Part 6
--Dizia, sim; pelo menos eu entendia-o. «Seu pae diz que muito obrigado; mas a senhora tambem quer.» «Está bem, Epaminondas, respondia eu; logo irá para a senhora.» Ora acontecia que eu algumas vezes me esquecia do compromisso que havia tomado; mas quem não se esquecia era o cão. Em cahindo alguma perdiz mais geitosa, o Epaminondas estava-me logo a dizer: «E a perdiz da senhora?» «Pois bem, leva lá a perdiz, e não te demores.»
--Mas qual era o processo de eloquencia a que o Epaminondas recorria para se fazer comprehender tão explicitamente?
--Eu sei lá! Era tudo: os olhos, o focinho, o rabo. Era tudo!
--Diga antes você que estava tão habituado com o cão, que já o entendia, como a gente, á força de habito, chega a entender um surdo-mudo...
--Qual historia! De uma vez morreu a mulher do regedor de Loures, que morava a dois passos da quinta em que eu estava. O cão ouviu, e percebeu o que o criado tinha contado. E, sem que lhe tivessemos dito nada, sahe por alli fóra, e vae a casa do regedor dar-lhe os pesames!
Quando a imaginação do caçador tem aquecido até á temperatura do maravilhoso, já não ha ninguem que seja capaz de detel-o. É como um _rapido_ que passa. Parece ás vezes, o que é phenomenal, que chega a acreditar o que diz, e que adquire a convicção de que os outros o estão acreditando.
Pois em cada praia ha sempre um caçador... pelo menos!
O guarda fiscal confirmou plenamente esta minha observação.
--Sim, senhor, disse-me elle. Eu conheço-os: ás vezes, fico até admirado de que não tragam espingarda na bagagem!
Lisboa, 8 de outubro de 1888.
300 RS.