Chronicas de Viagem

Part 2

Chapter 23,905 wordsPublic domain

Avista-se Maiorga, avistam-se casaes alvejantes, frescos e claros, brilhando na palpitação suave da verdura, levemente batida por uma pontinha de ar refrigerante. A agua corre nos campos, em ondas de abundancia, entornando diamantes ao saltar de pedra em pedra, como uma princeza louca, que vae estragando thesouros. E o arvoredo põe no solo branco e crú grandes manchas de sombra, que parecem ligar-se caprichosamente pelos seus contornos irregulares, phantasticos.

Surge-nos á margem da estrada outra fabrica, de louça, dando-nos a conhecer que vamos entrando n'um concelho vitalisado pela industria, laborioso e rico. Depois as primeiras casas da povoação, brancas e baixas, enfileiram-se em linha, correndo a par da diligencia, e um palacio, dominador e vasto, abre á luz sobre a estrada as suas janellas em longas series parallelamente dispostas.

Vejo, de relance, sobre um cunhal de muro o letreiro que diz: _Rua de Frei Fortunato_. E penso n'este nome. Emquanto a diligencia roda, lembro-me que aquella rua memorará frei Fortunato de S. Boaventura, alcobacense, miguelista acerrimo, polygrapho fecundo, author da _Historia chronologica e critica da real abbadia de Alcobaça_. E d'ahi talvez não seja; mas aposto que será esse mesmo, o de S. Boaventura.

A diligencia entra n'um triumpho de estrondo e poeira--egual a todos os outros triumphos--no Rocio de Alcobaça, e á nossa esquerda, como um leviathan de pedra, ferido pelo arpéo do vandalismo, o mosteiro avulta na sua vastidão enorme, fria e dura, remendado, propinado, cuspido na face vetusta pela antiguidade e pelo progresso.

A egreja, encravada no mosteiro, exhibe n'uma confusão chaotica os seus numerosos estylos architetonicos, especie de _bric-á-brac_ de todas as grandezas de um passado extincto, e por entre as pedras e as imagens que negrejam como carvões contrastam remendos de cartão branco, farrapos de pedra nova, fazendo lembrar uma capa de pedinte pendurada do alto das torres, e aberta ao sol.

Imaginem que visitando um dia a feira da ladra se recordaram subitamente de D. Affonso Henriques ao vêr um capacete de armadura posto sobre uma farda de soldado da guarda municipal.

Foi o que me aconteceu.

D. Affonso Henriques passou por ali, e plantou um mosteiro. Mas veio depois a invasão de Miramolim, e derrubou-o. Poz-se uma estaca á arvore partida, e a arvore renasceu. Vieram ainda depois os caprichos realengos, os accrescentos anachronicos, os terremotos, os raios, e D. Affonso Henriques, se voltasse a este mundo, não conheceria a sua bella arvore de pedra, plantada em honra de Nossa Senhora, por memoria do feito de Santarem.

Aberta a porta do templo, talhada em arcos ogivaes, as suas vastas tres naves alongam-se n'uma fria extensão silenciosa, e ao fundo a capella mór, em semi-circulo como todas as charolas das grandes basilicas, esfuma-se n'um como nevoeiro, que duvidosamente deixa entrever columnas e imagens.

Á esquerda, uma porta abre sobre a chamada _casa dos reis_, que se nos patentêa com os seus altos azulejos allegoricos, o seu caldeirão bojudo de Aljubarrota e as suas estatuas grotescas, de reis antigos, presididas por Affonso Henriques, recebendo a corôa, curvado aos pés de S. Bernardo, essa _montanha de santidade_, como lhe chamou frei Luiz de Souza.

Á ilharga de Affonso Henriques, n'uma prateleira, um pequeno busto, em gesso, de D. Pedro V, põe n'essa galeria de antigas estatuas de reis, modeladas ao natural, uma nota acre do contraste moderno, mostrando como os reis teem ido perdendo na grandeza da sua exhibição...

Tudo o que em Alcobaça é moderno, é atroz: especialmente o vandalismo.

É verdade que os francezes roubaram todas as alfaias valiosas do mosteiro; que abriram sacrilegamente os tumulos de D. Pedro e de D. Ignez, para arrancar aos cadaveres as suas ricas vestes reaes; mas, em nome da liberdade, os indigenas foram depois roubando, a exemplo dos francezes, as reliquias e as pedras, indifferentemente, os santos e as cantarias; a verdade é que os governos do fim do seculo não são menos vandalos do que os francezes do principio d'elle, porque não tardará muito, talvez, que toda a abobada do templo, já fendida, desabe.

Aquelles dois tumulos que, entre outros, se encontram n'uma capella do cruzeiro, estão immensamente divulgados pela photographia, pela gravura, pela poesia, mas hão de ser eternamente o assombro de quem visitar Alcobaça, porque tudo n'elles é grandioso e sublime, desde o mais subtil pormenor dos arabescos até ao doce perfume de amor que parece exhalar-se desses dois sarcophagos, como do calix de dois lyrios brancos sempre frescos...

CHRONICAS DE VIAGEM

IV

Os tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro

Aqui temos pois deante de nós, como dois lyrios brancos de marmore, os sarcophagos de que parece exhalar-se, como um perfume fugitivo, a lenda medieval d'essa grande catastrophe amorosa.

Da historia d'esses tragicos amores pouco se sabe ao certo, mas a lenda embala a nossa imaginação desde os primeiros annos da infancia; todos a conhecemos, e todos a acreditamos.

Sabemos o que nos disse Camões, que copiou a tradição legada por Garcia de Rezende, servindo-se ás vezes das mesmas phrases. E, verdade verdade, n'este moribundo seculo de reconstrucções historicas, nenhum documento que fizesse luz e que fizesse fé veio a lume para esclarecer a tradição dos amores de Ignez de Castro.

Camillo Castello Branco tem na sua pasta, recolhidos e colleccionados, materiaes importantes, que farão revelações de alto valor sobre esta nublosa questão historica; mas, infelizmente, não poude ainda dispôl-os, ligal-os, conglobal-os n'um livro, que deverá causar sensação quando apparecer.

Todos temos caminhado até hoje ao capricho das incertezas da lenda, que ora faz de Ignez de Castro um caracter perfido, ora um caracter angelico, segundo a lenda é recolhida n'esta ou n'aquella provincia.

Nem a propria individualidade de Ignez de Castro está fixada ainda historicamente; e os pormenores dos seus amores com o infante D. Pedro, depois rei de Portugal, envolvem-se n'uma especie de via-láctea romantica, de veu poetico atravez do qual não foi possivel ainda descortinar com segurança a verdade.

Mas seja qual for a historia d'esses pormenores, qualquer que venha a ser a liquidação definitiva d'esse acontecimento historico, o que não póde pôr-se em duvida, deante dos dois sarcophagos de Alcobaça, é que houve n'esses amores todo um idyllio de sublime poesia do coração, todo um drama vibrante de sentimento, poetico e grandioso.

Seria preciso que no animo duro de um tal homem como D. Pedro I houvessem cantado e raivado todas as doçuras e todos os desesperos do amor para que elle phantasiasse a fabrica delicadissima d'esses dois tumulos tão similhantes nos traços geraes da sua tonalidade artistica, e tão irmãos na homogeneidade da expressão sentimental que a pedra conserva ainda atravez dos tempos.

Foi elle que planeou a construcção d'esses dois sarcophagos, diz a tradição, e que para um d'elles ordenou fosse removido desde Coimbra o cadaver de Ignez, ficando o outro vazio, á espera que soasse a hora de o ir povoar na solidão eterna da morte...

Assim devia ter sido; assim foi decerto. Dil-o a pedra dos sarcophagos mais eloquentemente do que as chronicas. Só o amor poderia ter inspirado a concepção d'esses dois tumulos monumentaes; só um fino amante, como se diz fôra D. Pedro, poderia ter mandado fabricar esses dois leitos de marmore para um noivado infinito, insaciavel.

Houve no espirito de D. Pedro uma preoccupação dominante, que elle fez comprehender ao esculptor: que a posteridade visse bem n'essa figura de mulher, lavrada a vulto sobre o sarcophago, uma rainha posthuma, e um anjo torturado. A corôa, o manto, as armas reaes de Portugal testemunham claramente que jaz ali uma princeza em toda a pompa funebre da magestade real. Os anjos, ronflando as azas, de joelhos, e sustentando as almofadas de marmore sobre as quaes a cabeça de Ignez repousa, deixam comprehender que essas duas creanças aladas estão alli acarinhando uma irmã que passou pelo mundo soffrendo, e que partiu sorrindo...

Aos pés de Ignez, enroscado n'uma indolencia amortecida, um lebreu, symbolo da lealdade, representa como que a firmeza d'esse amor inconsolavel, a constancia d'essa dedicação heroica, parecendo chorar em silencio, na tristeza de uma grande dôr, como se fosse o proprio coração de D. Pedro.

Nenhum outro symbolo teria ali logar mais proprio nem mais exacta representação. O que esse pensativo lebreu exprime não o poderia dizer nenhum poema, nenhum epitaphio. É por isso que o symbolo se repete no tumulo de D. Pedro: bellamente esculpturado, um grande cão de marmore vigia atravez da eternidade aos pés do rei amante, como para significar que o seu amor sobreviveria ao aniquilamento do coração, quando o cadaver do rei baixasse a descançar n'aquelle seu ultimo leito.

A luz triste, coada atravez da verdura das arvores, que entra na capella, põe uma nota de doce e delicada melancholia no ar silencioso; e em torno dos dois sarcophagos alguns tumulos de reis e infantes affiguram-se nos mesquinhos, e como que perdidos na irradiação absorvente d'aquelle poema de amor, feito de dois blocos de marmore, que o espaço separa, mas que o pensamento une.

Depois da visita aos tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro sente a gente que nenhuma outra commoção poderá brotar dentro das paredes do templo ou do mosteiro. A casa das reliquias, que aliás brilham pela sua ausencia, o claustro, a farrapagem hybrida de remendos architectonicos que no edificio se atropellam e baralham, a vastidão glacial dos pavimentos e das paredes, o latim barbaro dos epitaphios, as largas fendas que por toda a parte ameaçam ruina imminente, todo esse espectaculo ao mesmo passo apparatoso e maltrapido de um monumento que se desconjunta, não consegue apagar no nosso espirito a impressão dolente que nos deixaram os dois tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro e que continúa soluçando no nosso coração como o murmurio de uma fonte ou o rythmo de uma elegia.

O que está em volta de nós é já uma coisa muito differente, é a devastação do antigo pela invasão do moderno, é o mosteiro convertido em quartel, em tribunal, em escola, em habitação particular, é o vaso de barro, aqui fendido, ali modernisado, mas todo elle profanado, que contém ainda dentro em si dois lyrios brancos de marmore, que guardam nos seus calices rendilhados o aroma subtil de uma grande paixão antiga.

Tirassem de Alcobaça esses dois sarcophagos, e não valeria a pena lá ir.

O que falta n'esse colosso de pedra que se chama o convento de Mafra, para de algum modo o vitalisar na sua inutilidade monumental, para lhe dar uma pulsação, um toque de vida, uma scentelha de espiritualidade, é um poema de amor como aquelle que se perpetua sob as abobadas rôtas do templo de Alcobaça, salvando-o do esquecimento.

Nenhuma brisa refrigerante de sentimento, de poesia, de nobreza immaterial passa por aquella aridez pesada de Mafra para suavisal-a um pouco. Tudo ali é frio como o coração de D. João V, resistente como a sua voluptuosidade nunca farta, dispendioso como a enormidade dos seus caprichos egoistas, pessoaes...

A Alcobaça aconteceria a mesma coisa, porque o edificio é no tom geral da sua architetura tão carregado e monótono como o de Mafra, se não tivesse a espiritualizal-o esse romance cavalheiresco que se encerra nos dois tumulos da capella de S. Vicente, e que atravessa o nosso espirito como uma onda de éther, elevando-se para as alturas.

Do mais que eu vi em Alcobaça, na egreja e no mosteiro, não vale a pena fallar.

Ha muita gente que se encanta vendo a cozinha, onde bois inteiros podiam ser assados, sem que os cozinheiros corressem o risco de acotovellar-se, e onde a agua corria de numerosas torneiras cahindo sobre bellos tanques de marmore n'uma abundancia torrencial, diluviosa.

Francamente, só de alongar os olhos pela cosinha de Alcobaça me senti enjoado, indigesto, como se estivesse a olhar para uma grande escudella de orelheira com feijão branco.

Todas as materialidades fradescas do mosteiro passaram sem relevo pelo meu espirito, perdendo-se na vulgar noção de egoismo e opulencia que caracterisavam por toda a parte certas ordens monasticas.

Sahindo do mosteiro, onde o cheiro a bolôr é acre e irritante, banhei os pulmões com delicia na frescura oxigenada que se exhala do arvoredo dos antigos coutos, onde a agua canta pagãmente o velho poema mythologico da Mãe-Terra, _Alma-Mater_, fonte perenne de abundancia, rasgando eternamente o seio fecundo para alimentar os filhos ephemeros.

E uma hora depois, dentro da diligencia do Gallinha, que rodava para a estação do Vallado, vinha eu dizendo ao meu bom amigo Carrilho:

--Mas que diabo de auctoridade temos nós para queixarmo-nos do vandalismo dos francezes, se ainda somos mais vandalos do que elles?!...

CHRONICAS DE VIAGEM

V

Em Obidos

Ha muitos annos que eu conhecia de nomeada o Padre Antonio das Caldas.

Ouvia dizer que, sem menospresar os seus deveres sacerdotaes, era um homem de sociedade, amavel e jovial, intelligente e insinuante.

As senhoras que voltavam das Caldas da Rainha vinham contar agradabilissimas impressões d'esse homem estimadissimo, cujo talento se repartia por multiplices aptidões:

Padre Antonio orador sagrado;

Padre Antonio valsista;

Padre Antonio cantor;

Padre Antonio poeta.

Eu fui este anno para as Caldas com um grande desejo de conhecer este bom Padre Protheu, que se fazia estimar de toda a gente pelas variadas modalidades do seu talento.

Quarenta e oito horas depois de eu ter chegado ás Caldas da Rainha, um amigo meu, acompanhado por outro cavalheiro, ia a balbuciar algumas palavras de apresentação, quando esse outro cavalheiro, para mim desconhecido, o interrompeu dizendo:

--Nós somos amigos desde creanças: Eu sou o Padre Antonio das Caldas. Teriamos nós dez para onze annos quando nos encontrámos pela primeira vez, na Foz do Douro, em casa de Joaquim Corrêa de Oliveira, de S. Pedro do Sul. Lembra-se? Nunca mais me esqueceu a sua physionomia. Vi-o uma vez em Lisboa, em S. Bento, e você acabava de sahir justamente no momento em que eu o ia procurar. Dê cá os seus ossos.

Encantado com a surpreza, dei-lhe os meus ossos, e a minha amisade. Uma hora depois, estávamos de pedra e cal,--para a vida e para a morte.

Padre Antonio, com ser das Caldas, vive em Obidos, onde tem capellania.

Sabendo isto, fallei-lhe logo de Obidos e dos quadros da celebre Josepha de Ayalla, que eu desejaria vêr.

Padre Antonio respondeu:

--Isso arranja-se. Você vae almoçar comigo um dia d'estes, e eu mostro-lhe Obidos de _fond en comble_.

E como eu hesitasse, acrescentou:

--Sim, snr. Você vae almoçar comigo e eu dar-lhe-hei para almoçar a vacca e riso de frei Bartholomeu dos Martyres. Serve-lhe?

--Serve-me que apenas me mande servir a supradita vacca e o sobredito riso do sobredito arcebispo. N'essas condições, acceito.

--Está tratado.

Padre Antonio quiz dar-me para esse almoço um excellente companheiro: o meu velho amigo Pereira Carrilho, com quem em menos de quinze dias fiz uma larga serie de passeios: á Nazareth, a Alcobaça, á Figueira, á Foz do Arelho e a Obidos.

E, note-se, não perdemos um dia de aguas. Digo isto aqui para que o meu medico, e tambem velho amigo, dr. Ferrer Farol, não ralhe comigo na volta a Lisboa. Não, snr. Eu tomei sempre a minha agua, eu tomei sempre o meu banho, e não perdi occasião de passeiar,--para de algum modo coroar a obra therapeutica do dr. Farol.

Se fosse n'outro tempo, ter-me-ia custado ter que abandonar á noite o club das Caldas, onde a valsa era adorada com idolatria.

Mas com trinta e oito annos ás costas--o peso de uma cruz!--a valsa seria para mim um _tour de force_ incomportavel, um calix de agonia.

Nada d'isso. Nas Caldas da Rainha não provei d'esse calix, nem do chá do club. Não ingeri lá outros liquidos além da agua da Copa e do vinho das Gaeiras.

Quanto a solidos, já não posso dizer outro tanto, pois que prestei, como devia, gastronomica homenagem ás cavacas das Caldas.

E, ao comel-as, reconheci que ainda vale muito, n'este mundo, ter uma lenda.

É que as cavacas das Caldas teem mais lenda do que assucar.

Nós, os dois convidados para o almoço de Obidos, recebemos da mão do _honorable_ Sebastião da Copa o nosso copinho de agua das Caldas, e, entrando para um trem, partimos caminho d'Obidos.

A manhã estava serena, como se dizia nos romances antigos. A neblina matinal levantava vôo do alto dos montes, como se fosse um bando de aves transparentes, de grandes azas abertas. E dos campos vinha esse cheiro sadio a ervas verdes e viçosas, que faz a delicia dos pulmões. A estrada é excellente, se bem que nem sempre plana. Obidos fica muito elevada, dentro das ruinas do seu famoso castello: a estrada sóbe colleando como uma serpente.

Avistava-se já a muralha do castello, que era enorme, rota em muitos lanços, alguns dos quaes escancaravam para o azul da manhã a sua hyante goella de pedra.

Horisontalmente, desenhavam-se, ao longe, os arcos do extenso aqueducto de Obidos, atravez dos quaes a luz passava como n'uma vista de scenographia.

E em baixo, á beira da estrada que iamos seguindo, cada vez se avisinhava mais de nós a egreja do Senhor da Pedra, denunciando logo na sua construcção a mão dadivosa de D. João V.

E o nosso apetite, espicaçado pela agua das Caldas, ia cantando gloria antecipada em honra do almoço de Padre Antonio.

Não era assim, Carrilho?

Entrámos a velha porta do castello, que conserva o seu feitio antigo.

E logo o estrondo do trem attrahiu ás janellas dos predios, arrimados contra a muralha ou encravados n'ella, caras curiosas, petrificadas de surpreza, justificada surpresa n'aquella solidão montanhosa, que raros _touristes_ visitam, áquella hora, especialmente.

O nosso trem parou um pouco ao acaso. E nós dissemos ás caras das janellas e ás caras das portas que iamos alli sobrescriptados para o snr. Padre Antonio.

Então uma voz, cahindo do alto de uma janella, disse:

--O snr. Padre Antonio foi caçar perdizes para os senhores almoçarem.

A minha consciencia bradou mentalmente:

--Maroto! O que elle nos tinha promettido era a vacca e riso de frei Bartholomeu dos Martyres; nunca as perdizes de Padre Antonio d'Almeida!

E o meu apetite, que tem bom ouvido, replicou do lado:

--Deixa lá! Não ha, para almoçar, como uma perdizinha fresca. O Padre sabe disto...

Apeiámo-nos, e entramos na primeira egreja que se nos deparou aberta. Em Obidos ha, principalmente, egrejas e ruinas. Além d'isto, ha tambem bellas perdizes, que Padre Antonio caça. Mas isso fica para logo...

Ora n'essa egreja havia muitos e grandes quadros.

--Cá estão elles, dissemos nós, os quadros da Josepha!

E eram. Estavamos, sem o saber, na egreja de Santa Maria Maior.

Assumptos sacros, que foram os que mereceram a predilecção de Josepha d'Ayalla. As suas duas _maneiras_, antes e depois da viagem a Italia, estão bem accentuadas n'esses quadros. A segunda _maneira_,--depois da viagem,--accusa um sensivel progresso pela imitação dos pintores italianos da Renascença. Pelo menos, pareceu-nos isto.

Josepha de Obidos tem decerto defeitos como artista. Mas as cabeças das figuras dos seus quadros estão, por via de regra, excellentemente tratadas. Era uma habil retratista, que sabia tocar as physionomias com grande verdade e expressão.

Áquella hora, a luz não nos ajudava muito; a melhor hora, disse-nos depois Padre Antonio, seria o meio dia. Ainda assim, estudamos os quadros durante longo tempo.

Uma mulher que estava rezando, levantou-se para dizer-nos:

--Quem sabe explicar tudo isto é o snr. Padre Antonio, mas elle foi caçar perdizes para uns hospedes, que talvez sejam os senhores.

Que sim, que eramos nós; e que as perdizes e Padre Antonio já iam tardando... todos.

--E aquelle tumulo? De quem será aquelle bello tumulo, de tão primorosos ornatos, que alli está mettido na parede?

A beata:

--Que o snr. Padre Antonio, quando viesse com as perdizes, explicaria tudo cabalmente.

E então, n'um reccanto do templo, dentro de um caixãosinho de madeira, deposto sobre um banco, vi o cadaver de uma creança, os braços magrinhos encruzados, um lenço branco sobre o rosto, flores aos pés e no vestido.

O cadaver do uma creança! Pois póde haver nada mais triste do que o espectaculo d'uma creança morta?! Que se morra cançado da vida, vá. Mas fazer palpitar tres corações, os dos paes e o do filho, para ferir todos tres de um só golpe, chegaria a ser cruel, se Deus não fosse infinitamente bom!...

N'isto sentimos passos; voltámos-nos. Era Padre Antonio que chegava, em fato de caçador, com dois cães que o farejavam.

--Que as perdizes já estavam a cosinhar-se, tenras e gordas. Era o melhor almoço que um caçador podia dar. Tinha promettido, confessava, a vacca e o riso do frei Bartholomeu dos Martyres. Da vacca tinha mandado fazer _beefs_. O riso trazia-o alli, nos labios, e era patriarchal de hospitalidade sincera, como no Oriente... Mas as perdizes quizera-as ir caçar n'aquella manhã o seu amigo caçador Antonio de Almeida, para mandal-as ao Padre, que esperava hospedes para o almoço. Elle não tinha culpa de que o seu amigo caçador, apesar de lhe estar dentro da propria pelle, se lembrasse de lhe fazer um presente de perdizes para o almoço e como Padre Antonio, que fôra quem as recebera, tinha gente de fóra para almoçar, pedia licença para mandal-as pôr na mesa com molho de _villão_. E que depois lambessem os beiços... Estava certo d'isso.

Padre Antonio explicou tudo: os quadros, o tumulo, a historia d'aquella egreja, tudo.

E a mulher:

--Que ella bem nos tinha dito que não havia para explicar Obidos inteira como o snr. Padre Antonio!

E Padre Antonio:

--Que ficasse com Deus, que nós iamos ao castello.

Fomos ao castello, subimos á torre de menagem.

Padre Antonio explicava todas as ruinas, a lettra de todas as inscripções apagadas, a historia de todas as pedras cahidas.

E, no alto da torre de menagem, estendendo o braço direito no ar:

--Aquelle logar chama-se assim; aquelle monte chama-se assado. Acolá era a Quinta das Flores, para regalo das rainhas. Aqui, n'este mesmo sitio, esteve a Senhora D. Maria Pia de Saboya. Eu vinha da caça tambem com o meu fato de caçador, ainda a pensar nas perdizes. E chamaram-me cá de cima: era o Pindella. Que sua magestade queria fallar-me. Tudo menos isso: estou em fato do caçador. Que assim mesmo havia de ser. E foi... Olhe lá: Vê aquelle azul, além? É a lagôa. Você já foi á Foz do Arelho? Pois eu vou ámanhã para lá. Morro por aquillo; gosto de estar só na Foz. Faço-me pescador, e gosto! Nem já me lembro das Caldas. A Foz é melhor, por que eu na Foz sou selvagem: vivo na natureza. Ora, com a breca! as perdizes já devem estar promptas... Vamos lá almoçar... Ó Pimentel, tome cuidado; veja que não caia. A rainha subiu e desceu intrepidamente; não cahiu... Com molho de _villão_ as perdizes não devem estar más.. Vão sendo horas. Até já os cães querem almoçar!...

Padre Antonio vive na unica hospedaria que ha em Obidos, e foi ahi que nos offereceu, não o promettido almoço de frei Bartholomeu dos Martyres, mas um banquete de Lucullo.

A cada prato que ia chegando, eu e Carrilho protestavamos. O medico da villa, que tambem estava á mesa, ria-se. Padre Antonio procurava atabafar os nossos protestos fallando insistentemente de coisas d'Obidos:

--Na Misericordia, aonde logo havemos de ir, tambem ha quadros da Josepha... Que o Malhão, o grande prégador, era d'alli. Na familia Malhão havia, além do pregador, outro homem de letras.

E levantou-se, foi buscar um livro: _Vida e feitos de Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão, Lisboa, 1794_.

Serviam-nos n'esse momento magnificos linguados fritos.

--Se eu sabia a lenda romantica da capellinha da Porta de Nossa Senhora da Graça? Historia de uns amores infelizes.

Serviam-nos vitella de fricassé.

--Que no dia seguinte tinha que prégar nas Caldas...

E o medico:

--Você tambem vae cantar ámanhã á _mátinée_ promovida pela marqueza de Monfalim?