Part 1
E-text prepared by Pedro Saborano
ALBERTO PIMENTEL
CHRONICAS DE VIAGEM
PORTO
OFF. DE MOTTA RIBEIRO
215, RUA DE S. LAZARO, 215
CHRONICAS DE VIAGEM
ALBERTO PIMENTEL
CHRONICAS
DE
VIAGEM
PORTO TYP. E LYT. A VAPOR DE EDUARDO DA MOTTA RIBEIRO 215--RUA DE S. LAZARO--215
1888
Ao conselheiro
Antonio Maria Pereira Carrilho
MEU ANTIGO E DEDICADO AMIGO
COMO RECORDAÇÃO DAS AGRADAVEIS EXCURSÕES
QUE JUNTOS FIZEMOS
NO VERÃO DE 1888
Offereço.
_Alberto Pimentel._
CHRONICAS DE VIAGEM
I
Nas Caldas da Rainha
Na quarta feira de manhã, o comboio em que eu vim para as Caldas da Rainha regorgitava de viajantes.
E desde quarta feira não tenho visto senão chegar ás Caldas gente, gente, gente!
Os hespanhoes vão mandando os seus primeiros contingentes, e d'aqui a poucos dias chegará o grosso do exercito.
Principia a ouvir-se já esse infatigavel chalrar das hespanholas, que ao longo da alameda vão agitando a ventarola e... os quadris, passando como um bando de cigarras palreiras, seguidas de grande numero de cigarrinhas não menos garrulas do que as suas mamãs de olhos pretos e os seus papás de _patillas_.
Muitas caras de Lisboa: pessoas da alta finança... com dyspepsia; e da grande roda... com rheumatismo.
Algumas pessoas da provincia, com ar de principes que viajam sob incognito.
Toda esta humanidade, mais ou menos espectaculosa, que passeia no Olympo da alameda, de tridente na mão, desce do alto da sua importancia ao razo da fragilidade do barro commum, logo que entra as portas da Copa.
Ahi, perante as aguas, são todos eguaes.
Portuguezas de chapeus de palha, hespanholas de mantilha, janotas do Chiado, anciãos venerandos, sentados em torno da casa das pulverisações, voltados contra a parede, de bocca escancarada, n'uma immobilidade paciente, deixam penetrar na garganta, em pequenissimas gottas de agua do tamanho de missangas, a aspersão d'esse hyssope therapeutico, que os ha de benzer... para o inverno.
Vêl-os alli e imaginal-os devotos romeiros que estão collando os seus labios a uma nascente milagrosa de agua de Lourdes, é tudo uma e a mesma coisa. Reverentes deante da torneira, de _bibe_ de borracha em volta do pescoço e toalha de algodão sobre os joelhos, parece entoarem mentalmente um hymno védico em honra e louvor da agua das Caldas: «Gloria a ti nas torneiras, ó milagrosa agua, que borrifas a minha garganta, desces pelo meu esophago, penetras no meu corpo! Abençoada sejas tu e mais os sagrados Pintos Coelhos da medicina, que mandam que a gente te sorva em pequenas doses, tal qual como em Lisboa!»
Mas, feita esta oração naturalistica, as damas, os janotas, os anciãos arremessam com desdem o seu _bibe_ de borracha, sacodem a toalha de algodão, e readquirem, á sahida da Copa, o seu bello ar mundano, parecendo dizer aos platanos da Alameda: «No reino animal, a que temos a honra de pertencer, não somos nada inferiores a vós outros, senhores ornamentos do reino vegetal!»
E as andorinhas, que nas Caldas são em numero prodigioso, esvoaçando de platano para platano parece dizerem lá de cima: «Como v. ex.ª está fresco com as aguas! Viva v. ex.ª, e não falte cá para o anno!»
Deante do Sebastião, que ministra os copinhos de agua das Caldas com a mesma gravidade com que Ganimedes devia servir Jupiter á mesa dos deuses, toda a gente tem um vago estremecimento do espirito, seja porque o Sebastião represente a saude ou a diplomacia, pois que realmente a saude é a diplomacia com que a gente quer tratar o corpo, e a diplomacia é a saude com que as nações pretendem curar as suas mazellas.
É talvez por esta dupla representação que o Sebastião da Copa tem um certo ar solemne, ao mesmo tempo de medico e de diplomata, não sendo elle nada d'isso.
Sebastião, antes de pegar no copo, do o lavar e de o encher, relanceia a sua pupilla verde, n'uma observação rapida mas profunda, pela pessoa que está deante de si.
Estuda-a n'esse relance de olhos e, silenciosamente, como um soberano que dispensa mercês, dispensa elle copos d'agua, servindo-se do seu gesto grave como se fosse um decreto.
Sim! a gente, tambem n'um relance, parece lêr isto nos seus olhinhos verdes: «Eu Sebastião, copeiro por graça de Deus, sou servido servir este copinho d'agua a este cavalheiro que o requer, com a circumstancia tacita de o julgar tolo, porque principia por tomar cincoenta grammas quando devia limitar-se a tomar apenas trinta. Mas eu, Sebastião, copeiro por graça de Deus, que estou sempre ao pé da agua, lavo d'ahi as minhas mãos,--silenciosamente.--Dada de bico callado aos tantos de tal, nas Caldas da Rainha e de copo na mão».
A gente lê este decreto, toma o seu copinho, e sáe a porta. Respira-se então melhor,--como quando se sáe da Ajuda. Até ir repetir a dose ninguem pensa mais no Sebastião, porque é tambem esse um ruim sestro da natureza humana: depois de recebida a graça, ninguem pensa mais em quem lh'a concedeu.
E os que receberam a agua no copo procedem similhantemente aos que receberam a agua em pulverisação, isto é, desoppremidos, _dessebastianados_, espanejam-se ao longo da Alameda rindo, conversando, como se gosassem a melhor das saudes e não tivessem tomado remedio algum ha muitos annos.
A saude, que todos de manhã julgam perdida, reapparece á noite, florescente e agil, na valsa e mesmo no chá, entregando-se resolutamente aos compassos de Strauss e ás bolachas do Club.
Ora este Club das Caldas,--pois que fallei n'elle,--parece-se um pouco com as praças de guerra: é dos primeiros que o occupam. Isto seria inteiramente justo, por direito de conquista, se os primeiros que chegam se limitassem a occupal-o,--mas fazem mais alguma coisa: entrincheiram-se em grupos.
O grupo A arvóra bandeira, fortifica-se, e resiste.
O grupo B hasteia egualmente a sua bandeira, fortifica-se, e... resiste.
Os outros grupos fazem a mesma coisa.
É um entrincheiramento geral.
O melhor que ha a fazer, para tomar posse do Club das Caldas, é vir para cá no S. João.
De resto é preciso escalar, fazer de Affonso Henriques deante de Santarem, trepar de gatas pela muralha, pendurar-se das ameias. A alguns pobres rapazes de dezoito annos, que ultimamente chegaram, temos visto realisar prodigios de acrobatismo caldense para treparem á muralha e arrancarem uma valsa.
E, porque n'essa edade tudo esquece facilmente, depois de tão trabalhosa escalada sentem-se felizes girando em torno do salão, levando presa pela cintura uma dama que lhes custou tanto a conquistar como a formosa Rachel a seu primo Jacob.
N'este caso, e sobretudo n'esta metaphora biblica, o tio Labão é representado pelo entrincheiramento dos grupos entre si.
Ás vezes os Jacobs do Club não dançam precisamente com a prima Rachel, isto é, com aquella dama que elles prefeririam, porque essa tem-n'a o tio Labão fechada a sete chaves n'um grupo. Mas, para não perderem de todo o tempo, vão dançando com a Lia que por muito favor lhes concederam.
A Matta é este anno um pouco abandonada. Não resiste á concorrencia que lhe fazem o Ceu do Vidro e a Alameda, onde agora mesmo, tres horas da tarde de domingo, ha numerosos grupos, conversando, jogando, observando. O amor, como um macaco na floresta, vae saltando de arvore em arvore, e, escondido entre as ramarias, despede settas certeiras, ficando a rir e a baloiçar-se nos ramos...
Com a sua ligeireza simiana ora aponta a um seio turgido, afofado entre cambraias; ora, como que por ironia, dispara contra um peito já sabiamente abroquelado para estes combates.
No primeiro caso, a setta crava-se no alvo, que fica ferido, gottejando sangue ardente.
No segundo caso, resvala no broquel de aço e a dama, vendo cahir no chão a setta, fica dizendo mentalmente: «Para cá vens tu de carrinho!...»
Em duas horas observa-se toda a vida das Caldas; por isso, inteirado da situação, tenho feito pequenas excursões fóra do mundo galante da Alameda.
Fui á Lagôa de Obidos, que eu só conhecia nominalmente dos compendios de chorographia.
Passeio delicioso, por uma bella estrada marginalmente povoada de pinheiros.
Cheguei á Foz do Arelho ao cahir da tarde. A lagôa principiava a esbater-se na penumbra, n'uma doce tranquillidade. Os pescadores recolhiam nas bateiras, que singravam mansamente. Mulheres e creanças esperavam-n'os sentados na areia, mas as creanças, logo que viram aproximar-se um trem, fizeram-lhe um verdadeiro assalto, chegando a engalfinhar-se nas portinholas.
E na grande paz da lagôa a primeira treva da noite ia cahindo como um véo de crepe, lentamente.
Hontem fui de corrida á Nazareth.
Ah! meu Deus! que desillusão!
Caldas da Rainha, 5 de agosto de 1888.
CHRONICAS DE VIAGEM
II
A Nazareth
Acabam de contar os jornaes que ha poucos dias, em Cautterets, os cavallos que puxavam o _break_ de Sarah Bernhardt, assustando-se, na ponte de Renquez, com o estrondo da agua, estiveram empinados sobre o abysmo, prestes a despenharem-se na corrente.
É pouco mais ou menos a historia do conhecido milagre de Nossa Senhora da Nazareth.
E digo pouco mais ou menos porque, sobre o rochedo da Nazareth, foi miraculosamente suspenso á beira do abysmo um cavalleiro, que se chamava Fuas Roupinho, e não um _break_, que conduzisse Sarah Bernhardt.
A razão é simples: No tempo de Fuas Roupinho não havia ainda nem _break_ nem Sarah Bernhardt. O leitor deve ficar convencido da verdade d'esta asseveração historica.
Ora, no milagre da Nazareth, se o cavallo ficou empinado sobre o rochedo, foi porque Nossa Senhora appareceu a soccorrer o cavalleiro, que a invocára.
No caso de Sarah Bernhardt, quem acudiu á portentosa actriz não foi Nossa Senhora da Nazareth, mas a propria Sarah Bernhardt.
No momento do perigo, Sarah, que guiava o _break_, saltou da almofada, poz-se á frente dos cavallos, segurou-os pelos freios, e... suspendeu-os no azul, sobre a torrente...
É tragico!
Póde muita gente lançar este caso á conta das numerosas _blagues_ que o noticiario francez borda todos os dias phantasiosamente em torno do nome de Sarah Bernhardt.
Mas, por muito grande que seja a incredulidade d'essa gente, o caso da ponte de Renquez não me quer parecer menos verosimil do que se me affigurou outro dia a historia do milagre da Nazareth.
Eu, como toda a gente, fui educado a ouvir fallar do milagre da Nazareth, e a vel-o memorado em estampas coloridas, embora grosseiras, que figuram D. Fuas Roupinho, de capinha de tenor e bonnet de penna de gallo, montando um cavallo branco, que, de mãos no ar, se empinava sobre um rochedo imminente ao oceano, o qual oceano fremia em vagalhões, hyante e profundo.
Um veado, de larga armação ramosa, saltava pelo ar, prestes a afundar-se, o qual veado era nem mais nem menos que o diabo.
Nossa Senhora da Nazareth, envolta em resplendores celestes, apparecia no espaço, acudindo solicita á invocação do cavalleiro, o qual cavalleiro era, como já dissemos, D. Fuas Roupinho.
Pessoas que leram os _Quadros historicos_ de Castilho, e n'elle o rimance da Nazareth, sabiam, além d'aquillo, que este caso milagroso occorrera n'uma fresca manhã de setembro, e que o rochedo do milagre estava pendurado sobre o oceano na altura de duzentas braças.
Rompeu-se com o sol a nevoa, E ao resplendor que luziu, Sobre penha, que duzentas Braças pende ao mar se viu
Co'as mãos em vão sobre o abysmo, Trepidar e descair, Ennovelar-se erriçado. Pular atraz, refugir
Um cavallo! e o bom Dom Fuas, Que o remessára até ali, Saltar por terra, clamando: --«Por ti, Senhora, é por ti!»
O milagre da Nazareth fôra posto em oratoria no theatro.
Um rochedo de papelão, suspenso sobre uma torrente de lona azul, apparecia recortando-se ao longe sobre o panno do fundo, que representava a vastidão infinita do ceu.
Um cavalleiro, tambem de papelão, galopava sobre um cavallo da mesma materia prima, em perseguição de um veado que não era mais consistente.
Cavallo e cavalleiro ficavam suspensos sobre o abysmo, e o veado despenhava-se no mar com grande applauso dos espectadores, que jubilavam catholicamente por vêr assim justamente castigado o diabo.
Quando outro dia fui das Caldas da Rainha á Nazareth, evoquei na minha memoria, que ainda não é das peiores, todo o apparato sobrenatural d'essa tradição piedosa, com que na infancia tantas vezes fui acalentado pela velha criada Joanna.
Não sabia eu então onde ficava a Nazareth do milagre, nem me era preciso sabel-o para o crêr.
O que eu a preceito sabia, e não precisava saber mais nada, era que o milagre acontecera, e que lá estava ainda, onde quer que fosse, o rochedo pendente ao mar; e o vestigio sempre vivo de uma pata do cavallo.
Mais tarde a poesia de Castilho revestiu de prestigio, na minha imaginação, a tradição do milagre, e, finalmente, mais de um livro de Julio Cesar Machado, fallando das grandes festas dos cyrios da Nazareth, aguçara-me o apetite de ir um dia, quando podesse ser, ao local do milagre.
Fui. Não era pelo tempo dos cyrios, não havia portanto nem festas, nem romeiros, nem lôas, nem offerendas. Nada d'isso. Mas o que eu esperava que houvesse, n'aquelle dia de agosto em que fui á Nazareth, era o rochedo em cima e o mar em baixo. Isso me bastaria para que eu, encontrando todos os pormenores da tradição em inteira conformidade com as minhas recordações, continuasse a acreditar no milagre com o mesmo prestigio e com a mesma fé.
Fui, com estimaveis companheiros de viagem, que n'esse dia eram tres.
E, não devo occultal-o por vergonha, á medida que da estação do Vallado avançava para a Nazareth, o meu coração não trotava menos do que as miseras pilecas que iam arrastando o _char-á-bancs_.
Não desgostei de vêr de perto a Pederneira, que eu ha annos escolhera para localisar ahi um pequeno conto que, se me não engano, anda impresso no livro _Homens e datas_.
Alexandre Dumas pae diz algures que não podia descrever os logares sem que primeiro os visse. Creio que é n'um dos volumes das _Causeries_. Eu, para em nada me parecer, infelizmente, com Alexandre Dumas, affoutava-me a escolher logares de que algumas pessoas me haviam fallado com certo agrado, motivo por que me não ficavam desagradando tambem a mim.
Ora um d'esses logares fôra a Pederneira.
E a Pederneira lá estava com a sua egreja e com as suas casas, um pouco conforme ao que eu havia imaginado a seu respeito.
Mas já então se via no horisonte o planalto da Nazareth, a que chamam o _Sitio_, e nenhum rochedo avultava tanto, que eu pudesse desde logo gritar aos meus companheiros de viagem: «É aquelle!»
Havia effectivamente alguns rochedos alcandorados á borda do planalto, mas nenhum d'elles destacava por imminente ao mar, como nas estampas coloridas, que tantas vezes eu tinha, quando pequeno, contemplado em credula camaradagem com a velha criada Joanna, a minha velha e querida Joanna.
O que havia em baixo, mesmo por baixo dos rochedos, era a praia,--areia e casas.
Póde a praia ser muito boa para banhos, mas não é para isso que eu quero as praias. Mais uma vez declararei que o meu ideal balnear não vae além da tina e da esponja. Gosto simplesmente das praias para vêr o mar; mas quero vel-o d'alto, que é a unica maneira que a gente tem de contemplar o oceano sem tamanho vexame para a pequenez humana...
É certo que na Nazareth poderia, para vêr o mar a meu modo, subir ao planalto, ao _Sitio_, como lá se diz.
Mas custa tanto subir na Nazareth da praia para o _Sitio_, emquanto o ascensor mechanico não estiver prompto, que é esse um prazer que mal se póde ter todos os dias, pelo incommodo que importa.
Assim, os banhistas da Nazareth teem que contentar-se de vêr o oceano como naufragos que estivessem mettidos dentro d'elle. Parece, pelo menos, que está a gente tomando banho dentro de uma tina, e que dentro d'essa tina está o mar. Não gosto. É um capricho, uma idyosincrasia, mas não gosto. Prefiro a Ericeira á Nazareth, porque na Ericeira a gente vê sempre o mar do alto das _ribas_ ou das _arribas_, como diz a gente da terra, e assim, visto do alto, o mar parece que não deprime, que não esmaga tanto a pequenez do homem.
Mas na Nazareth é possivel que o solo tenha passado por alguma grande commoção, que alguma revoluçcão geologica haja feito recuar o oceano para além da perpendicular do rochedo.
O scenario do milagre póde ter mudado muito desde os tempos da fundação da monarchia até hoje.
Como porém já não encontrei o mar vagalhando debaixo do rochedo, e como o rochedo, visto de longe, não me deu a impressão do milagre, peguei a descrer do milagre por causa do rochedo, Deus me perdôe!
Bem sei que era muito audaz a minha exigencia de querer encontrar tudo como no tempo de D. Fuas Roupinho e na hora do prodigio. Mas assim mesmo é que eu queria ter encontrado ainda as coisas... E quer-me bem parecer que só me haveria contentado inteiramente toda a _mise-en-scene_ do milagre: o cavallo empinado sobre o rochedo, o veado descrevendo na queda uma larga curva, e o mar em baixo, espumoso e vasto. Tal qual como nas estampas.
Fui acima, ao _Sitio_, em trem, para vêr se podia reconstruir, deixem-me dizer assim, o meu ideal da Nazareth mais do seu caso milagroso.
O _Sitio_ é, fóra do tempo dos cyrios, de uma tristeza morta, de uma solidão sepulchral.
Que mau senso teve o diabo! Comprehendia-se que tivesse querido attrahir D. Fuas Roupinho a um sitio deleitoso, infernalmente bello e convidativo. Mas áquelle logar! áquella solidão! Ali não ia ninguem, ali ninguem cahiria na tolice de se deixar attrahir pelo diabo, de mais a mais disfarçado em veado! Ainda se fosse em mulher!...
Eu conheço varias partidas do diabo, que mostram que elle não tem tão mau senso como isso! O diabo é sempre artista nos logros que arma, tão bem armados que os proprios logrados costumam dizer: «Esta só pelo diabo!»
Isto é: só armada por elle.
Desconfiado, parti logo do principio de que Fuas Roupinho se não tinha deixado engodar tão tolamente pelo diabo, n'aquelle sitio, como a lenda dizia.
O rochedo, visto de cima como visto de baixo, continuou a não me dar a impressão do milagre. Vi um signal na pedra, e um rapazito disse-me que era o vestigio de uma das patas do cavallo.
Confesso que me fizera maior impressão,--muito maior!--a cruz de pedra que Santo Antonio, tambem segundo a lenda, riscára com a unha na sé de Lisboa, quando era menino do côro, e o diabo lhe appareceu feito mulher.
--Sim--disse eu quando vi a cruz na sé--devia ser isso... para um santo que quizesse resistir!
Mas na Nazareth, espreitando para o rochedo por cima de um muro que me dava pelos hombros, nenhuma voz disse dentro em mim:
--Sim... é o signal da pata do cavallo. Devia ser assim para um cavallo... que não quizesse cahir!
E a historia do milagre galopava no meu espirito para o abysmo da incredulidade, como o cavallo de D. Fuas Roupinho, na lenda, para o abysmo do oceano.
Mas entrei na egreja, doirada de bella obra de talha, vi a imagem de Nossa Senhora no throno, fixei por alguns momentos a sua rude esculptura, e pareceu-me que bem podia ter sido tudo como a lenda contava...
Quando o homem está de joelhos, sente-se sempre menos propenso á duvida...
Quando voltei ás Caldas, disse a Julio Cesar Machado, que estava lá:
--Olha que tu, com os teus livros, tiveste muita culpa n'esta passeiata que eu fiz hoje á Nazareth. Não gostei...
E elle respondeu-me:
--Aquillo é muito bom quando é pelo tempo dos cyrios e pelo tempo... dos dezoito annos, que foi quando eu vi bem os cyrios...
CHRONICAS DE VIAGEM
III
Alcobaça
Quando eu escrevi a _Porta do Paraiso_, que tão boa fortuna alcançou, como prova o facto de estar hoje em terceira edição, foi na villa de Alcobaça, á sombra do vetusto mosteiro cisterciense, que localisei o principio da novella, a qual depois se desdobra em Lisboa.
Clarinha era d'ali, d'Alcobaça, de cujos vergeis floridos eu fallei sem os ter visto. Foi em Alcobaça que lhe desabrochou no coração o primeiro amor, primeiro e unico de toda a sua vida, o que já então era raro e hoje é rarissimo. Eu não tinha visto os coutos pittorescos de Alcobaça, abundantes de fructas e aguas, de sombras e frescura, mas conhecia-os pela _Alcobaça illustrada_ de Frei Manuel dos Anjos e pela descripção oral, muitas vezes repetida, sempre calorosamente, de um rapaz que era d'ali natural e estava desempenhando no Porto o cargo de guarda-livros da Companhia Viação, a Entre-Paredes.
Ha quinze annos eu conhecia pouco o paiz: um bocado do Minho, outro bocado do Douro, e mais nada. O scenario de que podia dispôr era, pois, muito resumido, acanhado. Depois d'isso é que me pude dar o prazer de _touriste_, e hoje, com excepção do Algarve, conheço menos mal o paiz. A paizagem agreste do Douro abundava já nos meus primeiros livros, de modo que, posto curasse por informações, foi por amor da variedade que eu desferi vôo para Alcobaça a fim de pendurar nos seus arvoredos a minha novella, como um ninho de tristezas brandas, que a minha imaginação, timida andorinha, se propunha fabricar...
Quando se abre o livro, está-se em Alcobaça; assiste-se a um serão de Clarinha: o tio a um lado, a outro lado o primo revolvendo livros.
Não me demorei em pormenores de paizagem; descrevi-a em dois traços, de fugida, porque o que eu queria era achar um sitio de eleição, que fosse ameno e formoso, e cujo nome bastasse ser indicado para que se comprehendesse que n'esse meio geographico não podiam gerar-se caracteres abominaveis.
Eu sempre detestei... o abominavel, então e agora.
Rodaram annos, estive de passagem n'outras localidades, bem menos agradaveis por certo, e sempre me ficava no fundo da alma, como uma violeta antiga, perdida entre as paginas d'um livro, o desejo saudoso (deixem-me dizer saudoso...) d'essa villa opulentamente fradesca, onde eu só mentalmente havia estado alguns dias, com Clarinha, com seu tio e com seu primo, assistindo em espirito a esses doces serões de provincia.
Foi só agora que pude apagar a saudade d'esse desejo.
Quando nas Caldas o revelei ao meu velho amigo Carrilho, elle, que tinha estado poucos dias antes em Alcobaça, disse-me com a sua habitual energia:
--Homem, amanhã, no comboio do meio dia, partimos ambos para Alcobaça.
--Mas lá perdemos nós uma tarde de aguas, e foi para tomar as aguas que eu vim ás Caldas.
Elle replicou:
--Tomaremos as aguas de manhã; de tarde tomaremos Alcobaça. Á noite estaremos a jantar nas Caldas, de regresso. Um passeio que se faz por gosto, vale por um bom remedio.
Fomos. Já tinhamos ido á Nazareth, o que quer dizer que já conheciamos a linha da Figueira até á estação do Vallado. A surpreza, para mim, começava d'ahi por deante.
A planicie verdejante do Vallado, essa immensa campina plana como a palma da mão,--propriedade do snr. Manuel Iglesias,--era para mim o bello prologo da viagem a Alcobaça pela linha da Figueira.
O Vallado é realmente um sitio delicioso, vasto, lavado de um puro ar saudavelmente temperado com o oxygenio dos campos e o iodo do mar, que não fica longe. Principia ahi o grande pinhal de Leiria; uma guarda avançada de bastos pinheiros faz sentinella ao _chalet_ encarnado onde reside um fiscal da matta. Ao longe, dominando a estrada da Nazareth, o morro de S. Bartholomeu, phantasiosamente recortado, com a sua ermidinha entalada entre rochedos, parece olhar desdenhosamente para a planicie infinita que se lhe desenrola aos pés, timidamente, longamente...
Do Vallado para Alcobaça ha diligencias, a tostão por pessoa. É preciso deixar passar o comboio para podermos atravessar a linha. Esperam-se cinco minutos, o comboio parte, e a diligencia do Gallinha parte logo depois do comboio.
A estrada é graciosa, alegre como um sorriso luminoso da natureza, feito de claridade e de verdura. A breve trecho estamos na Fervença, cujo nome provém das suas aguas sulphurosas, e onde um velho portico de propriedade nobre me enleiaria o olhar, se não tivesse de voltar-me logo para vêr o edificio da fabrica de fiação e tecidos, estabelecida alli em 1874.
Sombras, frescura, agua, a flux,--uma estrada que mais parece uma avenida de recreio cortada atravez de uma floresta banhada por nascentes abundantes.