Part 3
--É verdade, tambem vou cantar. Mas de tarde metto-me na Foz, no seio da natureza, como um selvagem primitivo...
Chegámos ás duas horas da tarde ás Caldas.
--Porque se demoraram tanto? O que estiveram os snrs. a fazer tanto tempo em Obidos?!
CHRONICAS DE VIAGEM
VI
Uma festa de charidade
Organisara-se nas Caldas da Rainha uma festa de charidade, no Salão da Convalescença, em beneficio da Associação Promotora do Ensino dos Cegos.
Luiz Gama, este endiabrado rapaz que toda Lisboa conhece e estima, rapaz que parece um velho quando joga o _whist_, posto andasse muito azoinado com os _callixtos_ que lhe rodeiavam a mesa do jogo, fosse em plena Alameda, nas horas de calma, ou sob o Ceu de Vidro, nos intervallos da valsa, que elle raras vezes perdia, não poude resistir ao convite que lhe fizeram algumas senhoras para tomar parte na _matinée_.
Comprometteu-se, e comprometteu-me pedindo-me com instancia que lhe escrevesse uns versos, consentaneos ao seu genio alegre, para dizer no Salão da Convalescença. Eu não chegava então para os largos passeios que todas as semanas fazia com o meu amigo Carrilho. Luiz Gama insistia, porém, e não tive outro remedio senão procurar um assumpto entre um copo d'agua das Caldas e a partida d'um comboio.
Não estava Luiz Gama sendo, segundo elle mesmo caramunhava, uma victima dos _callixtos_? Toda a gente o sabia. Pois bem. Lembrei-me de proporcionar á victima uma excellente occasião para vingar-se publicamente dos seus algozes, e mandei-lhe isto, que elle teve a paciencia de decorar e dizer:
OS CALIXTOS
Se os ha?! Que os ha, é de fé. Até suppõe muita gente Que Adão e Eva tiveram N'um joguinho que fizeram Por callixto uma serpente.
Eva perdeu... quanto tinha. O proprio Adão foi no _prégo_ Pôr a caixa do rapé! Só os não vê quem fôr cego... Se os ha?! Que os ha, é de fé.
Ha-os de varios feitios. Um, gallinha nunca farta, Cobrindo co'a aza o filho, Vai vendo carta por carta Como a comer grãos de milho.
Um outro a penca intromette Entre as cartas e o sujeito, Como se fosse um petiz Que a gente tivesse ao peito, Sendo a ama d'um nariz.
Até se diz que um parceiro Do _mirone_ a penca assuou No Ceu de Vidro, domingo, Porque em boa fé pensou Que era o seu que tinha pingo.
Já encontrei um callixto Gordo, obeso, uma balêa, Que me poz o barrigaço --Façam vossencias ideia!-- Em peso sobre este braço!
O general é medonho! Não ha callixto peior Entre os maus que tenho visto. Vejam lá! é meu callixto Desde que elle era major!
No Gremio um desconhecido Foi-se sentar a meu lado: Perdi a trena e o leme, Apanhei logo um xeleme E outro d'abi a bocado.
Perguntei-lhe: Em seu juizo Qual animal é maior? Hesitou. D'ahi a um instante Disse que era o elephante. --«Pois então faça favor
«D'ouvir isto que lhe digo, (Repliquei, de mim já fóra, Ameaçador, fulminante) «Olhe, snr. elephante, «Não posso mais!... vá-se embora.»
Em sendo calvo o callixto, Tremo logo só de vel-o. É tão callixto o diabo, Que até do proprio cabello Por callixtice deu cabo!
Ha outros que têm madeixas Como cachos de banana, E que escorrem sobre a gente Algum óleo impertinente Ou agua circassiana.
Tambem os ha femininos, Que põem o pé na cadeira, Mostrando a botina... Eu acho Que, sendo d'esta maneira, Só encallixtam por baixo...
Mas a peior das callixtas... Não me lembra agora isto! A coisa... não vae ao fim! Pois se um senhor que é callixto Está d'além a olhar p'ra mim!
Cahiu em boa Luiz Gama! No dia seguinte os _callixtos_ resolveram vingar-se d'elle por sua vez: apanhou uma grande sova ao _whist_.
CHRONICAS DE VIAGEM
VII
Figueira da Foz
Desde S. Martinho do Porto até á Marinha Grande a linha ferrea da Figueira é a mesma que fazia antigamente o serviço especial entre a fabrica da Marinha Grande e o porto de S. Martinho.
O pinhal abunda no trajecto d'esta linha, logo que se passa a estação de Vallado: o famoso pinhal de Leiria, filho querido d'el-rei D. Diniz.
Em toda esta região, que vamos atravessando, houve outr'ora porém um senhor ainda mais poderoso do que D. Diniz: era o mar.
Alfeizerão, que deixamos ha muito, terra dentro, fôra até ao seculo XVI um bello porto de mar, que podia abrigar mais de oitenta embarcações.
D. Diniz, que tinha em Monte Real a sua habitação predilecta, quiz fazer na villa de Paredes um porto de mar. Sobre as ruinas de Paredes assenta a actual Pederneira.
Fez-se effectivamente o porto, porque, como diz o proverbio, _El-rei Diniz fez quanto quiz_, mas grandes alluviões de areia foram obstruindo o porto. D. Diniz pretendeu pôr um obstaculo a essas enormes alluviões mandando semear o pinhal de Leiria e adoptando outras providencias conducentes ao mesmo fim.
Uma d'essas providencias consistiu em ordenar aos foreiros da casa da Nazareth que lançassem, contra o mar, um certo numero de carradas de areia, que o vento fosse accumulando no largo da egreja e nas ruas do Sitio.
Da povoação de Paredes, que devia ser importante, graças ao movimento do seu porto, existe apenas... a Pederneira.
O mar espraiou-se pois por toda esta região, que vamos atravessando, até que as alluviões de areia lhe disputaram o dominio.
E hoje a locomotiva assobia o hymno do progresso atravez do pinhal de D. Diniz, deixando ao largo o mar, que perdemos de vista para só tornar a enxergal-o nas proximidades da Figueira da Foz.
A estação que se segue á da Marinha Grande é a de Leiria.
No alto do monte escarpado, o castello de Leiria, com a sua torre de menagem menos mal conservada, desenha-se no azul, immovel e sereno.
Ha muitos annos que eu não tinha visto este vetusto castello, que me deixára uma impressão desagradavel quando então passei em Leiria caminho da Batalha. Nas ruas de Leiria o castello, esmagando-me com o peso dos seus muros e da sua torre, parecia seguir-me por toda a parte, como um fardo que me dobrava os hombros. Era asphyxiante, visto da cidade, aquelle castello. Mas, visto de longe, como agora, affigurou-se-me um dos mais bonitos castellos que sobrevivem ainda, gostei de vêl-o altivo na sua decadencia, magestoso ainda na sua inutilidade, esperando impassivel a hora em que a tempestade derrube os seus muros com um feixe de raios...
Passado o apeadeiro dos Milagres, é Monte-Real, o sitio predilecto de D. Diniz, a primeira estação que se encontra.
Apezar da ardencia d'esse dia, extremamente calmoso, apezar de ser oppressiva a temperatura, abafadiço o ar, passou pelo meu espirito um relampago de historia patria, vi de relance D. Diniz, trovador aventuroso, rei galante, envolvido nas suas proezas tunantescas de Leiria, frequentando de noite, enamorado de uma camponeza, a aldeia de Amor...
El-rei Diniz Fez quanto quiz, Até no amor... Graças ao sceptro, Graças ao plectro, Rei-trovador.
Depois, quiz-me parecer tolice de marca maior estar a remexer no rescaldo da historia amorosa de D. Diniz em dia de tão intensa calma, fechei de subito o livro da memoria, forcejei por lembrar-me de que eu tinha escolhido aquelle dia precisamente para não pensar em nada que me desse cuidado, e puz-me a olhar para a paizagem que ia apparecendo e fugindo como no fundo de um kaleidoscopo.
A Amieira, que é o ponto de bifurcação do ramal de Alfarellos, possue, como se sabe, uma nascente de aguas medicinaes, que está sendo explorada com bons creditos.
Ahi, encostadas á grade da estação, vimos as primeiras camponezas do valle do Mondego, com o seu trajo caracteristico,--bellos exemplares de opulencia plastica, e saudamos n'essas tres camponezas, sadias e robustas, a mulher do norte.
E as tres camponezas, ouvindo ou não ouvindo as nossas saudações enthusiasticas, comiam maçãs, rilhando-as um pouco suinamente, ó prosa da realidade, terrivel prosa!
Não se póde já ser um pouco artista, nem mesmo em viagem!
O valle do Mondego principiou a desenrolar-se deante dos nossos olhos, com os seus esteiros, a sua linha recta coberta de verdura e scintillante de agua.
Entre a Amieira e a Figueira medeiam apenas dois apeadeiros, o de Lares e o de Santo Aleixo: as primeiras casas da Figueira não tardaram a apparecer-nos como guarda avançada d'essa bonita cidade maritima, já então tão concorrida de banhistas.
Na estação da Figueira entramos no _americano_ porque o meu amigo Carrilho propoz, e eu approvei, que fossemos antes de jantar a Buarcos.
O _americano_ deslisa ao longo da praia. Deslisa é um modo de dizer, porque, justamente quando passavamos em frente do Bairro Novo, o _americano_ emperrou pela primeira vez, saltou fóra das calhas, um muar cahiu estatelado. Quando isto aconteceu pela segunda vez, no meio das pragas de varios hespanhoes que enchiam o carro, o meu amigo Carrilho propoz que fizéssemos a pé o passeio de Buarcos.
E assim mesmo é que foi: largamos a andar por alli fóra intrepidamente.
Buarcos é uma especie de retiro de banhistas pacatos, que fogem do bulicio da Figueira. Bom ar, bom mar, mas pouca gente. Pacato de mais. Quasi ao mesmo tempo que chegavamos a Buarcos, tendo feito o caminho a pé, chegava o _americano_, com os muares escalavrados das successivas quedas que tinham dado.
O conductor perguntou-nos se queriamos ir vêr a mina do Cabo Mondego ou se faziamos tenção de ir vêr a fabrica. Dissemos-lhe que faziamos apenas tenção de ir jantar á Figueira. Então o conductor disse-nos que, visto termos ido a pé, tendo pago os nossos logares, queria de algum modo indemnisar-nos, fazendo-nos transportar immediatamente á Figueira.
Pasmamos d'aquillo, d'aquelle original _americano_, tão caprichoso no seu serviço irregular!
O carro partiu, e foi-se enchendo pelo caminho. Só então reconhecemos que tinhamos feito um grande passeio a pé, quasi sem dar por isso.
Anoitecia. O céu e o mar estavam serenos. Um vaporzinho rebocava um navio, porque a barra da Figueira, apesar dos melhoramentos que se lhe têm feito, é simplesmente detestavel. No alto, o Bairro Novo alvejava com as suas construcções recentes, elegantes, e, ao trote dos muares, entramos de novo na Figueira, parando era frente do _Hotel Universal_.
Esperámos, á janella do hotel, que nos servissem o jantar, e pudemos surprehender d'ahi a physionomia um pouco hybrida mas pittoresca da Figueira: o mar batia contra a muralha, o navio entrava rebocado, uns pescadores passavam altercando, e dois homens de chapeu alto e sobrecasaca passeiavam, conversando. Bastava effectivamente isto para caracterisar a Figueira com todo o seu ar pretencioso de cidade e o seu aspecto de praia de banhos, sendo que os da terra andam de chapéu alto, no grave exercicio das suas funcções judiciaes, administrativas, commerciaes, e os de fóra, os banhistas, em plena praia, exhibem fato de flanella branca e chapeu de côco.
No _Hotel Universal_ jantaram apenas comnosco á mesa mais dois hospedes, ambos brazileiros, que estiraram desde a sopa até ao café uma conversa merencoria como elles, que ambos estavam doentes.
Um dos dois, o mais sorumbatico de ambos, fallou da morte,--assumpto divertidissimo! Disse-nos que todas as noites, a bordo do paquete, quando se fazia silencio, a idéa da morte, passando pelo seu espirito, o atormentava.
Eu perguntei ao meu amigo Carrilho o que tinhamos nós com aquillo?
Concordámos em que não tinhamos nada, absolutamente nada, com os pavores phantasticos do brazileiro. Levantámo-nos da mesa; vimos um predio illuminado, ouvimos musica.
Perguntamos ao criado que predio era aquelle.
--É o theatro do Principe D. Carlos, e ha hoje espectaculo.
Muito bem. Iriamos dar um passeio pela cidade, e cahiriamos depois no theatro.
Todo o aspecto commercial da cidade estava então em evidencia: as lojas illuminadas, bellas lojas, devendo citar-se uma ourivesaria, que fazia lembrar um estabelecimento do Chiado.
Na Praça Nova a colonia balnear, composta principalmente de hespanhoes, espanejava-se garrulamente, e em torno da praça as lojas de negocio, havendo ás portas grupos de homens, uns a pé, outros sentados, denunciavam o movimento commercial da cidade.
Na Praça Nova encontrámos o deputado Pereira dos Santos e o visconde de Miranda do Corvo, que tiveram a amabilidade do nos ir mostrar os magnificos clubs da Figueira e de nos acompanhar ao theatro.
No theatro havia pouca gente. Um prestidigitador, cujo nome me esqueceu, fazia umas _sortes_ sediças, com pouca limpeza. Mas o theatro fôra para nós um salvaterio, porque nos permittiu esperarmos ahi pela hora da partida do comboio, meia noite e vinte.
E, n'um dos intervallos, entre muitos episodios da chronica balnear da Figueira, ouvi contar um, que me divertiu hilariantemente, e que no capitulo seguinte tentarei reproduzir.
Á meia noite, quando sahimos do theatro, havia ainda luz nos clubs e nos cafés. As janellas das roletas e das batotas brilhavam com o clarão interior dos candieiros de petroleo, porque a cidade da Figueira só agora vae ser illuminada a gaz.
Despedindo-nos dos nossos amigos visconde de Miranda do Corvo e Pereira dos Santos, dirigimo-nos para a estação do caminho de ferro, atravez de uma escuridade profunda, sem saber onde punhamos os pés, tropeçando a cada passo.
Que reles economia a da Companhia, que fazendo um comboio depois da meia noite, não manda illuminar o caminho da estação!
Ás tres horas e 46 minutos da manhã chegavamos ás Caldas da Rainha, frescos, apesar da caminhada a Buarcos, da estopada funebre do brazileiro, de duas horas de prestidigitação no theatro do Principe D. Carlos e dos trambolhões que démos em caminho da estação,--sem vermos um palmo adeante do nariz.
CHRONICAS DE VIAGEM
VIII
Uma victima da dança
Durante oito annos consecutivos, a D. Serafina Barros, da Mealhada, foi com o marido tomar banhos do mar em Espinho.
Aquillo era já sabido: no dia 15 de agosto partiam; a 15 de outubro recolhiam á Mealhada.
D. Serafina pensava durante o resto do anno n'esse gaudio balnear, esperava-o com uma certa anciedade, porque a Mealhada era, a respeito de _salsifrés_, uma terra morta, e D. Serafina tinha pela dança uma paixão feroz.
Agora, que já orçava pelos quarenta e dois annos, era preciso que D. Serafina fosse procurar a dança aonde quer que a houvesse, visto que espontaneamente a dança já não vinha procural-a a ella. E, para encontrar parceiro na assembléa de Espinho, tornava-se ainda assim indispensavel uzar de uma tal ou qual diplomacia, fazer com que o Barros dissesse aos sujeitos, por elle apresentados á mulher, que ella gostava muito de dançar, forçando ás vezes a situação a ponto de dizer: «Como prova do agrado com que recebeste a apresentação d'este cavalheiro, deves dançar a primeira quadrilha com sua ex.ª»
O cavalheiro, fulminado por esta perfidia amavel, inclinava a cabeça ao sacrificio, offerecia o braço a D. Serafina, e ia dançar com ella.
O Barros ficava contentissimo com o bom resultado da sua diplomacia, porque não podia aturar a mulher quando ella não conseguia dançar.
Se o cavalheiro respondia que _já estava compromettido_, como então se dizia, para as tres primeiras quadrilhas, se nenhum pequeno de treze annos havia convidado D. Serafina para dançar, o Barros, tendo lido um jornal ou dado uma volta pela sala da roleta, vinha espreitar da porta a mulher dizendo com os seus botões:
--Está como uma _bicha_!
E estava. Em casa elle o pagaria ouvindo-a sarrasinar n'uma cegarrega de lamurias, accusando-o de não ter a consideração social de que dispunha o Lemos de Formoselha e o Barradas de Esmoriz, cujas mulheres, não sendo mais novas nem mais bonitas do que ella, estavam sempre no meio da casa.
O Barros desculpava-se: que o Lemos era um trunfo politico, por ter em Lisboa um genro que fôra ministro tres vezes, e que se lhe dançavam com a mulher era para fazer a bôca doce a elle e a ella, por causa do genro; quanto á mulher do Barradas, «bem sabes tu, Fininha, o motivo porque ella dança sempre... á custa da reputação do marido.»
D. Serafina não se dava por convencida. Influencia politica tambem o Barros tinha na Mealhada: que se lembrasse elle das cartas que o bispo de Vizeu lhe escrevia sempre que havia eleições, tratando-o mano a mano quando lhe pedia votos: meu Barros lá, meu Barros cá. Fosse o Barros mais esperto e soubesse explorar em proveito da mulher a sua importancia politica. Mas era um asno. O snr. D. Antonio ia todos os annos tomar banhos para Espinho; sempre que o Barros chegava, o snr. D. Antonio ia-o visitar de varapau na mão. Ora dissesse-lhe o Barros que só lhe tornaria a dar os votos se lhe arranjasse par para a mulher dançar na assembléa, e o snr. D. Antonio faria com que todo o partido reformista, que estivesse em Espinho, fosse dançar com ella.
--Ó mulher! replicava o Barros. Isso póde lá fazer-se! Isso é lá coisa que se faça! Tu não sabes o que estás a dizer!
--Sei muito bem o que digo; sempre soube. Isto de eleições é um negocio para aquelles que não são tolos como tu. Tanto faz pedir uma commenda como uma quadrilha. Acaso será maior vergonha pedir para arranjar um par do que um emprego? Só elle, um pedaço d'asno, dava os seus votos de graça! Nem commendador era ainda!
O Barros procurava acalmal-a:
--Que o snr. D. Antonio não era homem a quem se pedissem commendas. Ria-se d'isso.
Mas Serafina não se calava nunca por falta de argumentos:
--Ah! o snr. D. Antonio ria-se d'isso! mas elle proprio quizera ser bispo, que era uma especie de commendador da egreja ou mais ainda!
N'estas discussões domesticas sobre a eterna questão da dança, era sempre Serafina que ficava victoriosa. O Barros reconhecia n'ella superioridade de raciocinio, força de logica. Cada pessoa, pensava elle, tem pelo menos um defeito. Ora as mulheres, quando são espertas, ainda que tenham o seu defeito, sabem sempre desculpal-o. O homem tem a força do pulso; a mulher tem a força do argumento. O homem póde bater na mulher, mas acaba por ser batido por ella,--logicamente. E o defeito da Fininha, o seu gosto pela dança, não era d'aquelles defeitos que compromettem a honra dos maridos. A mulher do Barradas d'Esmoriz, essa sim, servia-se da dança para chegar a certos fins illegitimos. Mas a Fininha gostava da dança pela dança,--sem segundas vistas.
E a Fininha, a respeito da mulher do Barradas, dizia-lhe muitas vezes:
--O que eu vejo é que as que se portam peior não ficam nunca sentadas!
--Por isso mesmo... respondia o Barros.
--Por isso mesmo!? Então na sociedade todas as distincções devem ser para quem menos as merece!? Que premio destinam então os homens ás mulheres honestas?!
O Barros embuchava.
--Lá está o raio da logica!... pensava elle.
--Sim, que visse, que reparasse, continuava Serafina. Ao passo que ella passava noites inteiras sem dançar, tendo a consciencia de ser uma esposa virtuosa, a Barradas andava sempre n'uma roda viva, e a filha do Saraiva de Mogofores, que fugira com um quintanista de direito para o Bussaco, e estivera lá dois dias com elle, não chegava para as encommendas na assembléa de Espinho. Elle Barros bem sabia que a sua Fina, quando casou, tanto podia ir para o ceu como para o leito conjugal, porque não se podia ser mais donzella; e depois que casou, nunca ninguem se atrevera com ella, nem mesmo o escrivão de fazenda, que era baboso por mulheres.
E isto era exacto. A honradez de Serafina tinha duas muralhas que a defendiam: a virtude e a fealdade. Trigueira, ossuda, com as sobrancelhas espêssas e um buço de adolescente, fazia lembrar uma cigana. Como as ciganas, gostava das côres vivas, _tapageuses_. Dançando, saracoteava os quadris, rebolia-se, peneirando sobre o pavimento uns passinhos curtos, miudos e travados. As outras riam-se d'aquella quarentona amulatada, toda perliquiteta, que na dança tirava a vez ás meninas solteiras. O proprio Barros algumas vezes ouvia estes remoques, e em casa, timidamente, com um grande medo da Serafina e da logica, dizia-lh'o.
Ella replicava:
--Deixa-as rir: é inveja. Muitas vezes me disse o papá que eu, se não fosse tão alta, era tal e qual a snr.ª D. Carlota Joaquina.
--Salvo seja!... acudia o Barros.
--Nas feições, homem de Deus. E no meio da casa não me troco por nenhuma d'essas lambisgoias de vinte annos, que não foram ainda capazes de aprender as marcas dos _Lanceiros_!
Mas um anno, em Espinho, fez-se uma terrivel conspiração contra D. Serafina: meninas e meninos de vinte annos combinaram entre si empregar esforços para que a cigana da Mealhada não tornasse a dançar; um rapaz do Porto, a quem ella disse uma vez--_Sempre mostra que é tripeiro!_--foi o chefe da conspiração.
A coisa chegou a ponto de que n'uma noite de menor concorrencia, n'uma quadrilha franceza, dançaram com _perna de pau_, indo o par marcante fazer _coté_, tendo Serafina ficado sentada e estando disponivel um caloiro de Coimbra.
Serafina jurou aos seus deuses não voltar mais a Espinho; e no anno seguinte o Barros levou-a á Figueira da Foz.
Mas na Figueira havia grande numero de hespanholas e de portuguezas novas, que dançavam sempre. Serafina estava fula, e um dia fez com que o marido se entendesse com um dos directores do Club, o Peres, de Leiria.
--V. ex.ª, disse-lhe o Barros, na sua qualidade do director deve zelar igualmente os direitos de todos os socios. Ora a verdade é que minha mulher, que gosta de dançar, não tem dançado nunca, ao passo que outras senhoras, que pagaram quota igual, andam n'um sarilho continuo. Peço, em nome da justiça, providencias a v. ex.ª
O Peres era reformista, sabia que o Barros pesava na eleição da Mealhada; não o quiz desgostar.
--Que sim. Que elle não dançava, mas que havia de fallar aos rapazes, e de os apresentar á snr.ª D. Serafina.
Mas o Peres nada poude conseguir dos rapazes: que não, que lá esse sacrificio não faziam elles. Que a D. Serafina era um monstro indançavel.
Muito entalado, o Peres já estava resolvido a perpetrar rheumaticamente uma quadrilha, quando passou na Figueira um destacamento, cujo capitão fôra antigo condiscipulo do Peres.
O capitão Lamprêa, de botas empoeiradas e barretina no braço, disse ao Peres que ia _reinar_ um bocado, porque tinha bebido bem ao jantar; que o apresentasse a uma dama.
O Peres teve um pensamento machiavelico: impingir-lhe D. Serafina.
Estava-se já organisando uma quadrilha. De pé, alguns pares esperavam. Um amador de _salsifrés_, Justino Soares, por vocação, andarilhava, combinando _vis-á-vis_. O Peres, poisando o braço direito sobre os hombros do capitão Lamprêa, avançou na sala, e aproximando-se de Serafina solicitou para o seu velho amigo e condiscipulo a honra de uma quadrilha.
O capitão Lamprêa recuou instinctivamente. Mas o Peres, ao ouvido, dizia-lhe com um sorriso de malicia.
--O que?! Um militar portuguez não recua nunca!
Serafina acceitára com muito gosto: que sim, que tinha muita honra.
O Peres disse ao capitão Lamprêa que lhe ia arranjar _vis-á-vis_.
Mas n'isto ouviu-se tocar uma corneta, e o capitão Lamprêa, voltando-se rapidamente para D. Serafina:
--Ora esta! exclamou. Chama-me o dever. Já não tenho tempo de dançar! Que contrariedade! Mas á volta, minha senhora, terei a honra e o prazer de dançar com v. ex.ª
Fôra providencial aquella corneta tocando a recolher.
E D. Serafina, durante quinze dias, perguntava com um sorriso de agradecimento ao Peres de Leiria:
--Quando volta o seu amigo capitão?
CHRONICAS DE VIAGEM
IX
Na Ericeira
N'esta bella Ericeira, á beira mar plantada, faltam principalmente duas cousas... além de outras muitas: não ha flores nem passeios.
Um namorado, se tem imaginação botanica, não encontrará facilmente, para offerecer á sua dama, nada melhor do que uma _perninha de manjarico_, como dizem os saloios.
Quanto aos passeios, são pouquissimos: a estrada de Cintra, incompleta; a de Mafra que, á sahida da Ericeira, é muito ingreme. Restam S. Sebastião e as Furnas, que são o pão nosso de cada dia, pela simples razão de não haver por onde variar.