Chronica de El-Rei D. Sancho II
Chapter 2
E volvendo ao proposito de sua Istoria, El Rei Dom Sancho com todolos conselhos, e amoestações de amor, e de rigor pelos Papas, e pelos de seu Regno muitas vezes lhe foram feitos, nunca por sua natural fraqueza se quiz, ou nem se pode emendar, nem dar ordem como se os malfeitores emendassem, e castigassem, e privassem dos malificios que cometiam, pelo qual os Prelados, e mais principaes do Regno com todo o povo, por remediarem sua total perdição em que se viam, acordaram de enviar pedir no dito Consilio ao sobredito Papa Innocencio IV que lhes desse auto, e pertencente Regedor pera o Regno, pera o qual foram eleitos pera Embaixadores, e Procuradores Dom Joham Arcebispo de Braga, que em todo o Reinado del-Rei Dom Sancho tinha muitas perseguições, e perdas padecidas, e Dom Tiburço Bispo de Coimbra, e Ruy Comes de Briteiros, e Gomes Viegas, nobres Cavalleiros, e pessoas de muita authoridade no Regno, os quaes chegando ao Consilio, propozeram ante o Papa todalas querelas do Regno passadas, e a desesperação que havia pera se nunca emendarem antes ao despois se fazerem peor, pera cuja prova prezentaram aprovadas cartas, e verdadeiras inquirições, que pera esso levávam, e o Papa, que claramente gostou da verdade depois de sobre esso haver sua deliberação lhes respondeo que elles escolhessem, e tomassem por Regedor do Regno de Portugal, quem quizessem, e entendessem, que o faria bem, com tanto que fosse natural do Regno.
E porque os ditos Prelados, e Cavalleiros, tinham já sobre este cazo assás deliberado, e consultado depois de lhe beijarem por esso seus santos pés, lhes disseram, que a pessoa natural que pera tal cargo achavam era o Ifante Dom Affonso, Conde de Bolonha, irmão do mesmo Rei D Sancho, e que este lhe pediam por mercê ques désse por Regedor, ca o Papa aprouve, e lho outorgou. Sobre o qual mandou logo chamar o dito Ifante Conde, que era em Bolonha de França, não longe do Papa, que era na dita Cidade de Lião, ao qual Sua Santidade fez larga relação das couzas de Portugal, que até aquelle tempo eram passadas, e com esso as necessidades que hi havia pera com paz, e justiça se remediarem, e lhe encomendou, e mandou que asseitasse o Regimento, defenção, e governação do dito Rego, e fizesse como se delle confiava, e o Conde sem contradição, nem escuza consentio no dito cargo, e o asseitou, e esto foi em Lião a seis dias de Setembro de mil duzentos quorenta, e cinco annos (1245).
CAPITULO V
_Como o Conde de Bolonha, depois de asseitar a governança de Portugal fez sobre esso juramento com algumas condições declaradas_
Tanto que o Conde pelo Papa foi dado por Regedor de Portugal, elle, e os ditos Prelados, e Cavalleiros do Regno, por acordo que sobre esso antes se tomou se vieram todos á Cidade de Pariz, onde dentro nas cazas do Mestre Perochel da Cidade, sendo elle prezente, e Mestre Joham, Capelão do Papa Adaião da Igreja da Carnota, e Soeiro Soares Chançarel, e Estevão Annes Cavalleiro do Conde, e assi sendo prezentes os ditos Arcebispos, e Bispo, e Cavalleiros, e outras muitas pessoas Religiozas do Regno de Portugal, o dito Conde em prezença de todos, e tendo as mãos sobre um livro dos Santos Evangelhos, fez solenne juramento nesta fórma.
«Eu Dom Affonso, Conde de Bolonha, filho Del-Rei Dom Affonso de crara memoria, Rei que foi de Portugal, prometo, e juro sobre estes Santos Evangelhos de Deos, que por qualquer titulo, que eu aja o Regno de Portugal, eu guarde, e faça guardar aos Concelhos, e todo o povo, e Religiosos, e Clerezia de todo o Regno todolos bons costumes, e foros escritos, e não escritos, os quaes houveram, e tiveram com meu avô, e com meu visavô, e que tire todos os maos costumes, e abozões, que vieram por algumas necessidades, ou que pozeram algumas pessoas em tempo do meu padre, e de meu irmão, especialmente, que não leixe, nem consinta nenhum mau costume, que ha no Regno de se com mudar a Justiça que ha de morte de um homem em pena de dinheiro, e que eu faça, que os Juizes, onde quer que os houver de poer, sejam justos, e sem cobiça, e amadores de fazer justiça, e direito sem medo de nenhumas pessoas, e esto a quanto eu puder, e entender segundo me Deos ajudar, e que sejam feitos por eleição dos mesmos povos, que elles houverem de reger, e não por afeição, nem rogo, nem pera oprimir, e despeitar o povo, que hão de julgar em justiça, e em direito, e que este juramento me farão os Juizes quando receberem os officios.
«Item, que eu tire Inquirição por mi, ou por outrem se taes Juizes cumprem o que juraram, e os que não fizerem o que devem que lhes mande dar tal pena, que a elles seja escarmento, e a outros castigo.
«Item, que aquelles, que forçarem quaesquer molheres, ou matarem Clerigo, ou Frade, ou qualquer outra pessoa, que eu faça delles taes justiças, que a sua pena castigue os outros.
«Item, que defenda, e mantenha em seu estado quanto eu puder as Igrejas, e Moesteiros, e Lugares Religiosos fazendo-lhes entregar qualquer couza, que lhe foi tomada, e que quaesquer males, e sem razões, que alguns sejam em posse de fazer des o tempo de meu irmão até agora que não lhe valha alegança de tempo perlongado.
«Item, que eu faça emendar segundo meu poder, com conselho dos Prelados, e dos do Regno todolos males, que até qui foram feitos em elle, e reformarei paz quanto poder não leixando sem pena taes couzas passar nem as consentindo fazer no dito Regno.
«Item, que segundo me Deos ministrar, e eu puder, que bem, e lealmente reja, e aministre o dito Regno de Portugal desque em elle for, e faça especialmente fazer justiça, dando a cada um segundo seu merecimento não asseitando pessoas pobres, nem ricas.
«Item, que reja todo bom estado da terra, e proveito do dito Regno com conselho dos Prelados, e povos delle, e ser sempre obediente, e devoto á Igreja de Roma, minha madre, e assi como fiel, e Catholico, e como todo Principe Christão deve ser, e que guardarei estas couzas sobreditas segundo meu poder, e e me Deos ministrar».
E depois que o dito Conde jurou estas cousas, e outras mais a estas conformes, todolos que eram prezentes assináram o juramento, e desso passaram escrituras pubricas, que os Prelados trouxeram a Portugal.
CAPITULO VI
_Das Bullas e Provizões do Papa, que o Conde trouxe a Portugal pera os do Regno sobre sua governança, e assi outra Bulla que sobre o mesmo caso enviou aos Frades de S. Francisco_
Como o Conde fez este juramento, procurou logo de aviar as couzas mais necessarias pera a sua vinda, e álem de sua fazenda lhe compria a honra de sua pessoa, e serviço, e repairo de sua caza, e familia.
_A tradução destas Bullas andam muito viciadas nas copias desta Chronica, e se acham em outros livros, e por esta, e outras cauzas senão imprimem neste Capitulo._
CAPITULO VII
_De como o Conde de Bolonha chegou a Portugal, e com elle um delegado do Papa, e das notificações que logo fizeram a El-Rei D. Sancho_
Despedidas as Bulas do Papa, e aparelhadas as couzas, que ao Conde para seu caminho mais cumpriam, se despedio da Condessa de Bolonha sua molher, que havia nome Dona Matildes, a qual fora já outra vez cazada, e era da linhagem dos Rex de França, e molher, em que havia singulares bondades, e vertudes, e tinham muitas terras, e grande fazenda, e dahi com os Prelados, e Cavalleiros Portuguezes, que o foram requerer, se veio a este Reino, e com elle enviou mais o Papa por seu Delegado pera estas couzas de Portugal Frei Desiderio, pessoa em que havia doutrina, e sinaes de bom Religioso, pera que em nome do Papa, e da sua parte requeresse, que entregassem ao Conde os Castellos do Regno, nos quaes pozesse Alcaides, e as Villas, e terras, em que fizesse Juizes com que o Regno se mantivesse em paz, e justiça, e por tal, que nas Fortalezas principalmente se não acolhessem os mal feitoras, que nas pessoas, que em todo lhe não obedecessem, pozesse sentença de excommunhão, e como chegaram ao Estremo de Portugal, o Conde por suas cartas noteficou logo sua vinda a todolo Regno, dizendo em seu titulo: «Dom Affonso, filho do muito nobre Rei Dom Affonso por graça de Deos, Conde de Bolonha, e Procurador, e defensor do Regno de Portugal». E assi noteficou a El Rei Dom Sancho seu irmão, como a requerimento do Regno vinha, e não pera ser Rei, mas pera lhe reger, e governar o Regno, e se fazer nelle direito, e justiça, que se não fazia, e lhe conheceria senhorio, como a seu Rei, e Senhor, salvo a cerca daquelles, em cujo poder, e mãos andava, e porque tão mal aconselhado, e por cuja cauza tantos males no Regno eram feitos, e com esto lhe enviou o Delegado um Breve do Papa.
CAPITULO VIII
_Como El Rei Dom Sancho mal aconselhado se foi com os de sua valia pedir soccorro a Castella, e como veio em sua ajuda o Ifante Dom Affonso de Molina com outros grandes, e gentes de Castella_
El-Rei Dom Sancho a este tempo era em Coimbra, e como vio as cartas do Papa, e de seu irmão, e soube que elle era entrado no Regno onde inteiramente lhe obedeciam, elle de si mesmo foi muito trovado, e o fizeram ser muito mais os homens maos, e perversos Conselheiros, que consigo trazia, porque receáram executar-se nelles sem escuza as penas, que por seus desmerecimentos, e grandes delitos mereciam, e estes lhe fizeram que não cresse, nem obedecesse a couza, que o Papa, nem seu irmão lhe escrevesse, nem outros por seu bem lhe dicessem, porque o bem, nem asecego del-Rei, em cazo que depois o tivesse não asegurava, nem descançava aos que o seguiam, pelo qual de seu parecer delles, e como desesperado doutro bom conselho, sem receber dano de pessoa alguma, nem lhe ser feita desobediencia, nem contradição, se foi logo a Castella com fundamento de pedir soccorro contra seu irmão, a El-Rei Dom Fernando, deste nome o segundo, que então nelle Regnava, que era seu primo com irmão, filhos de duas irmãs da Rainha Dona Biringela, madre del-Rei Dom Fernando, e Dona Orraca, madre del-Rei Dom Sancho, ou ao menos pedir este soccorro e ajuda ao Ifante Dom Affonso, filho herdeiro do dito Rei Dom Fernando, que em Castella e Lião, já tinha grande poder, e muita autoridade.
E com este proposito chegou a Toledo andando a era em mil e duzentos quarenta e sete annos (1247) antes um anno que Sevilha fosse aos Mouros tomada. A este tempo El-Rei Dom Fernando veo a Toledo, tendo tomado Cordova, e já com dezejo, e fundamento de ir cercar, e tomar Sevilha, se podesse, ao qual El-Rei Dom Sancho de Portugal seu primo, dice logo, que a causa de sua ida a elle, era pera lhe fazer saber, o que elle teria sabido, que seu irmão o Ifante Dom Affonso Conde de Bolonha, entrára em seu Regno de Portugal, e com ajuda e favor dalguns seus naturaes, se alçara contra elle, e que o tinham recebido por Senhor, e que porém lhe pedia, como a Rei tão poderoso, e que com elle era tão conjunto em parentesco, que em tamanha força lhe desse ajuda e favor com que inteiramente cobrasse seu Regno, e lançasse delle fóra seu irmão, que individamente lho tinha tomado, e que pois não tinha filho que o herdasse, que depois de sua morte ficasse Portugal a elle, ou a seu filho herdeiro.
Da qual couza prouve a El-Rei Dom Fernando, e pondo-a em obra ordenou logo pera vir a Portugal o Ifante Dom Affonso de Molina, seu irmão, filhos ambos del-Rei Dom Affonso de Lião, e da Rainha Dona Biringela, e com elle Dom Diogo Lopes de Haro, Senhor de Biscaya, e Dom Nuno Gonçalves de Lara, e Dom Ruy Gomes de Galiza, e Dom Ramilo Frole, e Dom Rodrigo Froyas, bom Cavalleiro, e Dom Fernando Anes de Lima, e outros grandes senhores, e com elles muitas gentes de pé, e de cavallo, com que entráram em Portugal pela Comarca de Riba de Coa, que a este tempo ainda era de Castella, e por elles fazerem sua entrada pela terra da Beira, que toda estava á obediencia del-Rei Dom Sancho, não houveram no caminho contradição, nem resistencia alguma, e assi chegaram ao lugar de Abiul, que é a quatro legoas de Leiria.
E o Conde Dom Affonso de Bolonha tanto que entrou no Regno, tanta alegria receberam os Portuguezes com sua vinda, sabendo quem era, e como vinha a seu requerimento, que os mais dos Lugares por as proprias vontades dos moradores delles se lhe davam, e aquelles em que achava alguma contradição logo por execuções que o Delegado sobre elles punha, ou por combates, ou forças não tardou em os cobrar todos salvo Coimbra, em que estava Martim de Freitas, e Celorico da Beira, em que estava Dom Fernão Rodrigues Pacheco, que ambos as tinham por El-Rei Dom Sancho de que ao diante direi.
CAPITULO IX
_Como pelas deligencias do Conde de Bolonha El-Rei Dom Sancho se tornou a Castella, e do que se passou no caminho com os Cavalleiros de Trancozo_
E sabendo o Conde de Bolonha da entrada del-Rei seu irmão no Regno com o Ifante Dom Affonso de Molina, e com os Cavalleiros, e gentes de Castella, logo percebeo, e houve pera ter, e trazer comsigo por defenção do Regno as mais gentes que pode, e com ellas se veio a Obidos, e avizou a Dom João Arcebispo de Braga, e a Dom Domingos, que então era Bispo de Coimbra, os quaes lhe disseram que elles pela comissão do Papa, haviam o dito Ifante Dom Affonso de Molina com todolos Senhores, e gentes de Castella por excomungados, e malditos, e desso tomáram estromentos, e por esta cauza El Rei, e o Ifante não passáram de Abiul, e se tornaram pera Castella sem no Regno, nem nas gentes, e couzas delle fazerem algum mal, nem dano, e principalmente se tornaram, e não proseguiram adiante, porque El Rei Dom Sancho pelas dezordens, e males passados, a que nunca provera, era de todolos mais do Regno mui dezamado, e mal quisto, e o Conde pelo contrairo álem desso era já das mais forças delle de todo apoderado, e por esta cauza o Ifante Dom Affonso com outros Senhores, que vieram em ajuda del-Rei, vendo o pouco que lhe podiam aproveitar, e o muito dano, que se podia seguir, aconselharam ao dito Rei Dom Sancho, que ou ficasse em seu Regno, segundo lhe era apontado, ou se fosse com elles a Castella.
Este derradeiro houve El-Rei por melhor, sendo pior conselho, e porém El-Rei Dom Sancho tinha feitas doações ao Ifante Dom Pedro seu primo de muitas Villas, e Castellos principaes de Portugal, em grande dano da Coroa do Regno, as quaes por sua injusta concessão não houveram nunca efeito, como quer que o dito Ifante depois o procurasse, e requeresse aficadamente por intercessões do Papa, que sobre esso escreveo algumas vezes ao Conde de Bolonha, que justamente sempre se escuzou.
E acha-se, que em tornando El-Rei pera Castella, achegou ao Lugar de Moreira, que é junto da Villa de Trancozo, na qual a esse tempo estava Dom Gonçalo Garcia, e Dom Fernão Garcia de Souza, que diceram Esgaravunha, que foi bom trovador, e Dom Fernando Lopes, e Dom Diogo Lopes, todos quatro irmãos, filhos de Dom Garcia Mendes de Souza, filho do Conde Dom Mendo o Souzão, e de Dona Elvira Gonçalves, filha de Dom Gonçalo Paes de Toronho, que eram nobres homens, e mui principaes no Regno, e Dom Fernão Garcia sabendo da vinda de Castella del Rei por conselho de seus irmãos com um só Escudeiro, a que deram sua lança, e sendo elle vestido de todalas outras suas armas se foi a Moreira, onde estava El-Rei, e o Ifante, e os outros Senhores, e posto ante elles tirou o Elmo da cabeça, e com os joelhos em terra beijou a mão a El-Rei, e ao Ifante Dom Affonso, e como se levantou, fez reverencia a Dom Diogo, e a todolos outros homens honrados, que eram prezentes, salvo a Dom Martim Gil de Soverosa, que era o principal homem; porque El-Rei Dom Sancho com quebra de seu Estado se regia.
E perguntando Dom Fernão Garcia a El-Rei se o conhecia? Elle dice que si, e que era seu natural vassallo, e D. Fernão Garcia lhe tornou dizendo: «Senhor meus irmãos, que estão em Trancozo, e por cujo mandado venho como vossos vassallos, e naturaes, vos mandam pedir, e requerer, por ante o Ifante vosso primo, e estes Senhores que aqui estão, que vos vades pera aquella Villa, na qual, e em seu Castello vos receberão como a seu Rei, e Senhor, e assi em todolos outros de redor, que são a seu cargo, com tanto que não leveis com vosco Martim Gil, que aqui está, nem os seus, que destruiram vossa terra, e elle matou, e leixou os que quiz, sem querer que dos seus e doutros mal feitores se fizesse alguma justiça, ca certamente vós não tinheis de Rei mais que o nome, e a muito alta linhagem, e Real sangue de que decendeis, porque no efeito elle era Rei, e com este tamanho credito que lhe destes vos teem mui mal servido, em especial por seu mao conselho, por cuja cauza vós viestes ao estado em que agora estaes. E se elle dicer que não é assi eu por minha verdade, e por sua confuzão me combaterei com elle, e lhe porei as mãos, e o corpo, ca por esso venho aqui armado, e alli á porta tenho o cavallo, e sobresso espero em Deos, que eu o matarei, ou por sua boca lhe farei confeçar que mui mal, e como não devia vos teem aconselhado, e com grande quebra e mingoa de vosso Estado, e de vossa terra».
Este Martim Gil era Cavalleiro, e de honrada caza, e de grande esforço, porque este foi o que com grande e bom nome seu, venceo a lide do Porto. E ouvindo estas palavras a Dom Fernão Garcia, ficou muito injuriado, e abatido especialmente, porque áquella hora não lhe respondeo como a sua honra compria porque sómente lhe dice: «Dom Fernão Garcia dizeis mal, e do que dicestes vos não deveis de achar bem, se eu não morro». Polo qual Dom Martim Gil, fez logo mostrança a alguns dos seus que alli estavam que lhe fossem ter ao caminho, e o matassem, e Dom Fernão Garcia que os vio, e entendeo bem a má tenção com que sahiam, antes doutra couza dice a El-Rei: «Senhor, vós quereis ir pera Trancozo, como vos tenho requerido?» E El-Rei lhe respondeo, que não, e então tornou D. Fernão Garcia, e dice ao Ifante D. Affonso: «Senhor, sereis testemunha vós, e esses Senhores que aqui estades da oferta, que por meus irmãos, e por mi vim fazer a El-Rei».
E com dito esto volveo o rosto contra Dom Diogo Lopes, e a Dom Nuno de Lara, e dice-lhes: «Bem vistes Senhores a offerta, que por limpeza, e lealdade minha, e de meus irmãos fiz com El-Rei, e assi ouvistes o que tambem dice a Dom Martim Gil, que aqui está, e não querendo por seu corpo tornar a esso, como por sua honra devia, mandou aquelles seus, que daqui partiram, que me vão ter ao caminho pera desacompanhado me matarem, porque vos peço, como a nobres, e honrados Cavalleiros, que por boa mezura me mandeis poer em salvo em Trancozo». E logo Dom Affonso se levantou, e dice: «Martim Gil vós não atentaste no que Dom Fernão Garcia vos dice? o que deveres de fazer, ca me parece que vos toca por maneira de traição, e não lhe quereis poer as mãos, como deveis, e vos elle requer?»
E Dom Martim Gil brevemente dice, que dava pouco por suas palavras vãs, pelo qual estes Senhores diceram a El-Rei, que Dom Fernão Garcia, e os nobres homens que eram em Trancozo não podiam fazer melhor comprimento, porque com elle compriam, como bons vassallos quanto deviam, e que dahi por diante qualquer culpa que hi ouvesse, que era del-Rei, e não delles, e logo Dom Diogo, e Dom Nuno com esses bons homens que hi eram cavalgaram, e foram-se com Dom Fernão Garcia até Trancozo, donde sahiram seus irmãos e outra boa, e nobre gente, que hi eram, e lhe tiveram em mercê sua vinda, e depois de praticarem sobre as couzas que pendiam, Dom Diogo, e Dom Nuno se tornaram pera o Ifante Dom Affonso, que juntos com El-Rei Dom Sancho se foram todos pera Castella, e com elles este Dom Martim Gil, que era Portuguez, e homem muito honrado, o que com medo do Conde Dom Affonso não ouzou de ficar, e se foi tambem a Castella com El-Rei Dom Sancho, e lá faleceo, e foi del-Rei D. Affonso Decimo, com quem viveo havido por Rico homem, e em grande estima, e por tál está posto por testamenteiro, com outros no testamento del-Rei, quando por desagardecimentos do Ifante Dom Sancho seu filho, o deserdou de Castella, ainda que seu deserdamento não houve efeito.
CAPITULO X
_Como o Conde cercou em Celorico da Beira a Dom Fernão Rodrigues Pacheco, que lhe não quiz obedecer, e como por causa de uma truita se alevantou o cerco_
O Conde de Bolonha governador como entrou no Regno segundo atraz já dice, logo por força, ou por vontade, ou a sua obediencia todalas Cidades, Villas, e Castellos do Regno, em que entraram todalas que El-Rei Dom Sancho tinha dado em Portugal ao Ifante Dom Affonso de Molina por entrar com elle, e em sua ajuda no Regno, do que o dito Ifante se mandou queixar ao Papa, e assi com elle outros Cavalleiros, e Alcaides de Portugal, pelo Conde de Bolonha lhes tomar contra suas vontades os Castellos que tinham por suas menagens, e destes o Papa se escuzou havendo que o Conde pera asecego, e boa governança do Regno fazia o que devia, mas sómente escreveo ao Conde rogando-lhe pelos Castellos, que por El-Rei Dom Sancho eram dados ao Ifante Dom Affonso de Molina, ao que não satisfez pelos grandes inconvenientes que nesto havia, e porque soube que eram cartas, e rogos de comprimento.
Neste tempo depois del-Rei D. Sancho ser em Castella, porque o Castello de Celorico da Beira, que tinha Dom Fernão Rodrigues Pacheco, e o de Coimbra, que tinha Dom Martim de Freitas, ficaram sómente por El-Rei, como atrás dice, o Conde depois de sua partida lhes mandou dizer, e rogar que lhos quizessem entregar, como os outros tinham já feito em todo o Regno, prometendo-lhe por esso além de fazerem o que deviam mercê, e bom galardão. E cada um por si lhe respondeo: «Que elles tinham feita menagem a El-Rei Dom Sancho, seu Rei e Senhor, e que em quanto elle fosse vivo, posto que andasse em Castella, não deviam de entregar seus Castellos, se não a elle, de cuja mão os receberam, ou por seu especial mandado, e do Papa, nem por outro algum temor, os não haviam de entregar, em cazo, que sobresso fossem excommungados, e padecessem cercos, e quaesquer outras fadigas, e tormentos».
Pelo qual vendo o Conde sua tão firme determinação, e que pera o que dezejava não aproveitavam muito suas repricas brandas, que fez, detreminou cerca-los, e poz logo cerco em pessoa sobre Celorico, ca este por ser mais junto á frontaria de Castella houve por melhor cobrar-se logo, e este mandou combater muitas vezes, mas por sua fortaleza, e por a boa gente que o defendia, não se podia cobrar por força, e durou o cerco tanto tempo, que por o Castello não ter soccorro, nem lhe poder vir provizão de mantimentos de fóra, foram os de dentro postos em tanta estreiteza de fome, e doutras necessidades que por não morrerem, tão cruas e dezesperadas mortes, como se lhes ofereciam, estavam pera se dar, e entregar o Castello, e não sofrer mais apertos de tão perversa lealdade.
E estando nesta afronta se diz, que Dom Fernão Rodrigues Pacheco se alevantou um dia muito cedo, e andando pelo muro cuidando na preça, em que estava, e sobresso posto em desvairados pensamentos sem determinadamente saber o que faria, lembrando-se de Deos, lhe pedia muito de coração, que por sua misericordia por alguma maneira lhe socorresse, por tal, que não cahisse em tamanha mingoa de sua honra, como seria dar aquelle Castello se não a El-Rei, que lho dera, e porque lhe tinha feita menagem, e que durando nesta maginação, e oração, que vio vir contra a ribeira do Mondego, que é ahi junto, uma Aguia, que trazia nas unhas uma grande truita, e que voando por sima do Castello lhe cahio dentro, ainda mui fresca, com que algum tanto logo se alegrou, e que a mesma truita, e com desse melhor pão, que no Castello se pode haver, e aparelhar, mandou todo em prezente ao Conde no arraial, que tinha cercado, e lhe mandou dizer: «Que bem o poderia ter cercado quanto fosse sua mercê, mas que se por fome o esperava tomar, que visse se os homens, que daquella vianda eram bem bastecidos, se teriam rezão de entregar-lhe contra suas honras o Castello». Da qual couza o Conde, e estes a que do prezente deu parte, foram assás maravilhados, e vendo, que por longar mais o cerco alli, não aproveitava, e em outras muitas partes danaria, alevantou o cerco sobre Celorico, e o foi pôr sobre Coimbra.