade é uma fornalha, o campo um hospital.
Duas coisas admiro todavia n'uma cidade como Paris--a organisação e a intensidade do movimento, e o poder instructivo.
Ha qualquer coisa de assombroso n'este rio immenso em que simultaneamente se agitam e movem tantissimas correntes sem se aniquilarem; toda a grandeza da antiguidade é mesquinhez ao seu lado. De longe em longe, um desastre, uma pequenina mola que se partiu, um abalo ligeiro, quasi imperceptivel. Que foi? Um incendio, um naufragio, uma guerra, quinhentas, mil ou trezentas mil pessoas que desappareceram. Um movimento de espanto: a grande corrente não pára, segue no seu leito tenebroso e revolto, e nas nevoas espessas da sua vastidão sumiu-se ephemera a hecatombe que por longos annos faria estremecer de horror a velha Roma.
A vida patriarchal e simples póde gerar todos os sentimentos bons e abrir ao espirito horisontes sufficientemente largos para lhe despertar o desinteresse de descobrir a ordem e as leis das coisas; mas, por isso mesmo que é simples, equilibrada e serena, nunca poderá suggerir-lhe noções dos typos excentricos. Para attingir estes pontos extremos é necessario levar o espirito a um estado de vibração nervosa que não é outra coisa senão a loucura em differentes graus; e os casos d'essa ordem, esporadicos nas civilisações passadas, são frequentes e quasi normaes na vida febril contemporanea. É n'este sentido que reputo muito alto o valor instructivo das cidades, que nos vicios, na miseria e nas paixões mostram uma complexidade e largueza da alma humana que em outras condições se não vêem, por isso que não existem. Por este lado, a cidade moderna tornou-se um estudo essencial ao philosopho, ao poeta e a todos os que por qualquer motivo tem de lidar com os phenomenos psychologicos; as obras d'aquelles que porventura carecerem d'este elemento serão necessariamente incompletas e imperfeitas.
De Paris fui a Berlim. Parti á noite, amanheceu-me nas proximidades de Liège e logo alli encontrei duas coisas que não temos e que deveriamos ter,--a lavoura feita por cavallos,--n'uma terra polvilhada de branco. Nem lavramos com cavallos, nem usamos esses pós brancos que são adubos mineraes.
A utilidade d'estes não padece duvida e, se os applicamos em tão limitada escala, não é por que geralmente se ponha em duvida o seu proveito; mas as condições legaes e economicas do fabrico acarretam falsificações e preços que fazem recuar o nosso lavrador, e com razão. Que o estado dê garantias de genuinidade e estabeleça um regimen que abaixe os preços até os tornar accessiveis á nossa lavoura, e tenho por seguro que os adubos mineraes terão entre nós tão larga e proveitosa applicação como nos paizes estrangeiros. Fora d'essas condições é inutil prégar melhoramentos agricolas; a lavoura, mesmo sem contabilidade, arruina ou enriquece e, sendo uma industria e não um capricho, só no ultimo caso poderá viver.
Sobre o segundo ponto, a introducção do cavallo como principal motor agricola, divergem os lavradores, e são-lhe contrarios na sua grande maioria, exceptuando o Alemtejo, em que o clima obriga ao serviço por muares. Todo o norte porém classificará de utopia o meu pensamento. Porque? Nenhuma razão economica bem fundamentada se allega; o unico motivo é de natureza historica, a tradição e o habito. Reconheço-lhe a grandeza, sei o que vale como factor da educação do operario: póde muito em todo o mundo, vale muitissimo n'uma terra em que a educação agricola é exclusivamente caseira. Mas se a aptidão e os conhecimentos do operario nos incitam a proseguir na rotina, a concorrencia impõe-nos tentativas de reforma. Todos os paizes estrangeiros praticamente adoptaram esta fórma de divisão de trabalho agricola, o gado cavallar como motor, o gado vaccum para a carne e para o leite. É um caso de divisão de trabalho e nada mais; essencial, a meu vêr, porque para supportarmos a concorrencia e voltarmos aos tempos aureos da exportação de gado, é manifestamente necessaria a melhoria das raças; e uma das suas condições é um bom regimen hygienico de que faz parte a singularidade do destino do animal. Trabalho, engorda e leite serão sempre mediocres emquanto forem individualmente simultaneos.
O terreno accidentado d'esta região de Liège, os prados nas encostas, as mattas nas elevações e a estreiteza dos valles recordam-me o que vi nos Pyrenéos; todavia é grande a differença. É possivel que o não seja physicamente, quanto á natureza da terra e do clima, mas faltam lá os symptomas de riqueza que existem aqui--cultura esmerada, pujança de vegetação nos prados, abundancia de gados, frequencia e boa construcção dos casaes, e finalmente jardins, _villas_ e pequenos palacios de gente rica.
Pouco e pouco vai decahindo de intensidade a paizagem agricola, perdendo ao mesmo tempo em belleza; atravessam-se regiões sem caracter em que a granja aceiada e o campo verdejante ladeiam a cabana na terra descuidada e inculta; só adiante, internando-nos na Allemanha, encontramos um novo typo. Estamos perto do Hanover, se me não illudo; o campo é vasto, ligeiramente ondulado, quasi plano, mediocre, sem fartura nem esterilidade; as casas de lavoura espaçosas e sombrias com os seus altos telhados de ardosia destacando frouxamente no céo nublado; com os prados alterna a floresta de lamigueiro escura, fechada, a folhagem tingida de negro, os ramos erectos. A vastidão, sem luz, sem brilho, pesada, asphyxiante! Preoccupação scientifica ou evidencia de relações, prendemos o caracter d'este povo ao aspecto da sua terra. Resta saber se ha sabedoria capaz de fazer partilha entre a natureza e a historia.
Sempre attento ás coisas agricolas, para que me levam velhos e enraizados affectos, ao vêr como aqui se alternam o prado e o arvoredo, lembrei-me do mediocre resultado que temos tirado das poucas tentativas de creação de prados e do nosso despovoamento florestal. Ha entre a floresta e o prado uma relação intima e manifesta; e não será talvez ousadia affirmar que este ultimo só poderá viver inteiramente são sob o bafejo da arvore, tépido e humido. As condições climatericas favoraveis aos pastos só poderão alcançar-se pelo repovoamento florestal, principalmente nas regiões do interior, ao abrigo das brisas e orvalhos maritimos.
Foi em caminho de Berlim que tive o prazer de me encontrar com o snr. George Saunders correspondente do _Morning Post_ n'aquella cidade e um dos principaes collaboradores da _Pall Mall Gazette_. É um rapaz muito intelligente, instruido, possuindo em alto grau (creio ser o seu caracter intellectual dominante) esse espirito de critica serena e desapaixonada, que chamarei sympathico, e que faz vêr os homens e as coisas na sua verdadeira luz. As observações sobre Berlim e a Allemanha, que tão generosamente me communicou, pareceram-me singularmente justas e, por isso que d'ellas colhi proveito, manda a probidade e a gratidão que faça menção d'este nome.
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_Moscow, 14 de Setembro._*/
Em Paris deixamos uma feira; todas as cidades mais ou menos o são, porque isso é da sua essencia, dentro de termos entre os quaes oscillam. O ponto da escala em que se encontram determina o seu caracter. Ora, suppondo que esses termos ultimos são o estado-maior da politica e a feira, quem vier de Paris a Berlim cahiu de um no outro extremo.
Á vozeria da rua, á confusão dos pregões e ao labutar dos mercadores succede o aprumo dos continuos e um caminhar pausado e surdo sobre tapetes, cortado de breves notas estridentes, ao sacudir das esporas.
Berlim é a antecamara d'um imperador; muita farda e um grande silencio, sempre armada e sempre calada, perpetuamente preoccupada da força e da auctoridade. Sobre a cidade pesa um braço de ferro, a multidão abdicou nas mãos de uma vontade; só ella a move.
A graça e a elegancia, a vivacidade e o riso foram banidos; o povo vai taciturno e lento.
Ás vezes pára, observa, contempla; luziu-lhe no coração um momento de aurora e sorriu. Olhava o retrato do imperador diante de tres crianças, seus filhos, em continencia militar; e tirou uma vibração de jubilo, ingenuo, intimo, d'onde nós tirariamos uma gargalhada a tombar o maior dos cesares. O seu primeiro museu é o de artilheria; levam-se alli as crianças, collegios inteiros, a vêr os canhões francezes rasgados como um farrapo pela metralha do Krupp. Um criado de hospedaria que diante da qualquer se curva até ao chão, perante um capitão ou um coronel dobra-se attonito, fulminado.
A piedade e a doçura, revelada no affecto da mulher, para que? A mulher é um animal, a sua lei a escravidão. Se não fosse... poderia supprimir-se, não representa nada.
A Allemanha, que Berlim nos mostra, afigura-se-me um elephante, a intelligencia e a força em um corpo informe. Toda a sua alma crystallisou n'esta aspiração--ser forte, invencivel.
Conta-se que Cellini, para fundir não sei qual das suas estatuas, lançára no fogo toda a baixella; a Allemanha de hoje fundiu n'um só sentimento todas as joias do coração do seu povo. Adora o exercito e o imperador, a expressão concreta da sua alma, entregou-se-lhes manietada e n'uma obediencia absoluta.
Conseguiu ser forte. As doutrinas dos philosophos de mãos dadas com o genio militar alcançaram emfim dar-lhe uma rara força politica.
Póde viver-se assim? É esta a ultima palavra da civilisação ou simplesmente uma gloria ephemera, sahida da coincidencia das aptidões d'um povo com as necessidades do momento historico? A revolução franceza, iniciando-nos no conhecimento dos direitos individuaes, simultaneamente deu aos estados constituições que conduzem á fraqueza e impotencia politicas; a Allemanha mostrou-nos novas vias conduzindo ao pólo opposto. Assim como só nós pudemos vêr os povos educados nas instituições derivadas da revolução, só os nossos filhos poderão saber o que é um paiz educado na admiração da força. Todas as prophecias serão prematuras, embora vagamente presintamos que a civilisação é mais alguma coisa do que a força.
Dizia-me o snr. Saunders, fallando de musica, que as pequenas côrtes dos ducados e monarchias allemães eram favoraveis ás letras e ás artes. Alargando o seu pensamento direi tambem que a Allemanha actual, com todo o seu saber e profundeza, sahiu d'essas côrtes minusculas; os que vierem depois de nós saberão o que deu a Allemanha imperial.
E visto que o leitor já deve estar habituado a vêr as minhas sympathias de permeio com a exposição dos factos, impenitente, recahindo na velha falta, acrescentarei que a Allemanha, que vi em Berlim, produziu inesperada antipathia no meu espirito, educado n'outras idéas, n'outros costumes sobretudo. Dizem-me que Berlim não é a Allemanha e que n'esse vasto imperio encontrarei costumes e idéas absolutamente oppostos; se assim não fôr garanto aos allemães a antipathia dos povos peninsulares. Não existiriam talvez na Europa caracteres mais accentuadamente antagonicos.
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_S. Petersburgo, 18 de Setembro._
Em caminho de Berlim para Varsovia, a alfandega russa, com uma severidade desusada, obriga-me a parar seis horas em Alexandrowo. A visita das bagagens é minuciosa, os passaportes são apresentados e registados; o comboio vinha com atrazo, partiu quando muito bem quiz, e os viajantes que não tinham ainda as suas coisas em ordem alli ficaram até novo comboio. Eram quarenta ou cincoenta, pelo menos; e este facto, que em qualquer parte da Europa levantaria uma tremenda algazarra, não provocou um protesto. Aqui comecei a vêr a paciencia e a indifferença russas.
Para mim não foi desagradavel, antes me deu prazer, pois tive occasião de passear nos campos d'essa desventurada Polonia, que desde as margens do Vistula vinha observando.
São grandes lavouras arenosas e planas, n'esta época cobertas de beterrabas e de pastos, cortadas de mattas de pinheiro de Riga, terrenos baixos, soltos como as dunas. A gente do campo anda geralmente descalça, e os cavallos desferrados, o que o commum dos viajantes attribue á miseria, mas que a meu vêr provém unicamente da natureza da terra; tal qual acontece no littoral norte do nosso paiz. Repete-se ahi o mesmo facto, sem que por isso as povoações sejam mais ou menos ricas do que as do interior com habitos differentes.
Uma arvore dá caracter a esta paizagem, o salgueiro, que com invariavel insistencia circumda os casaes cobertos de colmo, soltos e isolados, com largos intervallos, pelo meio das terras. N'estas planicies em que não se avista uma montanha, sem uma unica nódoa intensa e viva na verdura desmaiada a prender-se ao céo nublado, o salgueiro, sem destruir a harmonia, dá á paizagem o brilho que comporta com a sua folhagem alva, replandecente e leve como a nuvem. A paizagem do occidente é tecida de ouro candente; esta é de prata polida e fria.
Ao contrario do salgueiro, o pinhal, máte, sem brilho algum, assemelha-se na côr ás estatuas de bronze expostas ao tempo, o que reunido á brevidade das folhas e dos ramos, nivelando a superficie, o torna absolutamente differente do nosso pinhal, carregado na côr e cavado de manchas largas e profundas; resultado da ramagem longa e distante. Um é unido e plano, um lago coberto de cinza, o outro ondeado como as encostas do Vesuvio, feitas da tortura gigante da sua lava.
Já acclimado n'uma inteira passividade e resignação, segui de Alexandrowo a Varsovia com todos os atrazos e delongas proprios dos caminhos de ferro russos.
Era um domingo e cêrca da meia noite quando cheguei. Por isso não pasmei do extraordinario movimento das ruas, julgando que seria o terminar de um dia de festa e de repouso. Mas logo mudei de pensar na manhã seguinte: o que eu vira, era habitual e ordinario.
Que contraste com a enfadonha e sombria Berlim! Mulheres bonitas, elegantes, trajando bem, animadas, vivas, um fuzilar de carruagens em correrias doidas, e as ruas atulhadas de gente, fallando, gesticulando, movendo-se emfim;--tem tudo isto Varsovia. E tem ainda mais: desordem, immundicie, igrejas a cada passo com grande abundancia de devotos, ajoelhados á porta ou benzendo-se na passagem. A um carro coberto de lama atrella-se um cavallo estropiado, com uns arreios inqualificaveis, mas onde falta coiro e graxa sobejam adornos e ferragens; e por aqui imagino o resto, imagino o que vai por casa d'estas mulheres que na rua vejo tão airosas. Para nós, do sul da Europa, a vida intima das cidades como Varsovia ou Napoles, comprehende-se immediatamente.
São os instinctos artisticos, o amor do luxo, das festas e da elegancia, alliados á desordem e á devassidão dos povos excessivamente nervosos; são a ociosidade e a imprevidencia revelados na devoção que entrega ás mãos de Deus o que não sabe conquistar pelo seu esforço. Folia emquanto ha dinheiro e saude, e valha-nos Deus, Nosso Senhor nos acuda para os tempos de miseria... Vivem n'um sensualismo irreprimido, no desgoverno de todos os impulsos e de todos os instinctos; o luxo para elles não é, como por vezes succede na Inglaterra, o florir proporcionado de uma planta que tem no sólo boas e solidas raizes e nos ramos uma seiva abundante; não é a coroação da riqueza, é uma flôr precoce n'uma planta exhausta, consumindo todo o alimento e todo o vigor que devia nutrir o tronco, os ramos e a folhagem. Essas plantas florescem e como ellas morrem tambem as sociedades que não souberam equilibrar a distribuição da sua seiva.
Grande lição a da Polonia para quem souber e quizer aproveital-a!
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_A bordo do Finland, 19 de Setembro._
O vapor vai sereno e o tempo calmo; aproveitemos este serão passado sobre o Baltico e conversemos.
Deixando Varsovia, em poucas horas temos a paizagem do norte da Russia, que durante longas horas e longos dias nos ha de acompanhar com uma inquebrantavel monotonia. O que particularmente a distingue é a frequencia do vidoeiro, absorvendo e dominando completamente as restantes arvores, o abeto, a tilia, o carvalho, o pinheiro e outras poucas especies que apparecem raras e por isso não têm valor apreciavel. A ramagem pendente e o desbotado das folhas do vidoeiro, ao mesmo tempo que dão á floresta um aspecto compacto, roubam-lhe toda a rutilancia das ramagens horisontaes e os angulos e nitidez de linhas proprios das arvores resistentes e firmes como o carvalho, por exemplo. A floresta é ligada e unida, as curvas suaves, nem sombras profundas nem resplendor; entre o claro e escuro, como entre os differentes tons, as transições são imperceptiveis.
Disse que a paizagem da Russia se distinguia pela predominancia do vidoeiro e não disse talvez a inteira verdade. Superior e porventura influindo muito intimamente na feição esthetica do arvoredo, está a configuração do terreno, um immenso Alemtejo, em planicies infindas, que assim se podem chamar umas depressões tão pequenas que não prejudicam a linha do horisonte.
Sobre essa vastidão assentam aldeias, agglomerações de casebres baixos e abafados, construidos de madeira e cobertos de colmo, sem divisões interiores; em cada um ha, em regra, um pequeno ponto branco, a chaminé do forno sobre que no inverno dorme toda a familia. Ao lado, n'um pequeno pateo, intransitavel de esterco e de lama, estão as córtes dos gados, não mais vastas do que a habitação do dono. Tambem ás vezes falta o forno e então o lavrador e os gados vivem promiscuamente sob o mesmo tecto.
Mas, sob esta apparencia miseravel, existe frequentes vezes o aceio e a ordem e não raro tambem a abundancia. As necessidades são poucas, toda a industria é caseira; se o anno foi abundante de trigo e de batatas, com isso e com o leite das vaccas tem a familia boa escudela.
Todo o paiz é assim até Moscow; aldeias, mattas e lavouras em terras sempre ouduladas mas quasi planas. Posso até dizer que em toda a região da Russia que atravessei não conheci outra paizagem.
Por taes caminhos chegei a Moscow, cidade tão gabada, sobre que o oriente tem dispendido tanto ouro como o occidente rhetorica enthusiastica.
Olhei-a de longe com ancidade, passeei-a, subi ao monte a que Napoleão subiu para a vêr antes de a conquistar, mirei-a muito emfim. Pois de quanto por lá pensei e observei conclui que para nós, latinos, enamorados da harmonia, da simplicidade, da proporção e da graça, não tem belleza. Interessa e enthusiasma pelas evocações historicas que d'ella brotam aos cardumes e prende pela estranheza e pelo pittoresco d'um mundo novo; mas que seja um prazer esthetico o que ella nós dá, desconfio.
É uma cidade sem plano, sem principio nem fim, sem um centro de convergencia, caprichosa e emmaranhada, como a imaginação oriental. Chamo a tudo aquillo byzantino, n'este sentido, que, á força de distinguir, confunde e enreda a mais não poder resolver. Cada rua deseatranha-se em mil bêcos e ruas tão grandes ou maiores que a via-mãe; de cada florão de architectura rebentam novos florões que se emendam, sobrepõem, sobem, descem, voltam ao ponto de partida para recomeçarem a mesma teia; taes quaes as discussões da nossa camara dos deputados. São as imaginações insaciaveis de subtilezas no pensamento, nas artes e em tudo, porque o espirito humano é um para cada povo e para cada época; são a negação da lucidez e da precisão.
Com esta concepção da fórma esthetica coincide o brilho anteposto á côr. Indifferente ás delicadezas de colorido, o moscovita adora o ouro e as pedrarias: o bronze, a prata e o aço são pouco, é preciso doural-os. As igrejas estão recamadas de ouro, nos bazares abundam os bronzes trabalhados no paiz, mas sempre dourados; o thesouro do palacio imperial não terá maravilhas de Cellini, mas tem ouro e pedras preciosas que bastam a adornar todas as côrtes da Europa.
Pelos atalhos d'essa montanha de riquezas anda uma população mesclada, cossacos e chinezes, circassianos e finios; porque Moscow, uma terra de commercio, um bazar, um genuino e simples mercado, tem de notavel sobre os seus congeneres do occidente e do centro da Europa, ser intercontinental e trazer ás suas barracas uma população que dos mais remotos cantos da Europa vai quasi a tocar na America. Quasi, agora; quem sabe se um dia a tocará de facto, e que medonha convulsão reserva ao mundo esse combate.
Dizem ter mil e seiscentas igrejas, e creio ter devoção para edificar outras tantas. Não ha casa sem uma imagem do Christo; nem os restaurantes com frequencia muito suspeita lhe escapam. As offrendas não têm numero, tudo se faz por milagre. Direi todavia que esta é a maior força d'aquelle povo.
Entre Paris, o epicurismo, Berlim, a força, e Moscow, a religião, eu preferirei a ultima, porque n'este reconhecimento de uma vontade superior, de quem tudo dimana e provém, está o germen e o fundamento da paciencia, da resignação e da obediencia, forças invenciveis que os factos externos deixam intactas e não quebram.
É difficil dizer onde termina a fraqueza e onde começa a doçura e a piedade, que dimanam d'essa essencia, mas é certo que a maior de todas as forças é a força de soffrer. Não ha obstaculo mortal para a actividade de quem a possuir, e por isso o russo, apathico, soffredor, todo confiado á vontade de Deus, tem sobre todos nós, racionalistas do occidente, a maior das vantagens.
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_Stockholmo, 22 de Setembro._
Vindo á Russia, não pude roubar-me o prazer de visitar o conde Tolstoï, o famoso romancista que hoje todo o mundo conhece. Como tantos outros estrangeiros, dirigi-me pois á cidade de Tula e d'ahi a Yasuya Polyand, propriedade e habitação de Tolstoï.