Chronica de El-Rey D. Affonso II
Chapter 2
E sobre esso para mais tormento del-Rei Dom Affonso de Portugal vieram de Roma por juizes Delegados do Papa a requerimento das Ifantes o Arcebispo de Santiago, e o Bispo de Çamora, que por El-Rei de Portugal ir contra o testamento del-Rei seu padre, e por não desistir do cerco, que tinha posto aos Castellos de Monte mór, e Alanquer, excommungou sua pessoa, e pozeram entredicto geral em todo o Reino, exceituaram sómente as ditas Ifantes, e seus sequazes, e servidores, sobre o qual El-Rei Dom Affonso com rezões, e cousas que achou, e lhe aconselharam de sua justiça se enviou destes procedimentos querelar, e aggravar ao Papa, e pedir emenda del-Rei de Lião, e dos que tinham as Villas, e Castellos de seus reinos forçados, e nelles feitos muitos danos, alegando sobre esso a pouca justiça que suas irmãs tinham nas Villas, e Castellos de seu Reino, com que se levantáram, e dando outras rezões, porque entendia ser relevado da culpa que lhe dava dizendo por sua escuza, que o não obrigava o juramento, e menagens, que fizera de comprir o testamento del-Rei Dom Sancho seu padre, porque o fizera forçado, e por não ser deserdado do Reino, e mais que a esse tempo seu pai não estava em todo seu sizo, e entender verdadeiro, pois tanto contra justiça fizera tamanho enlheamento das cousas do Reino, que não podia fazer.
E o Papa por seu respeito cometeu este negocio aos Abbades Despina, e Vicarria, que fez Juizes Commissairos, os quais vieram a Coimbra onde sobre segurança já praticada, e antre todos concordada, foram tambem juntos El-Rei Dom Affonso, e suas irmãs em pessoas a que os Juizes deram solene juramento porque prometeram estarem todos á obediencia, e detreminação de todo o que elles em nome do Papa ácerca de seus negocios detreminassem, e mandassem, e por este juramento, e promessa que se fez El-Rei, e os seus foram da excommunhão ausolutos, e alevantado o antredicto do Reino. Os Commissairos pozeram antre elles treguas, e seguridade, que todos prometeram guardar, até o Papa finalmente detreminar suas contendas, e debates, e algumas condições das tregoas principaes, eram que os de uma parte, e da outra podessem livremente andar, e tratar por as terras chans uns dos outros, mas que nas Villas, e Castellos cercados não entrassem sem licença dos Senhores dellas, e que tudo podessem, uns e outros comprar, e vender salvo armas, e cavallos, e que ellas Ifantes em algum seu Lugar de Portugal não podessem mandar lavrar moeda douro, prata, nem dalgum metal, que quatro Cavalleiros principais da parte del-Rei jurassem que se El-Rei não guardasse as tregoas que cada um delles com cinco Cavalleiros mais servissem as Ifantes contra El-Rei e cada uma das Ifantes désse outros tantos por si, que com esta condição servissem a El-Rei contra ellas, e mais que El-Rei désse cem homens cazados, e honrados de Coimbra, e que todos lhe fizessem, e pagassem foro, e outros cento semelhantes de Santarem, que jurassem todos fazer sempre comprir esta tregoa, e que não a comprindo El-Rei, que servissem ás Ifantes contra El-Rei, e que ellas por sua parte déssem outros taes, a saber: cento Dalanquer, e cento de Monte mór, para que se ellas não comprissem a tregoa, que servissem a El-Rei contra ellas, e que neste tempo uns, e outros, não cercassem Villas, nem Castellos, nem se fizesse algum mal, sopena de excomunhão, e antredicto, em que elles, e todos los ajudadores, e favorecedores ipso facto encorressem, e com mandado estreito aos Prelados do Reino, que a cada um assi como lhes tocasse as sentenças dos ditos alegados fizessem inteiramente comprir, e executar até o Papa finalmente as aprovar, ou emendar como fosse justiça.
Esta tregoa, se fez em Coimbra na era de nosso Senhor de mil e duzentos e quatorze annos, (1214) dous annos depois que El-Rei começou a Reinar, e logo ahi se fulminou e principiou processo em que a Rainha, e a Ifante cada uma per si segundo os danos que del-Rei seu irmão tinham recebidos, e pelas injurias, e males, que no cerco padeceram, pediam contra elle restituição, e assi segurança perpetua de suas Villas, e Castellos, e gram soma de maravedis, que naquelle tempo era moeda douro assi geral, e praticada como neste agora são na Europa os cruzados, e ducados, porque sessenta delles faziam um marco douro, como já em outras partes tenho dito, e ás petições das ditas Senhoras, veo El-Rei por seu procurador com exceições, e contrariedades, e compensações sobre que de uma parte, e da outra foi dito, e assás alegado, e sobre seus alegados foi o feito concruzo, e os Juizes remeteram a publicação da final sentença para Melgaço, Castello de Portugal no extremo de Galiza, a que mandaram que El-Rei, e as Ifantes fossem por si, ou por seus procuradores, onde no Maio seguinte a publicaram, e foi El-Rei condenado por a dita sentença em grande soma de dinheiro, e doutras emendas, e depois que passou o termo para a paga, assinado, pozeram em El-Rei sentença Dexcommunhão, e assi antredito em todo o Reino, de que logo apelou, e depois de muitos debates, e delongas, que em Roma, e Espanha sobre este caso passaram, que não fazem a realidade da Estoria, finalmente El-Rei, e as irmãs se concordaram por maneira, que as Villas de Monte mór, e Alanquer ficaram com ellas segundo a disposição do testamento del-Rei Dom Sancho seu pai, e as Villas e Castellos, e terras de Portugal, que El-Rei de Lião tinha tomadas foram entregues, e restituidas a El-Rei Dom Affonso. No qual meio tempo que durou esta divisão, e discordia uns e os outros fizeram grandes, e danosas entradas, e muitos roubos nos Reinos, uns dos outros, em que houve pelejas particulares sem alguma façanha de notar, cuja longa, e expressa declaração não ponho ora; porque para a sustancia da Estoria não é muito necessaria.
CAPITULO IV
_Do fundamento que houve para Alcacere do Sal, que era de Mouros, ser cercado, e tomado dos Christãos, e do Bispo de Lisboa principalmente_
Nos primeiros cinco annos que El-Rei Dom Affonso Reinou não se acha, que socedessem outras cousas, salvo as desavenças, e desacordos em que andou com suas irmãs, e irmãos e assi a guerra com El-Rei de Lião, e com suas genetes como já disse, e passados os ditos cinco annos, e andando a era de nosso Senhor em mil e duzentos e dezasete annos os Christãos, que estavam na conquista dultra már por defenção, e recobramento da Terra Santa, tinham muitas necessidades de concorrer ás cruas guerras, e cercos apertados, que dos Infieis padeciam, para o que os Summos Pontifice convocavam, e requeriam todolos fieis Christãos de todalas nações, e vindo por mar a este soccorro muitas gentes Dalemães, e Framengos, e outras de contra o Norte fizeram todos uma frota de cento e cincoenta naos de que eram Capitães principaes Iliquino, Conde Dolanda, e Georgeo, Conde de Frisa, com que iam outros Senhores, e grandes homens, e sendo em mar, em través de Portugal para demandarem o estreito de Cibraltar deu na frota tão grande, e tão contraria tromenta, que algumas naos dellas se perderam, e outras correram ao Cabo de S. Vicente até a Villa de Farão, a qual com toda a Comarca, e Reino do Algarve ainda eram Mouros, e porque o vento contrairo, e assi a terra de imigos, em que estavam, não lhes traçavam bem para sua segurança, elles para dos danos, e perdas recebidas se poderem milhor repairar fizeram volta, com fundamento de se virem ao porto de Lisboa.
Sendo outra vez em mar, deu nelles outra tromenta mais aspera, e de maior perigo que a primeira, em que já tambem perderam algumas naos com toda a gente que nellas vinha, e a outra frota depois que a tromenta cessou, e sobreveo bom vento de viagem, entrou toda via, e veo surgir ante a Cidade de Lisboa, e os Capitães della assás tristes, e anojados, pelas grandes perdas de gentes, e doutras cousas, que no mar tinham perdidas, e sahindo logo Capitães com pouca gente em terra, o Bispo, que então era de Lisboa chamado Dom Matheus, sabendo que eram Christãos os recebeo, e tratou com muita honra, e bom acolhimento, segundo a bondade de uns, e as necessidades dos outros requeria, de que o Bispo logo soube o proposito com que vinham, que era por soccorro, e ajuda da Caza Santa. E dahi a poucos dias este Bispo de Lisboa porque era Prelado de mui bom espirito, e grande coração, depois de ter juntos com seus rogos, e boa humanidade os principaes destes Estrangeiros lhe disse.
«Honrados, e devotos Senhores, Deos sabe que a mim peza muito de todolos nojos infortunios, que passastes, e o remedio por agora não é outro salvo paciencia do passado, e esforço, e bom coração para o que mais vier, vós vedes bem, quanto vos é contrairo o tempo para seguirdes vossa proposta viagem, e desto por vossos Pilotos, e mariantes podeis ser milhor certificados, póde ser, e eu assi o creo, que Deos o premite assi para alguma cousa de seu louvor, e serviço, e tambem de nossas honras, e proveito, e esto digo porque aqui junto ha um Castello em poder de Mouros, que dizem Alcacere, de que esta terra toda que é de Christãos recebe muito dano; se vos prouver pois este feito, não é estranho doutros, que emprendestes, e a que his ajudarnos nelle, assi como vejo que podeis fazer, e com vossa gente, e ajuda de Deos principalmente, o ganharemos dos infieis, e pois a obra, e o serviço é de Deos, elle por sua grandeza, e piedade vos dará delle bom galardão, e nestas cousas sómente que tocam a vossa honra, e salvação, aconselhai-vos com sizo, e com a devoção, e não com a vontade carnal, porque assás de vergonhosa cousa será publicardes pelas bocas bom dezejo para o servir, e as obras, que são tão possiveis serem disso contrairas, e pois o lugar, e tempo se offerecem agora tão despostos rogo-vos que elles não vos passem com ociosidade, ca bem creo, que bem sabeis que ella é fundamento de todolos peccados, e sepultura dos homens vivos, e corrução de todolos costumes, e propositos virtuosos, e pois em vossos sobre sinaes que trazeis mostraes serdes devotos, e servidores da Cruz, assi tambem é rezão que sejais imigos dos imigos della, e vossas mãos fortes deem agora verdadeiro testemunho da bondade, e fé de vossos corações, e esta tomada de Alcacere, para que vos convido, e requeiro, será com a graça de Deos assás possivel, se vós com vossas pessoas, e frota quizerdes ajudar a nós, que com outra gente do Reino vos seremos em todo fieis, e bons companheiros.»
Estas palavras, e outras muitas a estas conformes disse o Bispo aos Estrangeiros, alguns dos quais depois de haverem antre si seu acordo, e conselho tiveram oppinião contraira, e se partiram, e outros, que foram os mais consentiram na proposição, e requerimento do Bispo, e lhes aprouve ser na ida sobre Alcacere.
CAPITULO V
_Como Alcacere foi cercado, e com que numero de gente Portuguezes e tambem Estrangeiros_
Aquelles Estrangeiros que foram dacordo com os Portuguezes de irem sobre Alcacere se recolheram logo ás suas naos, e sendo aparelhados do que lhes compria no mez de Setembro, se foram, e seguiram a barra de Setuvel, que neste tempo era Lugar pequeno, e não era cercado, em que pescadores sómente viviam, e da gente de Portugal se acha que foram estes Capitães principaes, a saber este Dom Mateus, Bispo de Lisboa, e Dom Pedro Mestre da Ordem da Cavallaria do Templo, e Dom Mestre Gonçalo, Prior do Esprital, e Martim Barregam, Commendador de Palmella, e estes levaram comsigo da terra, Comarca de Lisboa, e de Evora, e de seus termos vinte mil homens, de que os mais eram de pé, e alguns de Cavallo, e não se acha que El-Rei Dom Affonso, que então Reinava em Portugal, fosse neste exercito em pessoa no qual tempo parece que elle deveria ser doente, ou empedido por alguma outra urgente causa, porque não pôde ser neste feito, e haveria por bem, e mandaria que se fizesse prestes, como se fez, ca não é de crer, tamanho feito sem seu mandado, e authoridade se cometesse, e o que se neste caso achou, é que os Estrangeiros em navios, que poderam ir, foram de Setuvel pelo rio acima até junto Dalcacere, onde saindo alguns para tomar uvas, os Mouros, que da sua ida eram já bem avizados, com armas lhe foram resistir, em que houve algum acometimento de peleja, de que um Mouro se diz que ficou morto, e os outros se recolheram ao Castello, e os Estrangeiros surgindo com seus navios mais ávante poseram defronte da Villa suas pranchas, e sem resistencia sairam em terra, e logo elles, e os Portuguezes que já tambem eram chegados, juntos com devida deligencia e resguardo cercaram o Castello de maneira que alguma pessoa não podia sair, nem entrar sem conhecido perigo; mas os Mouros posto que com tanta estreiteza se vissem cercados não mostravam ter por esso desmaio, nem temor, vendo que o Castello em que estavam era de muros, Torres, barreiras, e a cava mui forte, e bem provido, e acalcado de muitas gentes, e armas, e mantimentos para grandes tempos, e por milhor seneficança aos de fora de seu esforço, e confiança, poseram muitas bandeiras por cima do muro de que em sinal de desprezo diziam feas palavras, e davam suas costumadas gritas.
E os Christãos leixaram boa guarda sobre sua frota, que com gentes, e armas ficou no porto bem segura, e sobre esso uns, e outros fizeram logo combater o Castello, e vendo que pela larga, e alta cava com que o muro era em torno valado não poderam bem chegar aos muros, e cortaram tantas arvores de fruito, e juntaram tanto outro mato que sendo igual a cava com a terra de fóra podessem mais sem trabalho chegar aos muros, mas os Mouros aconselhados das necessidades e perigos em que se viam, lançaram de cima tanto fogo, com tantas cousas temperado, que a lenha da cava ardeo logo toda, por cujo impedimento leixaram logo de combater, e apoz esto ordenaram os Christãos um engenho para com pedras destroirem o muro, mas sua fortaleza de dentro era tal, que dos seixos de fóra lhe dava muito pouco, pelo qual tornáram a lançar tanta lenha na cava, com que foi chea, e tal guarda se poz, que não foi dos Mouros queimada como elles logo tentaram, por cima da qual os Christãos chegados ao muro deram um combate a que os Mouros com seu grande esforço, e muitas armas resistiram de tal maneira, que afastaram os Christãos dos muros, em que de uma parte, e da outra houve assás mortos e feridos.
CAPITULO VI
_Dos Reis Mouros que vieram por soccorro da Villa de Alcacere, e da primeira batalha que deram, em que foram victoriosos_
Os Christãos, que tinham cercado Alcacere, e os Mouros que nelle eram cercados tinham antre si diversos pensamentos, ca uns consultavam engenhos para brevemente tomar, e os outros artificios para se delles pefender, e tambem não leixavam de buscar, e consultar conselhos, e remedios para com soccorro serem descercados, sobre que tinham feitos seus avizos a quatro Reis Mouros, que eram na Espanha, a saber El-Rei de Sevilha, El-Rei de Cordova, El-Rei de Jaem, e El-Rei de Badalhouse, os quaes para este soccorro, e descerco foram pôr seu arraial ao lugar que chamam Sitymos, que é uma legoa Dalcacere, de cuja vinda sendo os Christãos logo sabedores foram postos em temeroso pensamento. E não era sem causa, segundo verdadeira certidão que houveram, ca traziam comsigo por terra quinze mil de Cavallo, e oitenta mil de pé, e pelo mar dez Galés bem remadas, e aparelhadas.
Mas aquelle alto Deos, que sobre todos tem o poder, não quiz em tanto perigo e necessidade desemparar os Christãos, que por sua fé emprenderam, sostinham esta demanda, porque por uma sua permissão piadosa arribaram a este porto, tambem na paragem de Setuvel trinta e seis naos de uma Cidade que dizem Trageito, com gentes Christãs, nobres, e de bom esforço, que iam áquella Conquista dultramar, que disse, os quaes em suas bandeiras traziam sinaes de S. Martinho, porque a jurdição daquella terra donde vinham era do Bispo daquella Cidade; da frota era Capitão mór Dom Anrique de Nehusa, o qual leixando suas naos com aquella segurança e resguardo de gente que compria, elle com a outra em bateis, e navios piquenos se foi ao arraial de Alcacere, onde dos Christãos foram com muita alegria de grandes louvores recebidos, e todos logo acordaram de valar o arraial em torno com valos altos e fortes para resistencia dos Reis Mouros, que vinham, e aqui se diz, que alguns Estrangeiros da primeira frota aconselhavam e requeriam aos outros da sua companhia, que se partissem em paz, e não esperassem o perigo da batalha, escuzando sua covardice torpe, com dizerem, que quando de suas terras partiram, seu voto e proposito não foi pelejar se não com aquelles infieis que tinham tomada a terra de Jerusalem, e o Santo Sepulchro, e que alguns Portuguezes, em que não havia verdadeira Fé, nem bondade de coração concordavam com elles, dando por voto covarde, que era bem de descercar o Lugar, e leixalo sem contenda, e posto que destes houvesse alguns com suas mostranças de tão vituperada fraqueza, havia porém outros muitos cuja santa, e virtuosa contraridade esforçou, com que determinaram não descercar o Castello, e confiando em Deos esperar a ventura que lhes viesse, pelo qual fizeram logo seu alardo, e de gente de pé bem armada, e bem disposta para peléjar, se diz que acharam comsigo muita, mas gente de Cavallo se affirma que escassamente refizeram trezentos.
E os Reis Mouros para comprimento do proposito com que vieram, acordaram que com a maior força que nelles houvesse viessem logo ferir no arraial dos Christãos, e que tambem as suas Galés, que tinham já tomada uma nao de Portugal com duzentos homens e jazia na entrada do porto de Setuvel, juntamente pozessem fogo á frota dos Christãos, que jazia sobre amarra, mas os Christãos receosos deste dano, e avizados já para esto, pozeram tal guarda e defenção na frota, que os Mouros o não cometeram, e foi sempre delles segura, e uma segunda feira como foi manhã sairam do arraial dos Mouros cinco de Cavallo corredores, e como chegaram, e viram o assento do arraial dos Christãos logo volveram ao seu, e sobre esto abalou todo junto o seu Exercito em que havia tantas gentes, que toda a terra cobriam, trazendo comsigo tão grande estrondo de alaridos, e gritas, e com tantos sons de trombetas, e outros desvairados instrumentos, que a qualquer coração por abastado de esforço que fora não leixára de tocar de grande medo, e muito espanto, pelo qual os Christãos havendo-o assi por milhor, sairam a elles de suas estancias, postos em suas batalhas ordenadas, e com muita ardideza uns aos outros logo se cometeram, e feriram, em que da uma parte, e da outra houve cruel, e bem ferida peleja com mortes, e feridas de muitos, e daquella vez se diz que os Mouros levaram a vantagem da batalha, com a qual se recolheram em seu arraial.
CAPITULO VII
_Da segunda batalha que houve sobre Alcacere, e como os Reis Mouros foram vencidos, e feito grande estrago em suas gentes_
Os Christãos vendo para o fim que vieram um começo tão contrairo, e que a força Dalcacere se fazia cada vez mais forte, e a elles tirava toda esperança de por força o cobrar, não leixávam de murmurar, e apontar que seria bom irem-se, e por aquella vez leixar o cerco, e o Bispo de Lisboa, que na gente dos Christãos era pessoa de mór credito, e mais principal, sentindo na noite seguinte a temerosa e fraca murmuração, que em todo o seu arraial havia, elle em prezença dos mais que por então se poderam ajuntar lhes disse. «Honrados Senhores e amigos, esta desaventura, e grande mal de que todos estaes espantados, não veo sobre vós das forças, nem das armas dos nossos imigos, mas cauzou se da grande presunção, e muita confiança que de vós mesmos e de vossas forças, e multidão de gentes logo tomastes, esquecidos em todo, da só, e principal ajuda de Nosso Senhor, e Salvador Jesu Christo, que se nos agora aqui faleceo foi para o milhor conhecermos, mas pois já aqui viemos, e somos mui fortes para armas, e temos gentes, e estamos bastecidos de mantimentos, não queiraes desconfiar, porque esta aversidade a potencia de Deos a permite para crara esperiencia de maior nossa fé, e mais merecimento de nossas almas, mas brademos, e clamemos de coração ao Senhor Deos, e com efficacia, e devação, que nossas necessidades requerem lhe pessamos que esta sua ira, se contra nós, por nossos peccados a tem, a queira converter em nossos imigos, e cada um com os giolhos em terra diga por si como eu digo por mim: Senhor Deos Padre das misericordias, e grande ajudador nas tribulações ex as muitas nações de tantos infieis vieram para nos destroir, pois como duraremos ante a face delles se nos tu Deos não ejudas, e pois assi é Senhor agora não ponham ante ti a lembrança de nossos malles e peccados, nem tomes de nós aqui vingança por elles ante estes imigos de tua Santa Fé, tu por tua bondade, e potencia os dá nas mãos, e poder de teus servos, por tal, que os que em ti crem louvem mais o teu Santo nome».
No cabo da qual Oração, que todos devotamente, e com muitas lagrimas o seguiram, se diz que por consolação dos Christãos logo appareceo pubricamente no Ceo um maravilhoso sinal por bemaventurado prognostico, a saber, um homem resplandecente, como Sol, e alvo como uma neve, e no peito trazia o sinal da Cruz vermelha mais luzente que as Estrellas, com que os Christãos, que craramente o viram foram mui alegres e esforçados, crendo que Deos era em sua ajuda, e com este prazer e alegria, que geralmente todos conceberam, já com seu temor dormiram assocegados aquella noite, e ao outro dia como foi manhã o Bispo, como era homem em que havia prudencia, e bom esforço, para se não esfriar o alvoroço que sentio nos Christãos com a longura dalgum tempo, falou logo ás gentes do Exercito que o podiam ouvir dizendo: «Senhores amigos bem vistes todos o grande e maravilhoso sinal que para não temermos, e sermos esforçados Deos Nosso Senhor tão pubricamente nos quiz mostrar, e por esso já seria muita nossa fraqueza, e grande mingoa de nossa Fé tardarmos mais para a segunda batalha, mas com o esforço de Deos, que temos presente, e com ajuda, e preces dos Santos Martyres Proto, e Jacinto, cujo dia hoje é, vamos logo ferir nos imigos, ca pelo melhoramento da vitoria, que contra nós houveram, agora os acharemos mais repouzados, e menos percebidos».
Pelo qual os Christãos postos em suas batalhas bem concertadas, com grande ousadia, e sem sinal dalgum medo sairam, e foram dar no arraial dos Mouros, e assi duramente os cometeram, e tão cruamente os feriram, e foram tão cortados, e trovados de medo, que parecia não terem armas para pelejar, nem forças para resistir, e desacordados se diz, que elles mesmos uns aos outros se feriam, e matavam, e se espedaçavam com os pès dos Cavallos, e que outros com medo da morte duvidosa a tomavam certa no rio, que era junto em que se lançavam, e afogavam, e vendo-se os Reis Mouros, e suas gentes assi salteados, e vencidos não tendo já alguma esperança em sua resistencia, nem peleja, procuraram buscar sua salvação na fogida, em cujo alcance os Christãos matando, e ferindo seguiram, em que se affirma que dos quatro Reis que alli vieram, dous delles sem se dizer quem eram, foram mortos, e com elles trinta mil Mouros mais, e com esto recolhendo o muito, e mui rico despojo, que acharam no arraial dos Mouros, os Christãos se tornáram mui alegres a seu cerco, que tinham posto sobre a Villa, dando todos muitas graças e louvores ao Padre nosso Senhor, que de sua mão deu esta vitoria, que foi a onze dias de Setembro do sobredito anno de mil duzentos e dezasete annos, (1217) dia dos ditos Martyres Proto, e Jacinto, á certidão da qual vitoria, como foi dada aos infieis, que para este descerco eram em sua frota postos no mar elles desacordados, e tristes se partiram, onde se diz que se perderam alguma parte de seus navios, e de suas gentes assás nelles.
CAPITULO VIII
_Como os Christãos combateram e tomaram o Castello Dalcacere_