Chronica de El-Rey D. Affonso II
Chapter 3
Os Christãos por esta vitoria ficaram alegres, e mui esforçados, depois de consultarem sobre a milhor maneira que teriam para tomar a Villa, fizeram duas escadas grandes, e com gente darmas que comprio foram logo juntas ao muro para o entrarem, e comessarem de combater o Castello; mas os Mouros com a necessidade que tinham de salvar suas vidas, dobráram suas forças, pelo qual assi com fogo, com pedras, e traves, e setas, que de cima do muro lançavam, afastaram os Christãos longe do muro, em que da uma parte, e da outra foram muitos mortos, e feridos, e porque os Christãos viram que aquella qualidade de combate por a grande fortaleza, e desposição dos muros lhe não socedia como dezejavam, fizeram logo cavas, e minas por baixo da terra para as poerem debaixo dos muros, e postos em contos os derribarem por fogo; mas os Mouros que desto por avizos, ou por conjeituras foram bem sabedores contraminaram as cavas dos Christãos, e uns, e outros com peleja mui crua se encontraram, em que houve muito sangue derramado, e com grandes fogos, e cousas fumosas que os Mouros fizeram, lançaram os Christãos fora das cavas, e pozeram sobre si segura guarda, pelo qual vendo os Christãos que alguma cousa das cometidas de todo lhes não aproveitava, elles, por conselho, e ordenança do Capitão da frota, que era homem engenhoso, e de bom esforço, fizeram logo duas bastidas de madeira muito fortes, e tão altas que cada uma dellas sobejava por cima das mais altas Torres do Castello, donde os combates que nellas poseram iam seguros, e não temiam os danos dos Mouros, e com esto, e com outros engenhos que mais ordenaram, e com muitos bésteiros, e frecheiros commetteram o Castello rijamente por muitos lanços do muro, por cima do qual os Mouros com a força das setas, e pedras que lhe lançavam, não ouzavam parecer nem resistir como dantes faziam, e vendo-se fracos de suas forças, e desesperados já em tudo, de todo o soccorro, e finalmente porque se não podiam suster, fizeram sinal que se queriam render, e sobre seguro, que lhes foi dado, vieram á pratica, e apontamento, em que pediram as vidas, e fazendas, mas as vidas sómente lhe foram outorgadas com segurança das quaes elles abriram as portas do Castello, e assi seguros se sahiram, e foram para onde quizeram, e o Alcaide do Castello, que antre elles era a pessoa mais principal, não se quiz ir com os outros, mas acha-se que da tomada da Villa, a tres dias por sua vontade foi bautizado, e tornado Christão, e os outros Mouros que os Christãos acharam pelas Aldeas, e Lugares de redor todos, se diz que sem resistencia morreram a ferro, e os grandes despojos que da batalha passada se recolheram, e na Villa se acharam foram logo igualmente repartidos sem aventagem dalgum, salvo que ao Capitão de fóra, porque por seu conselho e ordenança o cerco fora sempre regido lhe deram mais déz por prezioneiros, que elle tomára.
E porque ao Bispo de Lisboa não foi sobre elles dada alguma avantagem, que bem merecia, o Capitão da frota a que tal escasseza não pareceo bem, por seu conforto lhe disse: «Reverendo Bispo, posto que vós aqui pelo bem recebeis mal, e pela bondade malicia rogo-vos que a estes homens, que tão mal o conhecem, e fazem sejais paciente, porque o principal galardão que por este trabalho mereceis Deos nosso Senhor que é bom, e justo, e porque bem o recebestes volo dará bom no Ceo, e será melhor que este de cousas da terra». E com esto os Estrangeiros se recolheram a suas frotas, e se partiram para onde quizeram, e o Bispo com os senhores Portuguezes, que ao cerco vieram depois de leixarem a Villa afortalezada, e bastecida, como viram que compria, tambem se tornaram para suas terras, e cazas, e esta tomada de Alcacere em tempo deste Rei Dom Affonso II foi em dia de S. Lucas, a dezoito do mez de Outubro da era de nosso Senhor de mil duzentos e dezasete annos, (1217) e dahi a um anno este Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Orraca sua molher lhe deo foral que agora tem, como por elle parece.
CAPITULO IX
_Como cinco frades Italianos da Ordem de S. Francisco foram a Marrocos a prégar a Fé de Christo, e primeiramente chegaram a Sevilha, que era de Mouros_
Desta tomada Dalcacere até o falecimento Del-Rei Dom Affonso se passáram seis annos, nos quaes se não acha feito que elle fizesse, nem se passasse cousa dina de memoria, salvo que depois em sua vida, e da dita Rainha Dona Orraca sua molher, o Ifante Dom Pedro seu Irmão filho tambem legitimo del-Rei Dom Sancho trouxe a Coimbra os ossos dos cinco Frades Menores, que em Marrocos morreram Martyres, cujo caso segundo a Lenda Santa, que delles se lê, e segundo o que mais delles verdadeiramente se acha foi brevemente nesta maneira. Na Coronica del-Rei Dom Sancho pai deste Rei, falando dos filhos que teve sumariamente disse: que o Ifante Dom Pedro, seu filho, o qual bem acompanhado de nobre gente Despanha passara em Africa, e estivera em muita estima, e grande authoridade com Mirabolim de Marrocos, até o tempo do Martyrio destes Santos Frades, dos quaes se acha por a dita sua Lenda, e por inquirição verdadeira, que o sobredito Dom Matheus, Bispo de Lisboa, delles, e do seu Martyrio, e milagres tirou por testemunhos de muitos, dinos de fé, que com o dito Ifante andaram, e principalmente por um Cavaleiro de Santarem que chamavam Estevão Pires, homem velho, e honrado, e de louvada vida, e costumes que ao dito Ifante sempre servio, que na era de nosso Senhor de mil duzentos e dezanove, (1219) e aos treze annos da primeira conversão de S. Francisco, elle por vontade de Deos, escolheo em sua vida seis Frades de sua Ordem por natureza Italianos, e de maravilhosa santidade, a saber: Frei Vital, e Berardo, Otone, Acurcio, Pedro, e Adjuto, e por saberem bem a lingoa Arabiga os mandou ao Rei, e Reino de Marrocos, que naquelle tempo sobre os Mouros Dafrica, e Despanha tinha o mór Principado, para lhe prégarem, e trabalharem pelo converter á Fé de Christo.
E destes seis Frades fez maioral, e Prelado a Frei Vital, o qual como elle com os outros chegassem ao Reino Daragão adoeceo; e porque vio que sua doença se prolongava por tal que seu mal corporal, o bem, e negocio espiritual, e de Deos não impedisse, mandou que por comprirem o mandado de Deos, e de S. Francisco se fossem a Marrocos, os quaes por sua obediencia o leixaram doente, e se partiram, e chegeram á Cidade de Coimbra onde a esse tempo era a Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom Affonso, a qual os fez ir ante si, e como falasse com elles em cousas de Deos, e nelles visse tão grande desprezo do mundo, e tamanho fervor de morrer por amor de Jesu Christo, e sem duvida os julgou, e houve por mui verdadeiros, e prefeitos servos de Deos, e por esso com grande instancia lhe rogou, que por suas rogações pedissem a Deos que revelasse a ella o derradeiro termo de sua vida, e posto que elles com sua humildade confessassem não ser dinos entender nos segredos de Deos: porém vencidos das devotissimas preces da Rainha, ditas com muitas lagrimas, prometeram-lhe que assi o pediriam, os quaes orando a Deos com firme, e pura fé, não sómente o que da vida da Rainha, mas ainda o seu Martyrio, por revelação de Deos lhe foi tambem senificado, porque logo disseram que os derradeiros dias da vida da Rainha seriam mui sedo quando seus corpos depois de seu Martyrio, fossem de Marrocos ali trazidos, e della mesma Rainha, e de todo o povo com grandes honras recebidos, e assi foi como se dirá.
Partidos os Frades de Coimbra para seguirem sua santa jornada, vieram por aviamento da Rainha Dona Orraca á Villa Dalanquer, onde estava a Ifante Dona Sancha, irmã del-Rei Dom Affonso, que era Senhora da dita Villa, a que tambem revellaram todo o seu proposito; como ella foi Princeza mui santa, aprovando seu negocio ella sobre os habitos da sua Religião que elles traziam lhes deu outras vestiduras seculares, taes, com que mais livres, e facilmente podessem passar a terra de Mouros, e assi com seus habitos desimullados foram á Cidade de Sevilha, que então era de Mouros, onde na pouzada de um Christão, leixados os habitos leigos, por oito dias estiveram escondidos, e acertou-se que em um dia fervendo seu espirito para Martyrio, elles sem guia, nem conselho doutros se foram á principal Mesquita dos Mouros, e como em ella quizessem entrar os infieis, que os viram, e conheceram, endinados contra elles com empuxões, brados, e açoutes, que lhe deram, e por instituto, e costume os não consentiram entrar, e dahi indo-se ás portas del Rei, e sendo ante as ditas portas dos Paços foram levados ante El Rei, e perguntados quem eram? Responderam: que vinham a elle Rei por Embaixadores, e enviados do Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores, que era Jesu Christo, e como ante El-Rei muitas, e mui dinas cousas da Fé Catholica proposessem aconselhando-o para sua conversão, e para receber agoa do santo Bautismo, e com esso muitas couzas feas, e torpes de Mafamede, e de sua seita descobrissem, El-Rei endinado de grande ira contra elles lhes mandava cortar as cabeças, mas amançado por palavras de um seu filho, que era prezente, os mandou meter em uma Torre mui alta junto dos Paços, de cuja altura aos que entravam, e sahiam da caza del-Rei, elles não leixavam de prégar em altas vozes a Fé de Christo, e brasfemar, e mal dizer da Seita de Mafamede, cujos seguidores, e favorecidos diziam que no inferno seriam com tormentos para sempre danados, e anojado El-Rei de suas palavras, e para lhe arredar o azo de as não poderem dizer, os mandou meter no mais profundo da Torre, donde por concelho dos seus vassallos os mandou tirar, e levar a Marrocos em companhia de Dom Pedro Fernandes de Castro o Castellão, de que atraz disse, e ao diante direi, que por odios, e perseguições dos Condes de Lara, não se pode soster em Castella, e duas vezes se passou aos Mouros, e desta derradeira para Mirabolim de Marrocos.
CAPITULO X
_Como os Frades chegaram a casa do Ifante Dom Pedro, e do que logo fizeram, e como foram tornados a Ceyta para virem a terra dos Christãos, e dahi se volveram outra vez a Marrocos_
Neste tempo estava em Marrocos o Ifante Dom Pedro, filho del-Rei Dom Sancho, e irmão deste Rei Dom Affonso, a cuja caza os ditos Frades, e o dito Dom Pedro Fernandes logo chegaram, e o Ifante os recebeo com humanidade, devação, e bom trato, e os proveo de todo o que haviam mister, porque era Principe em virtudes mui acabado, e os Frades como dahi em diante viam quasquer Mouros logo com muito fervor lhes prégavam, especialmente um dia Frei Berardo, que delles era o mais principal, e milhor sabia Arabia, sobindo em um carro, ou lugar alto como pulpito, e prégando a Fé de Christo a muitos Mouros que o ouviam acertou-se que o Mirabolim ia visitar, como tinha de costume, a sepultura dos Mouros Reis, que eram fóra da Cidade, e vendo o Frade prégar, e por elle ser prezente não querer desistir da prégação á sua seita contraria, estimando o por homem sandeo, e por tirar escandalos mandou, que elle com todos os Frades fossem logo lançados fora da Cidade, e sem tardança levados a terras dos Christãos, pelo qual o Ifante Dom Pedro havendo-o assi por bem lhes deu alguns seus servidores, que seguramente os levassem, como levaram até a Cidade de Ceyta, para dahi logo passarem a terra dos fieis.
Mas os Santos Padres não contentes da viagem leixáram as guias, que os levavam, e tornaram-se outra vez a Marrocos, e como chegasseem á praça da Cidade logo aos muitos Mouros, que nella acharam começaram de prégar, louvando os merecimentos da Fé de Christo, e brasfemando dos vicios, e erros de Mafamede, e sua seita, da qual cousa como El-Rei fosse certificado os mandou logo meter em um estreito carcere, onde sem alguma ordenada provizão, nem mantimento dos homens, que houvessem, mas com a só refeiçao de Deos, que houveram. Vinte dias foram encarcerados asperamente, e neste tempo, porque em toda aquella terra sobrevieram mui grandes, e desordenadas quenturas do Sol, e grandes destemperamentos do Ar, alguns creram que estes males poderiam vir pela injusta prizão dos Frades, pelo qual por concelho de um Mouro chamado Abotorim, que aos Christãos tinha amor, e queria bem, El-Rei consentio que fossem livres do carcere, e trazidos ante elle, mandou aos Christãos que logo sem mais detença os mandassem a sua terra.
E porém El-Rei com os outros Mouros não ficaram sem grande espanto, quando viram os Frades tão esforçados dos corpos, e tão constantes das vontades, havendo vinte dias continos, que sem algum mantimento ordenado jouveram no carcere, e perguntados por El Rei: quem os mantivera tanto tempo? Lhe disse Frei Berardo, que como El-Rei bem crece na Fé de Jesu Christo logo saberia como elles sem beber, e sem comer foram no carcere manteudos. E com tudo elles como se viram soltos, logo sem algum medo outra vez quizeram tornar a pregar aos Mouros, mas os outros Christãos, que com elles estavam, receosos da ira del-Rei que com mortes, e cruezas, se estenderia nas vidas de todos, como mostrava, lho não consentiram.
Então lhe ordenaram logo outros homens fieis que os acompanhassem, e levassem outra vez a Ceyta, para dahi passarem a terra dos Christãos, mas os ditos Frades sospirando por seu Martyrio, despedindo-se daquelles que os levavam se tornaram outra vez a Marrocos, onde o Ifante os mandou logo recolher, e encerrar em sua caza com guardas, e defeza estreita, que os não leixassem sahir, porque receava segundo El-Rei de suas pregações se escandalizava, que não sómente mandaria matar os Frades, mas a elle, e a todos os christãos que houvesse na Cidade.
CAPITULO XI
_De um milagre que se fez por causa de Frei Berardo, e como foram presos e atormentados os outros Frades_
E acertou-se que o Mirabolim a este tempo mandou o Ifante Dom Pedro com outros muitos nobres homens de Christãos, e Mouros, que delle tinham soldo fazendo guerra, e sogigar a uns senhores Mouros seus vassallos, que se lhes rebelaram, apoz os quaes Frei Berardo, e os outros Frades, que tiveram maneira de se soltar, logo seguiram, e foram devolta onde se diz, que disputando Frei Berardo com um Mouro ante elles o mais letrado, e venceo, e confundio, e que este Mouro, com vergonha nunca mais tornou a Marrocos, nem depois não pareceo, e tornando o Ifante com os outros Mouros da conquista, que lhes fora encomendada, vieram por uma terra tão seca que por tres dias para si, nem pera seus cavallos não poderam achar em nenhuma parte agoa para beber, e como a estreiteza da sede desesperasse todos das vidas, Frei Berardo era na companhia, feita primeiro sua dovota oração, tomou na mão um piqueno pao com que cavou um pouco na terra mui seca donde milagrosamente logo arrebentou, e sahio uma grande fonte de agoa doce, e mui singular de que não sómente os homens, e alimarias bebiam, e se abastaram, mas ainda encheram muitos odres, que levaram para o caminho.
E como esta necessidade dagoa foi satisfeita, logo a fonte se sarrou, e secou, e por tão grande, e tão manifesto milagre, que de todos foi visto, e Deos por Frei Berardo fizera, todos os do exercito dahi em diante o tiveram em grande devação, e reverencia, e muitos por Santo lhe beijaram os pés, e as vestiduras, e como estes Santos Frades tornassem a Marrocos, e em caza do Ifante fosse por elles posta grande guarda, para não sahirem, e elles toda via sairam, e em uma Sexta feira, que o Mirabolim ia visitar os sepulchros dos Reis Mouros, os Frades sem algum temor, e com grande ousadia se apresentaram ante elle, e sobindo Frei Berardo em um tezo começou de lhe prégar mui sem receio, e como El-Rei os visse, cheo de ira contra elles, mandou a um seu Capitão Mouro que vira o milagre dagoa, que logo lhes cortasse as cabeças, pelo qual os Christãos, que eram prezentes, com temor de suas proprias mortes, logo fugiram dahi, e fechadas, e trancadas bem as portas de suas pouzadas, nellas sem sair jaziam escondidos, mas o Principe Mouro mandou aos homens da justiça que trouxessem os Frades ante elle, e como por duas vezes o não achassem os tornaram a levar a mais aspero carcere com golpes, e bofetadas com que os feriam, e com esso os ditos Frades assi aos Christãos, que se lhe offereciam não leixavam de prégar a palavra de Deos.
E sendo outra vez trazidos ante o dito Principe, e com tanta constancia os visse prégar, e confessar a fé Catholica, e reprovar, e reprehender com muita ouzadia as couzas de Mafamede, e sua seita, acezo da ira contra elles os mandou logo atormentar com muitas, e mui desvairadas maneiras de tromentos, e depois apartar uns dos outros, e em desvairadas cazas onde cruamente os mandou açoutar, e aquelles maos, e crueis ministros atados os pés, e as mãos dos Santos, e com cordas asperas lançadas aos colos delles, e arrastando-os de uma parte a outra pela terra, assi continuadamente, e tão sem piedade os açoutavam, que as tripas lhe apareciam, e sobre as chagas recebidas por acrescentarem mais dor lhe lançavam vinagre, e azeite fervendo, e assi foram por toda a noite atormentados, e açoutados de trinta Mouros, que nelles se arrevezavam, na qual noite daquelles que os guardavam foi visto, que um grande resplandor decendia dos Ceos, e com uma companha sem conto os arrebatavam, e levantavam para cima, e maravilhados desso os Mouros, e de todo espantados, chegando ao corcere acharam os Santos Frades devotamente orando.
CAPITULO XII
_Como El-Rei de Marrocos fallou com estes Frades, e por os não poder converter a sua seita por si mesmo os matou, e como foram mortos tambem Pedro Fernandes, e Martim Affonso Telo, sobrinho do Ifante_
As quaes couzas ouvindo El-Rei de Marrocos, acezo com maior sanha contra elles, mandou que logo lhe fossem levados com as mãos atadas, e descalços dos pés, e depois dos corpos continuadamente açoutados, e espancados, os quaes como El Rei na Fé de Christo os visse tão firmes, mandou dentro meter comsigo certas molheres fermozas, e lançados todos fóra disse: «Convertei-vos a nossa fé, e dar-vos-hei estas por vossas molheres, e com ellas muito dinheiro, e sereis em meu Reino muito honrados.» A que os Frades logo responderam: «Tuas molheres, e teu dinheiro não queremos; porque tudo esto desprezamos por amor de Christo». É então El-Rei arrebatado de maior ira, e sanha, apartados os Santos um do outro, por suas proprias e mui cruas mãos a cada um per si talhou as cabeças por meio das fontes, e apertando na mão tres cutellos, juntamente com uma crueza de besta féra os degolou, os quaes compriram este seu Martyrio a dezaseis dias de Janeiro do anno de Christo de mil duzentos e vinte, (1220) em tempo do Papa Honorio III, em o quarto anno de seu Pontificado, e quasi sete annos antes da morte de S. Francisco.
E depois disto lançados fóra os corpos dos Martyres por as molheres, que comsigo tinham: estes perros barbaros e maos, atando cordas a seus pés, e mãos, os arrastaram para fóra da Cidade, em torno da qual com grandes brados, e pregões os trouxeram, e espedaçados de todos os membros, os leixaram no campo, pelo qual os Christãos, que os assi viram, alevantadas as mãos aos Ceos, louvando a Deos por seu tão glorioso Martyrio, comessaram de apanhar, e recolher as Riliquias dos ditos Santos escondidamente, a qual couza como os Mouros vissem, todos como cães raivosos, tanta multidão de pedras lançaram nos Christãos, que parecia tempestade de sua raiva, mas os Christãos defezos já pelos merecimentos dos Santos, fugindo da ira dos Mouros a suas cazas se recolheram, donde com temor da morte, que antre si traziam, escondidos por tres dias não pareciam, principalmente, porque neste tempo o Ifante mandou a Dom Pedro Fernandes de Castro, o Castellão, que lá era lançado, e a Martim Affonso Tello, seu sobrinho, nobres homens, que com outros muitos andavam em sua companhia, que de noite secretamente fossem ver onde jaziam os corpos dos Martyres para se recolherem, porque foram vistos, e achados dos Mouros, logo os mataram.
CAPITULO XIII
_Como os corpos dos Martyres foram queimados, e despedaçados, e emfim recolhidos por devação, e industria do Ifante Dom Pedro_
Depois desto em um grande fogo, que foi feito no campo, os corpos dos Santos se lançaram por tal, que de todo fossem queimados, mas o fogo por virtude Divina das santas Reliquias assim se apartava, e apagava, como que a materia muito lhe fosse contraira com junto, antes a cabeça de um dos Martyres lançada muitas vezes no fogo, nem nos seus cabelos não pareceo algum sinal de queimadura, a qual assi com a pelle, e cabellos foi mostrada sem alguma corrupção no Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra, mas dos Mouros alguns por amizade, e outros por dinheiro, e proveito, e assi os Christãos, que na Cidade eram cativos, apanhando as Reliquias dos Santos as offereciam ao Ifante, que recebendo-as com grande devação as mandou secretamente cozer, e depois que as carnes se gastaram, e os ossos ficaram limpos, os mandou secar, e encomendou a guarda principal delles a João Roberto, Conego de Santa Cruz, homem em virtudes acabado, e a tres innocentes, moços honestos, seus moços da Camara, dos quaes um foi o Estevão Pires de que atraz disse, que deu este estromento, ca não era algum ouzado entrar onde as sagradas Reliquias estavam em guarda, porque a só sua consciencia de qualquer crime ocultamente commetido logo o reprendia, e acuzava.
E neste tempo um Cavalleiro chamado Pedro da Roza, tendo uma manceba por nome Maria da Roza, como sobisse a um sobrado onde as Reliquias se guardavam logo elle sem se poder mover, e tolheito, bradou fortemente dizendo: «Acorrei-me, acorrei-me, dai-me confissão. A qual como o Conego lha deu, em que de todo renunciou a manceba, logo foi livre dos membros, e pode decer, mas não pode falar até que o mesmo Conego por mandado do Ifante lhe poz sobre o peito a cabeça de um Martyre, com que de todo recobrou as forças, e fala, assi como dantes as tinha, e dahi em diante, assi o Ifante como todos os seus tiveram as Reliquias em maior honra, e devação, das quaes mandou meter as cabeças em uma arca, e os ossos em outra, e as tinham em grande veneração na sua Capela, e ás santas Almas dos Bemaventurados Martyres, cujas Reliquias tinha continua, e devotamente pedia, que de Deos lhe ganhassem graça para sem perigo de sua pessoa, e dos seus, se poder vir para sua terra de Christãos, porque já havia muitos dias que na dos Mouros contra sua vontade se detinha, e estava forçado.
CAPITULO XIV
_Como o Ifante D. Pedro foi tornado a Espanha, e trouxe consigo os ossos, e Reliquias dos Martyres, e as mandou a Santa Cruz de Coimbra, e dos milagres que houve no caminho_
Esta graça pelas preces dos Martyres, foi da piedade de Deos brevemente empetrada, porque estando o Ifante desta sua liberdade assás desconfiado, o Mirabolim de sua propria vontade, e sem requerimento dalguem o mandou chamar, e alegremente lhe deu licença, que para sua terra se viesse quando quizesse, descobrindo-lhe logo as muitas vezes que para sua morte fora de seus principaes aconselhado, e induzido; mas por seus merecimentos, e bons serviços, que fielmente sempre lhe fizera, merecia outro galardão. E com esta licença lhe deu mais suas cartas de passos, para elle, e os seus seguramente poderem passar, com as quaes partiram de Marrocos, e depois de um dia, e uma noite, vieram no caminho dormir a Azora, que era lugar despovoado onde de ferozes brados dos muitos Liões, que ahi ha foram postos em temor de que logo foram livres, como ante si, e os Liões pozeram com devação, e confiança as santas Reliquias, que por sua santidade fizeram tudo quieto, e ao outro dia chegaram a um Lugar em que se apartavam muitos caminhos, e duvidosos de qual era o melhor que tomariam, e o Ifante sospenço, e confiado na santa guia das Reliquias que acompanhava mandou dar a dianteira a uma Azemala que as levava, e houve por bem que aquelle caminho que ella tomasse, todos por milhor o seguissem esperando que elle seria o milhor, e mais seguro.